Sorcerer: the Beginning

Se o meu último post proclamava o final de uma era, este aqui documenta o que talvez seja o início de outra.

É que no Sábado que passou, o mesmo grupo que sexta-feira tinha completado a primeira temporada de uma série de PTA, reuniu-se para preparar o terreno para a próxima campanha.

Todos queriam continuar a experimentar coisas novas e diferentes, e Sorcerer foi o jogo eleito. Eu agarrei-me logo à cadeira de GM, para poder conduzir as operações. Quero (tentar) mostrar ao resto do gang o que é, como se faz, e como se estoira um bang, a ver se eles lhe ganham o gosto. Sorcerer é, em teoria, o jogo perfeito para isso.

Espero é ter em mim o que é preciso para levar este projecto a bom porto. Se não resultar, não haverá muitas desculpas que eu possa usar. Vou ter tempo para planear e pensar, tenho todas as ferramentas à minha disposição e, ainda mas importante que tudo o resto, os jogadores deram-me todo o material que eu possa necessitar sob a forma de quatro personagens impecáveis e dos seus demónios, que me parece que vão ser divertidos de jogar. Embora eles (os demónios) sejam dois parasitas e dois demónios-objecto - ou seja, nenhum dos quatro tem grande autonomia para agir na costas dos personagens embora isso não seja de todo impossível - têm todos Necessidades e Desejos (dois termos técnicos do jogo) que são mesmo muito interessantes.

Os Kickers parecem-me competentes, mas com potencial para bons voos se eu jogar bem com eles e com a forma exacta como vão acontecer (que será, é claro, na primeira cena de cada jogador na campanha). Nenhum deles é daqueles que vai directo à jugular sem parar para fazer prisioneiros mas, não sei porquê, acho que o B0rg ainda me vai surpreender. Ele na altura estava indeciso entre algumas ideias, e ficou de me fazer chegar o Kicker mais tarde.

Talvez a coisa que mais me alegrou nessa noite (e não foi por falta de concorrência!) foi o facto de ter resolvido, finalmente, pelo menos parte do mistério que é a função daquele diagrama na parte de trás da folha de personagem. A sua utilidade era algo que sempre me havia escapado, mesmo ao fim de tanto tempo a ler tudo o que encontrava sobre o jogo, a reler o livro de regras, a reler os suplementos, a ler os esclarecimentos e sabedoria acumulada em dezenas e dezenas e dezenas de threads na Forge. Agora, de repente, a coisa atingiu-me.

Foi mais ou menos assim.... Discutiram-se os conceitos gerais dos personagens à mesa, mas depois os pormenores e os factos foram criados individualmente por cada jogador, que os foram anotando no diagrama o melhor que sabiam. Quando me passaram as folhas para as mãos, eu não sabia muito mais sobre eles do que o conceito geral, e fiz o exercício de olhar para o diagrama (que substituiu o espaço para escrever o background na folha de personagem de um jogo normal). É fantástica a quantidade de informação que se pode retirar de uma coisa tão simples como a localização de um item no diagrama, ou da relação entre dois itens em campos separados do diagrama. Seguem-se apenas dois exemplos.

O meu exemplo favorito, e que desencadeou este processo todo:

  • O Preço (é um termo técnico do jogo) que a personagem da Ana pagou pelo uso da feitiçaria foi algum tipo de desfiguração. Ao ver na parte do diagrama correspondendo ao Preço um nome próprio, assinalado como “ex-marido‿, de imediato os meus neurónios dispararam para considerar as possibilidades e implicações. Sabemos a razão exacta para o divórcio do casal só pela posição do item no diagrama, e ficamos com algumas suspeitas sobre a personalidade do ex-marido e sobre outro tipo de cicatrizes (não-físicas) que a personagem da Ana ainda terá. Relacionado com este caso, temos um outro nome, o de um conhecido no trabalho por quem a personagem tem sentimentos não retribuídos... estando ele na parte do Preço (mas não só), já ficamos a saber a principal razão para a falta de reciprocidade amorosa.

Já este exemplo é escolhido pela originalidade e, sobretudo, pelo potencial de fazer surgir uma gargalhada bem-disposta:

  • O personagem do Rogério tem um demónio parasita dentro de si cuja Necessidade é embebedar-se, e cujo Desejo é gratificação sensual. Eu sei que devia estar à espera de algo assim, mas a verdade é que foi um espanto encontrar, ali mesmo no meio da parte do diagrama correspondente ao Lore (que é o termo para tudo o que diz respeito à feitiçaria), um clube de strip! Lindo! E, depois de ultrapassar as primeiras impressões e começar a pensar mais fundo sobre o que poderia estar um sítio daqueles a fazer cravado tão fundo dentro do Lore, a coisa começa a ganhar contornos mais sinistros e menos imediatos. As possibilidades são demasiadas para listar aqui!

Mas não o diagrama é bem mais que um background esquematizado, é um mapa para o futuro do jogo. Olhando para a posição das coisas no diagrama, podemos ficar com uma ideia bem boa daquilo que interessa ao personagem (e ao jogador, espera-se) e onde será mais proveitoso focar a acção e a trama. Melhor, certos itens, pela posição em campos diferentes do diagrama parecerem muito atraentes para colocar em conflito e criar material para bangs. Bom, mas aqui já sou eu a colocar a carroça à frente dos bois. Quero verificar primeiro se isto se confirma na prática!

Quando houver tempo faço um apanhado mais alargado dos personagens e dos seus demónios.

Vamos ver se é desta que consigo mestrar Sorcerer fazendo uso de todos a potência que o jogo traz no motor. A minha primeira tentativa de fazer uma campanha teve resultados mistos: uma jogadora (a nossa Raquel) adorou e, no caso dela, consegui criar uma série potente de bangs; já outros dois jogadores preferiam (se calhar preferir é um eufemismo da minha parte) algo mais tradicional e planeado. No caso deles os dois, raramente consegui criar um desses momentos decisivos... um deles era o nosso António “Plasmas‿, que às vezes mostra a cara por aqui, e no caso dele acho que nem isso consegui, pois não o conhecia muito bem e também não era pelo curto e duro o background do seu personagem que eu chegava a algum lado.

A segunda tentativa de começar uma campanha começou com parte deste grupo actual. Fizemos as personagens e começamos a jogar de imediato... claro que, sem qualquer preparação, aquela curta sessão não chegou a nenhum lado especial connosco apenas a confiar no improviso.

Vamos ver se à terceira é de vez. Uma coisa é certa, se desta isto não resultar a 100%, vai ser mesmo por minha culpa. É que todas as condições parecem reunidas. Portanto agora é só eu vencer a preguiça do costume (como é óptimo ser Produtor de PTA, não é preciso preparar muita coisa!) e preparar-me decentemente, para que o ritmo do jogo não soluce muito e a acção/trama não ande às voltas sem destino. Façam figas!