Dirtside (Primetime Adventures)

Depois de uma espectacular primeira série de seis episódios, Dirtside prepara-se para regressar à actividade.

Fique atento a este espaço!

 

Dirtside - Primeira Temporada

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Elenco de Dirtside

Venha conhecer o elenco de Dirtside!

Originalmente retirados do fórum Amberitas Anónimos da Raquel, aqui encontram artigos que definem ou explicam melhor o elenco que temos visto ao longo da série. Comentários e/ou sugestões são sempre bem vindos. Os "donos" de protagonistas da série estão desde já convidados a escreverem sobre os seus próprios personagens, já que ninguém os conhece melhor que eles mesmos.

Dirtside é trazido até si por uma equipa de jovens actores e argumentistas:

Da esquerda para a direita: Ricardo, Paulo, Raquel e João Pedro

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Rita Jamieson (Raquel Correia)

Cabo Rita Jamieson, née Rita Ann Burnay Jamieson

Actriz: Bridget Fonda.

Rita é a mais nova de 10 irmãos, todos os outros do sexo masculino. Todos eles, tal como o pai, seguiram carreiras militares e encontram-se espalhados em serviço por vários cantos do sistema solar. Com a morte da mãe durante a sua adolescência, Rita tomou a decisão de seguir a mesma carreira - por um lado para não ser deixada para trás, e por outro porque o pai sempre lhe incutira que o verdadeiro cidadão da Federação lutava para defender os seus valores.

Contudo, desde que se alistou na Academia tem enfrentado a resistência do pai, que preferia ver a sua menina a salvo numa casinha de campo a dar-lhe netos e de avental à cintura. Como se isso não bastasse, as companhias onde tem sido colocada todas parecem achar que ela só lá chegou por ser filha do General, e que ela seja filhinha do papá. Se têm razão ou não ainda está por provar. É que, aparentemente, Rita esteve envolvida num incidente durante o seu tempo na Academia, que resultou na morte de um colega. Os pormenores desse evento ainda não vieram a lume e Rita não gosta de falar disso.

Rita luta, então, para provar o que vale num mundo dominado pelos machos da espécie. E tenta fazê-lo sem perder a sua própria feminilidade. Lá porque está numa profissão dura, pensa ela, não é por isso que deixa de ser uma mulher, com tudo de bom e mau que isso implica. Por essas e por outras odeia que a tratem ou por "Jamie" ou por "James", já que considera isso como uma tentativa de a masculinizar.

Entre os seus inimigos, ou no mínimo chagas pessoais, conta com K. C. O'Rourke - sargenta da mesma unidade que não confia nas capacidades da Rita e que passa a vida na camaradagem com os "boys" e a meter veneno contra a Rita.

Mas a Rita não deixa de ter um certo carisma inato, e quem lhe dá alguma hipótese descobre uma boa e leal amiga. Entre os seus amigos, Rita pode contar com a Lily Wong, outra mulher das forças armadas, integrada noutra unidade e ligada à mecânica/manutenção da base.

A relação entre Rita e Daniel Fishburne já é mais complexa. Colegas de pelotão, une-os em primeiro lugar a camaradagem. Mas há mais que isso. Rita nutre por ele algo para lá da amizade. O problema é saber também que ele é um colaborador dos Rebeldes - essa informação tem, nos últimos tempos, mantido Rita dividida entre a sua lealdade à Federação e a crescente afeição que sente pelo Daniel.

Informação técnica sobre a personagem:

  • Issue: Self-worth
  • Trait: Best Driver in Class
  • Trait: Martial Artist
  • Trait: Maternal Instinct
  • Connection: Gen. Jamieson (Pai)
  • Connection: Lily Wong (amiga)
  • Nemesis: Sgt. K. C. O'Rourke
  • Personal Set: Recreation Room

Viktor Ralek (João Pedro Nunes)

Volte em breve!


 

 

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William Jefferson (Paulo Martins)

2º Tenente Especialista William Jefferson.

Actor: Jude Law.

William Jefferson - se é que esse é mesmo o nome verdadeiro dele - já passou por muito na vida. Originário de Ellis, viveu para ver as coisas terríveis que a Federação lá fez e que, inclusivamente, significaram a morte para a sua mulher e filho. E foi assim que ele se tornou Rebelde.

O seu objectivo na vida é descobrir quem foi o responsável directo pela morte da sua família e conseguir a vingança. Com um tal objectivo a incentivá-lo, William tornou-se um dos rebeldes mais treinados em espionagem - talvez apenas batido pela rival/interesse amoroso (?) Christine Sanders. Contudo, como as forças armadas são constituídas maioritariamente por homens, quando surgiu a oportunidade de infiltração na Firebase Omega, William foi escolhido em vez de Christine.

Ora pouco depois de se instalar na base, William viu-se confrontado com a prisão da velha "amiga" Christine, em circunstâncias que deixaram tanto o Tenente Ralek como a Cabo Jamieson desconfiados que aqueles dois se conheciam de algum sítio. Para acabar com o problema, uma bela noite Jefferson foi visitar Ms. Sanders, fingiu que a deixava fugir e depois toma lá um balázio pelas costas.

Ele só não contava que entre o pessoal da base houvesse mais um infiltrado que conhecera Christine de perto e que sabe ou desconfia ter sido ele quem a matou. Daniel Fishburne já por uma vez o confrontou com a informação e ainda o expôs como rebelde frente a Rita Jamieson.

Mas Jefferson tem amiguinhos em lugares muito altos, como a Senadora Johanssen, ou muito influentes, como Jan Van Meyer; e ainda por cima estes já o convidaram para se juntar a uma terceira facção em jogo neste tabuleiro político da série.

Mudará ele de facção? Matará Rita e Daniel para manter o seu disfarce? Descobrirá ele que Ralek esteve em Ellis?

Informação técnica sobre a personagem:

  • Issue: Revenge
  • Traits: ??
  • Connection: Samuel Hoffman
  • Connection: Veronica Johanssen
  • Nemesis: Christine Sanders (falecida) / Daniel Fishburne
  • Personal Set: Estufas Biónicas de Metropolis

Christine Sanders

Ms. Christine Sanders, Rebelde.
Actriz: Meg Ryan.

Christine Sanders era há muito tempo uma rival de William Jeffersondentro dos Rebeldes. Talvez mais capaz do que ele em termos de capacidade de trabalho à paisana, foi de qualquer modo preterida na missão que consistia em se infiltrar na FireBase Omega pelo facto de ser mulher. É verdade que existem mulheres nas forças armadas, mas são poucas e por isso mesmo têm mais tendência a estar sob olho de alguém.

Talvez irritada com o desenvolvimento dos eventos, acabou por se envolver com células rebeldes mais anarcas, mais violentas, e acabou por ser capturada pela Federação e aprisionada. Acabou por ser interrogada, libertada e depois morta pelas costas pelo Tenente Jefferson (veja-se Episódio 1)

Mas a história não acaba aqui. É que se havia uma potencial atracção não-resolvida entre eles os dois, ao que parece a atracção foi resolvida e consumada algures nos bastidores com um outro homem: Daniel Fishburne. E Daniel é bem capaz de desconfiar que Jefferson tenha morto a Christine...

Daniel Fishburne

Cabo Daniel Fishburne, Daniel Myers Fishburne

Actor: Brian Wimmer.

Daniel Fishburne e Rita Jamieson uniam-se inicialmente por uma espécie de rivalidade amigável dentro da mesma unidade de Space Marines. Isto em privado, porque a nível público Daniel não gostava de ser visto sequer a tomar um cafezinho com a Rita e as suas amigas (veja-se o Episódio Piloto), o que poderia ser interpretado como estando a dar tratamento preferencial (ou pior: graxa!) à filhinha do General.

Desde que a Rita descobriu que ele colabora com os Rebeldes, no entanto, ele tem-se mostrado bastante protector dela, aqui e ali, indo ao ponto de a safar quando foi presa por Rebeldes e de desmascarar outros infiltrados (como o Tenente Jefferson) à frente dela (veja-se o Episódio 2). Uma coisa levou à outra e os dois acabaram por ter sexo.

Mas existe ainda um outro problema. Aparentemente, Daniel teria tido uma relação com a defunta Christine Sanders, e num momento de lapso trocou os nomes perante a Rita.

Será que afinal ele fez o "sacrifício" de ter sexo com a Rita só para a manter satisfeita e calada? Será que quer apenas ficar nas boas-graças do General? Ou será que está apenas no rescaldo da morte da Christine e confundiu inocentemente uma loira de olhos azuis com a outra? A Rita pode não gostar de nenhuma das respostas...

Francis Jamieson

Capitão Francis Jamieson, Francis Burnay Jamieson.

Actor: Paul Walker.

Francis é o nono dos irmãos Jamieson, e portanto o mais novo dos rapazes e cerca de dois anos mais velho do que Rita Jamieson. É também um dos poucos na família que de facto apoia a decisão de Rita em se juntar às forças armadas.

Integrado nos quadros técnicos, Francis viaja muito em apoio a operações especiais e tem dificuldade em manter contacto regular com o resto da família. Também ele tem a vida um bocadinho dificultada por ser filho de um importante General dos Space Marines - mas não tanto como Rita, que trabalha na mesma base que o pai.

Em licença, Francis é um rapaz simpático, extrovertido, bem-parecido - do tipo "oficial e cavalheiro"; mas quando trabalha é eficiente, perfeccionista e incansável.

Embora ainda não tenha surgido na série em carne e osso - temos esperança que surja no Spotlight Episode da Rita Jamieson - é capaz de figurar em várias das fotos no gabinete do General Jamieson.

General Henry Jamieson

General Henry Jamieson, Henry Garner Jamieson

Actor: Nick Nolte.

Henry Jamieson, mais vulgarmente conhecido apenas como General Jamieson, é o comandante dos Space Marines em Éden. É também, como se pode depreender pelo último nome, pai da Cabo Rita Jamieson.

Ele é, aliás, pai de um total de 10 filhos, todos eles homens feitos que ingressaram em vários ramos das forças armadas da Federação - a excepção sendo Rita, a mais nova, que é a única rapariga. A esposa morreu-lhe há 5-10 anos, quando Rita ainda era adolescente.

Henry Jamieson vive e respira os Space Marines e a Federação. Desde cedo incutiu aos seus filhos o patriotismo e o sentido de dever que os marcam como adultos. No entanto, e naquilo que toca à filha, já se tornou claro que ele preferia que ela estivesse num planeta pacífico, seguro, longe de conflitos e rebeldes, de preferência casada com um bom rapaz e a dar-lhe netos e churrascadas de feriados.

Embora ainda não se tenha tornado claro se os seus motivos são simples amor paternal ou chauvinismo, a verdade é que o General faz o que pode para manter a Rita fora de grandes sarilhos e cai logo em cima dos infelizes oficiais que a coloquem em situações de perigo. Tem feito uma pressão continuada sobre o Tenente Ralek (o oficial responsável pela unidade em que Rita está enquadrada) para que a coloque atrás de uma secretária, mas até hoje tem tido pouco sucesso graças à teimosia da sua própria filha.

Estará ele nas tintas para o facto de andar a dificultar assim mais a vida à filha, ou não se aperceberá que a sua atenção constante faz com que outros pensem que ela só chegou ali graças a cordelinhos puxados pelo pai?

K. C. O'Rourke

Sargento K.C. O'Rourke, née Kayleigh Ciarán Moore O'Rourke.

Actriz: Demi Moore.

K.C. é uma personagem secundária cuja função na vida parece ser dificultar a vida na base à Cabo Jamieson. K.C. é toda macho, anda sempre com os "boys" e não tem cá paciência para saias, laçarotes, e choradinhos de miúdas mimadas. A guerra, na sua opinião, é ofício para os duros. Portanto ela tenta sempre contar-se no grupo dos duros.

Sendo superior hierárquica da Rita Jamieson, K.C. entretém-se de vez em quando a colocar a Rita em situações humilhantes ou potencialmente embaraçosas sem com isso quebrar as regras - como por exemplo aconteceu no Episódio 1, em que colocou a Rita de serviço nas cozinhas da messe de oficiais por algum tempo, e Rita assim teve de andar a servir sopa aos Tenentes Ralek e Jefferson. K.C. tem também por hábito tratar Rita por "Jamie", sabendo muito bem que a outra detesta esse epíteto.

Em geral, Rita esconde a raiva que K.C. lhe inspira. Em tempos tentou ser mais amiga de K.C. (afinal, as mulheres na tropa deviam ser mais unidas, pensa Rita), mas há muito que desistiu. Se estão na base, Rita evita K.C. ao máximo; se estão em operações, Rita faz o seu serviço profissional e indiscriminadamente.

Contudo, a história não é tão simples como parece. O desenvolver da série tem apontado para a possibilidade de afinal a K.C. não só ser lésbica não-assumida, como ainda por cima ter virado as suas afeições para a própria Rita Jamieson. Quem sabe onde estes conflitos internos pessoais de K.C. poderão acabar?

Informação técnica:

  • Nemesis de Rita Jamieson

Lily Wong

Soldado Lily Wong, née Li Li Wong

Actriz: Wakana Sakai.

Lily Wong é uma das poucas verdadeiras amigas que Rita Jamieson tem, dentro ou fora das forças armadas. Ligada à mecânica e a funções de manutenção na base, Lily raramente ou nunca sai em missões de perigo, mas por outro lado conhece a Firebase Omega como a palma das suas mãos.

A nível pessoal sabe-se ainda pouco ou nada acerca desta personagem secundária. Aparece com mais frequência nos episódios no contexto de alguma actividade na Recreation Room, na companhia da Rita e/ou outras mulheres da base.

Informação técnica:

  • Connection de Rita Jamieson

Nadja Romanova

Doutora Nadja Romanova

A Dra. Romanova é médica no Hospital Central de Metrópolis, mas por vezes faz uns extras na enfermaria da Firebase Omega.

É amiga do Tenente Viktor Ralek.

É também, veio-se a descobrir, simpatizante dos Rebeldes. A culpa que sente por ter sido "obrigada" a matar um dos soldados de Ralek (que estava em coma) quebrou-a finalmente e ela anda um farrapo emocional. Ralek não sabe ainda se há-de denunciá-la ou mandá-la para fora do planeta (veja-se o Episódio 2).

Informação técnica:

  • Connection de Viktor Ralek

Thomas M'bane

Sargento Thomas M'bane, segundo em comando de Viktor Ralek.

M'bane já vem de longe, no que toca à vida militar de Viktor Ralek; ambos partilharam campanhas terríveis como a de Ellis. M'bane é um dos poucos negros na base, e portanto fácil de identificar nos ajuntamentos de militares. É frio e eficiente (talvez demasiado eficiente) na execução do seu trabalho.

A sua lealdade a Ralek parece inabalável, indo ao ponto de lhe obedecer mesmo quando o Tenente é retirado de comando (veja-se o Episódio 2).

Sabe-se pouco da vida privada deste sargento. Não parece misturar-se muito com o resto da unidade, quando estão a descontrair. Talvez porque os eventos de Ellis ainda lhe assombrem as noites e ele partilhe essa culpa com Ralek.

Informação técnica:

  • Connection de Viktor Ralek

Veronica Johanssen

Senadora Veronica Johanssen

Actriz: Jennie Garth.

Miss Johanssen herdou o cargo de Senadora há coisa de poucos dias/semanas na sequência da morte de seu pai às mãos de Rebeldes. Ela própria foi salva apenas graças a uma intervenção dos valentes Space Marines da Firebase Omega (veja-se o Episódio 1). A sua atenção recaíu sobre o Tenente William Jefferson, que foi pessoalmente responsável por lhe salvar a vida.

Não é preciso passar muito tempo na sua companhia para perceber que ela é perspicaz, inteligente e capaz; à primeira vista, talvez até faça uma Senadora melhor que o pai.

No entanto, os eventos do Episódio 2 revelaram que ela afinal não joga na equipa da Federação, mas sim que faz parte de uma terceira facção a entrar agora em campo, e a qual joga a Federação contra os Rebeldes na esperança de apanhar ambos os lados fracos. Acompanha-a no projecto o Van Meyer, e ambos iniciaram contactos com o Tenente Jefferson no sentido de o recrutar também.

Informação técnica:

  • Connection de William Jefferson

The Dirtside Gang

The Dirtside Gang

O gang de Primetime Adventures - Dirtside, a cores e ao vivo! Da esquerda para a direita: Ricardo (Produtor), Paulo (William Jefferson), Raquel (Rita Jamieson) e João "Jota" Pedro (Viktor Ralek).

Dirtside: Episódio Piloto

Portanto, com o 25 de Abril a oferecer-nos um fim-de-semana de três dias, havia que aproveitar para jogar até cair para o lado, não? Ora, Sexta-feira à noite fora PTA (o último episódio de Heritage), Sábado à noite fora preparação para Sorcerer e... agora o que é que se podia fazer no Domingo? Era suposto ser a continuação da nossa campanha de 2300AD, mas um casamento atrapalhou a logística e não dava para reunir toda a gente.

Mesmo assim, estávamos com vontade de jogar algo, de modo que eu, o Jota e a Raquel nos reunimos em minha casa, onde estivemos a ver uns divertidos episódios de Spaced. Depois, era chegada então a altura de escolher um jogo e jogar.

O Jota tinha trazido o Heroquest, e a Raquel sentia-se minimamente à vontade para tentar improvisar algo de Babewatch se a gente a ameaçasse. Quanto a mim, eu confesso, tinha tudo planeado desde o início! Agora que já não tinha Heritage para coçar o meu bichinho de PTA, precisa de arranjar uma alternativa rapidamente. Já sentia a minha imaginação a secar só de pensar que não ia jogar PTA durante várias semanas!

Heroquest é sempre muito atraente, mas... eu estava mesmo numa de PTA, o que pode um gajo fazer? De modo que lá fiz o meu choradinho, subornei quem tinha de subornar, ameacei de morte quem tinha de ameaçar e convenci o gang a criar e jogar uma nova série de PTA! Apenas um produtor e dois jogadores não parecia boa ideia a nenhum de nós, mas mesmo assim eu insisti... só mostra o quanto eu estava desesperado por mais PTA!

Guess what? Acabei por conseguir levar a minha avante. Sentámo-nos à mesa, e começamos a preparação da nossa série. Acho que andávamos todos com a onda de Ficção Científica militarista ainda na cabeça, depois de tanta expectativa pela campanha de 2300AD, da qual ainda só tivemos uma sessão... ou seja, ainda não chegou para saciar o apetite. O resultado tem inspirações de Starship Troopers, a nova Battlestar Galactica, a série Space: Above and Beyond e provavelmente outras coisas que me escapam agora. Também se falou de Dune e Bladerunner, entre outros, mas mais em termos de inspiração cénica e de guarda-roupa do que propriamente em termos de temática.

O nome desta maravilhosa amálgama de ideias: Dirtside, o calão dos viajantes espaciais para o solo firme de um planeta. E o planeta, neste caso, era um mundo desértico e semi-inóspito (Dune?), mas com uma gigantesca cidade industrial (Planeta Arrakis, do Dune; a cidade de Bladerunner) na sua superfície. O nome de baptismo do planeta, escolhido por nós pela gigantesca ironia, é EDEN.

A história de Dirtside, giraria à volta de membros de uma força de Fuzileiros Espaciais, o braço da lei e ordem de um império fascista (queria tentar evitar usar uma palavra com uma conotação negativa tão forte, mas não me estou a lembrar de outro sinónimo) com sede na Terra, que tenta controlar com mão de ferro as colónias espaciais que têm espalhadas aqui e ali. Considerámos colocar uma ameaça extra-terrestre mas ficámo-nos só pelo inimigo óbvio: a parte da população descontente com a política (a palavra é capaz de ser um eufemismo) de um governo que a oprime (outro eufemismo, talvez?) a cada oportunidade. Criámos um movimento rebelde, desorganizado, espalhado por essas colónias fora, e que a Terra tenta suprimir por todos os meios e mais alguns.

Outra inspiração que me surgiu quando estava a narrar foi, curiosamente, o filme Judge Dredd... sim, aquele que tem o Stallone. Nem era mau de todo (se acharam que sim, vejam o D-Tox também com o Stallone e vão mudar instantaneamente de opinião, eheh)! É que o filme tinha também a grande cidade, dividida por níveis, e uma onda enorme de crime violenta que eu facilmente conseguia imaginar como vindo de um povo oprimido e desesperado.

Definido o setting em traços largos, atirámo-nos aos personagens. Eu sugeri (acho eu), e a Raquel foi nisso, um issue de auto-afirmação semelhante ao personagem do Rogério em Heritage, que depois se transformou um bocado através do brainstorming conjunto. Rita Jamiesoin é então uma mulher minimamente feminina num mundo que ainda é, em larga maioria, de homens e mulheres masculinizadas pelo treino e pela doutrina: o mundo dos Fuzileiros. Rita precisa de provar o seu valor a toda a gente naquela unidade, e para o fazer precisa de esforçar cinco vezes mais do que qualquer um; precisa também de provar o seu valor também a si, depois de ter feito algum tipo de screw-up (que ficou por definir e, à boa maneira televisiva, provavelmente só será revelado mais à frente na série). Não chega? É que ainda há muito mais: o pai dela (que é um dos seus Contactos, em regras de PTA) é um dos manda-chuvas do exército e um militar nato que não acredita que a filha, uma rapariga, algum dia dê um soldado de infantaria com valor... especialmente depois da tal asneira que ela fez. Além disso, como o pai dela é quem é, quando a rapariga faz algum coisa de valor, toda a gente pensa automaticamente que foi por causa de alguma cunha do pai, ou algo parecido.

A personagem da Raquel possui um Némesis, que é uma Sargento dos Fuzileiros, feia, gorda e bruta, que representa tudo aquilo que Rita se recusa a ser, ou seja, "one of the boys"! Ainda por cima, ou não fosse isto um jogo sobre melodramas de TV, a Sarja provavelmente ainda é lésbica e gosta da nossa Rita em segredo. Vamos ver, eheh.

Quanto ao personagem do Jota, o Tenente Viktor Ralek, ele é o comandante da unidade. O seu issue é a lealdade que deve à Federação Terrestre, e que ele está a começar a questionar cada vez mais depois de tudo o que tem visto (e sido ordenado a fazer) ao longo da sua carreira. Um dos seus Contactos é uma médica de bom coração (que talvez possua ligações à Rebelião), e outro um velho amigo que se tornou... um oficial importante nos serviços de inteligência, o Special Branch. Estão a ver como o dilema do seu issue se reflecte até nos seus contactos? Um ajuda as pessoas, o outro é alguém que provavelmente as tortura para obter informação! O Jota diz que não, mas ele também parece ter um dom para estas coisas...

O Némesis dele novamente reflecte o seu issue: é um capitão que vive para matar os rebeldes com extreme prejudice e até ao último homem (e, provavelmente, mulher e criança, eheh), e que está desconfiado que o seu tenente está a duvidar da justiça da causa da Federação.

De facto isto promete, promete imenso! E acho que lhe conseguimos fazer justiça no episódio piloto que jogámos logo de seguida. Houve oportunidades para o nosso Tenente Ralek tomar decisões directamente relacionadas com o conflito Federação – Rebelião: fez frente ao capitão, e mandou um dos seus homens para tribunal marcial por maltratar prisioneiros e mesmo assassinar dois rebeldes suspeitos... isto apesar de o dito soldado ter razões mais que suficientes para, de certo modo, o desculpar: é que a família dele morrera no atentado bombista com que abri o episódio.

Já à nossa Cabo Jamieson, consegui de facto infernizar-lhe a vida, embora a Raquel e o Jota também tenham feito muito nesse sentido. Para começar, nem sequer os dados colaboraram com ela, fazendo-a falhar ou ficar para trás quando era posta à prova em frente aos seus camaradas. Depois, o pai dela estava em todo o lado, e quase tirava a unidade da linha da frente para manter a filha longe de perigo. Isto, mais o tratamento especial que o Capitão lhe dava, não ajudavam nada à imagem má que ela já tinha junto dos seus camaradas de armas. Pior, o único soldado que a ajudou de alguma maneira e foi simpático com ela, pouco depois praticamente que fingiu não a conhecer para não ficar mal visto junto dos seus amigos. A Raquel e a Rita ficaram fulas!! Mas depois, um pouco mais tarde, quando Rita se apercebeu que o dito soldado talvez tivesse ligações aos rebeldes, optou por não o entregar ou fazer nada... isto apesar de ela própria estar sob fortes suspeitas, porque alguém tinha usado a sua identificação para roubar do paiol os explosivos de alta potência que, como disse, tinham aberto o episódio com um grande BOOM!

Enfim, foi uma sessão incrivelmente divertida. Acho que conseguimos trazer significado, dilemas, e issues a quase todas as cenas. Para uma série sobre Fuzileiros Espaciais, quase não houve armas de fogo a ser disparadas, e só houve uma explosão, logo ao início, para manter os espectadores na expectativa de mais sangue e violência. Foi uma coisa incrivelmente focada e coesa, com dois dos meus mestres/jogadores favoritos.

Se o facto de estarmos a jogar só um produtor e dois jogadores nos afectou de alguma forma má, nem sequer demos por isso... na verdade, isso talvez até tenha ajudado a manter a coisa tão focada nos personagens. Não eram precisas tantas cenas de grupo, ou cenas genéricas de trama, porque as cenas rodavam tão rápido que não dava para ninguém se aborrecer por um segundo que fosse.

Aprendi imenso com a forma de definir "stakes" do João Mendes. Sempre que precisei, a coisa surgia naturalmente, em segundos, e o jogo fluía que era uma maravilha. Tentei que todos os conflitos fossem importantes, e nenhum dos stakes foi alguma vez inconsequente ou irrelevante.

Estamos todos em pulgas para continuar isto já este fim-de-semana se for possível. Queremos também trazer para o rol de actores o Paulo, que joga connosco Amber, e que provavelmente se sentirá como peixe na água... e isto apesar de ele não gostar nada de jogos de Ficção Científica! :)

Em breve vamos ter uma página apresentável para o jogo neste endereço (que é facilmente acessível através da secção de Livros do portal):
http://www.abreojogo.com/dirtside

Os jogadores podem, desde já, começar a editar a página e a introduzir-lhe conteúdo. Para já, o que lá encontram é isto:

  • scans das anotações do Jota, que encontram aqui neste artigo também. Estas – para além do aspecto visual bastante organizado e interessante - falam não só do seu personagem (Tenente Viktor Ralek) em detalhe, como também descrevem o essencial do setting. É espantoso como meia dúzia de parágrafos de texto chegam para criar um setting suficientemente detalhado e interessante para se jogar! Ah, o papel das anotações do Jota era meu, e era da coitada da Ordem dos Farmacêuticos... simplesmente o noivo da Raquel, o Marc, fez os scans e depois decidiu divertir-se e transformar a OF noutra coisa. Cinco estrelas, Marc!

  • scans das anotações da Raquel, que descrevem o seu personagem e depois resumem as cenas que ocorreram e o que se passou (não sei é se o resumo faz sentido para quem não está familiarizado com os personagens e os seus contactos).
  • a foto da personagem da Raquel, Rita Jamieson, que é interpretada pela Bridget Fonda.

Já não me recordo quanto tempo demorou a sessão... tivemos de apressar o desfecho porque o Jota tinha compromissos, mas a coisa nem soou nada a falso. Diria que talvez tivéssemos tido umas três horas de jogo (mais umas duas horas de discussão à volta da série e dos personagens)? Não sei... Mas de novo tenho de exprimir a minha admiração por um jogo que deixa tanta coisa espectacular acontecer em tão pouco tempo, sem soluços, sem falhas, sem dar a sensação de que falta algo. Eu, pelo contrário, é que agora sinto que falta algo na maioria dos outros jogos! :)
E por hoje é tudo, até breve e bons jogos!

Dirtside: Episódio 1 - Pré-Produção

Sexta-feira, 29 de Abril, 22:00. Está tudo pronto para a estreia de Dirtside. O episódio-piloto da semana passada entusiasmou a estação e as audiências, de modo que hoje se vai filmar em directo mais um episódio. A única alteração ao esquema das coisas é a adição de um novo protagonista e dos personagens secundários que lhe estão associados. Consequentemente, a criação do novo protagonista, do novo elenco secundário e eventuais ajustes ao foco planeado da série eram a primeira coisa na ordem de trabalhos do dia, antes de podermos começar a filmar.

Enfim... isto é uma forma rebuscada de dizer que era Sexta à noite, íamos jogar Primetime Adventures (ou PTA, prós amigos) e tínhamos, tal como prometido, um jogador novo: o Paulo. :)

E o resultado, amigos, foi maravilhoso; a química e a magia não só se mantiveram como ficaram mais fortes, e o jogo foi ainda mais coeso e focado. E para perceber a magnitude do que estou a escrever, há que dizer que o Paulo e a Ficção Científica andam às avessas depois de algumas experiências pouco animadoras para ele noutros RPGs. Na verdade, quando ele se sentou à mesa de jogo nem sabia ainda o que raio ia jogar! Não quisemos correr o risco de ele se baldar, eheh.

Eu apenas lhe tinha dito que íamos jogar "o RPG das séries de TV", o mesmo que eu já lhe tinha mencionado há uns meses. Na altura, tinha usado como chavões todas as séries favoritas dele Alias, 24, Six Feet Under, e algumas outras. De modo que ele pensava que vinha jogar algo nessa onda, não uma série de FC que o Jota, a Raquel e eu tínhamos criado na semana anterior. Eu, sabendo da sua aversão à Ficção Científica, "optei" por não o dissuadir dessa noção quando lhe mandei o convite por SMS uns dias antes. Grande jogada!

É claro que ele torceu o nariz à primeira menção de FC, naves espaciais, futuro, etc. No entanto, e felizmente para todos, ele ficou convencido com a explicação que lhe dei sobre isso ser apenas o "cenário" no qual se iam desenrolar as nossas histórias, que é suposto serem pessoais, dramáticas e melodramáticas; enfim, histórias sobre pessoas relativamente normais que apenas por acaso vivem no futuro, num sistema solar longe do nosso. De modo que o Paulo lá nos deu a oportunidade de provar o que dizíamos, e entrou em campo com o espírito aberto.

Ao ouvir-nos falar do setting que tínhamos criado, o conceito começou a desenhar-se na mente dele. O seu personagem seria um rebelde, e começaria o jogo em campos opostos aos dos personagens da Raquel e do Jota. Óptimo! E como isto não é uma série qualquer, é uma série sobre um grupo de fuzileiros espaciais e os homens que o constituem, ele seria um rebelde infiltrado no exército, onde poderia ajudar a causa transmitindo informação importante aos seus companheiros.

Isto é fabuloso, porque entra desde logo a aquecer o issue do personagem do Jota: a Lealdade, que ele deve à Federação e que começa a questionar. Já o issue do Paulo é Vingança; a velha e sempre potente procura de vingança pela morte de uma mulher e de um(a) filho(a) às mãos de um exército controlado por tiranos. E, exactamente pelas mesmas razões que o seu background espicaça o issue do Jota, também o background do Jota espicaça o issue do Paulo. De um lado, temos um soldado de corpo e alma, que no passado participou em autênticos crimes contra a Humanidade e que agora procura recuperar o seu norte e talvez encontrar uma maneira de se redimir. Do outro lado, temos um rebelde infiltrado no exército que se vê obrigado a conviver e a sorrir com o inimigo que mais odeia e que deseja vingança com todas as fibras do seu ser. Será que um tem o que precisa para se redimir e trocar de lados? Será que o outro conseguirá algum dia perdoar?

É daquelas situações onde só se pode ganhar; o conflito de cada personagem só traz mais relevo, e mais lenha para a fogueira, ao conflito do outro! E se alguém está a imaginar já autênticos pesadelos de lutas entre jogadores, de conflitos em jogo que transvazam para fora do jogo e arruínam amizades, pode ficar descansado. PTA não é jogo para isso; há (pelo menos parte do tempo) um saudável distanciamento entre jogador e personagem, e o espírito colaborativo domina em todas os aspectos do jogo. Perguntem ao JMendes, ele é um recém-convertido a este tipo de ideias, embora ele provavelmente vos dirá que é simplesmente porque as regras lhe permitem a ele, como produtor, controlar com precisão as consequências de conflitos directos entre personagens. Se tudo isto não bastasse, eu conheço perfeitamente os envolvidos e estaria tão à vontade quer isto fosse D&D ou PTA. ;)

Com isto tudo, só estou com algum medo que a coisa se esteja a tornar muito preto no branco. Ou seja, a Federação parece cada vez mais malvada, e os rebeldes cada vez mais bonzinhos. No entanto, estou a tentar evitar que essa tendência se arraste para o jogo, tentando manter as coisas o mais cinzentas possíveis. Senão será impossível de criar dilemas poderosos à volta deste conflito armado; os próprios jogadores já “têm a certeza” que no final da temporada vão todos passar-se para o lado dos rebeldes. Vou tentar dificultar-lhes a decisão, não colocando impedimentos à sua frente mas equilibrando os pratos da balança para que um deles não seja tão mais atractivo que outro. Ou isso, ou terei de arranjar outro ângulo para picar o issue de Loyalty do Jota, o que, vendo bem as coisas, é também uma excelente opção.

