31 de Maio - Guerras de insectos e as guerras energéticas na Alemanha

Retrato de Mallgur

Dia 31 de Maio realizou-se o terceiro encontro mensal do grupo do Porto.

Apresentei o Hive ao Golden Claw enquanto esperávamos pelos parceiros que viriam jogar Funkenschlag (Power Grid) connosco. Ele não conhecia o jogo e acabou por perder. O Hive é relamente um jogo em que a experiência pode contar muito e, apesar de ter jogado bem, não tinha forma de se aperceber da terrível táctica dos escaravelhos. Mas tenho a certeza que com mais algumas partidas será um adversário temível.

As meninas começaram o Blokus a 4 enquanto nós fazíamos a preparação do Funkenschlag.

Depois de uma breve explicação do jogo a quem não conhecia, lá nos enfrentámos. Joguei com Johnny Bee Good, Dugy, Nazgûl, Golden Claw e NeoNaeon.

Como estou no comboio a caminho de Lisboa, resolvi entreter-me e fazer um relatório da sessão num estilo um pouco mais literário, que me perdoem os que percebem realmente do assunto, mas aqui fica:

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A porta da enorme sala de reuniões fechou-se lentamente. Olhei ao longo da mesa, por entre uma sucessão de fatos e gravatas, quase uma sala de espelhos, para o senhor que se sentava na outra ponta. Contrastava de forma absoluta com os executivos que alinhavam, todos iguais, nas altas cadeiras. Trazia uma simples camisola de manga curta, cinza e sem qualquer adorno e umas calças de ganga preta, também simples. Nos pés um par de sapatilhas cinza, de ar confortavelmente usado.
Sentou-se e os seus olhos fixaram-se em mim, atentos e vivos e, confesso, algo intimidantes, através das lentes dos óculos. Ficou assim alguns segundos. Não sei se me avaliaria, se aguardava algo, ou se simplesmente esperava que eu começasse.
Schmidt, à minha direita, lançou-me um olhar misto de exasperação e animosidade. Lembrei-me de imediato do pequeno sermão que me dera na longa viagem de elevador que nos trouxera até ali desde os pisos subterrâneos da garagem.
'Silva! Que raio de ideia foi essa de aparecer assim?', sem me dar tempo a qualquer tipo de resposta, continuou dizendo; 'Você vem apresentar o relatório anual ao dono de uma das maiores empresas energéticas do mundo, e aparece assim? De calças de ganga e em mangas de camisa?', fez uma pausa que adivinhei ser para ganhar fôlego para mais uma tirada do género. Não me apetecia aturá-lo muito mais, mas sabia que, dissesse o que dissesse, a sua mentezinha de burocrata não estava pronta para aceitar ideias diferentes. Por isso rematei simplesmente; 'Não sou modelo. O meu trabalho foi definir uma estratégia para a implementação de uma rede de energia. É com esta roupa que me sinto bem e com ela que faço, como fiz, o meu melhor.' Depois deixei-o continuar o relambório de críticas e lamurias.
Agora ele começava a apresentar-me. 'Herr Friese. Este é...' Friese interrompeu-o com um gesto brusco, sem desviar o olhar de mim.
'Eu sei quem é. Por favor apresente o seu relatório, Silva.'

Como sabe, o governo Alemão abriu o mercado energético a seis empresas. A JBG, ECP, NazgûlPower, NeoNaeon Electric, a GC e nós.
A atribuição de concessões iniciais foi renhida e as três regiões metropolitanas em que é mais fácil obter uma posição interessante, com a alimentação de dois centros urbanos a um custo baixo foram tomadas rapidamente. Conseguimos obter o pólo Leipzig-Halle. Isto foi algo condicionante para todo o desenvolvimento da rede. O leste alemão apresenta condições mais difíceis de progressão para uma rede eléctrica. Por outro lado isso trouxe a vantagem de nos encontrarmos isolados nessa zona do país. No oeste do país, a JBG, GC e ECP colocaram-se muito próximas pelas cidades à volta de Essen. A NeoNaeon Electric começou em Frankfurt-M e Wiesbaden, um pouco mais à vontade, e a NazgûlPower começava no Norte do país sem qualquer competição.
A proximidade das três companhias ao redor de Essen condicionou a sua expansão logo ao início. No norte a NazgûlPower conseguiu expandir-se rapidamente, avançando para sul com duas linhas gerais. Mais a sul a NeoNaeon aproveitou os conflitos em redor de Essen para se expandir um pouco para sul, mesmo junto ao limite imposto pelo governo.