De resto, a última coisa na ordem de trabalhos do dia era definir os Screen Presence dos três protagonistas ao longo da primeira temporada (que vai ser uma curta, com 5 episódios). Assim já podíamos ficar com uma boa ideia da evolução do “story arc” de cada personagem. Os resultados foram curiosos... para o episódio desse dia, os jogadores optaram por escolher o valor intermédio (2) de modo a ficarem em igualdade de circunstâncias e a criar o ambiente de um segundo episódio-piloto, para o novo jogador não se sentir muito deslocado. Depois para o episódio seguinte, ninguém quis arriscar a ter um spotlight episode tão cedo e acabaram todos por escolher um SP com o valor baixo (1)... este episódio, que vai ser já o próximo, vai ser interessante! É a oportunidade de o produtor brilhar e mostrar o que vale... de que forma vou fazer isso, é que não estou muito certo, eheh. A seguir, temos o primeiro spotlight, que salvo erro é do Paulo, com SP a 3. Depois vem o da Raquel e, finalmente, é o spotlight do Jota que vai encerrar esta primeira temporada de Dirtside.

E pronto, terminados os preliminares, é altura de jogar! Mas isso fica para o próximo post que este já vai muito longo.

Dirtside: Episódio 1

Bom, depois de uma hora a criar a personagem do Paulo e a discutir e a afinar os conceitos da série/setting, era finalmente chegada a altura de pôr as coisas em marcha e ver a que destinos inexplorados a série nos levava desta vez. A entrada do Paulo em jogo veio realmente aquecer as coisas! Nem sequer acusou a estar a ser transportado de um para o interior de um RPG que não era como nenhum outro que já lhe tivesse sido apresentado. Nunca bloqueou sequer, ou seja, nunca ficou ali parado durante cinco minutos a tentar lembrar-se de alguma cena boa para chamar. O jogo limitou-se a fluir, muito livre, e sempre com óptimas sugestões de toda a gente... não só isso, como também houve muitas ideias individuais fortes o suficiente para se aguentarem sozinhas e que às vezes apanhavam todos de surpresa.

Acho que conseguimos criar um episódio extremamente coeso e focado: praticamente cada cena, mesmo as cenas prioritariamente dedicadas à trama, traziam algum tipo de conflito interior ou relevância pessoal para os personagens. Foram quatro horas de jogo muito recompensantes... e o melhor de tudo é que não precisei de preparar nada! Durante a semana limitei-me a pensar em dois ou três bangs para atirar para cima de cada personagem, e a reflectir sobre a melhor forma de aproveitar o elenco secundário (criado pelos próprios jogadores, sob a forma de contactos ou némesis) para poder improvisar outros. Acabei por não usar nada do que tinha preparado porque foram sempre surgindo ideias novas, mas o treino da preparação foi bastante útil aqui e ali, permitindo-me improvisar certo tipo de situações mais facilmente.

Definitivamente, a falta de tempo para preparar aventuras, ou mesmo para jogar, deixou de ser desculpa para alguém se manter afastado dos RPGs. PTA tem um tempo de preparação quase nulo (se bem que acredito que pode beneficiar bastante se o produtor perder meia-horinha a reflectir sobre o que pode fazer no próximo episódio para entalar melhor os personagens), e a duração de cada sessão é de três horas e meia ou quatro horas, sendo que cada sessão é um episódio completo, com princípio, meio e fim... mas em que ficam várias pontas soltas e fios de trama por resolver, para nos inspirarem quando chegar a altura de criar o episódio seguinte; assim evita-se estar a puxar pela imaginação “a seco”.

Quanto a nós e às nossas quatro horas, aconteceu tanta coisa linda que é impossível recordar-me de tudo. Foi realmente uma noite brilhante. Nunca tinha visto tanto Fan Mail a voar de um lado para o outro! E, ainda por cima, os jogadores faziam questão de o usar rapidamente, sendo que para aí dois terços das vezes obtinham sucessos com estes dados, o que significava que esse Fan Mail gasto voltava para as mãos do produtor sob a forma de Orçamento. Gastei o meu Orçamento da forma que quis, em muitos e variados conflitos, sem outras restrições que não fossem o meu sentido da importância de cada conflito para a história e, mesmo assim, acabei o episódio com muito dinheiro para gastar (aí à volta de uns 6 pontos, dos 18 iniciais). Já os jogadores, esses coitados acabaram a sessão com apenas um ou dois usos de traits/contactos por gastar.. somando o Fan Mail todo que usaram, isto significa que se fartaram de rolar dados!

Em termos de isssues e bangs e conflitos em geral, achei que a coisa me correu significativamente melhor (e o episódio anterior já tinha sido muito bom nesse aspecto). Desta vez sentia-me (ainda) mais à vontade e, talvez fruto do pequeno trabalho de preparação que tinha feito para a sessão, as ideias boas surgiam-me constantemente.

Neste aspecto, a Raquel é maravilhosa de trabalhar: pica-se com qualquer pequena coisa e não custa nada a arranjar-lhe material, mesmo que seja de improviso. Já na minha abortada primeira campanha de Sorcerer ela tinha sido a única jogadora que eu consegui realmente apanhar com bangs. Ou ela tem realmente um gostinho especial por este estilo de jogo, ou eu tenho a sorte de possuir algum tipo de empatia com ela para criar o género de situações que a atingem, ou se calhar é apenas ela que, sendo uma menina querida, tem uma carapaça menos grossa e mais sensível que o resto de nós homens porcos, feios e maus. :)

Neste episódio aconteceu-lhe trinta por uma linha (outra vez!), e foi uma noite muito especial. O que me lembro melhor é de um momento em que ela, no meio de uma missão de infiltração de um esconderijo rebelde com o resto da equipa, dá subitamente de caras com o seu amigo, camarada de armas, possível apaixonado e, a partir de agora, traidor rebelde confirmado: Daniel Fishburne. Acho que apanhei não só a personagem como a jogadora de surpresa, e fiquei orgulhoso. De todo o leque possível de reacções que ela podia ter, optou por uma reacção bem suave: deu-lhe nas orelhas e avisou-o para sair dali antes que os outros membros da equipe dessem por ele. Dada a situação, não me teria surpreendido nada se ela o tivesse prendido e denunciado logo ali, talvez até com um tiro ou dois, para ele aprender!

Mas a coisa ainda não acabou... O Jota veio dar-lhe uma última facadinha no peito. É que mal ela mandou embora o tal Daniel Fishburne, entra em cena o personagem do Jota para perguntar à sua subordinada porque é que ela está de cabeça no ar em vez de estar concentrada a vigiar os rebeldes que estão no edifício. Toma lá! O Jota tem de facto sido um sócio muito importante em picar a Raquel; já o tinha dito no relato do episódio anterior. Agora resta saber se o conseguimos picar a ele assim tanto.

Isto porque o Jota é um alvo mais esquivo. Acho que posso dizer que neste episódio tentei atirar-lhe bocados de lenha para a fogueira a todas as oportunidades, mas por outro lado também não me parece que tenhamos ainda causado nenhum incêndio descontrolado. Ele parece manter sempre aquele ar relativamente calmo e a cabeça-fria; acho que ainda não lhe conseguimos arranjar nenhuma situação em que ele fique mesmo, mesmo, dividido entre o caminho a seguir. Mas, também, acho que é só uma questão de eu (continuar a) tentar ser mais agressivo e criar situações completamente lixadas onde ele não pode dar um passo sem ter de partir alguma loiça, estrelar uns ovos. Se isso falhar, terei de partir para a violência física e espancar o jogador, eheh.

Um momento cool, em que tentei “bangar” de improviso a Raquel e o Jota ao mesmo tempo, foi quando o Jota, para se safar de outro bang, pediu a ajuda ao general, pai da Raquel, para impedir que o seu superior directo, o capitão que é o seu Nemesis, massacrasse um monte de rebeldes. Pois claro que o general o ajuda a pôr o capitão na ordem... em troca “só” quer que ele arranje um trabalho de secretária para a filha ou, ainda melhor, que arranje uma óptima desculpa para ela ser expulsa da tropa e viver uma vida normal longe de tanto perigo!

Na Raquel, acertei na mouche: a personagem dela (e ela) atirou-se aos arames quando soube que ia ser transferida e ficar sentada à secretária indefinidamente. Acabou por ir cobrar favores a alguns dos seus amigos e a arranjar maneira de participar à mesma na missão militar que encerrou o episódio. Já na missão, e no meio do conflito armado, introduzi um conflito de grupo onde os stakes eram talhados para cada um dos jogoadores; no caso da Raquel em particular, os dados iam decidir se ela ia fazer um brilharete e provar que realmente fazia falta ao pelotão ou se, pelo contrário, ia dar ainda mais uma razão para o resto do mundo pensar que a linha da frente não é sítio para uma mulher como ela. A Raquel deu o tudo por tudo, usou todos os traits que ainda tinha, usou o Fan Mail e safou-se com distinção. Muito fixe!

Já o Jota, como viram, safou-se relativamente bem do tal bang anterior – nem sequer suou – e também nem sequer precisou de pensar para dizer ao General que sim, que ia tirar a sua filha daquela unidade de combate e pô-la nalguma função técnica. Como digo, ele é um alvo esquivo (quer dizer... também, por comparação com a Raquel, um elefante coxo e só com três pernas pode ser um alvo esquivo!). Definitivamente tenho de deixar de ser preguiçoso e começar a dedicar-lhe mais atenção e esforço.

Quanto ao Paulo... o Paulo é um tipo que na vida real é sempre muito expansivo e falador, um verdadeiro animal social, e que nos jogos se torna mais soturno e contemplativo. No entanto, o seu ar (relativamente) mais calado engana quanto ao que se passa no seu interior... quanto as frequentes explosão (emocionais ou criativas) dele estoiram, é frequente apanharem-nos a todos de surpresa!

E foi exactamente o que nos aconteceu... eu tinha improvisado no hora um bang semi-completo e atire-lho para a cara: uma das suas companheiras rebeldes tinha sido capturada e podia comprometer muita coisa, de modo que o líder pediu-lhe especificamente e com todas as palavras para que ele a tirasse da prisão ou então a calasse para sempre. Várias cenas depois, quando já isso estava no esquecimento de toda a gente, o Paulo “enquadra” a seguinte cena: ele, a entrar na prisão da base militar e a dirigir-se ao guarda. A cena segue com ele a pedir acesso à prisioneira, mas a tentar não ficar registado no livro de entradas do guarda. Pareceu-me que não ia surgir nenhuma outra oportunidade para um conflito nesta cena, e portanto fi-lo rolar os dados. Ele superou o desafio, de modo que falou tanto com o guarda que este o deixou passar sem estar com grandes formalidades. O Paulo fala então um bocado com a mulher e, quando ninguém está à espera de nada de especial, ele saca de repente da sua pistola e mata o guarda com um tiro certeiro. Ouch!

E se a audiência não estava preparada para ele do nada matar alguém a sangue-frio, esperem até ouvir o resto. É que, com o guarda morto, ele abre então a porta da cela e diz à sua conhecida para se pirar dali. Depois, quando ela passa pelo cadáver do guarda, o personagem do Paulo dá-lhe um tiro nas costas, e mata-a. Just like that. Toda a gente ficou de boca aberta tal foi a surpresa, a dissimulação e a total sacanice que ele fez (ainda por cima ficou com o crédito de ter impedido uma fuga da prisão). Foi sem dúvida o momento da noite!

Não sei se foi o resultado “visual” de um bang ou não. O que me deixa na dúvida é que a rapariga que ele matou era nem mais nem menos que o seu Némesis. Ou seja, a escolha entre libertá-la e matá-la pode não ter sido uma escolha muito “difícil”. No entanto, ela já estava em liberdade quando ele a matou, o que acho que é uma escolha bem reveladora (libertá-la ou matá-la? quero ambas, obrigado!). Além disso, ela não era – pelo menos do pouco que tinha ficado estabelecido – um daqueles Nemesis maus como as cobras; era simplesmente uma rival que ficou a odiá-lo quando ele foi escolhido em vez dela, apenas por ser homem e se adequar ao perfil da instituição, para a missão de infiltração no exército. Quando ele a matou, ela ainda nem sequer lhe tinha feito nenhum mal durante o episódio. Estava era aparentemente envolvida num perigoso jogo de poder que lhe podia dar o controlo do movimento rebelde no planeta ou fazê-la cair em desgraça, provavelmente junto com o movimento. Portanto, é mesmo capaz de ter sido um bang... e a causa dele não foram as ordens do mentor que eu lhe tinha dado várias cenas antes. Imagino que foi mais por o Paulo se aperceber do perigo que ela representava para ele e o seu mentor se conseguisse os seus planos de chegar à liderança, e, ao mesmo tempo, do perigo que ela representava para o futuro da rebelião se os seus planos falhassem.

Mas este caso ainda vai dar que falar mais lá à frente na série... Tal como vai dar que falar o final do episódio-piloto, e também o final deste primeiro episódio. Não percam os próximos episódios de Dirtside!

Dirtside: Episódio 2 - Ficção

Introdução da autora:

Os eventos de Dirtside têm sido de tal modo empolgantes que nos têm inspirado a todos nós que participamos nesta fabulosa série de PrimeTime Adventures. No meu caso a inspiração encontrou escape através da escrita, como tanto acontece.

Decidi pegar na última cena do Episódio 2, onde dois personagens iam finalmente para a cama, e que acabou em tensão que não chegou a ser resolvida, num momento dramático para a minha personagem, Rita Jamieson.

Devo enormes agradecimentos ao Ricmadeira, nosso Produtor e co-autor deste texto, pela ajudinha que me deu com o Daniel Fishburne e pelas horas de intenso divertimento que me tem proporcionado com Dirtside. Espero que gostem.

A autora:
Raquel "Éowyn" Correia.

* * * * * * * * * * * * * * * * *

Era tão boa, a sensação! Ali deitada nos braços do Daniel a tensão constante das últimas semanas tinha desaparecido, as nódoas negras e a adrenalina do seu rapto tinham-se evaporado. Por uns momentos tinham sido apenas a Rita e o Daniel, num quarto de pensão rasca; nada de patentes militares, sargentas metediças nem filhas de generais. Só um homem e uma mulher a celebrarem a vida.

Rita sorriu, saciada. Soergueu-se num cotovelo e beijou Daniel preguiçosamente.

"Já devíamos ter feito isto há mais tempo," disse ele, ostentando o seu próprio sorriso.

O sorriso de Rita cresceu em concordância e ela voltou a recostar-se no calor dos lençóis. Neste momento, não importava que ele fosse um rebelde infiltrado, nem que ele a tivesse enredado tanto na teia de intrigas que ela agora fosse cúmplice. Interessava, sim, que o único homem que por vezes via para lá do título de "filha do General" tinha finalmente feito amor com ela; o único homem por quem Rita nutria uma afeição bem para lá da camaradagem militar.

A seu lado, Daniel suspirou. Rita olhou-o mais uma vez. Parecia genuinamente feliz, como Rita não se lembrava de o ter visto há muito tempo; também ele parecia ter deixado para trás todas as preocupações e tensão acumuladas. Estava muito longe do Daniel abatido que ela vira na celebração do seu próprio aniversário.

Deliciosos momentos depois, Daniel voltou a falar. "Estou cheio de fome. Tu também deves estar. Que dizes a eu trazer-te uns petiscos à cama?"

"Mm, óptima ideia," concordou ela. "Volta depressa."

"Vou num pé e venho no outro," assegurou ele.

Saltando da cama, Daniel vestiu-se num ápice e dirigiu-se para a porta, enquanto Rita se deixava ficar lânguida sobre os lençóis. Antes de fechar a porta atrás de si, Daniel despediu-se. "Volto já, Christine."

Na cama, Rita sentou-se de um salto, como se tivesse levado um soco no estômago. Ainda olhou incrédula, chocada, para a porta, mas esta já se tinha fechado atrás do seu amante. Christine? Rita começou a tremer na cama, sentindo-se de súbito gelada por dentro.

Quem diabo era a Christine? Não conhecia nenhuma Christine na base.

À beira do choro, Rita abraçou os joelhos e fez-se numa bola. A penumbra do quarto passara de acolhedora a opressiva na fracção de segundo que levava a dizer um nome. E foi nessa altura que a dúvida a assaltou.

Teria o Daniel fingido tudo? Teria dormido com ela só para a manter contente e na esperança que assim ela não o denunciasse à Federação como rebelde que era? Ou pensaria ele que se conquistasse o coração da filha do General ganhava com isso alguma protecção por parte do clã Jamieson?

Assolada por uma onda de indignação e fúria, Rita limpou à bruta uma lágrima, levantou-se e dirigiu-se à casa-de-banho, onde lavou a cara sumariamente e passou as mãos pelo cabelo revolto. Vestiu-se e sentou-se na única cadeira a um canto sombrio.

Quando Daniel regressou com cheirinho a comida emanando de um tabuleiro, em vez da mulher nua na cama foi recebido por um olhar azul gélido e fulminante. Hesitou junto à porta, equilibrando o tabuleiro numa só mão. "Rita? Passa-se alguma coisa?"

"Poisa o tabuleiro e senta-te," foi a resposta em tons frios.

Daniel assim fez, de ar perplexo. Ia abrir a boca, de certeza para perguntar outra vez o que se passava, mas algo no olhar de Rita o fez calar-se.

Procurando ainda controlar as suas emoções e também uma maneira de abordar a pergunta óbvia, Rita deixou formar-se um silêncio desconfortável. E então, "Quem é a porra da Christine?"

A menção em tom venenoso daquele nome pareceu acordar Daniel de qualquer que fosse o sonho que andava a sonhar acordado desde que ele e Rita se tinham beijado. As emoções que o rosto de Daniel tinha até então à flor da pele pareceram abrir frendas e estilhaçar-se, deixando para trás o mesmo homem abatido que ela vira no seu aniversário.

Mas, então, eis que do nada a luz dos seus olhos se volta a acender. Daniel olha esperançado para o seu comunicador pessoal, que deixou na mesa de cabeceira enquanto foi buscar comida. "A Christine? Ela ligou? O que é que disse? Ela está bem? Disse onde estava? Porque é que não disse nada mais cedo?"

As perguntas de Daniel atropelavam-se umas às outras tão rápido ele as balbuciava. Ele levantou-se, quase frenético, com as mãos a tremerem-lhe de excitação, e dirigiu-se à mesa de cabeceira, perante o olhar horrorizado da Rita. "Meu Deus, pensei que o Jefferson realmente a tivesse morto."

Ele agarrou no comunicador e consultou o ecrã por uns segundos, demorando a perceber que ninguém o tinha contactado enquanto estivera fora. Sentou-se na cama, olhando para o chão, e deixando o comunicador escorregar-lhe das mãos. E foi então que Rita viu o rosto de Daniel desfazer-se pela segunda vez nessa tarde, deixando a descoberto aquela mesma expressão apática, agora ainda mais terrível de tão completamente vazia se tornara.

Rita não acreditava no que lhe estava a acontecer. O seu olhar fixou-se por acaso no seu reflexo nos espelhos da parede do quarto, e viu os seus cabelos loiros, os seus olhos azuis. Algo fez clique no seu cérebro.

Não, ela não estava mesmo a acreditar nisto. Pois claro que não. Christine não era a tal Christine Sanders que Daniel acompanhara àquele encontro de rebeldes que não sabia que estava a ser vigiado por Rita, Viktor e William; não era a mesma Christine Sanders que William matara pelas costas durante uma tentativa de fuga da prisão, acto que levara Daniel a brigar forte e feio com William; acima de tudo, não era a mesma Christine Sanders que tinha cabelos loiros e olhos azuis, tal como a Rita.

Não ela definitivamente não estava a acreditar. Muito menos a acreditar que Daniel conseguia ficar ali sentado, a pensar em si próprio, enquanto ela passava por isto. Antes ele a tivesse beijado e amado para se salvar de ser enforcado por traição ou para cair nas graças do General seu pai. Antes isso do que tê-lo feito porque algo dentro do cérebro dele estava a fazer curto-circuito e ele a confundira com a sua antiga... quê? Namorada, amante, esposa?

É que ao menos as duas primeiras hipóteses implicavam que Daniel reconhecia a sua existência. Já a última... Será que Daniel se ter despedido dela usando o nome da outra não fora um simples deslize Freudiano mas algo muito pior? Algo como um sinal de que ele nem sequer reconhecia a existência dela como um ser individual e que apenas a via como um reflexo ligeiramente tosco da... da tal outra? Rita já nem conseguia pensar no nome dela; quando tentava articulá-lo, a raiva e a fúria bloqueavam-lhe os pensamentos.

Apetecia-lhe explodir, mas ao mesmo tempo encolher-se a um canto e chorar, esperando que um dos seus irmãos mais velhos - Francis, talvez - a viesse confortar. É que por dentro de si se tinha aberto subitamente um abismo muito fundo. Havia um vazio a comê-la por dentro, a roubar-lhe a temperatura, e se não tivesse cuidado era bem capaz de se perder lá dentro, assim sozinha.

E Daniel continuava ali, sentado com as mãos na cabeça, como se não existisse ali mais ninguém do que ele. Era demais.

Rita levantou-se e aproximou-se do homem com quem fizera amor há não muitos minutos atrás. Olhou-o de cima, com ódio e desilusão nos mares azuis revoltos dos seus olhos. Como Daniel não levantou a cabeça das mãos, Rita falou. "Olha bem para mim, Daniel." Apercebeu-se para sua vergonha que a voz lhe tinha tremido, mas estava tanto frio lá dentro...!

Entrelaçou os dedos no cabelo dele e obrigou-o a enfrentar o seu olhar com um gesto enganadoramente gentil. "Olha bem," prosseguiu ela, "e diz-me se tenho cara de--" Sacudiu a cabeça. Melhor não perguntar uma coisa para a qual não queremos a resposta errada. Tentou por outro caminho. "Como foste capaz de me fazer isto, Daniel? Achaste que se trocasses uma loira burra pela outra ia tudo ficar bem?"

Uma pausa. Como raio poderia ela alguma vez competir com uma mulher que estava morta? Os mortos perdem os defeitos, tornam-se ideais. "Quem era ela: tua mulher, amante?" E se o Tenente não a tivesse morto, teria com isso roubado também os momentos fugazes de felicidade que tivera há pouco?

Daniel tentou responder-lhe. "Eu... Ela – a Chris – era o meu agente controlador. Era o meu contacto com a rebelião. Eu... nós dormimos juntos, duas vezes. Ela disse que quando tudo isto estivesse terminado que podíamos pensar melhor em nós... quero dizer, nós dois, eu e ela, mas agora..."

Rita não lhe deu tempo para acabar. "Dormiste com ela, hã? E diz-me uma coisa, dormiste com ela só duas vezes, ou foram três?" rosnou.

Daniel pareceu estranhar a pergunta. Rita assentiu amargamente com a cabeça, preparando-se para interpretar isso como mais um sinal de que ele estava completamente trocado por dentro e que não valia a pena estar a ter esta conversa, que ela devia ter saído porta fora depois de lhe pregar um valente dum estalo, quando Daniel caiu em si. "Não, Rita, não foi nada disso, claro que não! Éramos – somos – eu e tu. Tu não és nada como a Chris; a Chris era mais--"

Mas a Rita não estava pelos ajustes, e aquela palavra tocou num ponto sensível, de modo que o interrompeu logo ali. "'A Chris era mais...'" repetiu ela num tom de voz irónico. "Era mais do que eu, é isso que queres dizer? Que eu sou menos? Pois claro."

Daniel ia tentar dizer algo, mas a Rita abanou a cabeça. "Caramba, Daniel, comigo dás sempre uma no cravo e outra na ferradura. Eu sei que gostas de mim, nem que seja só um bocadinho. Já levaste balas por mim, salvaste-me a vida várias vezes. Mas depois não queres ser visto comigo, revelas-te um rebelde, e agora isto. Sacanices destas esperaria eu de alguém como a O'Rourke."

"Não, Rita, não era nada disso. Por favor!" Um dos braços de Daniel procurou o corpo de Rita, mas ela afastou-se.
Pegou na sua mala e dirigiu-se para a porta. "Não, Daniel. Chega! Assim não dá. Falamos quando tiveres tido tempo de pôr os teus sentimentos em ordem."

Daniel estava a levantar-se para se dirigir a ela quando Rita fechou a porta. Em vez de apanhar um elevador até aos andares com acesso ao trânsito, continuou a caminhar pelo longo corredor até chegar às escadas.

Mas, por mais que abrandasse o passo, chegou ao fim do corredor sem ter ouvido a porta do quarto a abrir-se atrás de si, e sem ouvir Daniel a correr para ela, dizendo que a amava.

Com a teimosia alimentada pela fúria, Rita subiu a pé por aqueles dez andares de escadarias, até à chegar à paragem da estação de tráfego. Nunca se tinha sentido tão sozinha na sua vida.

* * *

Ao chegar à base, Rita Jamieson dirigiu-se de imediato para os duches. Por qualquer razão estava a sentir-se suja. Um quarto de hora debaixo de água quente parecia não estar ainda assim a surtir o efeito desejado. Apoiada com as duas mãos na parede, de cabeça descaída e olhos fechados, deixava a água correr-lhe livremente pelas costas quando sentiu uma presença a seu lado.

Abriu uma nesga do olho. A tatuagem no tornozelo a seu lado não enganava. Por dentro, o seu estômago irrequieto contorceu-se mais um pouco. A outra mulher abriu a torneira, começou a ensaboar-se... e a voz odiada não se fez esperar.

"Cabo Jamie, talvez fosse melhor dormir uma beca, não acha? Não se esqueça que amanhã faz parte da brigada de limpeza, sim?" Aquela voz ligeiramente rouca poderia, noutro contexto, ser até considerada sexy, mas agora arranhava os tímpanos da Rita.

Desligou a água com um sacão, e virou toda a fúria e desprezo do seu olhar para a sua némesis na base, ignorando por completo a água que ainda lhe escorria do cabelo pela cara. "Quando eu pensava que o meu dia não podia ficar pior, bingo!, alguém me prova que mais uma vez estou redondamente enganada. Muito obrigada. És uma merdas, K.C." Girou nos calcanhares, sob o olhar atónito e ao mesmo tempo indignado da sargenta, e começou a afastar-se mas ainda lançou por cima do ombro: "E sabes que mais, estás mesmo bem para os merdas dos outros homens desta base. Parabéns!"

Patinou ligeiramente no chão molhado ("fodasecaralho") e desapareceu nos vestiários.

Às quatro da manhã, K.C. O'Rourke acordou ao virar na cama e espreitou do alto do seu beliche para a cama inferior do beliche ao lado. Desse ângulo privilegiado e à luz fraquinha da lâmpada amarela que lhes servia de luz de presença na camarata, pareceu-lhe ver o brilho de olhos abertos - ou seriam lágrimas? O sono venceu-lhe a curiosidade e em poucos segundos tinha adormecido de novo.

Dirtside: Episódio 2

(Ao contrário do habitual, este comentário à sessão contém um resumo quase completo dos acontecimentos e da trama. Duas razões: uma, escrevi isto menos de 24h depois do jogo, de modo que as memórias eram bem mais frescas que o habitual; dois, a maioria dos acontecimentos relatados foram "quentes" e importantes para os pontos que pretendo abordar. De resto, e como de costume, o foco é mais no porquê das coisas acontecerem da maneira que aconteceram - e não estou a falar de nenhuma lógica in-game, apenas no porque dos jogadores/GM terem tomado as decisões que tomaram - em vez de propriamente as coisas que aconteceram.)

Este Domingo tivemos mais uma sessão em grande de Dirtside, a nossa série actual de PTA. Os suspeitos foram os do costume: o Jota, o Paulo, a Raquel e moi même. Primetime Adventures, e Dirtside em particular, estão a deixar-nos a todos abismados com o que é possível sacar dali, de um livrinho tão pequeno, de um sistema tão simples. Cada sessão é melhor do que a anterior, o que se me perguntassem na sessão anterior eu diria que era de todo impossível! Ou então é apenas o nosso cérebro que não aguenta tanta coisa boa ao mesmo tempo e tem de deixar algo para trás.

Este era um episódio potencialmente esquisito. Todos os três protagonistas tinham os seus Screen Presence a 1, o valor mínimo, significando isso que nenhum deles ia estar em grande destaque, ou que, pelo menos, os jogadores não iam ter grande controlo sobre o rumo dos acontecimentos porque não iam ter muitos dados para lançar. No entanto, como o produtor também está dependente dos SPs dos jogadores para construir o seu orçamento, não haveria um desequilíbrio notório a menos que eu estivesse disposto a gastar boa parte do orçamento. É que com um SP menor, o número máximo de dados dos jogadores por cada lançamento também é necessariamente menor (não é só o número total de recursos à disposição), enquanto no produtor esse máximo é sempre o mesmo (1 dado por default mais um máximo de cinco dados retirados do orçamento). Basta que o produtor tenha dados para gastar, claro!

Assim, este era talvez o episódio do Produtor, em que ele podia brilhar com efeitos especiais, cenários, NPCs e tramas mais rebuscadas para compensar o eclipse temporário do poder dos protagonista. O nosso resultado final nem foi muito diferente dos outros episódios, acho eu: desenvolveram-se significativamente (e de que maneira!) os story arcs de todos os três personagens por igual. A única diferença é que, talvez, me senti mais aos controles do destino dos jogadores porque, ao não chamar tantos conflitos (o orçamento era muito baixo e havia que poupar), eles ganhavam o direito de narrar coisas muito menos vezes também.

Mas, para a cena de abertura do episódio, tentei entrar em grande. Pegando numa simples sugestão do Paulo para fazer cair uma nave espacial ou algo assim, criei o meu próprio 11 de Setembro! Só que este aconteceu na cidade de Metropolis, no planeta Eden, onde decorre a acção de Dirtside. Uma nave espacial militar foi desviada por alguém (um militar, talvez um agente a soldo dos rebeldes) e em vez de aterrar na Firebase Omega, continua em frente para se atirar contra um dos edifícios mais imponentes da cidade... que, provavelmente não por acaso, é onde está sediada parte da infra-estrutura governamental do planeta.

A Raquel enquadrou a cena seguinte, colocando todos os protagonistas e alguns dos NPCs dentro desse edifício alguns minutos antes do desastre. E que podem estar eles a fazer? Ora bem, a celebrar (grande ideia, Raquel)! Um aniversário, nem mais. Várias coisas importantes aconteceram aqui: um, o aniversariante Daniel Fishburne, por quem Rita Jamieson, a personagem da Raquel, está a ficar apaixonada, não parece estar particularmente jovial e alegre; dois, a Némesis de Rita, a Sargento K.C.- já bastante tocada pela bebida - assedia a sua subordinada com bom e velho apalpão. E, antes que a Rita tenha tempo para abrir a boca, as janelas panorâmicas do bar mostram aquele colosso espacial vir direitinho ao sítio onde eles todos estão (é um trque de perspectiva, a nave acaba por acertar muitos andares mais abaixo, o que mesmo assim não é de todo tranquilizador)! KABOOOM!

Após algumas peripécias, os personagens acabam de se safar da arcologia em chamas, que arde num inferno de chamas que deixaria o próprio Nero, o incendiário de Roma, perplexo. Depois de o pó assentar mas antes que as cinzas arrefeçam completamente, é obviamente chegada a altura de a Federação organizar uma expedição punitiva aos níveis inferiores da cidade, onde os rebeldes que de certeza são os responsáveis pelo "acidente" se escondem nas sombras. Diferenças de ordem ideológica, chamemo-lhe assim, fazem com que o personagem do Jota (Tenente Viktor Ralek) seja removido do seu comando pelo capitão ainda antes da operação começar! É que, aparentemente, o nosso Viktor não está no exército para chacinar rebeldes junto com inocentes, mulheres e crianças; é caso para perguntar mas então porque raio é que ele se alistou, para ver o universo? :)

O Tenente Viktor Ralek é assim atirado temporariamente para um trabalho de secretária no centro de comunicações do comando móvel, enquanto aguarda um tribunal marcial. No comando do pelotão, ficou o personagem do Paulo (o Tenente William Jefferson) que, se estão recordados, é um agente rebelde infiltrado. Se ele pensava que comandar era fácil, então íamos agora provar-lhe como estava enganado. Devido à rapidez da execução dos planos dos militares e à lentidão das suas formas seguras de comunicação com o movimento rebelde, ele não pode avisar nenhum dos seus compatriotas sobre que zonas a operação militar ia ter como alvo. Azar!

A operação correu muito bem... excepto para os nossos três protagonistas favoritos, para os quais se transformou rapidamente naquilo que em linguagem militar se designa por um "clusterfuck" total. A cabo Rita Jamieson e o seu “amiguinho” Daniel Fishburne vêm-se a dada altura no meio de um ninho de vespas, que é como quem diz, um esconderijo rebelde. Já o Tenente William Jefferson, o nosso soldado-dedicado-que-é-na-verdade-um-rebelde, dá por si – acompanhado de dois dos seus soldados – a dar de caras com um dos braço-direitos do líder do seu movimento rebelde... e quando parecia que ele se ia safar sem grande problema, um dos soldados descobre o pequeno arsenal de armas e documentos comprometedores que o rebelde escondia lá em casa. Pronto, caldo entornado! Será que o nosso William vai conseguir safar o seu camarada rebelde desta situação? Ainda por cima, sem que William saiba, o Tenente Viktor Ralek, no centro de comunicações, está a seguir o percurso dos seus homens e está a manter um olho nesta situação.

Definiram-se os stakes, rolaram-se os dados, e deixámos o clusterfuck seguir o seu rumo. A cabo Rita Jamieson ia ser tomada prisioneira pelos rebeldes de qualquer maneira, mas o falhanço nos dados determinou que por causa dela o seu amiguinho do coração levou um tiro ao tentá-la proteger de uma bala que ela podia ter evitado se tivesse reagido mais cedo. O Tenente William Jefferson ia conseguir abater os dois soldados sob o seu comando, tal como pretendia, mas o falhanço dos dados determinou que um deles ficou vivo por uma unha negra, em coma profundo, possivelmente capaz de acordar mais à frente no episódio e contar ao mundo da traição do seu tenente. Já para o Tenente Viktor Ralek, ele conseguiu superar o desafio e o seu sucesso nos dados permitiu-lhe aperceber-se do que se estava a passar: viu pelas câmaras vídeo de um dos dois soldados o seu camarada Tenente Jefferson a disparar na direcção desse mesmo soldado, que caiu por terra.

Resultado final: o amigo rebelde de William conseguiu escapar , Viktor emitou (de forma pouco legal, já que ele estava removido da cadeia de comando) uma ordem de prisão, que foi de imediato cumprida, para William, e a nossa querida Rita viu-se dominada e levada como prisioneira por um grupo de rebeldes. Nada mau, huh? E lembrem-se que o jogo tinha acabado de começar! Não sei quantas vezes já disse isto, mas sou obrigado a dizê-lo outra vez: Primetime Adventures, meus amigos, é ouro puro!

A trama continuou a desenvolver-se a óptimo ritmo, levando um pontapé em frente com cada cena que produtor e jogadores iam chamando à vez. Houve uma grande peixarada com Viktor, William, e vários NPCs... Viktor e William esgrimiram argumentos e, por sua vez, levaram ambos na cabeça do General Jamieson, por terem colocado a sua filha na linha da frente e a terem deixado ser capturada. William conseguiu explicar minimamente as suas acções, apesar daquilo que Viktor testemunhou, e criou dúvidas suficientes para o caso ficar por ali até haver tempo para uma comissão de inquérito estudar formalmente o assunto. O soldado em coma, que poderia meter tudo em pratos limpos quando acordasse, foi colocado em vigilância apertada para não lhe acontecer nenhum "acidente". William/Paulo já conseguia sentir a corda com que se enforcam os traidores à volta do pescoço...

Quanto à nossa Rita, foi interrogada e um pouco amassada pelos rebeldes num interrogatório duro. Apesar do silêncio dela, o líder dos rebeldes acabou por aparecer e identificá-la como filha do General Jamieson, o comandante das forças armadas. Agora é que Rita não ia a nenhum lado... iam usá-la para chantagear o seu pai e todo o exército! Ela já estava a ver a sua vida a andar para trás quando surge o seu amiguinho Daniel Fishburne, NPC extraordinaire, que a vem acalmar e prometer-lhe que a vai libertar.

Daniel pelos vistos não é político, porque realmente não faltou ao prometido. Pela calada da noite, matou um dos seus camaradas rebeldes e conduziu Rita pelo labirinto de túneis onde os rebeldes se escondem até uma conduta de ar que Rita podia usar para escapar; Daniel iria ter com ela dali a algumas horas, para não lançar suspeitas sobre si. Rita e Daniel estão ali, próximos um do outro, a despedirem-se... A Raquel vê finalmente a sua oportunidade para introduzir um pouco de romance na história, e escolhe este momento para Rita revelar a Daniel os seus sentimentos por ele, com um longo e carinhoso beijo. Rita aproxima-se de Daniel, aproxima-se ainda mais, aponta os lábios dela aos dele, aproxima-se ainda mais e...

Daniel desvia-se no último segundo! Xiça, mas o homem é gay, ou quê? Rita está um pouco coberta de nódoas negras, feridas e arranhões, mas continua a ser uma mulher extremamente atraente. Os telespectadores estão ainda mais chocados do que a própria Rita/Raquel, que levou a tampa da sua vida. Este é dos momentos que mais me orgulho no episódio de Domingo; já tinha decidido que ela ia levar uma tampa do Daniel desde o início da sessão passada, e estava só à espera que ela fizesse o seu movimento certo para poder accionar o meu plano maléfico e contrariá-la. Foi perfeito; a forma como a Raquel iniciou a coisa, e a forma como eu a terminei assim tão abruptamente que apanhou todos os jogadores de surpresa. Pobre Raquel/Rita! Foi um golpe perfeito no seu issue de auto-afirmação; como é que ela se vai sentir mais confiante em si se o único homem que demonstrou algum interesse e amizade por ela não a quer beijar? Lindo!

A cena terminou com Rita e Daniel a despedirem-se um do outro, pouco à vontade; ele desconfortável por ela o ter tentado beijar, ela desconfortável por ele a ter recusado. Com problemas amorosos assim, quem é que ainda liga a conflitos entre rebeldes e federação por um estado mais democrático ou mais autoritário? É este o material com que se faz uma grande série e uma grande história, eheh.

A nossa série continua mais tarde, já com Daniel e Rita de regresso à base depois de algum tempo de cativeiro. Está a ser dada uma festa em honra da sua fuga arriscada e espectacular, mesmo por baixo das barbas daqueles rebeldes Bin Ladens de trazer por casa. Mal sabe toda aquela gente que Daniel é um rebelde infiltrado na unidade e que foi ele que os libertou aos dois; Rita é a única que sabe, já desde o final do episódio-piloto, mas ela não contou a ninguém porque Daniel é o único soldado em toda a porcaria daquele exército que a respeita pelo que ela é. No entanto, depois da tampa que Daniel lhe deu, ela está furiosa e considera seriamente a hipótese de denunciar Daniel às autoridades. Acaba, no entanto, por se acalmar e decide manter-se calada por mais uns tempos.

Este conflito interno que acabei de descrever passou-se todo ele na mente da Raquel/Rita (quando a Raquel está concentrada, ela é a sua personagem), mas tão forte foi e tão brilhante é o role-play dela que toda a gente na mesa sabia exactamente o que é que estava a passar-se no interior da sua cabeça. Esta nossa Raquel, a jogadora, é realmente um poço sem fundo de emoções! Nada pode dar mais prazer a um mestre de jogo do que vê-la contorcer-se por dentro enquanto os seus personagens tentam lidar com as situações difíceis que lhe aparecem no caminho. Eu, por mim, não me importava nada de a ver interpretar uma das suas personagens durante um longo e aborrecido jantar social que durasse horas... mas se calhar concordarão comigo que é ainda mais interessante e intenso vê-la interpretar os personagens quando estão entre a proverbial espada e a proverbial parede!

De volta à cena... Rita está a conversar com Daniel e a tentar perceber como deve interpretar a tampa que ele lhe deu, quando o Tenente William Jefferson (jogado pelo Paulo) se aproxima para cumprimentar o par pela sua fuga destemida. Algo estranho acontece então.... Daniel fica rígido e tenso, olhando o seu superior William fixamente enquanto ele conversa com Rita. A certa altura Daniel explode. Menciona, como se fosse a coisa mais importante do mundo, Chritine Sanders, a rebelde que William matou a sangue-frio no episódio anterior, e acusa William de assassinato, deixando implícito que tanto Daniel como William são rebeldes. Felizmente, ninguém mais no bar ouvir aquela pequena frase... afinal, aquilo é um bar de soldados, pelo amor de Deus!

Também me orgulhei muito deste momento intenso, em que apanhei todos os jogadores de forma inesperada. William é apanhado completamente de surpresa ao ver-se desmascarado, ali, por aquele soldado, em frente à filha do próprio comandante das forças armadas! No entanto, antes que ele possa fazer algo, Daniel lança pelos ares a mesa na qual os três estavam sentados e atira-se a William. Finalmente, uma cena de pancadaria num bar, woo-hoo! Soldado e tenente acabam por ser separados pelos colegas, e William acaba por convencer Daniel a ir lá fora tirar aquilo a pratos limpos. É um clusterfuck brutal nos esquemas de William; a sua identidade secreta está em perigo, a sua missão está em perigo, a sua própria vida está em perigo. E é um soldado aparentemente louco que o detesta quem tem a faca e o queijo nas mãos.

Há um complexa troca de palavras, mas não de mais murros, felizmente. William é capaz de matar tanto Daniel como Rita, para proteger a sua identidade, e é mesmo isso que ele diz a Daniel. Os dois acabam por se afastar sem chegarem a nenhum entendimento; ambos caminham autêntica corda bamba que um ou outro podem cortar a qualquer momento.

Rita também não está nada contente com o teor da conversa. Ela agora já sabe a identidade de dois rebeldes infiltrados no exército, um dos quais ela não tem qualquer desejo de proteger mas que, por outro lado, é capaz de a matar a qualquer momento para manter essa informação secreta. Rita puxa as orelhas a Daniel assim que este regressa da sua conversa privada com William, e os dois acabam por ter uma discussão em que não demora a tornar-se política. Daniel até carrega nalguns dos botões mais sensíveis de Rita, acusando-a de ter tido uma infância privilegiada e ter sido protegida dos males do mundo e da Federação pelo seu pai; milhões de outras pessoas, como Daniel, aparentemente não têm esse sorte e é por isso que ele luta ao lado dos rebeldes, apesar de estes também não serem exactamente anjos inocentes.

Entretanto, William continua fulo com a revelação da sua identidade secreta e vai tirar satisfações junto do líder do seu movimento rebelde. Ninguém era suposto saber a sua identidade, muito menos um rebelde emotivo capaz de algum acto tresloucado, e muito menos ainda a filha de um general da federação! William exige que o líder tome providências para o proteger, e pode começar por arranjar maneira de ultrapassar a segurança reforçada do hospital militar e matar o soldado em coma que o pode mandar para a forca se acordar.

Cena seguinte. É uma cena pessoal, pedida pelo Jota, de um jantar relativamente íntimo entre o seu Tenente Viktor Ralek e a sua amiga médica, Nadja Romanova. "Dá-me um bang," pede o Jota, e eu tenho o prazer de obedecer de imediato. Baseia-se numa ideia que já tinha desde que o soldado que sabe a verdade sobre William ficou em coma, ideia essa que depois ganhou uma e definição e inevitabilidade quando William pediu à resistência para tratarem eles próprios “da saúde” ao dito soldado. Agora, ao ouvir este pedido do Jota, a última peça do puzzle encaixou-se e soube exactamente quando (agora!) e como concretizar essa ideia. Foi algo de instantâneo; é algo de mágico quando a inspiração nos ataca assim, quando menos a esperamos.

Então vamos lá ao nosso jantar entre Viktor e Nadja. Nadja parece triste e distante, bastante longe do seu eu habitual. Viktor tenta perceber porquê, e a médica desculpa-se com o trabalho e o cansaço. Depois do desastre no início do episódio, trabalho realmente não lhe deve faltar; os feridos são aos milhares. Mas será só isso? Viktor, com a falta de tacto de alguém que viveu toda a sua vida na tropa, desvia então o assunto para o que realmente lhe interessa mais: o estado de saúde do soldado em coma. Nadja explica-lhe que ele morreu há algumas horas atrás e depois desfaz-se em lágrimas, confessando-lhe tudo e mais alguma coisa.

Foi ela quem o matou, estão a ver? A médica que jurara há anos fazer tudo para salvar vidas assassinou o seu próprio doente. "Explica-me tudo desde o início," pede – ou talvez "ordena" seja mais adequado – friamente Viktor à mulher quebrada pelo arrependimento que está à sua frente. Em algumas breves frases, ela conta a sua história, explicando como começou a ajudar a rebelião desviando medicamentos e efectuando tratamentos a quem deles necessitava, e como a coisa começou a crescer até a devorar, culminando naquele acto contra tudo o que acredita porque a convenceram que seria um pequeno sacrifício a fazer para salvar dezenas ou centenas de vidas de rebeldes e suas famílias.

Viktor ouve tudo isto impávido, e depois diz a Nádia para tirar uns dias de folga e sair do planeta enquanto ele arranja "uma solução". Como a dita "solução" ficou por especificar, todos os outros jogadores e o produtor estão a fazer apostas em como esta solução de Viktor/Jota envolve denunciar Nadja às autoridades antes ou depois de a usar para prender os rebeldes em troca de um perdão pelos seus actos de traição. Viktor/Jota pode acabar por não fazer isso, mas todos nós temos a certeza absoluta de que foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça e que só não vai ser a opção final dele se acontecer algo realmente importante que o faça mudar de opinião.

Isto lembra-me uma das intenções do jogo Sorcerer RPG, que é exactamente arranjar um termo de medida (a mecânica da Humanidade) para poder comparar a forma como os diferentes jogadores/protagonistas lidam com problemas de teor semelhante. Só que neste caso não há mecânica nenhuma, é mesmo algo que se pode ver facilmente a olho nu. De um lado temos a Raquel e a cabo Rita Jamieson, convictas do propósito maior da Federação mas que mesmo assim deixam que o amor e a amizade as impeçam de denunciar um traidor como Daniel Fishburne; do outro lado temos o Jota e o Tenente Viktor Ralek, que apesar de conhecerem bem o lado podre da Federação estão ainda assim dispostos a cumprir o seu dever para com ela, não deixando que algo tão emocional como amor ou amizade os impeçam de entregar Nadja Romanova às autoridades.

Engraçado, não é? E extremamente temático, também! Por isso, embora não tenha sido um pináculo de originalidade ou criatividade colocar a médica a despachar o doente ao seu cuidado, foi decididamente um dos muito momentos altos do jogo!

Enquanto isso, William Jefferson (personagem do Paulo) continua a espumar pela boca. Abrimos então uma cena com ele a instalar-se em casa de Veronica Johanssen, filha do senador que fora raptada, junto com o seu pai, no episódio anterior. O pai de Veronica fora assassinado pelos rebeldes, de modo que ela herdara aquele cargo praticamente vitalício; isto diz bastante do quanto a Federação está podre por dentro, quando um cargo supostamente democrático passa por hereditariedade... orgulhei-me bastante de ter introduzido este pormenor curioso no último episódio! Fora William quem a resgatara pessoalmente no episódio anterior, e os dois haviam engraçado com o outro (de tal modo, que ela substituiu um dos contactos na folha de personagem dele). William até já estava a começar a relaxar quando a Veronica lhe releva que o chamou ali para mais do que “socializar”: ela e outra pessoa querem falar com ele....

É a deixa para Jan Van Meyer entrar na sala com uns cocktails para toda a gente. Jan é alguém com peso no Special Branch (os serviços secretos da Federação), e é um dos contactos do personagem do Paulo. A Senadora e o Mestre dos Espiões têm uma proposta para William. Há uma terceira força a puxar os cordelinhos em Éden, para além da Federação e da Rebelião. São pessoas em cargos importantes que acham que a Federação precisa de um abanão, mas que não estão dispostos a deixar que a ralé anarquista tome conta dos destinos de planetas inteiros. São pessoas que andam a jogar um jogo perigoso, atirando os outros dois lados daquele triângulo um contra o outro para os tentar enfraquecer o suficiente antes de tentarem tomar conta das rédeas e dos destinos do universo conhecido. São pessoas que precisam de homens como William, dispostos a fazer o que é preciso, quando é preciso, sem problemas de consciência. São, quem sabe, as mesmas pessoas que desencadearam o atentado bombista no início do episódio-piloto e o atribuíram aos rebeldes; afinal de contas, o culpado era nem mais nem menos que um dos homens de Van Meyer, que acabou morto por uma bala certeira do próprio Van Meyer, antes de ter oportunidade de confirmar se realmente era um rebelde infiltrado. São também, talvez, as mesmas pessoas que planearam e organizaram o desvio da nave espacial que destruiu o edifício governamental no início deste episódio matando milhares de pessoas com um só golpe.

E são também as pessoas ao lado das quais William Jefferson quer estar, pelo menos por agora. Afinal, ele é um animal que pensa acima de tudo em si e na sua sobrevivência. São só Veronica e Jan têm pinta de pertencer ao lado que vai sair vencedor como ele próprio está algo queimado tanto dentro do exército da Federação como dentro da própria rebelião. A cena acaba como um brinde a três, às coisas boas que o futuro com certeza trará. Que tocante!

Esta coisa de o Jan Van Meyer estar a jogar ao mesmo tempo em dois campos (quais dois, três! ele tem espiões na Rebelião, trabalha para a Federação e está a brincar com um terceiro lado aos jogos de poder) é algo que já me tinha ocorrido desde que o Jota o criou. Esta coisa dos agentes secretos e espiões tem sempre contornos sinistros e nada é o que parece à primeira vista. Eu sei, eu via o The Agency no AXN! Daí que eu tenha desde logo, no episódio-piloto, aproveitado para plantar essa pequena semente com o traidor bombista (um dos homens de Jan), a fugir e a ser convenientemente morto por uma bala certeira de próprio Jan (os outros jogadores acertaram-lhe em pontos não-vitais).

Quanto à Senadora, também tenho um podre sobre ela que há-de ser revelado quando a altura certa surgir. Jan e ela estão bem um para o outro, e William Jefferson aparentemente também é perfeito para eles. Vamos ver no que dá esta sociedade improvável!

Para acabar o episódio, temos uma cena da Raquel. Estava toda a gente desejosa – há já para aí um ou dois episódios – para ver a Rita e o Daniel na cama, e finalmente parecia chegada a altura. Os dois ainda ficaram com muita coisa por discutir, e combinam um encontro num local discreto para colocarem tudo em pratos limpos... o local discreto não por acaso é um quarto de hotel de terceira categoria onde ninguém faz perguntas e o check-in é anônimo. Depois de mais uns puxões de orelhas de Rita a Daniel, que parece mais calmo, aquela magia no ar começa a formar-se... quase que conseguimos imaginar os nossos telespectadores a aproximarem-se do ecrã, fazendo figas para ver se é desta que Rita e Daniel se beijam e ultrapassam aquela tensão sexual entre os dois.

E acontece mesmo! Desta vez Daniel não foge nem desvia a cara, e os dois beijam-se finalmente, com Daniel a retribuir o gesto de Rita. Mas, também, que homem é que resistiria a uma mulher tão bonita e feminina como Rita Jamieson, agora que ela não está coberta de nódoas negras e, especialmente, minutos depois de ela lhe ter dito para ter juízo antes que ela o entregasse ao pai dela para o enforcar como um traidor da Federação? Eu sei que nessa situação de certeza que não diria que não, e vocês? :)

Aqui eu decidi terminar a cena e o episódio com um último conflito. O issue de Rita Jamieson é auto-afirmação, de modo que fiz pontaria para isso e lhe coloquei os stakes à frente: se ela ganhasse o lançamento, Daniel sentia-se genuinamente atraído por ela e não havia ali nada de discordante; se ela perdesse, a coisa não seria tão clara... de que maneira? Bom, isso eu não quis especificar e preferi guardar a surpresa. :)

Eu investi os cinco pontos máximos de orçamento neste roll, que eram também os últimos cinco pontos de orçamento que me restavam. Se vos disser que o meu orçamento começou com nove pontos, podem facilmente julgar a importância que este conflito tinha para mim: investi mais nele e nesta cena do que nos conflitos do resto do episódio juntos! A pobre Raquel só conseguiu reunir dois ou três dados, contando com Fan Mail; é duro ter o Screen Presence a 1 e chegar ao fim do episódio com poucos cartuchos, não é? Eheh.

Ganhei o conflito facilmente, e também a narração. Agora podia largar a minha surpresa em cima da Raquel. Deixei a cena desenrolar-se, mantendo o suspense: os dois personagens continuaram agarrados um ao outro, a explorarem-se apaixonadamente, com as suas roupas a voarem pelos ares à velocidade máxima com que as conseguiam despir. Corta para mais tarde, com os Rita e Daniel deitados na cama, já depois do acto. Daniel parece genuinamente feliz por estar com Rita, e isso deixa-a feliz a ela; ele parece estar alegre e confiante, de uma forma como ela não o via há muito tempo, e isso deixa-a a ela alegre e confiante. Parece que ambos estão num pequeno paraíso só deles naquele planeta árido e hostil que alguém chamou, como ironia de muito mau-gosto, Éden.

Daniel levanta-se da cama, veste-se e diz que vai buscar comida para ambos. Depois despede-se de Rita com um “Até já, Christine” e sai do quarto completamente alheio ao facto de que acabou de chamar o nome errado à mulher de quem está supostamente enamorado... Ouch!

Vamos somar 1 + 1? Então é assim, Daniel era o acompanhante de Christine Sanders quando no episódio 1 da série ela foi vista a falar com criminosos a propósito do rapto do Senador Johanssen e da sua filha Veronica. Depois temos a cena em que ele causou um escarcéu com William Jefferson por causa de este ter morto a mesma Christine antes que esta tivesse oportunidade de ser torturada pela Federação e comprometer o movimento rebelde. Depois temos o facto de ele ter andado triste e retraído desde o último episódio (em que Christine morreu); nem sequer o seu aniversário o alegrou. Por fim, é reveladora a forma inesperada como ele evitou aquela primeira tentativa de Rita para o beijar. Pois é, amigos, aparentemente o Daniel e a tal Christine eram bem mais que camaradas no movimento rebelde! Irmão, se calhar? Estão a ficar perto, mas ainda não estão lá. Continuem a tentar, eheh!

Não vos vou contar a cara da Rita/Raquel quando Daniel disse aquelas três inocentes palavras e fechou a porta atrás de si. Não dá, é simplesmente indescritível com meras palavras; tinham de ter lá estado. Foi algo de incrível. Temo pela sanidade mental da Rita, e especialmente pelo bem-estar físico do Daniel... se o olhar matasse, ele tinha sido desintegrado como se uma bomba atómica tivesse explodido nas suas costas! Ficou toda a gente em pulgas para ver o que é que se vai passar entre eles no próximo episódio!

Este foi, para mim, o grande momento dos muitos e constantes momentos grandes que houve nessa sessão. Como podem ver, não é nada do outro mundo. Um gajo a fugir a um beijo de alguém o ama, porque quer manter-se um bom amigo e não tornar-se um amante. Um gajo que troca, sem sequer se aperceber, o nome da actual companheira pelo nome da mulher que realmente tem no coração. Um amigo(a) que se revela um traidor(a), etc.

É tudo simples. Tudo coisas que estamos fartos de ver na TV, no cinema, de ler nos romances que temos na mesa de cabeceira. Mas já pensaram que a razão porque os vemos tantas vezes é, simplesmente, porque realmente são gestos/eventos universais, que retractam coisas que já todos sentimos, e que trazem com eles uma enorme carga emocional? Vocês não precisam de descobrir a pólvora outra vez; só têm de lhe dar um aspecto novo e evitarem cair na previsibilidade. Nem sequer nenhum dos issues dos nossos protagonistas é original: auto-afirmação, lealdade, vingança... todos, em particular o último, já estão tão fartos de ser tratados e retractados que já deviam estar mortos de cansaço por esta altura. No entanto, povoam o nosso imaginário desde o início dos tempos, e continuarão a fazê-lo até deixar de existir uma civilização.

É uma questão de timing e sensibilidade. Timing para saber quando aplicar a pólvora: normalmente quando o jogador está com a atenção focada noutro problema. É por isso que as séries de aventura/acção e desenvolvimento de personagem que o PTA procura emular são um material tão bom; porque, por definição, a parte da aventura/acção dá-nos automaticamente algo com que distrair o jogador e pô-lo a olhar para um lado da estrada enquanto o camião TIR que de facto o vai atropelar está a aproximar-se vertiginosamente a 300 à hora por trás dele. Sensibilidade, para saber como aplicar essa pólvora de modo a explorar melhor a vulnerabilidade do jogador e evitar a vulgarizar o momento. Ter o Tenente Viktor Ralek a descobrir por acaso, por portas e travessas, que a sua amiga/apaixonada é uma traidora à Federação nunca seria, de longe, tão poderoso como ele descobrir apenas porque ela própria, que pelos vistos confia nele para a julgar e tomar a melhor decisão por ela, lhe veio confessar tal abominação coisa a ele, lavada em lágrimas e arrependida até ao fundo da sua alma. A prova cabal disto é que o Jota não a mandou prender de imediato! Na verdade, até lhe disse para abandonar aquele planeta por uns tempos (possivelmente para ele se esquecer que ela existe e, por consequência, que é uma traidora que ele devia mandar prender).

Enfim, resumindo, foi outra sessão de PTA espectacular. Este grupo de jogadores e produtor está com uma química explosiva que não vos conto!

Próximo Domingo, temos o episódio spotlight do Paulo / William Jefferson, com Screen Presence a 3. O seu issue é a Vingança que ele quer obter a todo o custo pelo que fizeram à sua mulher e criança. Todos os Next Week On criados no final deste episódio lidam directamente com esse issue, ou pelo menos com o William Jefferson. À partida, vejo duas grandes hipóteses: ou ele de facto obtém a sua vingança não importa o custo, ou encontra dentro dele a capacidade de perdoar ou compreender o acontecimento de forma a que a possa finalmente deixar descansar em paz os espíritos da sua mulher e criança sem que tenha de haver mais derramamento desnecessário de sangue. A minha função vai ser tornar ambos os caminhos atractivos/difíceis por igual para criar realmente um dilema significativo no jogador... neste momento, parece que nada se pode colocar entre William e o seu desejo cego de vingança. Já deu para ver que nada parece ser forte o suficiente meter entre ele e os seus objectivos. Mas ainda assim eu vou tentar dar-lhe um desafio... vamos ver se consigo!

De resto, nesse episódio a Raquel vai ter Screen Presence a 2, pelo que a história dela também vai levar um pontapé para a frente, até porque o episódio seguinte vai ser o spotlight dela! Já o Jota, com Screen Presence a 1, provavelmente ficará mais pelas sombras, mas vamos também tentar que o seu Viktor tenha mais para fazer do que se limitar a ser um sidekick... porque quando chove, troveja, e cai pedra e granizo, deve ser para todos! ;)

Portanto Domingo, 16:00 da tarde, não percam mais um fabuloso episódio de Dirtside na vossa televisão!

Dirtside: Episódio 3 - Cena 1: Reunião Familiar

O Ricardo e eu não conseguimos resistir a continuar Dirtside enquanto não chegava a sessão habitual dos Domingos à tarde. A solução foi jogar uma cena em que a Rita e o seu irmão se reencontrassem, através do ICQ (!).

A cena decorre logo após a Cena de Abertura do Episódio 3, depois de o genérico passar, e o que se segue é o texto depois de retiradas as partículas intrínsecas do ICQ e que não fazem aqui falta. Tem um ritmo diferente dos textos anteriores, mas espero que ainda assim tenha algum valor de entretenimento.

Este é um documento polido muito ao de leve; se estiveram interessados podem ler o log do chat original e ver a cena tal e qual como ela foi criada em tempo real, com os comentários e reacções dos intervenientes para juntar às reacções dos personagens. Também podem ler os comentários do Ricardo sobre a criação desta cena.

O fade-in depois do genérico revela o ambiente confortável da Sala dos Tempos Livres e a sua constante actividade acolhedora. Soldados a ver TV, a jogar cartas, a beber um copito, a atirar provocações amigáveis... Mas a um canto, uma das mesas transformou-se numa pequena ilha de calma.

A câmara foca a cara da Cabo Rita Jamieson. Tem olheiras e um ar entre o abatido e o irritado. Em cima da mesa está um maço de tabaco, e os dedos ágeis da Rita brincam com um cigarro, voltam a guardá-lo, voltam a tirar, batem com ele na mesa, levam-no aos lábios, brincam com um isqueiro, desistem e voltam a poisar o cigarro no tampo. Rita olha para o cilindro de tabaco e papel com um carregar de sobrolho.

"O Pai sabe que tu fumas?" pergunta uma voz familiar vinda de trás de si. Num reflexo impensado, daqueles que vêm da infância, Rita move a mão para tapar o objecto proibido com um guardanapo antes de sequer se aperceber que a voz não pertence àquela base. Gira na cadeira, perdendo num ápice a expressão macambúzia para a substituir por um sorriso deliciado. "Francis?!"

Sim, é mesmo o seu irmão favorito que se aproxima, acompanhado por Lily Wong. Francis está quase tal e qual como ela se lembra; ainda parece um miúdo! A única adição são mesmo as riscas fresquinhas de capitão que ele traz ao ombro. Francis está com um sorriso de orelha a orelha. "Pensei que me fosses esperar ao cais... Pelos vistos há coisas que nunca mudam no exército; cheguei primeiro que a mensagem que anunciava a minha vinda!"

E assim de um momento para o outro Rita parece rejuvenescer, ou pelo menos rejubilar. Levanta-se de um salto, com um sorriso igualzinho ao do irmão e lança-se para lhe dar um abraço apertado. "Não fazia ideia que vinhas!" confirma ela, de facto. "Não me chegou nada às mãos, mas também neste buraco já nada me surpreende."

Ela afasta-se e olha o irmão de alto a baixo. "E Capitão, ainda por cima!" comenta, com uma piscadela de olho à Lily. "Que raio fazes por aqui? Ah, e senta-te - sentem-se. Toma alguma coisa. Fica por minha conta."

Rita faz-se esquecida do cigarro que ficara abandonado na mesa. "Eu fico com isto," diz Lily, agarrando o cigarro e acendendo-o. "Ufa, estou mesmo a precisar! Aquilo lá fora está uma loucura; se a KC te apanha por aqui, ai põe-te a descarregar contentores, de certeza! Bom, eu trago as bebidas."

Lily dirige-se ao balcão, deixando os dois irmãos a sós por alguns momentos. Francis ainda não parou de sorrir. "Olha para ti, maninha. Cresceste! E esse cabelo, está mais curto, huh? Como é que está o velhote?"

Vinda da Lily, a menção do nome "KC" provoca apenas um arquear de sobrancelhas satisfeito, como quem diz 'ainda bem que ela ainda não me apanhou, então'. Mais uma piscadela de olho serve de agradecimento à amiga. Também ela observa o irmão atentamente. "Ora, disparate. Parei de crescer há anos. Tu é que pareces mais crescido com esses enfeites aí aos ombros. Eu cá não saio da cepa torta."

O comentário é feito em tom de brincadeira, mas logo ela fica mais séria e se encosta mais para trás na cadeira à menção do pai. "O pai está bom, acho eu." Rita encolhe os ombros e franze ligeiramente o sobrolho. "Oh, sabes como ele é: mal o vejo e ainda assim faz-me a vida num inferno. Se não tenho cuidado ainda acabo atrás de uma secretária." Um olhar mais duro indica o desprezo que ela sente pela ideia.

"O velhote é rijo e rígido, temos de admitir. Presumo que ainda não te perdoou então pelo que aconteceu na academia?" Francis ri-se, sem alegria. "Como se aquilo o tivesse afectado de alguma maneira ou o seu currículo tivesse sido manchado porque a sua filha cometeu um erro. Deixa lá, um dia ele há-de perceber que tu foste a principal afectada pelo que aconteceu."