As limitações orçamentais, conjugadas com a variação dos preços no mercado de combustíveis, limitaram o nosso progresso. Inicialmente a minha ideia era ter expandido primeiro para sul, pela linha Erfurt-Fulda, para condicionar a expansão da NeoNaeon que beneficiava da sua aposta na energia eólica. Ao invés, vi-me condicionado a progredir para Erfurt primeiro, mas depois a ter que mudar de direcção para norte, em Magdeburg e Berlin. A opção Dresden estava assegurada pois nenhuma das outras companhias poderia comportar os custos de fazer uma ligação para lá sem por em risco a sua sobrevivência.Por volta desta altura a progressão da NeoNaeon fez com que o governo permitisse a implementação de mais redes na mesma cidade. Seria de esperar que, durante um certo período, este aumento de oferta e concorrência se desse com duas empresas por cidade, mas a verdade é que o governo se atrapalhou, como é apanágio dos governos, e permitiu a abertura a três empresas por cidade.
As consequências foram grandes. Não conseguimos lidar da melhor forma com esta abertura. A forte presença da JBG e Neonaeon Electric no sul, em conjunto com a aproximação da NazgûlPower e ECP pelo norte, e os custos elevados de progressão para oeste, fizeram com que não conseguíssemos seguir a estratégia inicialmente definida. Acabamos por ter que fazer opções de recurso. Apesar de a aposta na energia obtida pela conversão de resíduos urbanos ter compensado, devido à baixa de custos envolvidos nesta produção, a verdade é que terminámos o ano na segunda posição entre as empresas de electricidade. A NeoNaeon estava a alimentar catorze cidades no fim do ano, contra as nossas treze...
Não posso dizer que tenha sido um ano excelente. A estratégia que defini falhou em alguns pontos. De qualquer modo fico algo orgulhoso da posição a que levei a empresa, mas tenho que admitir que a NeoNaeon Electric conseguiu lidar melhor com as condicionantes.

Friese ficou calado algum tempo. Depois levantou-se lentamente. 'Bom trabalho. Não foi perfeito, mas foi bem razoável. Talvez para o ano estejamos em primeiro.' Virou-se para Schmidt. 'Gostaria de falar consigo em privado no meu gabinete.' Voltou-se para a porta de saída e ao caminhar para lá fez um gesto que lhe era conhecido e que levou Schmidt a empalidecer visivelmente.
Todos sabiam que, após uma frase daquelas, ou se era premiado ou se era despedido. Aquele gesto significava que os dias de Schmidt estavam terminados na FrieseGreenPower. Quando Friese passava assim os dedos pelo cabelo verde, era um sinal claro disso.

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Na outra mesa ainda se jogou um NIcht die Bohne a que se juntou o xpto. Mas desse, como não participei e muitos conhecem a minha opinião acerca do jogo, não vou falar.

Foi um bom encontro. As notícias à noite não seriam as melhores, mas como tinha uma festa de anos nessa altura não estive lá para acompanhar de perto.Fica aqui o convite a que quem esteve por lá relate o mesmo e, mais importante, os jogos...

Entretanto temos o problema do local resolvido com a ajuda do Tropical Burger. Quinta lá estaremos.

Até breve...

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:)

Belo report, Mallgur. Queria tanto jogar Power Grid, damn.

À noite jogou-se Hard Roach Café, Diamant (numa variante super-perigosa, inventada pelo xpto Laughing), Dancing Eggs, Crossin Colors, Saboteur e Intrigue.

 


Top10:

Xpto and the Cave of Doom!

Numa mesa perto de si! Smile

Realmente não se conseguia dar um passo.

Ops

A única falha neste session report é que o Hive não foi apresentado a mim, mas sim ao GoldenClaw.

Quanto ao resto, estupendo. Tal qual o jogo (passou a meu favorito, apesar da minha fraca prestação).

I stand corrected...

Obrigado pela atenção. Já corrigi.

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Gamer profile

Os meus parabéns!!!

Excelente!! É terrivelmente dificil transformar uma session report de um jogo tipo Power Grid em algo que dá gozo de ler!!

Pra quando a versão em ingles postada no BGG?

Manuel Pombeiro
a.k.a.Firepigeon
LUDO ERGO SUM

Últimas jogatinas:

Negating the unforeseeable is utterly unrealistic, and scrambling to deal with problems is indeed a game skill.

Vai dar livro :)

Excelente narrativa! Mais uma a que o Pedro já nos habituou.

 

Herrar é umano.

TGV !

Quem diz que a CP não inspira! Bravo Mallgur.