"Pois," diz a Rita num suspiro. O olhar dela fica mais triste e distante, quiçá perdida em recordações menos alegres. Depois um sorriso triste, e um olhar de esguelha. "Se não fosses tu," diz ela, "acho que eu dava em doida."

E é nessa altura que a Lily chega com as três bebidas e uma dose de boa disposição. "Ora cá está," diz ela, poisando os copos e sentando-se numa das cadeiras livres. "Às reuniões de família," propõe ela o brinde, erguendo o seu copo com um grande sorriso e emborcando.

Com apenas um pouco menos de entusiasmo, Rita segue-lhe o exemplo. "À tua saúde, Francis."

Lily poisa o copo e vira-se para a Rita. "Caramba, Rita," diz ela meio a sério, meio a brincar, "tens de me explicar como é que o teu irmão sabe que tu e o Fishburne namoram mas eu, a tua melhor amiga, não sei de nada? A primeira coisa que ele me pergunta, depois de eu lhe ter dito onde estavas, é se o Daniel também cá está! Que coisa! Quando é que vocês começaram? Já vos tinha visto a fazer olhinhos, mas não pensei que já fosse oficial!"

"O quê?" pergunta Francis surpreendido. "Tu e o Daniel? Macacos me mordam! Ora isso é que são novidades que dá prazer ouvir!"

Primeiro, a Rita engasga-se com a bebida, de tal modo que lhe vêm as lágrimas aos olhos e tem de ficar a tossir uns momentos. Naturalmente, aproveita o tempo para pensar numa resposta. Ninguém sabia que eles tinham dormido um com o outro, certo? Como raio chegara a notícia a estes dois assim tão depressa? Rita endireitou-se na cadeira e pigarreou.

"Desculpem, entrou pelo cano errado," explicou, apontando vagamente na direcção do copo. "Não posso dizer que sejamos namorados," esclareceu, apontando um olhar de esguelha à Lily, tentando medir o quanto ela saberia de facto. E nessa altura ela apercebe-se do entusiasmo do irmão. "Mas porquê?" pergunta, intrigada. "De onde vem o interesse súbito pelo Fishburne?"

"Eu e o Daniel conhemo-nos de passagem em missão," diz Francis, o seu olhar perdido na escuridão de um passado que não pode ser tão distante assim. "Salvou-me a pele, por assim dizer, quando eu ainda era um Alferes virgem-em-combate. Ele ainda é cabo? Merecia bem melhor. Vou ter de lhe pagar uns copos. Mas... tu e o Daniel? Ainda não acredito! Malandro, com a minha maninha mais nova! Ah! Mas fico contente, a sério. Ele é um óptimo rapaz, de certeza que vai cuidar bem de ti!"

"Êê, não te entusiasmes muito," avisa a Rita, ainda meia rouca de se ter engasgado. "Isso é mais rumor que outra coisa." E mais uma vez o olhar dela volta a ficar um pouco mais sombrio, apesar dela tentar disfarçar com boa disposição.

Para cobrir o seu embaraço, Rita emborca mais um gole de bebida e muda de assunto. "Mas ainda não me disseste afinal que fazes por aqui. Vens em turismo?" O tom irónico traz um sorriso. Ninguém vem a Éden em turismo. Aqui só há pó e rebeldes.

"Caramba, Rita," diz Lily, "tens mesmo andado com a cabeça na lua! Todos os soldados que não são coxos das duas pernas mais as mães deles estão a ser enviados para o nosso planeta. Não tens ouvido os motores lá fora? Vai ser assim hoje o dia todo."

"Sim, é isso," confirma Francis. "A minha unidade está cá colocada, pelo menos por agora. Fogo, e o velhote deve estar furioso. Ouvi dizer que vem um Almirante para assumir o controlo das forças do planeta. E o pai, que já antes não podia com os tipos da Marinha!"

De facto a Rita abana a cabeça com um ar abananado. "Não, não tinha dado por nada." Ouve as explicações dos outros dois e faz uma expressão duvidosa. "Então mas o que se passa para trazer cá tanta gente? Pensava que o acidente da nave ia ser o que de mais excitante acontecia por aqui nos próximos tempos. Que aconteceu agora?" Agora é que iam ser elas, se o pai ficava de mau humor a sério.

"Acidente, Rita?" pergunta Francis. "Os rebeldes mataram milhares de pessoas: homens, mulheres e crianças. O governo ainda tentou impedir a divulgação das imagens da arcologia em chamas, mas foi impossível. Agora precisam de umas imagens que façam esquecer essas; a Federação quer-nos cá para limpar o sebo à escumalha rebelde toda de Eden, e quer que fiquemos bem na câmara enquanto o fazemos!"

Rita faz um ar preocupado. "Sim, eu sei. Estava lá, alguns andares mais acima, quando o mostrengo se despenhou. Estávamos a celebrar o aniversário do Fishburne, acreditas?" Soltou um sopro suave, para afastar a franja de um olho. "Não tinha pensado nisso, nas consequências." E de facto que consequências. Escumalha rebelde. Francis nem sonharia que com essas palavras incluia o amiguinho Fishburne no grupo dos que deveriam ser exterminados. "Mas lá para ficar bem na câmara mandaram vir a pessoa certa," adiantou ela, numa tentativa de aliviar o ambiente que se tornara mais pesado ali na mesa.

"Dizem que a vão decretar a lei marcial - para juntar ao recolher obrigatório - ainda esta tarde," comenta Lily.

"É chato, não é?" oferece Francis.

Lily ri-se. "Bom, não vai ser assim tão diferente do regime anterior."

"Ha, lá isso é verdade!" ri-se Francis com gosto. De súbito olha para trás de Rita (ela tem mesmo de começar a sentar-se de costas para a parede) e berra: "Ei, Daniel, seu sacana. Traz uma rodada e junta-te a nós!"

A cara séria que a Rita tinha posto para falar dos assuntos militares desfez-se para dar lugar primeiro a sobressalto e depois a um sorriso que não convencia ninguém. Conseguiu resistir a olhar para trás - não queria denunciar nada a ninguém, e muito menos ao Daniel. Sem que desse por isso, já tinha sacado de outro cigarro e estava a brincar com ele, batendo levemente com a ponta do filtro no tampo da mesa. Que deveria ela fazer? Que ia o Fishburne fazer? Ai, que confusão...

Daniel aproxima-se com as bebidas e poisa-as na mesa. Olha para Rita por um segundo ou dois, incerto de como proceder. Francis dá-lhe um aperto de mão que de imediato se torna num abraço de camaradagem. "Seu sacana, ainda és cabo, estou a ver. E ainda tens sorte com as loiras, também! A filha do general, com que então? Mas o que é que fizeste à outra, huh? Não estás a escondê-la da minha irmã, não?"

A própria Rita levantou o olhar para o companheiro de armas e hesitou um pouco quanto à reacção. Justamente quando ia fingir que tudo estava bem e normal e ia colocar um sorriso mais simpático na cara, o irmão sai-se com uma referência à sua rival morta - ou pelo menos ela assim o interpreta. Rita fica mais pálida, baixa o olhar e tamborila com o cigarro na mesa. Por um momento fugaz, quase despercebido, Rita fulmina o cigarro com o olhar, antes de conseguir controlar as emoções perante o irmão e a melhor amiga.

Daniel responde a Francis com um sorriso - bastante amarelo, diga-se - e aproxima-se de Rita, colocando-lhe uma mão no ombro, perto do pescoço. É um gesto de protecção e de conforto? Ou é uma pequena "lembrança", ou até ameaça, para que ela não vá dizer algo que o possa comprometer?

A reacção instintiva dela é ficar mais tensa. As memórias do final daquela noite vêm-lhe ao de cima com violência. Rita tem de se forçar a descontrair para não estragar a festa ao irmão. Como gostaria que fosse um gesto de conforto! Mas então é nessa altura que a ideia a atinge de súbito: o Daniel não retirou a mão logo, e estão ali no meio de toda a gente, estão em público e ele não finge que não a conhece!

Rita pestaneja duas vezes, rola o cigarro entre dois dedos e guarda-o no maço. Gradualmente descontrai sob o toque do companheiro, e consegue até um sorriso fraco.

Daniel senta-se ao lado de Rita. Vê-a sorrir; não é um sorriso grande, mas é sentido, e isso basta para ele sorrir também. Os dois ficam a olhar para os olhos um do outro durante muito tempo, trocando mensagens no mais perfeito silêncio. Em seu redor, os ruídos do bar continuam. É como se ninguém estivesse a reparar neles, ou achasse a sua relação perfeitamente natural. Mesmo Francis e Lily, a menos de um metro de distância, parecem alheios ao casal, tão entretidos que estão a conversar e a rir entre os dois.

Ao aperceber-se que poderão estar a dar demais nas vistas, Rita sorri embaraçada e desvia o olhar para o irmão. Mas por baixo da mesa, agora que está mais descontraída e aliviada, ela muda para uma posição mais confortável e deixa que o seu joelho toque no do Daniel. O contacto, apesar de mínimo, é confortante, e parece trazer de volta o sorriso despreocupado dela. Com mais um golinho de bebida, ela não tarda a embrenhar-se na conversa entre o irmão e a amiga. Daniel não demora mais do que alguns segundos a trazer discretamente uma das suas mãos para debaixo da mesa, e poisa-a na perna de Rita.

CORTA!!!!

Dirtside: Episódio 3 - Log do chat da Cena 1

Eowyn (10:36 PM) : Falando em pachorra... Tás com pica para discutir/fazer cena de PTA? Eu ainda estou meia vidrada na coisa :-)

Ricardo (10:38 PM) : claro! :-)

Eowyn (10:40 PM) :És mesmo um gajo porreiro! ;-)
Então que vamos fazer?
<esfrega as mãos em antecipação>

Ricardo (10:42 PM) : bom, eu já fiz a cena de abertura! :-)

Ricardo (10:42 PM) : agora és tu :-)

Ricardo (10:43 PM) : Character/Plot, Local, Objectivo... you know the drill! :-)

Eowyn (10:44 PM) :Mas... por onde pego nesta coisa? Fazemos a cena do convívio? Não será uma pena os outros perderem isso?
Ou então paciência e lêem no Turno da Noite ;D

Ricardo (10:45 PM) :como preferires! ;-)

Eowyn (10:47 PM) :Então eles que se lixem que eu estou ansiosa de ver o que sai daqui.
Então temos uma cena pessoal, passada na Recreation Room da base, onde a Rita passa quase todo o seu tempo livre. Objectivo: introduzir o Francis na história e lançar aquele desconforto Rita/Daniel que falámos há pouco. Parece-te bem?

Ricardo (10:50 PM) :Soa óptimo!

Ricardo (10:50 PM) :Okay... RR... quem é que já está antes do Francis aparecer? Ou estás sozinha?

Eowyn (10:51 PM) :Estou sozinha (para variar) a uma mesa. Deve haver mais gente (figurantes) espalhados pela sala. Faço a descrição do ambiente?

Ricardo (10:52 PM) :se quiseres! [já agora, como estás com o Fishburne? ainda se falam?]

Eowyn (10:55 PM) :Falar falamos, mas não sei bem em que termos. Se calahr ainda estamos a apalpar o terreno ao pé um do outro. Mas pelo menos a nível de trabalho ela fala normalmente com ele - talvez ligeiramente mais distante e/ou triste.
Suponho que ela tenha tentado disfarçar o desaire junto do resto da base. Não deveria haver muito quem soubesse da relação deles, tirando amigos chegados e pessoal muto observador ;-)

Ricardo (10:55 PM) :roger that!

Ricardo (10:56 PM) :Então Rita está na Recreation Room, sentado sozinha a uma mesa a fazer... o quê, mesmo?

Eowyn (11:00 PM) :O fade-in depois do genérico revela o ambiente acolhedor da Sala dos Tempos Livres e a sua constante actividade acolhedora. Soldados a ver TV, a jogar cartas, a beber um copito, a atirar provocações amigáveis...
Mas a um canto, uma das mesas transformou-se numa pequena ilha de calma. A câmara foca a cara da Cabo Rita Jamieson. Tem olheiras e um ar entre o abatido e o irritado. Em cima da mesa está um maço de tabaco, e os dedos ágeis da Rita brincam com um cigarro, voltam a guardá-lo, voltam a tirar, batem com ele na mesa, levam-no aos lábios, brincam com um isqueiro, desistem e voltam a poisar o cigarro no tampo. Rita olha para o cilindro de tabaco e papel com um carregar de sobrolho.

Ricardo (11:01 PM) :"O Pai sabe que tu fumas?" pergunta uma voz familiar vinda de trás de si.

Eowyn (11:02 PM) : A propósito: até agora ainda não se tinha visto a Rita com cigarros, na série. Será que vai voltar a fumar por culpa do Fish? ;-)

Eowyn (11:05 PM) :Num reflexo impensado, daqueles que vêm da infância, Rita moveu a mão para tapar o objecto proibido com um guardanapo antes de sequer se aperceber que a voz não pertencia àquela base. Girou na cadeira, perdendo num ápice a expressão macambúzia para a substituir por um sorriso deliciado.
"Francis?!"

Ricardo (11:10 PM) :Sim, é mesmo o seu irmão favorito que se aproxima, acompanhado por Lily Wong.
Francis está quase tal e qual como ela se lembra; ainda parece um miúdo! A única adição são mesmo as riscas fresquinhas de capitão que ele traz ao ombro. Francis está com um sorriso de orelha a orelha.

Ricardo (11:12 PM) :"Pensei que me fosses esperar ao cais... Pelos vistos há coisas que nunca mudam no exército; cheguei primeiro que a mensagem que anunciava a minha vinda!"

Eowyn (11:15 PM) :E assim de um momento para o outro Rita parece rejuvenescer, ou pelo menos rejubilar. Levanta-se de um salto, com um sorriso igualzinho ao do irmão e lança-se para lhe dar um abraço apertado.
"Não fazia ideia que vinhas!" confirma ela, de facto. "Não me chegou nada às mãos, mas também neste buraco já nada me surpreende."
Ela afasta-se e olha o irmão de alto a baixo. "E Capitão, ainda por cima!" comenta, com uma piscadela de olho à Lily. "Que raio fazes por aqui? Ah, e senta-te - sentem-se. Toma alguma coisa. Fica por minha conta." Rita faz-se esquecida do cigarro que ficara abandonado na mesa.

Ricardo (11:22 PM) :"Eu fico com isto," diz Lily, agarrando o cigarro e acendendo-o. "Ufa, estava a precisar disto! Aquilo lá fora está uma loucura; se a KC te apanha por aqui, ai põe-te a descarregar contentores, de certeza! Bom, eu trago as bebidas." Lily dirige-se ao balcão, deixando os dois irmãos a sós por alguns momentos.
Francis ainda não parou de sorrir. "Olha para ti, maninha. Cresceste! E esse cabelo, está mais curto, huh? Como é que está o velhote?"

Eowyn (11:30 PM) :Vinda da Lily, a menção do nome "KC" provoca apenas um arquear de sobrancelhas satisfeito, como quem diz 'ainda bem que ela ainda não me apanhou,então'. Mais uma piscadela de olho serve de agradecimento à amiga.
Também ela observa o irmão atentamente. "Ora, disparate. Parei de crescer há anos. Tu é que pareces mais crescido com esses enfeites aí aos ombros. Eu cá não saio da cepa torta." O comentário é feito em tom de brincadeira, mas logo ela fica mais séria e se encosta mais para trás na cadeira à menção do pai.
"O pai está bom, acho eu." Rita encolhe os ombros e franze ligeiramente o sobrolho. "Oh, sabes como ele é: mal o vejo e ainda assim faz-me a vida num inferno. Se não tenho cuidado ainda acaba atrás de uma secretária." Um olhar mais duro indica o desprezo que ela sente pela ideia.

Ricardo (11:35 PM) :"O velhote é rijo e rígido, temos de admitir. Presumo que ainda não te perdoou então pelo que aconteceu na academia?" Francis ri-se, sem alegria. "Como se aquilo o tivesse afectado de alguma maneira ou o seu currículo tivesse sido manchado porque a sua filha cometeu um erro. Deixa lá, um dia ele há-de perceber que tu foste a principal afectada pelo que aconteceu."

Ricardo (11:36 PM) :[se não tiveres nada para responder a isto, volta a Lily, entretanto]

Eowyn (11:41 PM) :"Pois," diz a Rita num suspiro. O olhar dela fica mais triste e distante, quiçá perdida em recordações menos alegres. Depois um sorriso triste, e um olhar de esguelha. "Se não fosses tu," diz ela, "acho que eu dava em doida."
E é nessa altura que a Lily chega com as três bebidas e uma dose de boa disposição. "Ora cá está," diz ela, poisando os copos e sentando-se numa das cadeiras livres. "Às reuniões de família," propõe ela o brinde, erguendo o seu copo com um grande sorriso e emborcando. Com apenas um pouco menos de entusiasmo, Rita segue-lhe o exemplo. "À tua saúde, Francis."

Ricardo (11:46 PM) :Lilly poisa o copo e vira-se para Rita. "Caramba, Rita," diz ela meio a sério, meio a brincar, "tens de me explicar como é que o teu irmão sabe que tu e o Fishburne namoram mas eu, a tua melhor amiga, não sei de nada? A primeira coisa que ele me pergunta, depois de eu lhe ter dito onde estavas, é se o Daniel também cá está! Que coisa! Quando é que vocês começaram? Já vos tinha visto a fazer olhinhos, mas não pensei que já fosse oficial!"

Ricardo (11:47 PM) :"O quê?" pergunta Francis surpreendido. "Tu e o Daniel? Macacos me mordam! Ora isso é que são novidades que dá prazer ouvir!"

Eowyn (11:54 PM) :Primeiro, a Rita engasga-se com a bebida, de tal modo que lhe vêm as lágrimas aos olhos e tem de ficar a tossir uns momentos. Naturalmente, aproveita o tempo para pensar numa resposta. Ninguém sabia que els tinham dormido, certo? Como raio chegara a notícia a estes dois assim tão depressa?
Rita endireitou-se na cadeira e pigarreou. "Desculpem, entrou pelo cano errado," explicou, apontando vagamente na direcção do copo. "Não posso dizer que sejamos namorados," esclareceu, apontando um olhar de esguelha à Lily, tentando medir o quanto ela saberia de facto.
E nessa altura ela apercebe-se do entusiasmo do irmão. "Mas porquê?" pergunta, intrigada. "De onde vem o interesse súbito pelo Fishburne?"

Ricardo (12:00 PM) :"Eu e o Daniel conhemo-nos de passagem em missão," diz Francis, o seu olhar perdido na escuridão de um passado que não pode ser tão distante assim. "Salvou-me a pele, por assim dizer, quando eu ainda era um Alferes virgem-em-comabte. Ele ainda é cabo? Merecia bem melhor. Vou ter de lhe pagar uns copos. Mas... tu e o Daniel? Ainda não acredito! Malandro, com a minha maninha mais nova! Ah! Mas fico contente, a sério. Ele é um óptimo rapaz, de certeza que vai cuidar bem de ti!"

Eowyn (12:08 PM) :"Ê, não te entusiasmes muito," avisa a Rita, ainda meia rouca de se ter engasgado. "Isso é mais rumor que outra coisa." E mais uma vez o olhar dela volta a ficar um pouco mais sombrio, apesar dela tentar disfarçar com boa disposição. Para cobrir o seu embaraço, Rita emborca mais um gole de bebida e muda de assunto.
"Mas ainda não me disseste afinal que fazes por aqui. Vens em turismo?" O tom irónico traz um sorriso. Ninguém vem a Éden em turismo. Aqui só há pó e rebeldes.

Eowyn (12:09 PM) :[Desculpa a demora. Estava a fazer copy/pastes - pensei que bastava um comando para o gajo exportar o histórico todo mas afinal não :P]

Ricardo (12:09 PM) :[ora, então esquece isso... eu posso fazer copy&paste de toda a janela ao mesmo tempo!]

Eowyn (12:10 PM) :[Ai sim? Bom, agora ja fiz quase tudo, já não custa. Mas podes fazer tu tb. Se calhar até fica com um formato mais simpático...]

Ricardo (12:11 PM) :[okay]

Ricardo (12:16 PM) :"Caramba, Rita," diz Lily, " tens mesmo andado com a cabeça na lua! Todos os soldados que não são coxos das duas pernas mais as mães deles estão a ser enviados para o nosso planeta. Não tens ouvido os motores lá fora? Vai ser assim hoje o dia todo."
"Sim, é isso," confirma Francis. "A minha unidade está cá colocada, pelo menos por agora. Fogo, e o velhote deve estar furioso. Ouvi dizer que vem um Almirante para assumir o controlo das forças do planeta. Ele detesta os tipos da Marinha!"

Eowyn (12:20 PM) :De facto a Rita abana a cabeça com um ar abananado. "Não, não tinha dado por nada."
Ouve as explicações dos outros dois e faz uma expressão duvidosa. "Então mas o que se passa para trazer cá tanta gente? Pensava que o acidente da nave ia ser o que de mais excitante acontecia por aqui nos próximos tempos. Que aconteceu agora?" Agora é que iam ser elas, se o pai ficava de mau humor *a sério*.

Ricardo (12:27 PM) :"Acidente, Rita?" pergunta Francis. "Os rebeldes mataram milhares de pessoas: homens, mulheres e crianças. O governo ainda tentou impedir a divulgação das imagens da arcologia em chamas, mas foi impossível. Agora precisam de umas imagens que façam esquecer essas; a Federação quer-nos cá para limpar o sebo à escumulha rebelde toda de Eden, e quer que fiquemos bem na câmara enquanto o fazemos!"

Eowyn (12:31 PM) :Rita faz um ar preocupado. "Sim, eu sei. Estava lá, alguns andares mais acima, quando o mostrengo se despenhou. Estávamos a celebrar o aniversário do Fishburne, acreditas?"
Soltou um sopro suave, para afastar a franja de um olho. "Não tinha pensado nisso, nas consequências." E de facto que consequências. Escumalha rebelde. Francis nem sonharia que com essas palavras incluia o amiguinho Fishburne no grupo dos que deveriam ser exterminados.

Eowyn (12:33 PM) :"Mas lá para ficar bem na câmara mandaram vir a pessoa certa," adiantou ela, numa tentativa de aliviar o ambiente que se tornara mais pesado ali na mesa.

Eowyn (12:40 PM) :[A propósito, o Jota sempre vai amanhã ao meetup? Eu disse que só ia se ele fosse :-P Ah, e a Elora (não me lembro do nome real) passou pelo chatbox ontem a avisar que não podia ir porque não tinha arranjado babysitter :-/]

Ricardo (12:49 PM) :"Dizem que a vão decretar a lei marcial - para juntar ao recolher obrigatório - ainda esta tarde," comenta Lily.
"É chato, não é?" oferece Francis.
Lily ri-se. "Bom, não vai ser assim tão diferente do regime anterior."
"Ha, lá isso é verdade!" ri-se Francis com gosto. De súbito olha para trás de Rita (ela tem mesmo de começar a sentar-se de costas para a parede) e berra: "Ei, Daniel, seu sacana. Traz uma rodada e junta-te a nós!"

Ricardo (12:51 PM) :[não sei se o Jota vai ao meetup, não... vou ver se amanhã lhe dou um toque...]

Eowyn (12:55 PM) :A cara séria que a Rita tinha posto para falar dos assuntos militares desfez-se para dar lugar primeiro a sobressalto e depois a um sorriso que não convencia ninguém. Conseguiu resistir a olhar para trás - não queria denunciar nada a ninguém, e muito menos ao Daniel.
Sem que desse por isso, já tinha sacado de outro cigarro e estava a brincar com ele, batendo levemente com a ponta do filtro no tampo da mesa. Que deveria ela fazer? Que ia o Fishburne fazer? Ai, que confusão...

Ricardo (01:02 PM) :Daniel aproxima-se com as bebidas e poisa-as na mesa. Olha para Rita por um segundo ou dois, incerto de como proceder.
Francis dá-lhe um aperto de mão que de imediato se torna num abraço de camaradagem. "Seu sacana, ainda és cabo, estou a ver. E ainda tens sorte com as loiras, também! A filha do general, com que então? Mas o que é que fizeste à outra, huh? Não estás a escondê-la da minha irmã, não?"

Eowyn (01:02 PM) :[És mesmo lixado... ;)]

Ricardo (01:03 PM) :[eheh]

Ricardo (01:03 PM) :[quem cospe agora a bebida? tu ou o Daniel?]

Eowyn (01:05 PM) :A própria Rita levantou o olhar para o companheiro de armas e hesitou um pouco quanto à reacção. Justamente quando ia fingir que tudo estava bem e normal e ia colocar um sorriso mais simpático na cara, o irmão sai-se com uma referência à sua rival morta - ou pelo menos ela assim o interpreta. Rita fica mais pálida, baixa o olhar e tamborila com o cigarro na mesa.

Eowyn (01:07 PM) :[Eu n tou a beber, senão cuspia ;-) Ela bem quer ser querida com o Daniel, mas assim não consegue, coitada :-) Eheh! Ah, deixa-me fazwer um acrescento piqueno...]
Por um momento fugaz, quase despercebido, Rita fulminou o cigarro com o olhar, antes de conseguir controlar as emoções perante o irmão e a melhor amiga.

Ricardo (01:09 PM) :Daniel responde a Francis com um sorriso - bastante amarelo, diga-se - e aproxima-se de Rita, colocando-lhe uma mão no ombro, perto do pescoço. É um gesto de protecção e de conforto? Ou é uma pequena "lembrança", ou até ameaça, para que ela não vá dizer algo que o possa comprometer?

Eowyn (01:15 PM) :A reacção instintiva dela é ficar mais tensa. As memórias do final daquela noite vêm-lhe ao de cima com violência. Rita tem de se forçar a descontrair para não estragar a festa ao irmão. Como gostaria que fosse um gesto de conforto!
Mas então é nessa altura que a ideia a atinge de súbito: o Daniel não retirou a mão logo, e estão ali no meio de toda a gente, estão em *público* e ele não finge que não a conhece! Rita pestaneja duas vezes, rola o cigarro entre dois dedos e guarda-o no maço. Gradualmente descontrai sob o toque do companheiro, e consegue até um sorriso fraco.

Eowyn (01:15 PM) :[De repente ela ficou sem palavras ;)]

Ricardo (01:21 PM) :Daniel senta-se ao lado de Rita. Vê-a sorrir; não é um sorriso grande, mas é sentido, e isso basta para ele sorrir também. Os dois ficam a olhar para os olhos um do outro durante muito tempo, trocando mensagens no mais perfeito silêncio.
Em seu redor, os ruídos do bar continuam. É como se ninguém estivesse a reparar neles, ou achasse a sua relação perfeitamente natural. Mesmo Francis e Lily, a menos de um metro de distância, parecem alheios ao casal, tão entretidos que estão a conversar e a rir entre os dois.

Ricardo (01:22 PM) :[bom, e se não tiveres muito mais para dizer, acho que podemos acabar com o teu textinho!]

Eowyn (01:23 PM) :[Epa, realmente, já é muita tarde! Estava tão entretida que nem dava por nada! :/ Coitado de ti!! A culpa é minha! Vou escrever um último parágrafo]

Ricardo (01:25 PM) :[Coitado de mim?? Isto é muito fixe, temos de fazer mais vezes! :)]

Ricardo (01:28 PM) :[mas é curioso... foram três horas para fazer uma cena! normalmente é o episódio inteiro que dura três horas!]

Eowyn (01:28 PM) :Ao aperceber-se que poderão estar a dar demais nas vistas, Rita sorri embaraçada e desvia o olhar para o irmão. Mas por baixo da mesa, agora mais descontraída e aliviada, ela muda para uma posição mais confortável e deixa que o seu joelho toque no do Daniel. O contacto, apesar que mínimo, é confortante, e parece trazer de volta o sorriso despreocupado dela.
Com mais um golinho de bebida, ela não tarda a embrenhar-se na conversa entre o irmão e a amiga.
[Tá bom assim?]

Eowyn (01:30 PM) :Temos de contar com o meio escrito, que é mais lento. Ganha-se em descrição, no entanto.]
[E gostaste? Woohoo! Olha que sou capaz de te chagar pra isso mesmo. Adoro RP por escrito - não é que não goste do outro, obviamente, mas acho que se complementam.] :))

Ricardo (01:32 PM) :[Tá óptimo! e eu acrescento...]
Daniel não demora mais do que alguns segundos a trazer discretamente uma das suas mãos para debaixo da mesa, e poisa-a na perna de Rita.
CORTA!!!!

Eowyn (01:33 PM) :Ah, lindo!

Mais Dirtside

Esta coisa nossa série/companha de Dirtside não me sai da cabeça. Mas pelos vistos também não sou o único, vejam este post da Raquel : Não sou normal :P (que originalmente apareceu no fórum de Amber dela).

Bom, se ela não é normal, eu também não, eheh.Nós os dois estávamos tão desesperados por uma dose na veia de PTA que nos pusémos a jogar online!

O resultado está aqui, polido ao de leve. Mas também têm a opção de consultar o log do chat original e ver a cena tal e qual como ela foi criada em tempo real. Assim têm a mais valia de poderem ver os comentários e reacções dos dois intervenientes para além das reacções dos personagens.

O processo desenrolou-se quase exactamente como se desenrolaria num face-to-face, como poderão ver. A Raquel introduziu a cena com um local, personagens e um objectivo (reunir a sua personagem ao seu irmão) e continuámos a partir daí. Eu, o produtor, controlando cenário e NPCs, e ela controlando a sua personagem. A grande diferença é que o meio escrito nos permite caprichar nas descrições nos dá mais tempo para reagir ao desenrolar dos eventos.

Não surgiu nenhum conflito que pedisse o lançamento de dados para o tornar mais interessante, por isso também não se sentiu a falta dos dados nesta cena.

A única coisa que fazia mesmo falta - em relação a uma sessão normal F2F de PTA - eram os restantes jogadores. Assim, vimo-nos das suas sugestões (que num, ambiente normal de PTA estão sempre a voar de um lado para o outro), da sua participar na cena com os seus personagens (que teria, com certeza, levado a desenvolvimentos bem fortes) e, last but not least, vimo-nos privados da sua audiência: não sabíamos quanto estavamos a fazer coisas lindas não só para nós mas para também para quem está de fora, pois não havia ninguém a atribuir Fan Mail, nem a bater palmas, nem a largar uns "woah!" de surpresa, nem a lançar urros de felicidade.

Dirtside: Episódio 3 - Cena de Abertura

Nos episódios de PTA que tenho produzido, há sempre uma cena que custa a criar... é a primeira, a que vai servir de pano de fundo para todo o episódio, o cenário que se movimenta por trás dos personagens e dos seus "issues".

Desta vez, decidi finalmente fazer o trabalho de casa e programar melhor a primeira cena, em vez de deixar tudo sob o controlo da inspiração do momento. É que este Episódio 3 de Dirtside vai ser ainda mais especial que os outros, vai ser o primeiro Spotlight de um jogador, o Paulo, cujo personagem é o Tenente William Jefferson. Tendo assim uma ideia boa do que vai servir de "pano de fundo" ao episódio, fica a minha mente mais livre para se concentrar no mais importante: "picar" os jogadores usando os seus issues como alvos.

E, sem mais demoras, deixo-vos com a cena de abertura. Depois do sangrento atentado rebelde do último episódio - uma espécie de 11 de Setembro - a Federação quer cortar o mal pela raiz. Se isto fosse um filme de Star Wars, chamar-se-ia "A Federação Contra-Ataca". Boa leitura!

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

O espaço negro abre-se num clarão horizontal de luz azul, e do nada surge um comboio de naves militares. Um enorme cruzador estelar detona por alguns segundos os seus gigantescos motores e acelera, assumindo a liderança da frota. Ao atingir à sua posição em órbita de Eden, o colosso espacial lança ao seu redor uma autêntica rede de micro-satélites, cujos sensores começam de imediato a esquadrinhar todos os movimentos no planeta lá embaixo.

Enquanto isso, as dezenas de outras naves mais pequenas efectuam a re-entrada na atmosfera sem quebrar a formação de combate, com fragatas a proteger os flancos e a retaguarda dos transportadores de pessoal e carga. Os clarões e rastos de chamas seriam visíveis a olho nú sob Metropolis mesmo agora, durante o dia, se o céu não estivesse encoberto pelas eternas nuvens de poeira rodopiante.

Vinte quilómetros acima da superfície do planeta, a formação separa-se por fim em vários grupos mais pequenos, que se dirigem para os seus objectivos.

Algumas das naves de desembarque, sob o olhar atento das fragatas, seguem para pontos do deserto estrategicamente colocados onde podem ser estabelecidas pequenas bases de campanha para controlar rotas de acesso à cidade de Metropolis. Já outros dos transportes aterram aos pares na Firebase Omega, dando início à sua descarga de dezenas e dezenas de soldados, junto com o seu pessoal de apoio e material.

A câmara foca-se na plataforma de desembarque de uma destas naves, particularmente na pessoa de um jovem capitão em uniforme que olha em redor, absorvendo o ambiente do planeta antes de descer a plataforma em passo seguro e energético. Este capitão é Francis Jamieson, o irmão favorito de Rita Jamieson, e tem no ombro o símbolo da 29a Unidade de Electrónica e Comunicações.

Uma mulher oriental com um uniforme da manutenção vem ter com ele, liderando um par de soldados demasiado jovens para alguém levar a sério. A Soldado Lily Wong apresenta-se a Francis, dizendo que foi destacada para o apoiar. Os dois começam então a coordenar e a supervisionar a descarga da nave. O rugido dos motores da fragata que aterra naquele momento na base oblitera todos os outros sons. Francis grita algo perto do ouvido de Lily, e esta ri-se. Ela aponta para um sítio fora da visão da câmara, e grita ao ouvido dele; agora é ele que se ri.

A fragata desliga por fim os seus motores de sustentação, e o rugido desaparece num assobio agudo que parece perdurar nos tímpanos bastante depois de ter desaparecido

"A Lily, por acaso, não sabe onde posso encontrar a Cabo Rita Jamieson, não?" Pergunta Francis. “Não sei se ela recebeu o aviso de que eu vinha a caminho. Ah! E o Cabo Daniel Fishburne; penso que também está estacionado cá?"

Lily ri-se e abana a cabeça para si própria. "Estão cá os dois, estão."

(CORTA PARA GENÉRICO)

Dirtside: Episódio 3 - Ficção

"Sargento, Sargento!"

KC virou-se na direcção da voz. Um soldado raso vinha em passo rápido na sua direcção com um pacote postal nas mãos. Quem é que lhe podia ter escrito? Aquele bandido do seu irmão?

"O Capitão Morgan tem-nos a esquadrinhar todo o correio que entra na base," explicou o soldado. A cara era-lhe vagamente familiar; devia ser de alguma das novas unidades. "Este aqui chegou com o correio normal, mas não traz a marca laser dos serviços postais civis. Não há traços químicos de explosivos ou substâncias perigosas, já verificámos."

"Sim. E?" perguntou KC, impaciente por saber que raios é que isto tinha a ver com ela.

"Bom, talvez alguém devesse abrir isto," desculpou-se ele, "só para ter a certeza."

"Então abram, o que é que querem, uma benção papal?" berrou KC. "Acham que não tenho mais nada que fazer?"

"É que, uh, isto vem dirigido à filha do General Jamieson. E se for algo de pessoal e ela fizer queixa?"

"Então, não abram. Pronto, assunto resolvido."

"Mas, e se for alguma armadilha mais sofisticada? Se lhe acontecer algo vai haver tribunal marcial, de certeza!"

KC levou a mão à cabeça. Alguém lhe desse paciência! "Dá cá isso, soldado" disse ela, apanhando num movimento brusco o embrulho das mãos dele. "Pronto, agora já está aberto e ninguém morreu!" exclamou depois de ter rasgado a parte de cima do pacote e ter espreitado para o interior. "Fácil!"

O soldado, em vez de aceitar de volta o pacote, pegou no seu computador pessoal e virou-o para KC. "Pode dedar aqui, Sargento O'Rourke?"

KC nem olhou para o ecrã táctil que pedia a sua impressão digital. Mãe do Céu, tinha de ser ela a resolver tudo? "Burocratas d'um raio, por isso é que o exército está como está. Sai-me da frente; entrego-lhe isto eu mesma."

O soldado ainda ficou ali especado por um segundo com o computador estendido, mas depois fez continência e deu meia-volta.

* * *

KC entrou no seu escritório com o pacote nas mãos e dirigiu-se à secretária. Poisou o embrulho aberto na secretária e sentou-se. Franziu um pouco o sobrolho e olhou a coisa com os seus olhos negros desconfiados. Com um suspiro de resolução, inclinou-se para a frente e abriu as abas do pequeno pacote.

Lá dentro, como já tinham verificado, havia apenas o CD de vídeo e uma carta. Metodicamente, KC pegou no CD primeiro e virou-o nas mãos. Nada que indicasse o que continha nem a sua origem. A carta, então. Poisou o CD na mesa, ao lado do pacote, e pegou na carta. Estava endereçada à Cabo Jamie, claro. Isto não lhe cheirava nada bem, mas se alguém andava preocupada com a saúde da Jamie era ela mesma, portanto pegou na faca de papel e abriu o envelope.

Recostou-se e semicerrou os olhos ao ler as poucas palavras – nada de pistas quanto a uma caligrafia distinta, nem nada disso. Chantagem? Que raio se estava a passar? Teria isto alguma coisa a ver com aquela cena vagamente suspeita do ginásio, que envolvera o Fishburne e o Tenente Jefferson? Não pôde evitar sentir uma pequena pontada de ciúmes ao recordar. A Jamie tinha-a ignorado por completo para tratar o Fish como se ele fosse um bebé.

Bem, assim não ia a lado nenhum. Atirou o papel para cima da secretária com desprezo e em vez disso voltou a pegar no CD. Enfiou-o num leitor e recostou-se na cadeira para ver.

A imagem tinha algum grão; talvez tivesse sido filmado com equipamento manhoso, talvez estivesse apenas muito escuro. No ecrã viam-se os contornos mais ou menos vagos de um quarto de hotel rasca, mas bem no centro era clara a imagem de uma cama, na qual estavam embrulhados um homem e uma mulher. KC franziu o sobrolho em surpresa. Aquilo era o Fishburne? Mas que raio...?

Então era isso! Alguém tinha apanhado o namoradinho da Jamie na cama com outra e queriam estragar o arranjinho aos dois pombinhos do pelotão. Ah, isto era demais! E era bem feito para a Jamie, tinha de aprender a não se deixar levar por homens de falinhas mansas. Era duro, mas era uma lição que ela tinha de aprender para chegar a algum lado na vida. Só que... se era o Fish quem andava a dormir por fora, porque é que estavam a chantagear a Jamie?

E nessa altura o casal rebola na cama, por entre alguma risada cuja causa ela não chega a perceber (o som não estava famoso), e a mulher fica por cima. Os gemidos, esses são claros quanto baste, e os movimentos rítmicos não enganam ninguém. Mas KC fica com a garganta seca, e o estômago de repente encolhe-se tanto que parece querer colar-se à espinha. Aquele cabelo loiro era incomum, mas poderia pertencer a qualquer mulher; infelizmente, aquela longa cicatriz irregular, mais branquinha que o resto da pele cremosa, ali mesmo na base das costas conhecia ela muito bem dos duches. Rita Jamieson.

Incapaz de parar o vídeo, KC deixou-se ficar a ver. Deu por si roída de ciúmes do Fishburne. Era degradante, ver os dois terem sexo assim ao pormenor. E logo sexo escaldante como aquele. Nunca se julgara voyeuse, mas não conseguia parar. Não conseguia tirar os olhos da figura da Jamie e como ela era sexy. O Fish até nem era mau rapaz, mas não merecia tal benesse.

KC O’Rourke ficou a ver até os dois atingirem o auge juntos (que horror!) e se deitarem exaustos. Pouco depois começaram a conversar, e quando deu por si, KC estava boquiaberta e de olhos esbugalhados. O Fish bom rapaz? Teria de engolir as suas palavras: ele era um sacana de um rebelde! E a Jamie sabia de tudo!

Sentiu-se traída. Como poderia a Jamie, a Jamie, encobrir um rebelde? Não deveria haver ninguém mais do lado da Federação do que ela! Os seus olhos negros pareceram escurecer ainda mais e fulminar o Fish do ecrã. O filme acabava pouco depois.

Levantou-se de rompante e pôs-se a caminhar de um lado para o outro no seu escritório. Caramba, agora percebia o porquê da cartinha anónima. Este vídeo entalava ambos os actores, mas tramava acima de tudo a Jamie. E o dever da própria KC era denunciar a tramóia toda ao comando. Que embrulhada. Parou a meio de uma passada quando foi assolada pela memória da carreira de tiro, E como estivera tão perto daquele corpo quente e macio.

Bolas! Só podia ter sido o Fish a filmar aquilo. O sacana estava-se a aproveitar da filha do General, dissesse ele o que dissesse. E ela, que até nem era burra, estava a armar-se em parva, a cair assim numa emboscada daquelas. Devia ter logo denunciado o namoradinho.

Nada a fazer. Tinha de a chamar à sua presença e confrontá-la com os factos, meter-lhe algum juízo naquela cabeça de vento. Se Jamie denunciasse já o Fishburne, a revelação pública do vídeo deixaria de ser importante. Embaraçosa, talvez, tanto para o General como para a filha, mas podia arranjar-se sempre uma explicação plausível para a Jamie ter adiado a denúncia do Daniel. Agora se o vídeo aparecia antes da Jamie ter endireitado as coisas... o pai provavelmente safava-a da forca ou da prisão, mas no mínimo ela seria expulsa do exército, retirar-lhe-iam os direitos de cidadania como castigo e haviam de exilá-la para uma colónia qualquer.

KC ia fazê-la ver a razão. Mas tinha de jogar bem as suas cartas; ia chocá-la, claro, fazê-la perceber muito bem o sarilho em que estava. Mas e depois? Mal lhe passasse o choque e a vergonha de saber que havia um filme das suas acrobacias amorosas, o que é que ia acontecer? Sim, porque a Jamie ia ultrapassar isso; a rapariga era forte e, por mais vezes que caísse ao chão, voltava sempre a levantar-se para enfrentar o mundo com ainda mais força de vontade. KC sabia disso bem; ela própria tinha empurrado Jamie para o chão muitas vezes, e de todas elas Jamie acabara por eventualmente se levantar, com o queixo dorido mas um pouco mais erguido, com um pouco menos daquela atraente inocência de criança mas um pouco mais do músculo que é necessário para sobreviver num universo lixado como este.

Estava a chegar o dia em ninguém seria capaz de a empurrar ou manter no chão, KC tinha a certeza disso. E então - talvez - Jamie percebesse por fim quem é que a tinha ajudado a transformar-se de uma rapariga frágil numa mulher que sabe o que quer e que não precisa de pedir desculpas a ninguém. Nessa altura, talvez pudessem ser amigas ou... mais do que isso. KC ia gostar.

Mas era mesmo esse o problema. Podia chocar Jamie, berrar-lhe aos ouvidos, abanar-lhe aquela cabecinha de vento, mas ela ia seguir o seu próprio caminho. A aluna estava a começar a ficar fora do alcance da sua mentora. KC ainda se lembrava de quando, não há muitos dias, Jamie a mandara calar; calar, a ela, a superiora que a podia pôr a limpar latrinas e tachos gordurosos para o resto da vida! KC ficara magoada, verdade, mas também ficara orgulhosa de ver como a sua pupila estava a começar a trilhar o seu próprio caminho.

Talvez, neste momento delicado, uma mudança de táctica fosse melhor. Autoridade e figuras paternais pareciam estar perder a sua influência junto de Jamie. Pelo contrário, a aproximação mais amistosa que KC fizera - nem ela percebia porquê - ainda há poucas horas, parecera resultar muito bem. Aliás, se o maldito Daniel não estivesse a ser espancado no ginásio, quem sabe onde poderiam ter chegado, ela e Jamie? Uns copos juntas no bar, a rirem-se e dizerem mal de todos os homens que lhes lixaram a vida? E depois, com o calor da bebida nos seus estômagos e nos seus rostos, abrigadas do mundo no quarto de KC, talvez uns toques, a princípio inocentes, que despertariam paixões ardentes e descontroladas? Ela seria a primeira mulher da Jamie, de certeza, e poder-lhe-ia mostrar maravilhas que ela desconhecia. Podiam-

Caramba, KC estava mesmo a precisar um duche, um duche bem frio. Precisava de arrefecer as ideias um bocado... e além disso, ainda se sentia suja por ter visto aquele vídeo degradante. Sim, era melhor não tomar nenhuma decisão precipitada. Primeiro um longo duche frio, enquanto pensava como melhor abordar o problema, e depois então chamar Jamie.

KC deixou o seu gabinete, com o pacote na mão e dirigiu-se ao seu quarto. Pegou numa toalha para o duche e, quando estava a escolher um uniforme lavado, ocorreu-lhe que talvez fosse melhor evitar ao máximo pressionar Jamie com galões, regulamentos e autoridade em geral. Apesar de ter pouca roupa civil, KC ainda esteve em frente ao espelho a hesitar entre várias peças. Acabou por se aperceber do ridículo da situação, agarrou num dos conjuntos de roupa, na toalha, e saiu para o duche.

O soldado que estava à porta da casa-de-banho a fumar ainda com o uniforme desabotoado, quase nem a reconhecia quando ela passou por ele. Parecia a mesma KC de sempre, mas não lhe gritou para apagar o cigarro, abotoar o casaco e pôr-se em sentido. Na verdade, ele nem sequer estava seguro dela se ter apercebido que ele estava ali.

* * *

O toque à porta – dois toques com o nó do dedo, rápidos, decididos – fê-la levantar a cabeça das mãos. KC tinha os primeiros dez minutos da conversa planeados. Para além disso teria de esperar por uma reacção da Jamie para se decidir. “Rita?‿ perguntou. Era capaz de ser a primeira vez que pronunciava o nome próprio dela assim isolado. Soava bem, rolava bem na boca. Decidira-se pela estratégia da casualidade para desarmar a Jamie. Ver-se-ia se dava algum resultado

Do outro lado o “sim‿ soou algures entre o surpreso e o desconfiado. Isso era bom. “Entra,‿ disse.

A porta abriu-se para dar lugar à Cabo Rita Jamieson. Esta hesitou junto à porta. "Disseram-me que era urgente?" aventurou ela naquela sua voz suave e musical. KC fez-lhe sinal que se aproximasse; a outra fechou a porta atrás de si e assim fez.

Jamie estava com roupas de treino, e pelo leve cheiro a pólvora KC adivinhou que a teriam ido buscar à carreira de tiro. Tinha estado a praticar as lições que KC lhe tinha dado. Isso era bom. Estava a tomar o controlo da sua vida, e ao mesmo tempo a ficar mais próxima de KC. Óptimo. Vamos ver como te portas agora, Rita.

“Sabes que estás metida num grande sarilho, não é, Rita?‿ atirou logo de chofre, com um pequeno sorriso nos lábios.

Jamie não acusou logo o toque, apenas estreitou um pouco mais os olhos azuis-safira. Desconfiança. Ela tinha a guarda montada, tendo sido chamada à Sargento O'Rourke, o bicho-de-sete-cabeças. Isso não tardaria a desaparecer. Ela disfarçou o olhar desconfiado e limitou-se a um "Que sarilho? Não sei a que te referes."

Tratar por tu. Isso era inesperado (e estranhamente agradável), mas não impeditivo. Desculpa, Rita, mas desta aqui não te posso deixar safar facilmente. As lições mais importantes são também as mais difíceis; espero que compreendas isso.

KC levantou-se e deu a volta à secretária. Desta vez a surpresa foi mais óbvia no rosto da Jamie quando mediu KC de alto a baixo nas suas calças de linho e camisa de alças à civil, bem como a desconfiança que mostrou de seguida nos olhos. Engraçado como uma roupa com o corte certo podia transformar tudo; já se tinha esquecido disso ao fim de tantos anos no exército. Sabia bem sentir o olhar da Rita a percorrer-lhe o corpo daquela maneira. E se fosse mais do que o olhar? Se fossem as mãos dela, os lábios dela? Foca-te, KC, foca-te. Ainda agora tinha saído de um duche frio e já estava a precisar de outro?

KC sentou-se na borda da mesa e começou a explicar como um certo vídeo lhe tinha vindo parar às mãos. Sem lugar onde se sentar a não ser a cama, Jamie preferiu ficar de pé. Tudo planeado e orquestrado. Carregou no botão e o vídeo começou a rolar no ecrã atrás de si – corria o risco de trair as suas emoções se voltasse a olhar para aquelas imagens – enquanto KC observava atentamente a reacção da Jamie.

Primeiro a outra corou, mas segundos depois começou a ficar branca. Teria ela a noção da conversa que se seguiria ao sexo? “Continua por um bocado," meteu KC a farpa a certa altura – vergonha no olhar da Jamie, depois dureza; estava a tentar voltar a erguer um muro à volta das suas emoções mas KC não ia deixar nada disso acontecer. “Porque não passamos à frente os pormenores... degradantes‿ (raiva no olhar frio da Jamie) “e passamos à parte interessante?‿ KC passou à frente até à cena da conversa.

Nessa altura, sim: Jamie quebrou. Ficou pálida e recuou até à borda da cama para se sentar, como se lhe faltassem as forças nas pernas.

Parecia tão vulnerável. KC quase sentiu pena dela... ou sentiu mesmo? Apetecia-lhe abraçar o rosto de Rita contra o peito, mexer-lhe no cabelo e tranquilizá-la. Mas não, não podia ser. Primeiro Jamie tinha de tomar a decisão difícil e livrar-se daquela corda à volta do pescoço que era Daniel Fishburne. Então, e logo depois de KC mandar prendê-lo por alta traição, aí poderia acalmar e afagar Rita.

KC pegou na carta entre indicador e médio e ergueu-se da secretária. Era preciso manter a Jamie em desequilíbrio, se isto ia funcionar, e até agora estava a correr tudo bem. Deu os três passos que a separavam da cama e entregou a carta à Jamie. "Isso vinha com o filme," explicou enquanto se sentava ao lado dela. Inclinou-se para trás, apoiada nos braços e ficou a observá-la, tentando manter um ar casual; tentando disfarçar que de repente notara o seu coração aos saltos.

Agora mais próximo dela, KC conseguia já distinguir no ar o perfume doce dos cabelos de Jamie. Ao princípio, quando os seus caminhos se haviam cruzado pela primeira vez, isso irritara-a; aquele perfume, aquela voz musical, aquele sorriso fácil, aquela boa disposição no rosto de Jamie, davam-lhe vontade de a afogar em lama até tudo isso desaparecer. Afinal, o exército não era suposto ser um hotel ou um campo de férias; era sim um local para treinar e suar, mas mais que isso: para sofrer e se ser castigado, para quebrar uma pessoa e reconstruí-la a partir dos pedaços em alguém mais forte, disciplinado, invulnerável à dor, à emoção, à hesitação. Mas a verdade é que Jamie se havia tornado num gosto adquirido; tinha as suas falhas e imperfeições, mas quem não as tinha? Se algum dia chegasse a altura, KC achava que lhe poderia confiar a sua vida num campo de batalha. Duma coisa já tinha a certeza: podia – não, queria mesmo – partilhar com ela o seu leito e algumas das suas emoções, confiante de que não se sentiria fraca ou vulnerável. Estava a precisar de alguém assim, uma irmã de sangue, ao fim de tanto tempo sozinha.

Havia que respeitar o sangue-frio da Jamie. Ao ler a carta, mal se notava o ligeiro tremer da mão, e a certa altura KC ia jurar que vira desafio no olhar expressivo da sua subordinada, mas foi quase com nojo que ela voltou a dobrar o papel e o poisou a seu lado na coberta da cama. Jamie definitivamente estava bastante pálida. Antes que ela sequer pudesse formular alguma pergunta, KC continuou o ataque. Era agora ou nunca. Se Jamie ia entregar o sacana que a colocara ali e sair desta embrulhada toda, tinha de ser agora.

“Sabes que eu agora devia denunciar o Fishburne e entregar o vídeo, não é, querida?‿ disse. Jamie engoliu em seco, molhou os lábios, virou para ela um olhar duro como a safira onde devia ter ido buscar a cor e ignorou por completo a última palavra saída da boca da sargento. “Porque é que não fazes isso mesmo?‿ foi a resposta suave. Brava! De facto cada vez era mais difícil rasteirar Rita Jamieson.

E porque não fazia KC isso mesmo? Porque é que ainda não denunciara Fishburne e entregara o vídeo? Obviamente que KC não podia responder à Jamie que isso seria estar a ajudá-la a fugir às suas responsabilidades e ao seu dever de entregar às autoridades um criminoso que, ainda que pudesse não ter morto ninguém directamente, tinha de certeza as mãos manchadas de sangue inocente. Se KC colocasse Fishburne na forca – o que ela teria feito com prazer – Rita recusar-se-ia para sempre a ver a razão e, pior que isso, culparia KC pelo destino de Fishburne, como se ela tivesse feito algo de abominável e não algo que qualquer pessoa decente tinha obrigação de fazer. Não, se havia alguma hipótese de salvar esta bela soldado do buraco em que se metera, teria de ser a própria Jamie a tomar a decisão. Assim não haveria ninguém para ela culpar.

Mas - também quem estava KC a querer enganar? – a principal razão para ela não ter mandado prender Daniel e entregue o vídeo aos seus superiores, era apenas aquilo que sentia pela sua subalterna. Rita estava evidentemente confusa, talvez de cabeça perdida, para se meter na cama com um rebelde; KC só esperava que isso não estivesse a contagiá-la a ela também. Afinal, o que é estava ela ali a fazer, a conversar amigavelmente com a cúmplice de um traidor confirmado, vestida naquelas roupas? KC sentia-se tão suja como se tivesse sido ela a estar naquele vídeo, com um homem a usá-la com movimentos mecânicos para se satisfazer. Em que raios estava ela a pensar? Porque raio é que ainda não mandara prender Jamie e Fishburne? Porquê?

Por causa de Rita, pois claro.

A ironia não lhe passou ao lado. Durante meses, ela tentara evitar que a feminilidade e beleza de Rita quebrasse o espírito do pelotão; humilhara-a em público de todas as maneiras e tornara-a em motivo de chacota e vergonha para todos. Conseguira transformar o cisne em patinho feio; evitando assim que atracções, paixões, ciúmes e outras emoções dividissem o espírito de todo o grupo e causassem conflitos. Mas agora era ela própria quem caía na armadilha de deixar o coração sobrepor-se à razão. A sua análise inicial de Rita, há todos aqueles meses atrás, estava correcta: ela e os seus encantos eram um perigo para os que a rodeavam e que se preocupavam com ela. O General Jamieson já fizera de tudo para a proteger, ficando mal visto pelos seus subordinados e camaradas, mas com os irmãos dela não mexera uma palha para os manter fora de perigo ou os fazer progredir na carreira (ou pelo menos era o que se ouvia dizer). Fishburne provavelmente já traíra e matara os seus próprios colegas na rebelião para a proteger. E agora, era vez de KC se ver presa na teia...

Estava na altura de quebrar a charada. Havia que delimitar fronteiras, definir posições e deixar as bombas cair onde tivessem de cair. É agora, Rita. Vamos lá descobrir quão fundo cada uma de nós está enterrada.

“Sim, Rita, porque é que eu não faço isso mesmo, denunciar o Fishburne e entregar o vídeo? É uma óptima pergunta; e a verdade é que não tenho nenhuma resposta. Estava justamente à espera que me desses uma razão."

Rita ficou parada, evidentemente não compreendendo a sua situação. No entanto, não demorou mais que uns momentos até que a posição insinuante que KC assumira sobre a cama a fizesse perceber. Ela corou como um tomate sob os sóis gémeos de Ellis, empalideceu bruscamente e voltou a corar, embora com menos violência. KC pagaria uma boa maquia pela oportunidade de saber em que pensava a Rita naquele momento, porque de facto ela parecia ter embarcado numa montanha russa de emoções.

Foi então que surgiu o sorriso escarninho. Isso era inesperado; Jamie devia estar mesmo de cabeça perdida. “Ah, então é isso,‿ disse a outra num tom de voz quase ameaçador. “A Sargento O’Rourke viu o filme e acha que também merece alguma da acção, é isso?‿ A vulgaridade do comentário de Jamie fez subir a temperatura dentro de KC. E ela tinha razão; deixando para trás as aparências de boas intenções e estudando os seus instintos básicos, KC supunha que era mesmo isso que a levara a fazer tudo aquilo. Mas a atracção louca que sentia por Jamie não era apenas carnal. Era isso e algo mais, algo poderoso... e novo para KC. Enquanto falava, Rita mudara de posição e aproximava-se sobre a cama. “A sua própria fatia da filha do General?‿ Aquela voz suave usada assim baixinho parecia segredar, partilhar com ela uma confidência importante.

Mesmo se KC se tivesse conseguido lembrar de alguma resposta à altura, não teria conseguido articulá-la, porque Jamie se pusera de gatas sobre a cama, por cima de KC e aproximara tanto a cara que a sargento podia sentir o bafo morno da respiração dela nas faces. Isso parecia ter-lhe desligado qualquer coisa no cérebro. . O máximo que KC conseguiu fazer foi entreabrir os lábios, como que para falar, e depois ficar ali estacada, sem emitir nenhum som. E ainda bem que assim foi, porque de outro modo teria com certeza solto um gemido em antecipação do que parecia estar para vir.

Não conseguia desviar o olhar dos olhos da Jamie – dois mares gémeos de emoções em conflito. Dali conseguia cheirar-lhe a pele, um aroma que, por qualquer razão, a fazia pensar em manhãs floridas de Primavera da sua infância com os primeiros orvalhos. Devagar, quase hipnotizada, dobrou os cotovelos e deitou-se na cama. Jamie seguiu o movimento sem lhe tocar, como se respondendo a algum magnetismo animal. Nem nos seus sonhos mais loucos teria KC esperado algo assim. Pela primeira vez na sua vida, o choque e a surpresa deixavam-na totalmente passiva face a um parceiro. Se Jamie tivesse uma lâmina na mão e a esventrasse, era bem possível que KC não se mexesse um milímetro que fosse enquanto aqueles olhos a continuassem a hipnotizar.

Então, e por um momento, Jamie conseguiu estancar as emoções que eram tão distintas nos seus olhos; a sua expressão ficou neutra e ela baixou ainda mais a cabeça. Os seus lábios roçaram os de KC – tentativamente, medindo a reacção da superiora, não fosse ela ter interpretado tudo mal. Esse primeiro beijo foi doce, morno, suave, quase inocente. KC respondeu com alguma subtileza, encorajando-a a mais. Sabia, aliás, pelo vídeo que a palavra “púdica‿ não se aplicava à Jamie.

“Rita...‿ murmurou KC, precisando de forçar as suas cordas vocais a emitirem mesmo aquele som tão fraco. Como aquilo era delicioso. Queria mais, muito mais.

Com um clarão de algo parecido com raiva, Jamie lançou-se num segundo beijo, sem meios termos: escaldante, cheio de paixão (ou seria só raiva mesmo? KC preferia a primeira opção), bem fundo, com uma língua quente e sedosa explorando a boca da sargento, que a apanhou de surpresa. Quase ao mesmo tempo KC sentiu a pressão de uma mão quente no seu seio esquerdo - o lado do coração - numa carícia hesitante. Ouviu um gemido do fundo da garganta e, para seu horror, apercebeu-se que vinha de si e não da Jamie. Estaria a perder o controlo da situação?

Qual controlo? Desde que decidira não denunciar Fishburne de imediato que tinha perdido o controlo. Ou talvez já estivesse fora de controlo quando começara a tratar Rita como mais, e ao mesmo tempo menos, que um dos outros soldados. Mas se isto era estar fora de controlo, então ela queria manter-se assim. Não importava o que isso lhe viesse a custar.

Entrelaçou os dedos nos fios de ouro que eram os cabelos da Jamie e tentou retribuir com igual paixão, mas estava destreinada e não pôde deixar de se sentir desajeitada. No entanto, não havia mal nenhum nisso; Rita parecia determinada a descobrir o caminho sem ajuda. KC sonhara em mostrar-lhe como era fazer amor com uma mulher pela primeira vez, mas a verdade é que agora se sentia como aluna e não professora. Rita...

E então de repente Jamie recuou com um sacão, deixando-a estirada na cama a sentir-se abandonada, nua, incompleta. Esforçando-se por controlar depressa a respiração, KC soergueu-se num braço e olhou Jamie. O que estava errado? Entrara alguém no quarto? Mesmo que tivesse entrado alguém, KC não queria saber. O mundo que se danasse. Só queria continuar o que as duas tinham começado.

Jamie levantara-se, tinha recuado dois passos e nesse momento olhava KC com uma expressão de surpresa como se – poderia ser verdade? – tivesse descoberto gostar de algo que deveria ser desagradável. Mas logo a expressão foi substituida por uma de desprezo que era difícil dizer se seria apontada a KC ou à própria Jamie.

“Não," disse ela numa voz sumida. "Isto está errado. Não vou cair na tua chantagem, KC, rai’s te partam, e muito menos na deles.‿ Recuou mais um passo e teria recuado outro se a secretária não a tivesse impedido. Parecia ansiosa por colocar alguma distância entre si e KC, curiosamente. “Não me vou prostituir sem mais nem menos,‿ rosnou ela na sua voz de veludo. “Nem tu queres isso, se pensares bem. Que irias tu sentir quando acordasses amanhã e te apercebesses que a única maneira que tinhas encontrado para me levar para a cama tinha sido usar de chantagem, hã? Que tal quando te apercebesses que eu só estaria nessa cama a pensar em salvar o meu coiro e o do Fish? Onde ficaria a réstia de auto-estima que ainda te sobra, nessa altura, dizes-me?‿

KC sentou-se na cama devagar, provando o lábio inferior. Ainda demorou alguns segundos a voltar à realidade e entender, em vez de apenas escutar, as palavras duras de Jamie. Caramba, esta Jamie era fogo! Tinha sido apanhada completamente desprevenida pela intensidade do contacto e perdera a noção das coisas. Baixou o olhar que ainda tinha colado à subalterna e passou uma mão pelos olhos. Se por um lado tinha vontade de atirar Jamie de novo para a cama e de continuar onde ela tinha interrompido (e algo lhe dizia que a outra era capaz de nem protestar assim tanto), por outro lado à distância de meros três passos da Jamie já conseguia raciocinar com mais clareza e reconheceu que ela tinha razão. Não era esta a maneira certa de fazer as coisas. Era vergonhoso a professora ser apanhada assim em falso pela aluna.

Portanto KC levantou-se, ajeitou a camisa devagar e ergueu o olhar negro para a Jamie. Com um sorriso embaraçado, assentiu com a cabeça. “Tens razão, claro. Peço desculpa, Rita, não estava a pensar direito.‿ Bolas, tinha a voz mais rouca que o costume. Pigarreou, inspirou fundo, passou uma mão pelo cabelo curto. Estava a recuperar a capacidade de raciocinar, graças a Deus. “Obrigada por me parares antes que fosse longe demais. Quero fazer o mesmo por ti.‿

Com essas palavras, KC dirigiu-se para a secretária. Jamie, franzindo o sobrolho em desconfiança, desviou-se do caminho. Ela ainda tinha o cabelo encantadoramente desalinhado, resultado das mãos da KC. Teve vontade de lhe afagar o cabelo, mas a Jamie já tinha trocado o desprezo por desconfiança e seguia-lhe os movimentos com atenção. Além disso mais valia jogar pelo seguro; estava convencida que não voltaria a perder o controlo assim tão cedo, mas não custava nada manter alguma distância de segurança para a sua subordinada.

“O que é que vais fazer?‿ perguntou a Jamie quando KC pegou no comunicador. Lá estava aquele toquezinho delicioso de vulnerabilidade por baixo da desconfiança na voz dela que dava mesmo vontade de a confortar. Talvez depois desta trapalhada toda.

Em vez de responder de imediato, KC baixou o olhar para o visor do objecto e procurou o número certo. “Sei que vai doer,‿ começou a explicar, “e que não vais compreender agora, mas é para teu bem.‿ E com isso carregou no botão que ia estabelecer a ligação.

Rápida que nem um relâmpago, Jamie alcançou o comunicador e carregou no botão de interrupção da chamada. "Espera um pouco!" pediu. Uma pausa. Os dedos de ambas estavam-se a tocar. Seria apenas KC a sentir a electricidade ali? Talvez não, porque um momento depois Jamie retirou a mão como se o comunicador queimasse. KC fingiu calma no seu olhar, esperando pela explicação da outra.

Jamie, por seu lado, abanou a cabeça. “Não quis dizer que encobrisses o caso, mas se telefonares agora o Fish vai para a forca e eu sou bem capaz de ser expulsa.‿ Pausa apenas suficiente para engolir em seco. “Caramba, KC, não dás mesmo hipóteses nenhumas... Eu não fujo dos meus erros,‿ explicou, a voz ganhando segurança e determinação à medida que falava. “Pago sempre o custo das minhas decisões, por mais caro que seja, e não é agora que vou fugir com o rabo à seringa, mas tenho de pensar no Fish.‿

Outra vez o Fishburne. KC abanou a cabeça. Nem na face do inevitável seria a Jamie capaz de abrir os olhos? O Fish não prestava! ! Como é que ela ainda o defendia? Afinal, como é que ela achava que a rebelião filmara o vídeo? A Jamie entalara o Fish, de mais maneiras que uma, e agora ele e os seus comparsas tinham invertido a situação e criado uma apólice de seguro!

“Espera um segundo e ouve-me até ao fim," interrompeu a Jamie, sentindo talvez o que ia na cabeça de KC. “O Fishburne é um bom soldado. Já salvou a vida a qualquer um de nós no pelotão – incluindo a tua, KC – mas no que me toca a mim em particular tenho certas responsabilidades para com ele. Quem julgas que me tirou daquele covil de rebeldes no outro dia? Se não fosse por ele eu teria sido morta assim que me reconheceram como ‘a filha do General', e afinal foi ele quem orquestrou a minha fuga. E para mais, salvou a vida ao meu irmão Francis há uns tempos atrás.‿ Uma pausa para inspirar fundo. “Portanto eu devo-lhe uma última hipótese de voltar para a Federação. Que dizes: dás-me uma hora para o convencer a denunciar os rebeldes? Se eu não conseguir, denunciamo-lo ambas...‿ no final a voz falhou-lhe ligeiramente, tornando-se pouco mais que um sussurro.

Como podia Jamie estar tão enamorada de... de... um homem? Um traidor? Um traidor à federação, à rebelião, e possivelmente à própria Jamie. KC sentiu-se derrotada. O poder estava todo nas suas mãos, ao alcance de um botão, mas ainda assim ela se sentia sem forças. “Uma hora; tens uma hora.‿ disse, ouvindo as palavras saírem da sua boca mas tendo a certeza que não era aquilo que era queria dizer. “Depois acabo com isto. Agora vai, o tempo está a contar,‿ disse ela, tentando recuperar a sua pose autoritária sem grande sucesso. Os seus olhos traíam-na. O seu desejo por Jamie minava agora todos os seus pensamentos, comandava as suas acções.

E de facto a Jamie devia ter-lhe lido qualquer coisa do seu desejo no olhar porque hesitou um segundo e baixou os olhos com um ar embaraçado. Então pareceu tomar consciência que de facto o tempo estava a contar. Passou uma mão pelo cabelo e disse “Certo,‿ antes de girar nos calcanhares e se dirigir para a porta. Já com a mão no puxador, ainda se voltou para trás de sobrolho franzido. “Pensava que me odiavas com todas as forças.‿ Abriu a porta. “Para variar, é bom estar errada.‿ E fechou a porta atrás de si.

Sozinha no seu quarto, com o perfume da Jamie ainda a pairar no ar, KC sentou-se à secretária, olhou o seu relógio de pulso, iniciou o cronómetro. Uma hora e nem um segundo a mais. O Fish que se danasse; ele nem merecia respirar o mesmo ar que a Rita. Fechou os olhos e tentou não pensar em nada, porque se pensasse nos lábios da Rita, era bem capaz de dar por si a terminar a contagem antes dos 60 minutos.

Dirtside: Episódio 3 - Pré-Produção

Tinha sido uma semana bem ocupada, comigo a planear uns bangs para cada jogador, com a Raquel a escrever um texto de ficção para resolver o cliffhanger emocional dela em que terminou o episódio, comigo a escrever uma cena de abertura que até coloquei online antes do jogo e, ainda mais surpreendente, comigo e com a Raquel a não conseguirmos resistir a jogar a primeira cena do episódio online, através de um chat.

Vantagens de uma Pré-Produção

No último episódio já tinha abordado a minha preparação de modo diferente, reunindo algumas notas sobre possíveis usos de NPCs para melgar os jogadores e lhes criarem bangs (no fundo, é algo como um Relationship-Map só que não está mapeado... não sei porquê, ainda não me consegui dar bem com nenhum mapa/diagrama formalizado, só lá chego por instinto) e também sobre alguns eventos importantes (leiam “bangs‿) que poderia atirar para cima dos jogadores. Neste episódio aqui, estiquei-me muito mais. Reuni meia-dúzia de bangs potencialmente importantes, cada um dos quais era apenas o início de uma potencial cadeia de eventos cada vez mais intensos.

O resultado: uma sessão extremamente coesa e focada! Eu sei que digo sempre isso, mas esta foi ainda mais, eheh. De alguma maneira, consegui introduzir quase todas as “bombas‿ que queria detonar, mesmo neste jogo onde os jogadores têm tanto poder para mandar a história na direcção que lhe apetecer. As poucas coisas que ficaram de fora foi mesmo por falta de tempo ou por já haver demasiadas coisas para resolver em cima da mesa. Isto de planear uma sessão de jogo à volta de bangs resulta mesmo; acho que este é o meu primeiro exemplo definitivo disso mesmo.

Bangs bem pensados, que não dependam de muitos factores para acontecer, dão para encaixar quase em qualquer lado. A maioria dos meus dependia apenas da vontade de um NPC ou dois, e sendo eu o Produtor/GM, não me custava nada dar um empurrãozito aqui e ali para o NPC ficar no estado de espírito certo e para que o explodir da bomba fizesse sentido em vez de cair do nada e de cheirar a esturro do GM. Acredito que os eventos “inesperados‿ são quase sempre mais potentes se o jogador tiver tido hints de que eles aí vinham mas que mesmo assim não os conseguiu prever (foi a lição de storytelling brutal que retirei do filme Sexto Sentido). De modo que para mim foi praticamente apenas uma questão de ir fazendo um certo fore-shadowing e de aguardar a oportunidade de detonar a bomba na altura em que pudesse fazer mais estragos junto dos jogadores. Às vezes a paciência compensa!

Não precisei de forçar nada ou manipular os jogadores como marionetas para desencadear nenhum dos meus mini-planos. Foi quase só uma questão de colocar os meus NPCs no terreno e fazê-los agir de forma a deixar os jogadores em posições bicudas sem saídas fáceis. De resto, não só usei a maioria dos meus bangs pré-planeados, como o desenvolvimento da trama e, especialmente, as acções e reacções dos jogadores, me deram mais material para improvisar e detonar outras bombas. Um exemplo é a cena final, em que coloquei a Raquel para aí entre duas espadas, uma parede e um poço sem fundo. Outro seria a cena em que a rebelião contacta o Jota para o tentar trazer para a sua causa ao mesmo tempo que destrói a sua fé na causa que ele estava justamente a pensar seguir (que já não era a Federação, não).

Desvantagens de uma Pré-Produção?

Este planeamento todo trouxe uma desvantagem aparente. Se o episódio anterior já não tinha sido rico em conflitos (daqueles em que o pessoal saca dos dados para rolar), este aqui foi mesmo pobre. É que eu, em vez de andar à procura de oportunidades para rolar dados, estava era atento a oportunidades de detonar as minhas bombas em cima dos jogadores. Vai-me agradar mais quando conseguir conjugar as duas coisas. Vou tentar melhorar esta falha para a próxima.

Também achei que os jogadores estavam um tudo ou nada passivos em relação ao habitual no que diz respeito a introduzir elementos inesperados na história através do seu poder de chamar cenas. Mas não sei se é só impressão ou se, a não ser só impressão, hei-de relacionar isso com a minha preparação adicional ou com outros factores. O Jota, sempre o mais activo neste aspecto, esteve perto da sua forma habitual apesar de estar morto de sono. Já a Raquel mencionou várias vezes, e logo desde o início, alguma dificuldade em chamar cenas que fugissem ao normal. Quanto ao Paulo, bom, com tantos Next Week On que o envolviam directamente a ele, já tinha o seu caminho mais ou menos traçado (mas ainda assim criou umas cenas mais introspectivas bem porreiras).

De qualquer maneira, vou tentar não fazer uma preparação tão exaustiva para o próximo episódio. Vou arranjar pelo menos um ou dois bangs para cada jogador, isto para que haja algo sempre à mão quando a inspiração do momento falha ou é preciso espicaçar as hostes. De resto, talvez valha também a pena recordar aos jogadores todo o poder que têm à disposição só pelo simples facto de poderem enquadras cena com um cenário, um elenco e um objectivo.

E daí, talvez não me precise de preocupar... quando estava a justamente a escrever este post, no dia seguinte ao jogo, recebi uns SMS da Raquel onde ela fazia menções a duas ou três cenas que queria fazer, portanto sou capaz de ter identificado um problema que não existe. :)

Plan 9 from Outer Space

Para os estudiosos e curiosos por estas “cousas‿, aí vai mais material (não me digam que ainda não viram o log de jogo de uma cena de Dirtside?) para a vossa tese de mestrado sob a teoria da prática dos RPGs: o plano maléfico do GM, i.e. as notas do produtor para o Episódio 3. Elas estão no seu estado original; a única coisa que alterei foi retirar o material que não usei para incluir nas notas para o Episódio 4.

Num próximo post falarei alargadamente (Ei, eu ouvi isso lá atrás! Como assim eu “não sei falar de outra maneira?‿) da sessão, que foi de arromba!

Dirtside: Episódio 3 - Notas do GM

Estas são as notas que eu tinha preparado para o episódio passado de Dirtside. Estou a colocá-las aqui a título de curiosidade, para as gerações futuras e os estudiosos das cousas do role-play que precisem de material para as suas teses de doutoramento. ;)

Anyway, elas estão tal e qual eu as usei. Só retirei algumas que, por não ter tido oportunidade de usar, vou guardar para os próximos episódios. E acrescentei dois ou três comentários, assinalados como “Notas‿.


Factos para estabelecer:

Nadja Romanova ainda está no planeta. Ela ficou porque os seus pacientes precisam dela, e ela precisa de se embrenhar no trabalho para esquecer o que fez; precisa de enfrentar a pessoa que vê no espelho. Se Viktor Ralek protestar, ela afirma que os transportes para fora de Eden estão difíceis, o que é a mais pura verdade.
Nota: Isto destina-se apenas a não deixar que uma fonte possível de bangs para o personagem do Jota saia de cena.

• Graças aos cordelinhos puxados pela Senadora Johanssen e Van Meyer, o tribunal marcial ou comissão de inquérito que se ia debruçar sobre os actos de William Jefferson é desconvocado. O General Jamieson vem dar-lhe esta notícia pessoalmente; comenta que Van Meyer lhe disse que William estava destacado para uma missão especial de infiltração na rebelião e deseja-lhe boa sorte. Comenta-lhe de passagem que, possivelmente, quem será julgado será talvez o Tenente Ralek... aparentemente o Capitão Morgan está a reunir algum tipo de provas que pretende apresentar mais tarde.
Nota: Serve para deixar o Paulo, jogador do William Jefferson, livre e completamente à vontade para resolver o seu issue de Vingança contra a Federação da forma que ele entender. Depois dos acontecimentos do episódio anterior, seria completamente irrealista pensar que a Federação e o Exército o iam deixar andar por aí como se nada se passasse. Isto resolve o seu problema e deixa o campo aberto a todas as possibilidades, não limitando as opções do jogador. Além disso, aquela parte sobre o Capitão Morgan e o Viktor Ralek serve para começar a fazer o Jota suar e preparar o terreno para um ou dois bangs relacionados com isto.


Bangs:

• 1) William Jefferson recebe uma mensagem, por intermédio de Daniel Fishburne (que ainda está furioso com ele), para um encontro urgente com o líder da rebelião nessa mesma noite. A sua vida e identidade secreta correm perigo. O encontro, por causa da segurança militar reforçada, será numa zona abandonada dos níveis inferiores da cidade, um local perfeito para uma emboscada. Será que William confia em Fishburne? Será que confia no líder da rebelião, que aparentemente já aceitou trair? Ou vai tentar arranjar uma forma mais segura, e mais demorada, de receber qualquer que seja a mensagem “urgente‿ que a Rebelião tem para ele?

1.1) A mensagem que o líder quer dar a William Jefferson é que a sua identidade foi comprometida. A agente (Nadja Romanova) pode ou não ter confessado o assassinato da testemunha do episódio anterior ao Tenente Viktor Ralek, o que pode ou não ter-lhe dado a certeza de que William é o agente infiltrado que ele suspeitava ser. Que vai ele fazer? E, já agora, que vai Viktor Ralek fazer se souber que Nadja está em perigo ou que foi eliminada?

1.2) Segunda parte da mensagem: o líder pergunta a William se Daniel ou a tal Rita Jamieson lhe deram mais problemas. Não? Os rebeldes também têm, na medida do possível, seguido Fishburne e Rita desde o incidente em que Daniel revelou a identidade de William (têm até uma gravação vídeo, obtida por micro-robô, bastante picante do rebelde e da filha do general!) e nenhum deles parece estar a ser seguido ou a efectuar contactos suspeitos. Isto significa que Daniel, apesar de aparentemente bastante instável, não comprometeu a operação. Mas, mais importante que isso, significa que a tal Rita, a própria filha do general, não o quis comprometer. Eles podem usar isso a seu favor: tentando recrutá-la à força, ou até usar as ligações dela à rebelião para chantagear o seu pai, o General Jamieson. (Mesmo que Paulo não faça nada com isto, será ao menos útil para o iniciar de outro bang, mais à frente.)


• 2) William Jefferson finalmente descobre quem é o assassino da sua família. O relatório classificado que Veronica e Van Meyer lhe dão para as mãos indica que o breve inquérito realizado na altura deu como responsável o Soldado Daniel Fishburne, que na altura servia no pelotão de Viktor Ralek e Thomas M’Bane. Há um relatório assinado pelo próprio em que ele relata o acontecimento. Foi apenas um caso de entre muitos outros que aconteceram nesse planeta nesse pelotão (à semelhança das outras unidades); todos arquivados sem qualquer punição ou sentença. Veronica e Van Meyer não querem que Paulo faça nada. A coisa foi obviamente um acidente, e William procurar vingança apenas vai fazer com que a Rebelião perca dois dos seus melhores agentes: William & Daniel.

2.1) William vai obviamente tentar obter vingança/explicações/satisfações de Daniel. Quando este estiver a ser pressionado/ameaçado, vai dizer que assumiu a responsabilidade pelo sucedido, mas que o foi realmente culpa do seu alferes. Além disso, foi tudo um acidente terrível. Más informações, ordens rígidas, aconteceu tudo muito rápido. Como o seu líder ficou terrivelmente abalado pelo acto e com medo de sofrer uma punição disciplinar que lhe acabasse com a carreira (que o poria em maus lençois com o seu pai, um militar da velha guarda), Daniel decidiu assumir as culpas por ele. Isto tinha sido realmente um acidente, e porque o seu alferes era bom rapaz, e boa pessoa... além de que ficar conhecido como um soldado sanguinário automaticamente o deixava fora de suspeitas de rebelde infiltrado no exército.

2.2) Só com muitas pressões/violência (ou William pode ameaçar fazer uma denuncia para prender Rita por traição, por exemplo) é que Daniel vai revelar o nome do seu “camarada‿; ele ainda está na tropa, mas o acontecimento abalou-o tanto que ele optou por uma carreira mais técnica e de secretária... este soldado é, nem mais nem menos, que Francis Jamieson, irmão de Rita! Realmente é verdade o que William diz, Francis nunca mais esteve na linha da frente desde a campanha em Ellis e transferiu-se quase de imediato para uma unidade técnica, onde permaneceu o resto da sua carreira.


• 3) Jan Van Meyer em conversa tranquila com William Jefferson aborda por acaso o assunto Christine Sanders, a rival que William matou a sangue-frio. Van Meyer comenta que ela estava a trabalhar para ele e para Veronica. Ele estava prestes a arranjar papéis para ela poder ser libertada como sendo agente duplo ao serviço da Federação quando William a assassinou. São assim, os azares da vida. É irónico que William tenha vindo substituí-la, já que foi ele que a retirou de serviço. Van Meyer espera que ele seja tão bom como ela.

3.1) Sim, foi mesmo Veronica quem orquestrou o rapto e assassinato do seu pai, para ganhar a posição dele. Foi tudo organizado por Christine Sanders, um contacto de Van Meyer e Veronica. Veronica menciona então “aquele totó que a acompanhava para todo o lado‿, referindo-se a Daniel Fishburne. Diz que Christine o controlava como um cãozinho amestrado. É impressionante como os homens podem ser tão ingénuos. Mas William não é ingénuo, pois não?


• 4) Viktor Ralek é abordado por Jan Van Meyer. Este pergunta-lhe “Quanto é que essa Nadja Romonava importa para ti? Vou-te dizer que, neste momento, estou sentado sobre provas que ela matou aquele nosso soldado no hospital; um exame extenso e cuidado ao seu historial neste hospital revelou fortes suspeitas de que ela possa estar a ajudar os rebeldes desviando medicamentos e prestando cuidados médicos não-registados. O Capitão Morgan – que era o responsável pela segurança do hospital – está farto de insistir que quer o relatório final do Special Branch sobre o incidente. Não quis dar-lhe num prato a cabeça da Nadja sem primeiro falar contigo. Posso dar-lhe o que ele quer... ou posso dizer que o soldado morreu de causas naturais e deixar a Nadja à solta. O que achas?‿

4.1) Se Viktor não tentar fazer nada por Nadja, “assim seja‿, Van Meyer deixa-a à mercê do Capitão Morgan. Se ele a quiser salvar, os amigos têm de ser uns para os outros, e Viktor fica a dever-lhe um favor. Van Meyer deixa passar a ideia de que as coisas em Eden estão para ficar ainda muito mais quentes. A Federação está a reforçar a presença militar em todas as colónias, mas Eden é realmente o ponto mais quente (ele até sabe porquê, mas não o revela). Há-de chegar uma altura em que homens de confiança em lugares-chave como Viktor poderão ser essenciais.

Dirtside: Episódio 3

Revenge is sweet for those who wait,
Never early, always late,
Waiting now to consummate
A marriage made in Hell!
--Overkill, E.vil N.ever D.ies

Está a saga Star Wars no Episódio 3 - A Vingança dos Sith e, por enorme coincidência, está Dirtside no seu Episódio 3, que é só mesmo Vingança... no nosso caso, A Vingança de William Jefferson.

Eu já vos disse que a sessão foi um estrondo? Se estão lembrados, este era o episódio spotlight de William Jefferson (jogado pelo Paulo), o rebelde infiltrado no exército que procurava vingança pela morte bárbara da sua mulher e crianças pelas balas de um soldado da Federação. Obviamente que hoje ia ser o episódio onde ele ia não só descobrir quem lhe tinha morto a família, como ia também fazer algo quanto a isso, quase de certeza resolvendo de vez o seu issue (Vingança). Tudo o que tínhamos visto do William Jefferson até agora indicava que ele ia matar quem quer que fosse responsável sem pensar duas vezes e sem sentir qualquer remorso; lembrem-se que este é o mesmo homem que matou uma sua colega rebelde pelas costas depois de a ter ajudado a escapar da prisão, para surpresa e horror de todos os presentes e participantes no jogo (foi um dos maiores momentos altos de toda a temporada!). No entanto, eu estava decidido a dificultar-lhe essa decisão e tentei que o seu momento de vingança viesse acompanhado de dúvidas e, se é que isso é possível para o William, até remorsos. E - guess what? - resultou muito bem!

O meu plano tortuoso iniciou-se logo na cena de abertura, e continuou a correr debaixo da superfície e longe dos pensamentos dos jogadores até emergir de súbito para os apanhar de surpresa (espero eu!). Já tinha movido furtivamente as peças do puzzle para os seus pontos-chave no tabuleiro onde os jogadores os iriram então descobrir, encaixar e, ao juntá-las todas, ficar minimamente chocados ou surpresos com o quão diferente era o resultado obtido do resultado esperado. Assim, estava tudo pronto quando o Paulo chamou por fim a cena em que ia receber das mãos dos serviços secretos da Federação o relatório sobre o incidente da sua família. O assassino confesso era nem mais nem menos que Daniel Fishburne, o namoradinho de Rita Jamieson (jogada pela Raquel) e outro rebelde infiltrado no exército, tal como William. A Raquel e o Paulo entreolharam-se; um deles (quase de certeza a Raquel, tão vingativo é o personagem do Paulo) ia ficar numa alhada por causa das acções do outro. Era um choque de comboios à espera de acontecer.

Não estou certo se tomei a melhor opção; o personagem do Jota era um candidato extremamente forte ao lugar de assassino, pois desde o início que tem no seu background (e como parte do seu issue) alguma espécie de screw-up no planeta-mãe de William Jefferson que resultou na morte de civis inocentes. No entanto, o seu Screen Presence para este episódio era 1, o valor mínimo, e se eu o colocasse em rota de colisão com o Paulo seria obrigado, quase de certeza, a resolver também o seu issue neste episódio, o que não faria grande sentido. Além de que os dois personagens já não se gramavam nada, para grande diversão dos jogadores que os jogam.

De resto, e sedento de sangue como o William estava e tão empenhado em cumprir o seu dever estava Viktor, tive medo que de súbito déssemos por nós num beco sem saída onde um dos dois personagens tinha de morrer ou ir preso/exilado por muitos e longos anos. Ambos os jogadores nunca tomariam essa decisão, não são o tipo de pessoas que tire qualquer gozo de destruir o personagem de outro jogador, mas mesmo assim tinha medo de darmos por nós nesse tal beco sem saída onde o rumo lógico da história nos obrigasse mesmo a ter de colocar um dos PCs fora de acção. Além disso, sabia que o Paulo quase de certeza não ia considerar limpar o sarampo ao personagem do Jota, simplesmente porque era do Jota, e, como já disse, queria colocá-lo face a uma decisão difícil. Não quis que o Paulo decidisse perdoar o assassino só porque era a personagem de outro jogador. Ainda assim, também não deixei o Jota totalmente livre de culpas; ele era o oficial no comando quando o massacre aconteceu e ainda podia sobrar para ele se ele se “esforçasse‿ para isso.

De qualquer modo, lá voltamos nós ao Paulo/William e ao meu plano tortuoso. A primeira coisa que ele faz depois de saber a identidade é, obviamente, ir procurar o culpado. Eu aqui estava a tentar evitar que o Paulo/William matasse logo o Daniel; nem estava muito interessado na sobrevivência do NPC que até agora me deu mais quilometragem em termos de bangs, estava sim preocupado em que ele ficasse vivo por mais uns minutos, o tempo suficiente para que ele atirasse o próximo bang para cima do Paulo. De modo que “enquadrei‿ a cena com William a encontrar Daniel, sozinho, a praticar boxe no ginásio... estava a tentar evitar que o Paulo resolvesse de imediato a questão com um tiro, antes sequer do Daniel poder abrir a boca, e o ambiente de boxe pareceu-me convidativo a uma troca de murros antes de a coisa passar para os tiros.

Ora bem, afinal nem precisava de me preocupar com nada disto. Isto porque o próprio Paulo/William queria conversar primeiro, um simples tiro não ia resolver aquilo. William queria saber como aconteceu, mas sobretudo porque aconteceu? Porque é que um soldado, ao serviço dos rebeldes ainda por cima, dispara sobre uma mulher e os seus filhos dentro do seu próprio lar.

Até aqui tudo perfeito, e assim haveria de continuar. Ao início Daniel refere que foi tudo um acidente, uma infelicidade do destino. Mas obviamente que a explicação não satisfaz Paulo/William, especialmente vinda daquele que é o seu némesis. Há uma grande cena de tareia e pancadaria, com William a ganhar facilmente a mó de cima pois Daniel não parece estar a defender-se com tudo o que tem. Finalmente, Daniel acaba por confessar que não foi ele quem disparou; ele apenas aceitou as culpas para proteger outro soldado novato que não sabia o que fazia. A situação até lhe era ideal; sendo ele um rebelde a tentar infiltrar-se no exército, quem é que desconfiaria alguma vez dele sabendo que fora culpado de matar uma família de inocentes?

William acredita na explicação e agora quer saber o nome do verdadeiro culpado. Daniel, no entanto, recusa-se terminantemente a revelá-lo e continua a proteger a sua identidade. Mas William tem um trunfo na manga: no início do episódio, eu introduzira a meio de uma conversa de William com o líder rebelde o tema da relação entre Daniel & Rita (a personagem da Raquel). Os rebeldes tinham uma gravação vídeo, que estavam a pensar usar para chantagear Rita e/ou o seu pai (o comandante das forças armadas) para que os ajudassem. É que a dita gravação, para além de momentos de sexo bem quente que Rita seguramente não queria divulgados, deixava bem claro que a própria Rita – uma soldado da Federação, filha de um general da Federação – sabe perfeitamente que o homem com quem está a dormir é um rebelde. De modo que é este o trunfo de William; ele tem uma cópia do vídeo e pode facilmente tramar a namoradinha de Daniel se este se recusar a colaborar.

Face a isto, Daniel revela finalmente o nome do culpado: “Francis Jamieson, foi ele quem matou a tua família!‿ Ora Daniel berra isto justamente quando Rita Jamieson – a irmã de Francis, que é o seu mano favorito – está a entrar no ginásio com a Sargenta Lésbica do Inferno (“O soldado não pensa; o soldado executa! ‿) para treinos forçados. Isto era outro bang que tinha planeado; não, é a parte da Sargenta Lésbica do Inferno, era a parte da Rita ouvir o seu namorado a “chibar‿ o nome do seu irmão e, possivelmente, a assinar a sua sentença de morte... porque William Jefferson não perdoa, ou perdoa?

E para não ficarem a pensar que os bangs são sempre garantidos, este foi um bang que tinha tudo para explodir e não deu em nada. Obviamente que a Rita/Raquel ficou preocupada pela vida do seu irmão; estou a referir-me ao facto de que ter sido o seu namorado a colocar a vida do seu irmão em risco não a aqueceu nem arrefeceu, nem ali no calor do momento, nem mais tarde. Pelo menos não que eu tivesse dado por isso. Isto porque, afinal, o namorado protegera o seu irmão durante estes anos todos, portanto a Raquel achou que já tinha feito bem mais que o suficiente. Sendo assim, o meu veredicto final é que este sub-bang do bang principal não detonou.

Mas o bang principal foi bonito de se ver. O meu plano maléfico servira mesmo para isso. Para já, tinha aproveitado várias ocasiões desde o início do episódio para demonstrar que o nosso assassino recém-revelado, Francis Jamieson, era um tipo às direitas que contava com a simpatia dos jogadores e da própria audiência; a história de ele ser um recruta wet-behind-the-ears extremamente assustado que cometeu um engano era bem fácil de engolir. Depois, havia sido Francis, nem mais nem menos, quem ajudara William a sair vivo de um aperto durante uma emboscada rebelde no início do episódio. Seria isto o suficiente para William lhe perdoar? Ou iria ele matar primeiro e perdoar depois? Todos nós ficámos na dúvida, na expectativa de saber mais... e quem tinha mais dúvidas era o próprio Paulo; ele sempre julgou que a decisão de premir o gatilho e despachar o sacana do assassino seria fácil e directa, mas agora... Ninguém queria estar na pele dele. Agora sim, o meu trabalho como Produtor estava cumprido; agora era com ele lidar com este caso bicado e resolvê-lo como bem entendesse.

O Paulo/William andou a remoer o assunto enquanto os outros personagens se tentavam preparar o que quer que ele fosse fazer. A Raquel e a sua Rita obviamente que tentaram avisar o irmão do perigo iminente mas este, que já há anos que andava a fugir do passado, decidiu agora enfrentá-lo com tranquilidade. Quanto ao Jota/Viktor, o seu percurso normal seria mandar prender o William, como fizera no episódio anterior, mas Viktor e William estavam agora a trabalhar na mesma equipa (nem para a Federação, nem para a Rebelião, e sim para um terceiro grupo de interessados no poder) e Viktor, sentindo-se culpado pelos acontecimentos em Ellis, compreendia perfeitamente o desejo de vingança/justiça de William. De modo que Viktor reuniu todos os soldados da unidade que haviam estado em Ellis para efectuar uma espécie de julgamento entre pares, para tentar apurar o que de facto tinha acontecido e se uma sentença para o assassino se justificava.

O que veio a acontecer foi que Paulo/William, com uma arma nas mãos, confrontou Francis num local isolado do campo de treinos do exterior da base. Rita, Viktor e os soldados que ele reunira, chegaram nos momentos finais da pequena conversa entre os dois. Mas por essa altura já não havia muito que eles pudessem fazer, porque William já tinha tomado a sua decisão: ele, que até agora não demonstrara quaisquer sinais de consciência ou de escrúpulos, já decidira perdoar o homem que matara a sua família e já baixara a arma. Que bonito! Um verdadeiro momento Kodak.

Para encerrar o episódio num cliffhanger, e preparar desde logo o terreno ao próximo episódio (o Spotlight da Raquel), a inspiração surgiu-me de súbito. Sabia que havia interesse da parte da Raquel em explorar mais afundo a relação entre a sua personagem (Cabo Rita Jamieson) e a Sargento K.C. O’Rourke (a mesma que eu chamei lá atrás a “Sargento Lésbica do Inferno‿ e que é, na realidade, boa pessoa... lá muito no fundo); aliás tínhamos acabado de aproximar um pouco as duas na tal cena em que KC a ajudou nos seus treinos físicos. Sabia também que havia por aí um vídeo extremamente “quente‿, já para não dizer comprometedor, que a Rebelião queria usar para chantagear Rita, a filha do comandante das forças armadas no planeta. Foi só juntar 1 + 1, ou seja, o útil ao agradável.

De modo que abri a cena assim... Rita é chamada, ao início da noite, aos aposentos de KC. Sim, é mesmo o quarto da sua sargento, não o gabinete dela. Estranho. Mais estranho é que, quando chega lá, KC está toda falinhas mansas e – pasmem-se – está vestida à civil. Rita, em todos os meses que a conheceu, só tinha visto ou fardada ou nua, nos duches. Se alguém lhe tivesse dito que KC tinha roupa civil, ela teria duvidado da sanidade mental dessa pessoa. Algo de muito estranho se passava ali. E ela nem imaginava quão estranho!

Foi delicioso ver a reacção da Raquel quando a KC começa a falar de um certo vídeo que, por acaso lhe veio parar às mãos, e carrega num botão, começando a correr no ecrã de parede as imagens das suas acrobacias sexuais e, ainda pior que isso, uma conversa onde fica estabelecido sem sombra de dúvidas que Rita está a dormir com o inimigo e sabe-o muito bem. Aquelas imagens são suficientes para lhe enforcar o namorado e meter Rita na prisão por muito tempo. Junto com o vídeo vinha também uma carta para Rita, que KC lhe entrega; vem da parte dos rebeldes, e avisa-a que a vão contactar com instruções que ela deverá cumprir se não quer o vídeo divulgado.

É verdade que a Raquel já sabia da existência e do conteúdo do vídeo, que tinha sido mencionado numa cena entre o personagem do Paulo e os rebeldes, mas vê-lo nas mãos de KC (a sua némesis) deixou-a completamente surpreendida e bem tramada. Isto já era óptimo, mas fui ainda um passo mais em frente.

O que é que a KC faria com o vídeo? Chatear a cabeça da Rita/Raquel, pois claro. Dizendo que a devia denunciar ao comando, que a deviam prender a ela e mandar o traidor do seu querido namoradinho para a forca. “Então porque é que não fazes isso mesmo?‿ diz Rita fazendo bluff, tentando não mostrar que o namorado é tudo o que lhe importa na vida.

“Sim, realmente, porque é que eu não faço isso mesmo?‿ responde-lhe a sargento nas suas roupas civis, aproximando-se da cama onde Jamie está sentada e sentando-se ao lado dela. “Na verdade, estava à espera que me desses uma razão...‿ diz ela colocando-se numa posição extremamente insinuante que não deixa grande margem para dúvidas.

E foi com esta frase que o episódio terminou. Desnecessário será dizer que toda a gente, jogadores & produtor, ficou em pulgas para saber como é que Rita reagiria à chantagem. Será que íamos ter a nossa primeira cena de sexo lésbico no próximo episódio? Ou, se não, como é que Rita ia contornar a chantagem? Talvez ela se passasse e usasse a violência para silenciar KC e manter o vídeo escondido do mundo? Ia tentar apelar à réstia de coração que sabíamos que a KC tinha?

A graça estava toda justamente no facto de que, de todo o leque de hipóteses e opções à disposição, não havia nenhuma que se pudesse considerar excluída à partida e todas pareciam igualmente prováveis. Este tiro de canhão podia soltar-se em qualquer direcção, derrubar qualquer estrutura, atingir qualquer alvo. Não é bem mais interessante colocar os vossos jogadores face a este tipo de situações do que colocá-los em situações em que são os mestres, as regras, o background, ou o que for, que “encaminha‿ o jogador/personagem até uma escolha pré-definida? Para mim, sim, sem dúvida.

Pelo elevado interesse que suscitou, não só entre a jogadora visada mas entre todos os participantes (jogadores & produtor) por igual, e pela forma como deixou toda a gente aguardando ansiosamente o início do próximo episódio, tenho de considerar este o bang mais explosivo da campanha. Duvido que volte a surgir algo deste calibre nesta primeira temporada de Dirtside que está prestes a acabar, mas – eh – podemos sempre ter esperança e continuar a trabalhar para isso.

Na verdade, o bang foi tão explosivo e o cliffhanger tão loucamente poderoso que, mais uma vez, a Raquel (com a minha completa cumplicidade e conivência, admito) não resistiu a deixá-lo sossegado até ao próximo episódio, de modo que resolvemos essa cena através de ficção escrita por ela, com alguns parágrafos meus lá pelo meio e até um conflito cujo rumo foi decidido pela sorte dos dados. Não queríamos privar os outros jogadores de assistir ao desenrolar da cena, e tentámos descrever apenas os momentos que levaram ao cliffhanger. No entanto, quando demos por nós, já tínhamos feito render o peixe ao máximo e ainda era quarta-feira... nem eu nem ela conseguíamos aguentar-nos até Domingo para saber o resultado da cena, de modo que continuamos até ao final. O resultado poderá ser lido aqui, no portal, em breve.

Dirtside: Episódio 4 - Ficção

Dirtside continua a inspirar ficção mesmo depois da série acabar! A cena aqui reconstituída (e melhorada) por mim e pelo Ric aconteceu durante o Episódio 4 e marca um dos pontos de viragem na relação entre Rita Jamieson e KC O'Rourke, dos quais houve dois ou três durante o episódio.

Aqui, uma Rita já muito castigada pelos eventos do episódio (a morte de três irmãos, duas operações complicadas de supressão de rebeldes, e ainda os altos e baixos com o Daniel Fishburne) vai confrontar a sua (ainda-)nemesis KC acerca do facto de esta lhe ter mentido e por isso ter causado mais sarilhos que os estritamente necessários ao Fishburne. As coisas não correm propriamente como ela tinha planeado.

Esperamos que gostem!
Ass: Raquel "Éowyn" Correia

Quando a porta se abriu, Rita Jamieson não estava para brincadeiras e isso reflectia-se no rosto dela e acima de tudo na frieza dos seus olhos. O sorriso alegre com que a KC a recebeu parecia-lhe antes sinistro, calculista.

Evitando os braços abertos da sargento com um gesto brusco, Rita irrompeu-lhe pelo quarto adentro e só parou junto à secretária. Só mesmo a raiva e a indignação ainda lhe davam energia – se parasse para pensar bem, Rita afogar-se-ia na onda de dor e mágoa: primeiro três irmãos mortos num único dia, depois o pai naquele estado, e finalmente a perspectiva do Fishburne vir a ser torturado porque ela o incentivara ainda a entregar-se.

E KC tinha culpas quanto ao último item.

“Rita? Passa-se alguma coisa?‿ Uma pausa. “Sinto muito pelos teus irmãos.‿

Falsa do caraças. Oportunista. Sacana.

“Passa-se que acabei de falar com o Fishburne. Tu falaste com ele naquela noite!‿ No fundo, no fundo, por baixo de toda a raiva e preocupação Rita desejava que ela desmentisse, que tudo não passasse de um logro do Fish; só que ele parecera tão sincero! Que raio lhe passara pela cabeça para recusar um abraço do Fish?

Oh não, aquilo era a KC a perder a cor. Sempre era verdade! E agora?

“Rita, por favor, deixa-me explicar,‿ rogou KC, visivelmente atrapalhada. “Eu... Eu fi-lo por ti; foi para teu bem.‿

“Tch, pois claro,‿ atacou logo a Rita, levando a ponta dos dedos à testa. “Nem sei como fui capaz de pensar outra coisa!‿ O sarcasmo era por demais evidente na voz dela.

KC respirou fundo, ganhando um segundo para escolher as suas palavras. “Precisava de fazer algo para me ocupar e fui dar uma volta. Cruzei-me com ele por acaso e... quando o vi ali, sozinho, sem ti, pensei... bom, não sei o que pensei. Talvez que ele estivesse a tentar ganhar tempo para arranjar alguma maneira de nos enganar ou de te virar contra mim, não sei. Só sei que não me consegui controlar. Assustei-o e mandei-o embora, sim. Mas só estava a pensar em –“ ‘nós’ foi a palavra que quase lhe escapou da boca “– em ti.‿

“Nos enganar?!‿ papagueou Rita. “Virar-me contra ti?!‿ Abanou a cabeça. Esta KC era demais; não se enxergava nem por nada. “Fizeste-me a vida num inferno desde o momento em que aterrei nesta choldra que passa por planeta; se alguém alguma vez me virou contra ti foste tu mesma. Para isso não preciso da ajuda de ninguém!" Estava a começar a levantar a voz, e aos gritos não ia chegar a lado nenhum, não com a KC. Passou os dedos pelos olhos, numa tentativa de se acalmar, mas estava tão cansada...

KC aproximou-se. Parecia realmente incerta do que fazer agora, e cada gesto seu, cada palavra sua, apenas reforçava a aparência de insegurança. KC tentou tocar o braço de Rita com a sua mão. “Desculpa, Rita, eu...‿ As palavras de KC foram silenciadas pelo gesto brusco com que Rita se desviou da tentativa de contacto físico. Se KC ainda não tinha a certeza absoluta de que aquilo era um assunto muito sério, ganhou-a naquele momento.

“Era a melhor solução, tu sabes disso!‿ exclamou KC. “Ele entregar-se e ser perdoado nunca ia acontecer, não depois destes ataques terroristas todos. Além disso, os amiguinhos dele já provaram que o querem sacrificar; devem ter tomado todas as medidas possíveis para que quaisquer confissões que ele possa fazer não os atinjam a eles nem à rebelião. A fuga era a única opção.‿

“Essa decisão era minha e do Fish para tomarmos, não tua. Sessenta míseros minutos, foi tudo o que te pedi, e nem isso foste capaz de fazer...‿

Rita nunca tinha visto a sua sargento tão atrapalhada e insegura. Até os olhos dela pareciam brilhar com um pouco de líquido! “Mas... não vês? Se o convencesses a entregar-se as coisas iam correr mal. Ias destruir a vida dele – na qual não tenho grande interesse, admito – mas ias destruir também a tua. Tudo aquilo pelo qual trabalhaste, tudo aquilo que investiste na tua carreira, todos os sacrifícios que tiveste de fazer. Ias sentir-te culpada e miserável. Não quis que tivesses de sofrer assim. Por isso fui fraca, e tirei-vos a decisão das mãos. Não fiques zangada, por favor...‿

“Ah, e tu conheces muito bem os sacrifícios que tive de fazer, imagino," retorquiu a Rita com veneno na voz. "É impossível não ficar zangada, KC," continuou, esforçando-se por manter a voz calma. "Em primeiro lugar porque 'fraca' não existe no teu dicionário pessoal.‿ A noção de que esta afirmação talvez fosse injusta e muito errada atingiu Rita mal ela acabou de pronunciar a frase. Ainda assim, continuou o que tinha para dizer sem fazer qualquer pausa. “E em segundo lugar... Como diabo achas que me sinto agora? Como achas que me senti quando ele não apareceu à hora que tinha prometido? E como achas que me sinto agora, sabendo que ele está neste momento a ser torturado porque se entregou um dia tarde demais, hã?"

“Rita, tem calma; eu sei que estás perturbada, e a situação não é para menos. Mas dá-me uma oportunidade, por favor; só uma oportunidade.‿

Rai’s parta o raio da mulher! Cabeça dura! Rita não conseguia fazê-la perceber que era ela a responsável por aquele horrível aperto no coração que lhe traria lágrimas aos olhos num instante, se parasse para pensar nisso. Queria vingança, ou pelo menos inflingir alguma daquela dor à KC. Mas ao mesmo tempo não era capaz. Pelos vistos não desejava tal coisa nem ao seu pior inimigo, e de qualquer modo já não sabia bem onde a KC se encaixava, no esquema das coisas: amiga ou inimiga?

A mesma pergunta tinha-lhe passado pela cabeça quando descobrira que o Fish era rebelde. E agora, amigo ou inimigo? A ele dera-lhe um oportunidade. Com que cara se olharia ao espelho se não desse uma segunda oportunidade a uma leal soldado da Federação?

Quem cala consente, e vendo que Rita não barafustou de imediato, KC continuou a explicar-se. “Vamos falar disto com mais calma, está bem? Fazemos assim: tu sentas-te ali,‿ KC apontou para a cama, “e eu vou buscar uns copos de vinho. Estes dias têm sido difíceis, especialmente para ti. Tens sofrido imenso.‿

Rita estava a perder o gás. Os acontecimentos do dia eram terríveis demais e estava finalmente a chegar ao fim das suas forças. E tudo porque fora estúpida o suficiente para confiar algo tão importante à maior responsável por meses inteiros de dissabores em Éden. “Desde quando é que te importas se eu sofro muito, pouco ou nada, KC? O que julgas que te dá o direito de decidir o que é melhor para mim? Fui mesmo tansa por ter confiado em ti; já devia saber o que a casa gasta.‿

“Por favor não digas isso, Rita,‿ pediu KC, aproximando-se. “Eu sei que mereço, que mereço o teu desprezo, mas... por favor.‿ Desta vez a mão de KC tocou no braço de Rita, que não tentou escapar.

Era o sinal positivo por que KC tanto esperava. Rita começava aos poucos a reconsiderar os seus sentimentos; agora KC já podia sair do quarto por alguns minutos, sem medo de que Rita desaparecesse ou fizesse alguma loucura, enquanto ia às cozinhas resgatar uma garrafa de vinho rosé da adega do General Jamieson. O pai de Rita não apreciava muito rosé, de qualquer maneira, portanto também não lhe ia sentir a falta.

“Pronto, Rita, vais ver que daqui a nada as coisas parecem um pouco melhores. Eu vou buscar o nosso vinho. Não saias daqui, está bem?‿

A cabeça de Rita acenou que sim, num gesto quase imperceptível. A pobre está mesmo em baixo, pensou KC antes de sair e fechar a porta atrás de si.

Rita queria sentar-se e ainda deu um passo hesitante na direcção que KC indicara, mas então apercebeu-se do destino e recuou para o ponto de partida. A última vez que estivera naquele quarto fora precisamente na noite em questão. Veio-lhe à cabeça num clarão a memória do beijo que dera à KC. Ainda hoje Rita não sabia que diabo lhe passara pela cabeça para agir daquela maneira, mas lembrava-se vividamente da sensação. Em vez de sentir repugnância Rita dera por si a gostar do beijo, a querer mais, muito mais. Fora nessa altura que entrara em pânico e recuara com quantas pernas tinha. Isso era bem capaz de ter saído caro ao Fishburne.

Quando KC voltou ao fim de uns minutos, Rita parecia não se ter mexido do mesmo lugar. No entanto, ainda a olhava com desconfiança. Esforçando-se por não demonstrar a fraqueza que os seus joelhos pareciam adquirir sob aquele olhar, KC pousou a garrafa e os copos de cristal na sua escrivaninha. Depois, já com os dois copos cheios até um terço, aproximou-se de Rita. Esta aceitou o copo que KC lhe estendeu, e bebeu um gole. Depois outro, e mais outro, e mais um, até o copo ficar vazio.

KC serviu-a novamente, e pousou o seu copo na mesa de cabeceira. O que bebera do vinho quase nem dava para provar o sabor. Agora livres, as mãos de KC procuraram os pulsos de Rita. KC agarrou-os delicadamente. Se queria ultrapassar esta situação causada pelo Fishburne, tinha de convencer Rita, agora, naquele momento.

“Eu quero mudar, Rita.... mas preciso de ti. Não tenho mais ninguém,‿ disse ela, com a voz a tremer-lhe um pouco. A sua mão subiu até ao ombro de Rita, e depois começou a afagar-lhe os cabelos. “E acho que tu, Rita, precisas de mim. Os teus irmãos, o –‿ KC quase disse ‘Fishburne’, mas ainda teve tempo de morder a língua e corrigir, “ – teu pai que não te dá uma oportunidade. Deves sentir-te arrasada. Deixa-me cuidar de ti,‿ disse KC, envolvendo a estranhamente silenciosa Rita nos seus braços.

Rita não conseguiu reagir. Sentia que devia gritar e espernear até a KC compreender, compreender mesmo, a gravidade daquilo que fizera, mas não era capaz. E já não era só porque se sentia esgotada emocionalmente; era aquele pedido de ajuda tocante. Seria mesmo possível que a KC não tivesse mais ninguém a quem recorrer? Rita seria mesmo mesquinha se recusasse ajuda a uma alma nessa situação.

E depois havia aquele toque nos seus cabelos, aquele abraço gentil. Rita tinha fome de carinho, e ao examinar o dia em retrospectiva teria de confessar que a KC fora uma ajuda preciosa para enfrentar a dura perda de três irmãos num único dia. Suspirou. A batalha estava perdida; KC ganhara com casmurrice e um pouco de carinho.

“Senta-te comigo,‿ disse KC, encaminhando para a cama aquela menina vulnerável que segurava nos braços. “Anda, deita a tua cabeça no meu colo. Vais ver como tudo te vai parecer um nada melhor.‿

Rita, mexendo-se com o vagar de uma pessoa num profundo transe hipnótico, estendeu-se, como que em câmara lenta, sobre o leito de KC. Esta, sentada a seu lado, trouxe gentilmente a cabeça de Rita para o seu colo, e começou a mexer-lhe no cabelo. “Shh... não precisas de dizer nada. Podemos ficar assim, em silêncio.‿

Rita acenou que sim com a cabeça, tão lentamente que foi quase imperceptível. Mais uma vez sentiu as lágrimas formarem-se. Fechou os olhos e deixou-se levar. KC limitou-se a ficar ali, com ela, mexendo-lhe ora no cabelo, ora no rosto, ora no braço, ora no pescoço. E a Rita tinha de admitir que lhe sabia bem. Quem diria que a KC poderia ter um toque tão dócil, tão gentil? Sabia bem, era confortante.

O tempo pareceu parar.

Dirtside: Episódio 4

E cá estamos nós num episódio que tinha tudo para partir a loiça toda. Era o spotlight da Raquel e, se ela já tinha sofrido tanto nos outros episódios, neste aqui só podíamos imaginar em que sarilhos a íamos meter. O início das hostilidades sofreu um pequeno adiamento devido à notícia do Paulo de que a série Desperate Housewives ia começar dali a minutos na SIC. Ora aí estava algo que toda a gente (okay, o Jota provavelmente não) estava em pulgas para ver depois de todos os elogios e bons comentários que nos iam chegando através da internet desde que a série estreara nos EUA. Além disso, é um exemplo perfeito de material para um série de PTA; só que em vez de ter como pano de fundo cenas de acção e aventura, tem um background de segredos escuros e mistérios por resolver. Mas, bem vistas as coisas, o truque continua a ser o mesmo: o mais importante são os personagens e os seus issues; o mistério do porquê do suicídio de Mary Anne(?) e do segredo escuro que o seu marido esconde são apenas “desculpas‿ para manter o ritmo e aplicar mais pressão sobre os personagens.

Essa era uma lição que eu devia ter mantido em mente. Depois de a sessão anterior ter resultado focada demais por excesso de preparação da minha parte, nesta aqui não planeei muito... e não planeei aquilo que devia ter planeado acima de tudo, aquilo que sempre custa mais a improvisar: a cena de abertura. Pois é, senti a falta e ter uma cena de abertura daquelas em grande, que dá o tom para o resto do episódio, e indica qual vai o ser problema/mistérios que o episódio vai ter como pano de fundo. Sem isto, as trocas e baldrocas dos personagens caíam um pouco no oco e não havia uma direcção estabelecida para a trama, sendo mais difícil de pensar em boas cenas.

Parte do problema foi que tínhamos uma cena quase obrigatória para resolver: o texto de ficção que a Raquel escreveu para resolver o cliffhanger do episódio anterior acabava com a personagem dela a receber um ultimato; tinha uma hora para tentar resolver os seus problemas como entendesse, caso contrário alguém os resolveria por ela, não necessariamente da maneira mais meiga. De modo que foi com a continuação dessa cena que abrimos o episódio, e depois disso não me ocorreu nenhuma cena apropriada para dar o mote ao episódio.

Foi um episódio bem bom, com os momentos de grande emoção a que já estamos habituados. Simplesmente faltou ali uma cola que ligasse aquilo tudo e criasse um todo ainda maior que a soma das partes. Bom, ao menos será um erro que não voltarei a cometer! É claro que também não ajudou termos começado tão tarde e termos de interromper o jogo a meio para jantar e ver a festa que os benfiquistas faziam por todo o país, mas pronto... :)

Quanto a momentos interessantes do jogo... Bom, através do meu Next Week On da semana passada, em que aparecia o pai da Rita Jamieson (personagem da Raquel) lavado em lágrimas e a dizer à sua filha para ir chacinar rebeldes, toda a gente tirou a conclusão – muito certa – de que eu (ou alguém) ia matar o irmão querido da Rita, Francis. Como essa surpresa já estava estragada, não dei muito destaque à sua morte; aconteceu off-camera. Entretanto já me ocorreram várias maneiras de tornar esse evento interessante e potente, mas na altura não me ocorreu nada; ando com alguma falta de inspiração, que espero que volte rápido agora que já me despedi do meu emprego actual e que vou para outro menos cansativo e mais livre. De qualquer maneira, esta conversa só pretende chegar a um ponto: a reacção da Raquel.

Já se falou aqui em como PTA não é daqueles jogos que encoraja o jogador a “encarnar‿ o personagem; o principal contra é mesmo os jogadores terem regularmente de sair do interior do seu personagem para enquadrar uma cena ou oferecem sugestões aos outros participantes. Mas a verdade é que a Raquel e o Paulo tem lidado com essa dicotomia na perfeição: quando é para chamar cenas, reflectem sobre o grande esquema das coisas e têm ideias fascinantes; já quando as cenas começam e os seus personagens estão presentes, eles são o personagem. Às vezes parece que alternam entre os dois modos sem qualquer esforço, e enquanto o diabo esfrega um olho. É um óptimo sinal!

E falava eu na reacção da Raquel, que ficou visivelmente afectada e triste, por tempo significativo, ao serem dadas a Rita as notícias da morte do seu irmão. Ora o seu irmão é um NPC que só tinha surgido no episódio anterior em três ou quatro cenas. É uma capacidade de empatia fascinante conseguir sentir algo tão forte por algo do qual se conhece tão pouco!

Quando falo do Narrativismo, ou pelo menos de algo como cortar pela raiz a palha desnecessária à história (para quê fazer roleplay de três horas de interrogatórios em tavernas mal-cheirosas quando se pode começar o roleplay a partir do momento em que o PC entra na taberna certa, onde realmente se esconde a pista/pessoa que ele procura, e aproveitar as outras 2:45 para fazer mais mil coisas interessantes?), a principal objecção que me põem é que os personagens e os seus sentimentos ou relacionamentos são coisas que só se desenvolvem ao fim de muitas sessões, ou de dezenas de sessões, ou até de centenas de sessões. Eu simpatizo sempre com os seus pontos de vista, mas não sei se compreendem bem o meu, de que essa empatia por PCs e NPCs se pode desenvolver sem precisarmos de horas e horas e horas de tempo real de socialização.

É como dizer que não é possível ir ver o Titanic do James Cameron e sentir-se absorvido pelos personagens e pelas suas tragédias sem antes passar semanas e semanas e semanas a ler biografias extremamente completas (e também extremamente chatas) dos personagens e/ou assistir em tempo real, 24 sobre 24h, a todos os momentos que eles viveram abordo do navio. Milhões de adolescentes chorosas provam o contrário, se não acreditam na minha palavra... ou na do Paulo, que me convenceu a ir ver o filme ao cinema duas vezes, que é algo que eu só fiz... hmm... três vezes em toda a minha vida. O meu ponto é que quando estamos a ler um livro, ou a ver um filme, se a coisa for bem feita e se vocês forem como eu, é possível sentirmo-nos profundamente afectados pelo que acontece a um personagem que só conhecemos há 15 minutos/páginas atrás, ou até no início desta mesma cena.

Mas pronto, queria deixar não apenas a ideia de que é possível fazer isso como de facto é muito fácil. A Raquel e a sua personagem apaixonaram-se por dois(?) NPCs sem precisar de horas de roleplay social. Bastaram os gestos certos na altura certa. Se uma palavra mal-escolhida (“Christine‿, ver final do Episódio 2 de Dirtside) pode quase deitar abaixo uma relação, um gesto simples (Daniel Fishburne a oferecer café a Rita Jamieson, Episódio Piloto) pode começar outra. O Paulo, cujo personagem só vivia para a vingar da sua família, foi capaz de simpatizar tanto com um NPC que nem sequer existia antes dessa sessão ao ponto de o perdoar por lhe ter morto a mulher e filhos (Episódio 3). Finalmente o caso que estava a discutir, da Raquel e da morte do irmão de Rita.

Não quero com isto dizer que esta seja a única ou a melhor maneira, apenas que é uma maneira igualmente válida e igualmente potente/intensa. Simplesmente eu, sendo um tipo preguiçoso e fácil de se aborrecer, sou mais adepto desta política do Fast&Furious, ou o que às vezes chamo da “terra queimada‿, que é pegar em setting, PCs e NPCs e dar-lhes todas as voltas possíveis no espaço de tempo mais curto possível até que não reste sobre pedra sobre pedra nem nenhuma hipótese por explorar. A este ritmo, duvido que haja uma segunda temporada de Dirtside, eheh; nessa altura já vou ter esgotado todas as possibilidades destes personagens, nesta situação, neste pedaço de setting. Teríamos, provavelmente, de transformar as personagens e faze-las crescer, e depois transportá-las para outra situação.

Mais eventos interessantes... novamente a Rita e a Raquel, ou não fosse este o seu spotlight. Não foi um bang particularmente intenso, mas foi um que revelou muito da personalidade “escondida‿ de Rita Jamieson. Fiz aparecer no jogo provas novas em relação ao screw-up que ela tinha feito na academia militar, provas que a ilibavam de culpas e que eliminavam do seu currículo aquela enorme mancha que a tinha impedido de se tornar uma oficial. Feito isso, um pequeno gostinho do sucesso: promoção a Alferes, o respeito do pai, etc. Então deixei cair a bomba: as provas tinham sido falsificadas pelo seu irmão Francis, que vira o estado triste em que ela ainda estava anos depois do acontecimento. Pelo menos duas hipóteses tinha Rita/Raquel: parar o processo de re-avaliação do seu caso e deixar a coisa como estava, ou calar-se e deixar que as provas falsas a ilibassem do acidente que causara a morte a uma das suas camaradas de armas.

A decisão estava completamente em aberto. Se Rita era uma mocinha inocente e meio sonsa que muitas vezes tentava fazer a coisa certa, por outro lado era alguém que no dia-a-dia vivia com subterfúgios e mentiras, fruto de estar num relacionamento amoroso com alguém que ela sabia ser um traidor a tudo o que ela, o seu pai, o exército e a Federação defendiam. Que expectativa! E a verdade é que Rita/Raquel optou por se manter quietinha e calada enquanto o processo seguia o seu curso, recebendo de braços abertos os louros que não merecia e deixando que a pessoa que tinha morrido por sua causa ser vista como uma incompetente que causara a sua própria morte.

Gosto muito da Raquel como jogadora. As personagens dela são muito inocentes, tal como ela, mas quando ninguém espera são mesmo assim, capazes das maiores barbaridades. Lembro-me de uma personagem de Kult dela que matara a sangue-frio o seu rival desonesto na editora discográfica onde os dois trabalhavam. Mas lembro-me sobretudo de, num jogo recente de Sorcerer, ela ter empurrado a sua rival numa audição para um trabalho com um artista de renome mundial por um poço de elevador abaixo (o demónio fez o favor de tirar o elevador do caminho, mas foi a Raquel quem deu o empurrão sem que ninguém a tenha forçado ou obrigado). Agora, novamente, ela mente e falsifica para progredir mais rapidamente na carreira. Hmm... será que há aqui um padrão? Só sei que se fosse patrão da Raquel lhe dava logo o meu lugar e pirava-me daquele emprego enquanto ainda estava vivo, eheh. Amigos, tudo aquilo que aprenderam sobre mulheres a ver o Duarte & Cia na vossa juventude, é real; os argumentistas daquilo sabiam do que falavam! ;-)

Bom, houve mais momentos porreiros com a Rita, mas também com outros personagens (o discurso que o Paulo fez aos rebeldes alegando não estar a traí-los quase o convenceu a si próprio!), mas não vou entrar em mais detalhes que isto já vai longo. Agora só nos falta o último episódio de Dirtside, que vai encerrar esta temporada com um Big Bang bem literal, espera-se. No próximo Domingo, a Federação cai!

Come and see him dying for it’s really quite a show,
Walking on the wire though he never seems to know,
Even when he’s falling you can see a little smile,
Figures that he's flying only for a little while.
The ground is rushing towards him but he never sees it there,
Lives his life in pieces, always taking every dare.
What could be the ending? Well, I’m sure that I don’t know.
The ground is getting closer, come and see the show!
See the show!
--Savatage, Surrender

Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.1)

A acção continua ao rubro em Dirtside! Eu não fui capaz de deixar a Rita em suspenso, já que o último episódio acabava com ela a regressar a Éden a bordo de uma nave com uma KC moribunda, um Fishburne ferido, um pai passado dos carretos e uma Lily Wong morta. Tanta coisa podia acontecer durante aquele voo!

E de facto aconteceu, graças à faceta maquiavélica do Ric, que não perde uma oportunidade para lixar a vida à minha pobre Rita Jamieson. É que é uma atrás da outra... O repertório de maldades do Ric não tem fim. Que posso eu fazer senão encolher os ombros? ;)

Mentira, estou-me a divertir imenso com os problemas da Rita. Só espero que os caros leitores se divirtam igualmente com o resultado das nossas trocas de galhardetes.

Ass.: Raquel "Éowyn" Correia.

De facto é curioso como, a dada altura, as maldades iam surgindo aos magotes. Quase cada parágrafo que eu escrevi era para espetar mais uma agulha na Raquel. E foi engraçado trabalhar com uma grande cena de acção e espectáculo visual como pano de fundo. Deve haver poucas coisas piores do que estar numa nave prestes a despenhar-se, estar prestes a morrer de um ferimento de bala e receber uma proposta de casamento inesperada (grande sentido de oportunidade tem o noivo, hein?) de um namorado de quem nos queremos livrar. Esta cena vai ficar para a história como um clássico! Divirtam-se!

Ricardo Madeira

Rita Jamieson não sabia o que deveria sentir. A nave do senado tinha explodido com milhares de pessoas a bordo, incluindo sem dúvida muitos dos marines da unidade dela em Éden. A Federação nunca mais seria a mesma depois de um golpe destes que limpava todo o senado.

Salvara o pai da morte, mas em que estado? Henry Jamieson não era o mesmo desde que lhe tinham morrido três filhos no mesmo dia há coisa de um mês por causa da Rebelião. Agora que o senado fora pelos ares, desmoronava-se a Federação, o porto seguro dele, o pilar da sua existência. Imaginava que o pai estivesse a ruir por dentro.

Pensara por umas horas agonizantes que fora forçada a fuzilar o Fisbburne e depois conseguira-o salvar da nave condenada. Agora não sabia se ainda o amava ou não – ele definitivamente ainda tinha de fazer alguma introspecção porque o nome da Christine aparecera sempre à tona quando o visitara no mês de prisão.

KC também estava a salvo na nave mas fora alvejada com gravidade por uma bala que deveria ter acertado na própria Rita. Obviamente a Rita voltara atrás para salvar a amante, mas a que custo! Lily Wong morrera ao dar-lhe fogo de cobertura.

A melhor amiga que Rita alguma vez tivera jazia sem vida no lugar do co-piloto. Se não fosse ela, nem sequer teriam tido um meio de fuga, e provavelmente Rita e KC teriam ficado para trás. Lily, que tinha sido a última namorada do Francis, e a quem a Rita não tivera ainda coragem de contar a sua situação com a KC.

Desapertou o cinto de segurança e foi abraçar o corpo sem vida da amiga. “Desculpa, Lily,‿ disse baixinho ao ouvido dela. “Se não fosses tu tínhamos morrido todos e nem sequer te consegui valer quando mais precisavas. Grande amiga que arranjaste, que nem sequer teve coragem de te confessar que sim, que os rumores eram verdade.‿

Quando deu por si, as lágrimas corriam-lhe livremente pelas bochechas. “Obrigada por tudo, minha querida. Não serás esquecida, prometo.‿ Com um beijo na face morna da Lily, Rita afastou-se para finalmente limpar as lágrimas. Então pegou na amiga ao colo (parecia tão leve e frágil!) e dirigiu-se à zona de transporte e passageiros.

Depositou o corpo da Lily num lugar vazio e fez-lhe uma festa carinhosa no cabelo. Só então levantou o olhar para o resto dos passageiros.

Eram tão poucos! O pai, Fishburne, ela própria, os três mecânicos de confiança da Lily e KC – se calhar mais morta que viva. Definitivamente não sabia o que sentir; só sentia um enorme aperto no coração e não sabia o que isso significava.

Bom, primeiro era preciso tratar dos vivos e levar todos a bom porto – fosse lá isso onde fosse. Dirigiu-se a um dos mecânicos e apontou com o polegar por cima do ombro para a cabine de pilotagem. “Está em piloto automático. Vá lá para dentro e mantenha um olho nas coisas. Quando for para entrar na atmosfera chame-me.‿ O mecânico assentiu, olhou de relance para a Lily e obedeceu sem palavra.

Evitando o olhar do resto dos passageiros, Rita dirigiu-se com um passo decidido para o corpo prostrado de K.C. O’Rourke. Tinham-na deixado no chão, provavelmente para não mexer mais que o necessário, mas com um cobertor por cima e outro a servir de almofada.

Rita ajoelhou-se a seu lado e acariciou-lhe o cabelo negro curto. “Como vai isso, KC?‿ perguntou quase num sussurro. Por trás de si sentiu alguém aproximar-se com uma passada familiar. Fishburne. Não desviou os olhos da KC.

“Ri...ta?‿ balbuciou KC por entre olhos semi-cerrados. Aos ouvidos da Rita, KC soava cansada e isso não era lá muito encorajador. Com a mão livre, Rita afastou o cobertor na zona onde KC tinha sido atingida. Alguém tinha feito um curativo improvisado, mas era claro que a KC sangrara bastante. Teria de ter a esperança que a bala tivesse falhado os órgãos vitais.

Sorriu ligeiramente, tentando aparentar mais optimismo do que sentia, não se apercebendo que o rasto recente das lágrimas ainda era visível. “Sim, minha valente, sou eu. Vamos a caminho de Éden; não tarda nada arranjamos alguém que te ponha como nova.‿ Ajeitou o cobertor com cuidado para não causar dor à KC. "Portanto tu deixa-te ficar aqui sossegadinha, para variar, que eu trato de tudo."

“Não pensei... tão calmo... obrigada...‿ sussurrou KC de forma críptica, quase como num suspiro. Os seus olhos estavam agora fechados. Durante um horrível segundo, o peito dela pareceu imobilizar-se e o som da sua respiração desvaneceu-se. Rita quase entrou em pânico, mas ao aproximar o ouvido do rosto dela, voltou a ouvir, muito ao de leve o som do ar a entrar e a sair.

Rita deu a mão a KC para manter algum contacto físico que confortasse a sargento, com um suspiro passou a outra mão pelo cabelo loiro, e só então levantou o olhar para o Fishburne. “E tu, estás inteiro?‿

“Sou um dos sortudos.‿ Para responder a Rita, Fishburne desviara por um segundo o olhar de uma mochila de primeiros-socorros de campanha que estava a rebuscar com cuidado. Depois baixou outra vez o olhar para o que as suas mãos estavam a fazer. “Ela está mal, Rita. Vou tentar pô-la a soro, mas nem o cocktail mágico dos nossos médicos aguenta os seus milagres indefinidamente. Ela precisa de um hospital.‿

Rita assentiu com a cabeça. Isso era óbvio. Tencionava aterrar o mais depressa possível na Firebase Omega e levá-la a correr para o hospital militar, onde sabia que tratariam bem dela. Mas até lá a KC teria de ter forças para resistir, e de contar com os conhecimentos médicos do Fish.

Daniel ajoelhou-se do outro lado de KC, e continuou a falar enquanto trabalhava. A concentração na tarefa apodera-se do seu olhar e do seu rosto, que se mantinha semi-envolto por material de penso. Os seus dedos pareciam ter um toque especial, pois manuseavam as agulhas e tubos com destreza e rapidez mesmo quando ele não estava a olhar para o que faziam. Rita não pode evitar sentir medo enquanto Daniel misturava e administrava o conteúdo daqueles soros e seringas a KC. Estaria a ajudá-la ou a tentar matá-la?

“Quanto mais tempo achas que temos?‿ perguntou a Rita. Os seus olhos voltaram a descair para o peito da sargento. Era horrível a maneira como mal se notava a respiração. E KC estava tão pálida! Se perdia a KC logo a seguir à Lily, Rita daria em doida. Não era justo. Teria de confiar na habilidade do Fish; não havia ali mais ninguém capaz de aguentar a KC até ao hospital.

“Muito pouco, Rita, muito pouco,‿ disse Fishburne, enquanto sentia o pulso de KC. Como não estava a olhar para Rita, perdeu o impacto que a sua resposta teve nela. Seria possível que ele ainda não se tivesse dado conta do que KC significava para ela? A preocupação dela não lhe estava estampada no rosto?

Daniel levantou-se. “Vou ao porão ver se há mais alguma coisa de útil no equipamento de emergência. Não te preocupes, querida, vai correr tudo bem,‿ disse Daniel colocando as mãos nos joelhos e inclinando-se para Rita, que continuava ajoelhada ao lado de KC.

Evidentemente Daniel não era o único ali que tinha dificuldade em ler as emoções dos outros, porque Rita só percebeu que ele a ia beijar quando os lábios dele comprimiram ao de leve os seus. Como já era tarde para se desviar, ela limitou-se a ficar o mais quieta possível.

“Volto já,‿ disse Daniel, já a caminho do porão.

Ecos do passado. Volto já, Christine. Rita sentiu-se confusa. O nome odiado que parecia pairar sempre entre ela e o Daniel estava a faltar naquela frase; isso era uma fonte inesperada de alegria, por alguma razão estranha. Mas ao mesmo tempo sentia-se como se tivesse traído a KC ainda por cima com ela ali, mesmo às portas da morte, apesar de não ter feito nada, na realidade. Deu por si a dar graças por ela estar inconsciente e de imediato a sentir-se horrivelmente culpada por sequer ter pensado nisso. É que nem sequer era verdade: preferia mil vezes ter de enfrentar a dor e a desilusão no olhar da KC do que tê-la ali sem forças para sequer abrir os olhos porque se estava a esvair em sangue.

Esta viagem ia ser um calvário. Dividida entre duas pessoas que a amavam, sem saber se uma ia viver ou se a outra teria algum futuro com ela. Como escolher entre dois amores que já lhe tinham salvado a vida pondo em risco a deles? Rita não fazia ideia como, só sabia que bem lá no fundo não queria prescindir de nenhum deles e que isso não seria possível a longo prazo.

Rita trouxe a mão de KC aos lábios e deu-lhe um beijo. “Um dia destes vocês os dois têm de perder essa mania que têm de apanhar balas por mim,‿ disse baixinho, abanando a cabeça.

“Meu Deus,‿ exclamou um dos mecânicos, com o rosto encostado ao vidro de uma das janelas laterais. “Nunca pensei ver o dia...‿

Rita levantou-se tanto quanto podia, sem largar a mão da KC. Ante o espectáculo, esbugalhou os olhos. Era horrível, verdadeiramente horrível.

Na direcção do seu olhar, a dezenas de quilómetros de distância, o cruzador que ficara cortado em dois pela gigantesca explosão da nave do senado mergulhava agora lentamente sobre o planeta. Primeiro uma e depois a outra das metades começou a brilhar, e a precipitar-se na atmosfera criando um autêntico rasto de fogo. A super-estrutura mantinha o seu esqueleto intacto, mas uma míriade de pedaços do revestimento e do interior soltavam-se a cada momento para irromperem em chamas e depois desaparecerem. Quantos milhares daquelas estrelas que brilhavam por um segundo ou dois eram pessoas? Objectos do tamanho de um homem não eram visíveis àquela distância, todos sabiam disso, mas ainda assim o horror da pergunta persistia nas suas mentes. Ninguém teria tido para se salvar nos dois cruzadores atingidos. Para eles não houvera qualquer aviso prévio.

A nave sofreu um solavanco. Alguns objectos soltos rolavam pelo chão. Estavam na re-entrada? Ninguém avisara Rita. E onde estava o seu pai? Procurou-o com o olhar e já não o viu, portanto a menos que estivesse no porão de carga, estava no cockpit, provavelmente a dar ordens ao piloto de improviso que Rita colocara aos comandos.

No fundo da nave, outro dos mecânicos levantou-se e removeu o auricular sem fios que o ligava ao seu equipamento electrónico. “Perdi agora o sinal, por causa da ionização da atmosfera em torno da nave, mas a coisa lá em baixo está a ficar complicada. É a guerra civil. Na cidade, o povo e os rebeldes estão a sair às ruas e a reunirem ânimo para assaltarem os níveis superiores. Quanto à nossa base, é um autêntico teatro de guerra. Algumas unidades fazem parte do golpe de estado, enquanto outras se mantêm leais à Federação. Ninguém parece ter autoridade para impor a ordem. O governo do planeta pulverizou-se junto com o senado, e do movimento golpista ainda nenhum líder avançou para tentar resolver as coisas de outro modo.‿

Todos os presentes se entreolharam. Alguns talvez pensando nos familiares que tinham a viver na cidade ou na base, outros pensando na guerra que os aguardava lá em baixo.

Rita pensava que agora não sabia onde raios ia aterrar. Na Firebase Omega é que não era de certeza, não com a KC naquele estado. Enquanto pensava, ia ser preciso tomar os comandos da nave de novo. Baixou a cabeça até ao ouvido da KC e segredou-lhe: “Já venho, minha querida. Tenho de ir pilotar esta carripana até ao hospital mais próximo, sim? Aguenta mais um pouco, KC, que estamos lá quase.‿ Não tinha a certeza se a KC estava consciente ou não – não parecia ser o caso – mas nunca se sabia, as palavras poderiam chegar até KC e confortá-la de alguma maneira. Plantou-lhe um beijo na face e levantou-se.

Encaminhou-se para o cockpit com um ar decidido. O pai que se atrevesse a impedi-la de buscar socorro para a KC! Porque raio ninguém a avisara que já estavam a entrar na atmosfera? Ia tomar comando da nave e aterrá-la no primeiro hospital que visse. Não, no hospital mais alto que conhecesse! Se a rebelião e o povo iam começar a pilhar pelos níveis de baixo, demorariam ainda a chegar aos níveis mais elevados. Se a Rita conseguisse encontrar um hospital pequeno de ricaços, ou uma clínica que pudessem defender com poucos homens – ela, Fishburne e dois ou três mecânicos, basicamente – poderiam proporcionar tratamento de emergência à KC, talvez estabilizá-la antes de serem forçados a procurar paragens mais pacíficas.

Por enquanto o plano teria de servir.

Entrou de rompante no cockpit. “Porque é que ninguém me chamou?‿

A sua frase ficou meio-perdida no ar, pois o seu pai estava nesse preciso momento a dar uma ordem ao mecânico que detinha os comandos, num tom de voz que era praticamente um berro.

Não me interessa! Eles podem até estar a brincar às guerras nucleares lá em baixo, soldado, mas é para a base que eu quero ir. Alguém tem que pôr juízo nesses renegados! Não vou ficar a assistir enquanto o meu exército se destroi a si próprio!‿

“Mas há fogo anti-aéreo na área e–“ tentou retorquir o mecânico.

“Para a base, soldado. É uma ordem!

Rita olhou de um para o outro em descrédito. Seria possível? Ela tinha a KC a morrer lá atrás e o pai queria meter esta nave quadradona no meio de fogo anti-aéreo? Iam morrer todos! Lançou uma olhadela pelo vidro – ainda estavam muito longe da base, nos primeiros estágios da reentrada, mas já dera para perceber que o caos se apoderara do planeta. Engolindo em seco e vendo que não tinha grande escolha, Rita certificou-se que a sua arma pessoal estava na anca, ao alcance de um movimento rápido. Só então voltou a abrir a boca.

“Eu sou o melhor piloto a bordo, pai. Deixa-me passar,‿ apontou com a cabeça para o lugar do piloto. Que o pai não estava em si já ela conseguira perceber – aliás, desde a morte de Francis, John e Phillip que ele não era bem o mesmo – mas agora teria de dançar na corda bamba com o próprio pai, porque raios a partissem se ela ia meter aquela nave dentro do alcance de fogo da Firebase Omega.

O General Jamieson nem precisou de pensar. Berrou de imediato para o actual piloto “Sai-me já daí seu inútil, deixa isto para quem sabe.‿ O mecânico também não precisou de pensar, levantou-se no instante seguinte e deixou os controlos para Rita. Saiu do cockpit parecendo aliviado, mas não muito.

Rita sentou-se aos comandos da nave, apertou o cinto e colocou as mãos nas alavancas, os pés nos pedais. Pronto, agora a nave era sua. Corrigiu ligeiramente o ângulo de reentrada, numa tentativa de reduzir a trepidação; quanto menos sacudissem a KC lá atrás, melhor. OK, a primeira parte tinha corrido bem; pelos vistos não ia precisar da arma.

“Ah, assim está melhor. Rápido, filha; eles estão a matar-se lá em baixo, preciso de parar isto.‿ disse o pai de Rita. Depois dirigiu-se para o lugar do co-piloto, para se sentar, mas ao ver a mancha fresca do sangue de Lily Wong no assento pareceu reconsiderar a decisão e manteve-se de pé.

Momentos depois ultrapassavam as fases de reentrada e voavam agora já na atmosfera de Éden. O espectáculo era feio. A queda dos cruzadores e de detritos estava a trocar as voltas à meteorologia local; havia tempestades de areia violentas e enormes no deserto. Lá do alto, podia-se ver a cratera gigantesca que uma das metades do cruzador fizera no meio do deserto.

Agora não era o momento de se preocupar com considerações gerais dessas. Tinha o pai a espreitar-lhe por cima do ombro e a querer um destino diferente do dela. Tentaria ir a bem, primeiro. “General, é melhor ir lá para trás,‿ disse, tentando imprimir profissionalismo na voz. “Somos bem capazes de apanhar turbulência, que a coisa está feia, e não o quero aqui aos tombos. Sente-se e aperte bem o cinto de segurança.‿

“Obrigado, filha,‿ respondeu ele. Depois retirou-se.

Excelente. Rita teve vontade de abraçar o pai por nem sequer questionar os motivos dela, mas agora tinha era de pilotar como nunca pilotara na vida. Ao não ter o pai ali apenas ganhara alguns minutos, isso sabia ela bem.

O vaivém mergulhou até aos arredores da cidade, só então nivelando o voo. Rita pensara em manter-se acima dos edifícios mais altos, mas uns pontos móveis no céu e os rastos de fumo que os seus mísseis deixavam fizeram-na descer mais. Antes ziguezaguear entre edifícios do que ser um alvo totalmente a descoberto.

Daniel Fishburne entrou pelo cockpit adentro, agarrando-se aos apoios estrategicamente colocados aqui e ali de cada vez que Rita fazia outro zigue ou outro zague, até que finalmente se pôde agarrar ao assento de Rita.

“O teu querido pai está a dar connosco em doidos lá atrás.,‿ disse ele, aproveitando o tempo entre duas curvas apertadas para colocar uma mão no ombro de Rita e o massajar. “Não está a gostar nada da vista que tem pela janela. Não percebe porque é que não desceste directamente na base. Eu já esgotei as desculpas. Qual é o plano afinal?‿

A mão ao ombro distraíu-a um pouco e fê-la colidir com um placar luminoso. As faíscas de electricidade saltaram por todo o lado. Não que um objecto tão pequeno fizesse diferença àquela nave, mas não se podia deixar distrair daquela maneira, ou da próxima vez poderia ser mais sério. Num recanto remoto do seu cérebro, no entanto, o contacto registou como reconfortante. Rita continuava a gostar do toque do Daniel; isso não augurava nada bom para o futuro.

Rita demorou alguns segundos a responder, tão concentrada que estava no manejo da nave. “O plano,‿ disse por fim, sem tirar os olhos do caminho e com o sobrolho franzido em concentração, “é aterrar num hospital e dar assistência à KC. Raios me partam se meto este cangalho dentro do alcance de fogo da Firebase Omega connosco todos cá dentro. Seria suicídio colectivo.‿

“Bom, motim; posso viver com isso. De qualquer maneira, o teu pai ia-me meter na cadeia outra vez, de certeza. Perdido por cem, perdido por mil.‿

Uma terceira voz fez-se ouvir no cockpit. “Mas qual é o significado disto? Até tu, Rita?‿ O General Jamieson estava à entrada da cabine, com uma mão agarrada a um apoio na parede e a outra a segurar um rifle de assalto, apontado a Rita e Daniel. “Também fazes parte dos traidores? Como é que podes trair assim a memória dos teus irmãos? Como é que podes trair o teu próprio pai?‿

Rita sentiu o estômago contrair-se. Tinha chegado a hora do confronto com o pai e a coisa não ia ser nada bonita. Tirou os olhos do caminho apenas tempo suficiente para olhar para trás e ver o pai armado. Voltou a virar-se para a frente rapidamente, antes que colidisse com algum prédio. Pensou a todo o vapor.

“Não sou traidora, pai, educaste-me melhor que isso.‿ Rita teve de obrigar a nave a mergulhar um pouco para fugir a um engarrafamento. “Não estou a trair ninguém e muito menos a ti, pai.‿ Mais uma pausa para uma guinada. “A Firebase Omega está a disparar sobre tudo o que mexe; nós estamos a mexer e nem somos muito ágeis. Se fôssemos para lá morríamos todos ingloriamente. Não indo directamente para lá estou a preservar a vida de um general que depois possa--‿

Rita viu o perigo um microssegundo antes da luz vermelha no seu painel se ter acendido e o correspondente aviso sonoro começar. Sem qualquer hesitação, sacudiu a nave violentamente e rolou na direcção de um espaço entre duas filas de prédios, numa manobra que qualquer piloto julgaria impossível para um veículo daqueles.

Atrás de si, o seu pai e Daniel voaram em direcções opostas. Uma saraivada de balas disparada acidentalmente da arma do general percorreu os painéis de controlo, e as faíscas irromperam em todas as direcções. Os projécteis faziam ricochete nas paredes e varriam toda a cabina.

O objecto brilhante que Rita tinha visto surgir à sua frente, tentou acompanhar as manobras do vaivém, mas deu demasiada compensação e passou por cima da nave, explodindo um segundo depois contra um edifício. Os estilhaços da explosão do míssil esventraram a nave.

Rita tentou estabilizar o vaivém, mas o máximo que conseguiu foi uma espécie de voo bêbado, com a nave a fugir em três direcções ao mesmo tempo e Rita a ter de dar tudo por tudo apenas para não chocar com as paredes dos prédios e manter a altitude. A nave estava cheia de pessoas que ela amava; era imperativo que conseguisse voar até um bom porto. Doía-lhe o corpo todo.

Atrás de si, Fish e o seu pai pareciam estar vivos, pelo menos. O seu pai tentava levantar-se do chão, mas o chocalhar da nave impedia-o de o fazer. Fish, pelo contrário, já tinha agarrado o rifle e equilibrava-se habilmente com uma mão agarrada à parede enquanto segurava a arma com a outra.

A distracção de Rita, mesmo por aquele breve segundo, custou parte da fachada de vidro a um dos edifícios da rua. A traseira da nave escapara ao seu controlo, tentara assumir a liderança do voo, e arrastara-se ao longo de dezenas de metros contra a fachada do edifício. Rita voltou a conseguir controlar a nave e a trazê-la mais para o meio daquele autêntico desfiladeiro sem fim entre edifícios.

O piloto-automático era para esquecer. Mesmo que o painel de controlo não estivesse naquele estado – completamente morto e destroçado – o computador não seria capaz de manobrar a nave. Alguns dos foguetes direccionais estavam fora de serviço, outros estavam bloqueados em direcção malucas, e os que sobravam só se movimentavam quando Rita empurrava as duas colunas de controlo com toda a sua força. Os sistemas hidráulicos tinham ido pelos ares.

Pior do que isso, ou pelo menos tão mau, Rita estava a perder as suas forças. Sem querer distrair-se outra vez, não olhou para baixo, mas levou uma mão ao estômago por um momento. Foi o suficiente para sentir o seu uniforme molhado e pastoso em redor do seu abdómen. Fora atingida por uma das balas perdidas... e o caso parecia tão sério como o de KC. Que ironia, escapar a tantas balas naquele dia e acabar por ser atingida sem querer pelo próprio pai. Desta vez, pelo menos, ninguém se metera no caminho da sua bala e ninguém mais sairia magoado.

“Merda para isto,‿ disse Daniel, deixando a arma cair no chão. Rita pensou que ele tivesse reparado na ferida ao mesmo tempo que ela, e que a viesse confortar e dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Em vez disso, sentiu-o caminhar até ao local onde o seu pai continuava de gatas no chão.

“Dê cá a mão, general.‿ Fish ajudou o general a levantar-se, e este agarrou-se a ele com força mal a nave deu outro solavanco. Miraculosamente, ambos ficaram em pé. “Acha que agora era má altura para lhe pedir também a mão da sua filha?‿ atirou Fishburne para o ar, e sorriu. Rita estava de costas, e portanto não viu a reacção – com certeza chocada – do pai. Só sentiu, pela milésima vez no último minuto, a nave a sacudir-se toda. “Quando sairmos desta, eu ofereço-lhe um anel e fica tudo oficial, não se preocupe.‿

Fishburne não estava a levar longe demais a sua gracinha? Ou estava a falar a sério? Porque se era esse o caso então tinha um sentido de oportunidade do caraças.

“Muito engraçadinho,‿ resmoneou Rita, tentando disfarçar o ligeiro tremor na voz. Esperou que o atribuíssem ao esforço de controlar a nave e não à dor que sentia no abdómen. Puxou mais uma alavanca à bruta para evitar um carro que caía por entre os prédios. O esforço fê-la ver estrelas. “Larguem mas é a porra das armas antes que atinjam a pessoa errada,‿ acrescentou tarde demais. Podia ser que tomassem juízo e não atingissem mais ninguém.

A sua preocupação original, KC, ainda lhe estava presente no espírito. Com tanto safanão da nave, como estaria ela? Rita só podia fazer o seu melhor aos comandos e esperar que o estrago não fosse muito grande, que ela ainda pudesse ser remendada pelos médicos.

Os edifícios continuavam a deslizar vertiginosamente de ambos os lados do vaivém, e Rita tinha de lutar autenticamente com os controlos para se esquivar às pontes entre os edifícios e às linhas de cabo por onde centenas de carros aéreos circulavam pendurados. Será que ela deveria continuar até ao hospital que tinha em mente ou poisar no primeiro sítio que lhe aparecesse? Na primeira opção arriscava-se a matar toda a gente ali naquele vaivém. Na segunda, e com um pouco de sorte, só deixava morrer KC e ela própria. Se bem que isso lhe pudesse resolver muitos problemas a médio prazo, Rita não estava muito entusiasmada com a ideia de perder a vida.

A nave sacudiu novamente, e Rita sentiu-a querer voltar-se sobre si própria e mergulhar directa ao chão. Lutou contra a gravidade e contra a vontade daquele pedaço de ferro torturado que era o vaivém.

“Vou com o teu pai lá para trás antes que um de nós parta a cabeça. Ficas bem, Rita?‿ perguntou Fishburne. Antes de responder, Rita levou novamente a mão à sua ferida. O sangue continuava a escorrer, e cada gota do precioso líquido levava com ela mais um pedaço das suas forças, da sua vida. Rita estava a ficar enregelada, e cada vez lhe era mais difícil pensar direito. Talvez o tempo que lhe restava fosse o suficiente para chegar ao destino que ela tinha em mente... ou talvez não. A única certeza é que ela era a única ali que podia pilotar o vaivém naquelas condições. Mas será que Fishburne e o pai a iam deixar continuar aos comandos se soubessem?

Provavelmente não. Portanto inspirou tanto ar quanto conseguisse sem lhe doer muito e tentou dar alguma firmeza à voz. “Fico óptima.‿ Duas míseras palavritas e o esforço para que soassem normais fora enorme. A preocupação levou-a a redobrar o esforço com mais uma frase. “Vê a KC.‿

Definitivamente estavam a ficar sem tempo. Estava tanto frio naquele cockpit, de repente, e sentia os braços cada vez mais pesados. Não tardava muito, Rita não seria capaz de reagir a tempo se algum inesperado (míssil, projéctil, carro) lhes atravessasse o caminho. Sentia-se a perder capacidades a olhos vistos. Já só se conseguia focar no caminho e nos comandos. O vaivém, esse, baloiçava por todos os lados. Rita achava que já era fisicamente impossível voar numa linha recta com esta coisa.

Foi aí que tomou a decisão dolorosa. Antes que se despenhasse e matasse toda a gente, Rita teria de poisar à primeira oportunidade viável. Já não se achava capaz de levar aquela lata até à zona fina da cidade; a KC não receberia tratamento numa clínica fina e de facto correriam o risco de serem engolidos pelo motim de rua antes que ela fosse operada. Rita já só rezava que se deparasse com a cruz vermelha que sinalizava os hospitais antes que a nave se desfizesse por completo.

De súbito um raio de luz nas trevas da sua cabeça: os jardins biónicos! Havia um hospital não muito longe, e seria mais ou menos fácil aterrar no meio do jardim porque era um espaço mais desafogado. Pestanejou várias vezes e tentou perceber em que zona da cidade se encontravam. Pareceu-lhe que não estavam longe. Empenhou todo o seu peso para guinar à bruta. Não conseguiu morder um gemido, meio do esforço, meio da dor lancinante na barriga, mas tinha conseguido meter por uma rua familiar. Era só passar este desfiladeiro e estariam na praça dos jardins.

A nave sacudiu violentamente. Rita já nem sabia o que os tinha atingido. Os seus reflexos estavam a ficar lentos e não havia adrenalina que lhe valesse. Mais um gemido por causa do esforço para voltar a endireitar o vaivém e quando deu por si havia uma mancha verde à sua frente. Graças a Deus! Carregou no botão do intercomunicador e desta vez não se deu ao trabalho de disfarçar a voz. Dentro em pouco já não importaria, de qualquer maneira. “Preparem-se... para impacto,‿ avisou.

Apontou a nave para a mancha verde, tão bem quanto conseguiu, e só fechou os olhos quando embateu na cúpula. A nave sacudiu com violência, patinou, girou sobre si própria, embateu repetidas vezes em árvores. Amarrada ao banco pelo cinto de segurança, Rita não pôde fazer nada a não ser agarrar-se à barriga com ambas as mãos.

Quando deu por si, estavam parados. Rita não sabia se tinha desmaiado ou não, nem quanto tempo se teria passado. O seu cérebro parecia embotado, como se a ligação ao resto do corpo estivesse pêrra. As mãos tintas de sangue escorregaram-lhe na rodela de ferro que reunia as quatro faixas do cinto de segurança, e só o conseguiu desapertar à segunda tentativa.

Doía-lhe respirar, porque isso mexia com a ferida de bala, mas na verdade também lhe doía o resto do corpo, tal fora a violência do vôo e da aterragem. Tentou levantar-se mas percebeu que já não tinha forças para isso. Concentrou-se em se inclinar para a frente e para o lado. Se conseguisse sair do assento talvez conseguisse rastejar até lá atrás, até junto da KC... a primeira parte do seu plano correu bem, conseguiu escorregar e estatelar-se no chão. Infelizmente não tinha forças para mais nada, muito menos para rastejar. As suas pálpebras estavam tão pesadas que as fechou e não se voltaram a abrir. Tudo ficou escuro, demasiado escuro.

Ainda ouviu ruídos e vozes distantes (“Rita!‿ gritou ao longe a voz de Fishburne. “Rita!‿ ecoou o grito, agora na voz do pai.). Ouviu passos apressados que se aproximavam, e que ao mesmo tempo ficavam cada vez mais longe. Tudo ficou silencioso, demasiado silencioso.

Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.2)

Dirtside ainda estrebucha! ;) A cena que se segue é o produto da imaginação conjunta minha e do Ric, e resolve a incógnita da parte 1: afinal quem sobrevive e quem morre? Que futuro para toda esta gente agora que a Federação se desmoronou? Bom, talvez a última pergunta ainda fique um bocadinho em aberto.

Espero que gostem! -- Raquel "Éowyn" Correia

Primeiro veio o som, uma batida surda que lhe fazia lembrar as festas de Sábado à noite na Firebase Omega. Só que era mesmo só a batida, não havia maneira da música em si começar. Ao fim de algum tempo – o tempo parecia não fazer sentido – apercebeu-se que afinal não se tratava de música. Ela tinha era a sensibilidade toda trocada. A batida era o seu próprio coração.

Depois veio o tacto, as sensações. Percebeu que não estava a pairar mas sim deitada nalgum sítio confortável, morno. Estaria na hora da alvorada? Não, não estava na base. Na base as camas eram bem mais duras. Começou a sentir o corpo. Estava toda moída e doía-lhe o ventre. Tinha qualquer coisa na mão, quente e firme. Tentou tactear, mas a mão não respondeu como ela queria, só deu um leve espasmo. Tentou engolir; também lhe doía a garganta.

Então vieram os cheiros. Cheiro a anti-séptico, misturado com o cheiro a sangue e a medo. Cheiro a hospital. E mais qualquer coisa, que não conseguia identificar.

De súbito foi inundada por uma vaga de memórias: o senado a explodir, KC a ser baleada, Lily morta, a fuga desesperada por Metropolis, a aterragem nos jardins. Quis abrir os olhos mas não foi capaz. Tentou mexer a mão e então sentiu o objecto que tinha na mão mexer de sua livre vontade: a mão de alguém? KC?

Voltou a fazer um esforço para abrir os olhos. Caramba, era uma Space Marine, abrir o raio dos olhos não deveria ser assim tão difícil. Desta vez teve um pouco mais de sucesso: conseguiu entreabrir os olhos, mas não conseguiu perceber onde se encontrava. Fosse lá isso onde fosse, estava num espaço amplo e a iluminação parecia não ser muito forte. Tentou falar, mas não saiu nenhum som. Engoliu e voltou a tentar, desta vez conseguindo um sussurro inteligível: “KC?‿

Teria a KC sobrevivido aos solavancos da viagem? Pelos vistos ela própria tinha conseguido chegar ao hospital a tempo, mas e a sua amante? KC fora baleada muito antes; teria tido tempo?

Sentiu um beijo na mão. Tentou soerguer a cabeça e focar a cara, mas isso ainda estava para lá das suas forças.

“Ei, não te queres mexer muito, acredita no que te digo.‿ O coração de Rita bateu mais rápido. Era mesmo aquela voz rouca, sexy, que ela queria ouvir. KC estava viva! Tinha valido a pena aquela fuga desesperada. Sorriu ao de leve. KC... “Sim, sou eu, querida,‿ continuou a outra, como se lhe tivesse lido o pensamento. “Sã e salva graças a ti, ao que me dizem. Se bem que já visitei o local da nossa aterragem, e deixa-me que te diga que parece mais é que nos tentaste matar a todos. Os jardins biónicos? Em que raio é que estavas a pensar?‿

“Superfície... horizontal,‿ explicou Rita num sussurro. A sua voz parecia ainda não estar a funcionar normalmente, mas isso agora era o menos. "Folhagem... para amparar... a queda," concluiu. Com um pequeno esforço piscou um olho à KC e sorriu. “Funcionou.‿

KC riu-se, e arrependeu-se logo de seguida. Começou a tossir com violência enquanto levava as mãos à barriga, e demorou um bocado a parar. “Caramba, olha só para o nosso triste estado. Não fiquei às portas da morte estes dias todos, mas também não estou assim tão melhor do que tu. Posso fazer algo por ti?‿

Rita franziu o sobrolho enquanto a frase da KC era lentamente filtrada pelo seu cérebro. “Dias?‿ perguntou por fim. Tinha passado dias inconsciente? Ah, mas quanto a fazer algo por ela, neste momento bastava que KC se mantivesse ali a seu lado. Isso sabia bem. Caramba, tivera tanto medo que ela morresse...

Algures uma porta abriu-se, e passos aproximaram-se. “Rita? Estás acordada, querida?‿ A voz de Daniel. “Porque não chamaste logo, KC?‿

“Desculpa,‿ disse a outra com voz neutra. “Ela acabou de acordar.‿

O seu estômago deu um salto e isso doeu, mas Rita conteve o gemido que se deveria ter seguido. Não precisava da mudança no tom de voz da KC para saber que haveria tensão no ar entre KC e Daniel no que tocava à afeição da Rita. Mas o pior era que Rita não sabia ainda como ia lidar com aquela enorme embrulhada emocional. Também não era agora que tinha forças para tratar disso. Limitou-se a apertar um pouco mais a mão da KC para que ela não fugisse.

“Querida,‿ disse o rosto de Daniel, entrando no campo de visão desfocado de Rita. As costas dos dedos dele acariciaram-lhe uma das bochechas. “Durante uns dias pensámos que te íamos perder.‿

Mesmo sem querer magoar os sentimentos da KC, Rita tinha de confessar que fazia bem ao ego saber que se tinham preocupado com ela. Deu por si a sorrir ao Fishburne, mas não teve alento para falar.

Então a cara de Daniel mudou, e ficou muito mais séria. A mão dele parou de a acariciar. “Raios te partam, Rita! O que é julgavas que estavas a fazer, a pilotar assim nesse estado? Porque é que não disseste nada; podíamos ter-te substituído e aplicado os primeiros socorros, não era preciso este drama todo!‿

Ha! Como se algum deles pudesse ter aguentado o vaivém naquele estado. Rita inspirou para falar, mas a dor desta vez obrigou-a a fazer um esgar e ela acabou por apenas suspirar e desistir do discurso que tinha em mente.

Logo de seguida Daniel voltou a sorriu. “Desculpa, eu sei que estás cansada. Posso puxar-te as orelhas depois. Deus, não sei o que faria sem ti. Pregaste-nos um susto!‿

Ele pareceu lembrar-se de algo de repente. “Tenho de ir falar com o teu pai; vai ficar bem mais aliviado. Ele começava a acreditar que te tinha morto. Vou já dar-lhe a novidade. Ficas bem? Não estás mesmo com boa cara. Mas não te preocupes, o médico há-de vir fazer as suas rondas em breve. Descansa, tens de descansar muito. Temos muita coisa para falar.‿

Rita franziu o sobrolho. Muita coisa para falar? Mas as palavras não passaram para fora dela e de qualquer modo o Daniel parecia ansioso por partilhar a notícia da recuperação dela com o pai, de modo que não ficou por ali à espera que ela ganhasse forças para pronunciar uma palavra.

Daniel beijou Rita na testa, e afastou-se. Ela ouviu a porta fechar-se outra vez.

KC expirou lentamente. “Ele e o teu pai são os melhores amigos desde o desastre. Agora que o teu pai já quase voltou a pôr ordem neste pedaço de areia a que chamam planeta, ele é o seu braço direito. O general até já o promoveu a major no novo exército de Eden independente; ‘tempos difíceis e poucos homens à altura’, disse ele.‿ O olhar de KC assumiu aos poucos uma intensidade fulminante que recordava a Rita tempos pouco felizes. “Pois, claro... o Fishburne que toda a vida foi pouco mais que um soldado raso.‿

Éden independente? Mas quanto tempo é que ela tinha passado fora de acção? O que se passava no mundo lá fora? Fish e o pai amiguinhos? Mas que raio...?

Seria isso que tanto perturbava a KC? Rita não gostava nada quando ela punha aquele ar, nada mesmo, só que compreendia que a KC se sentisse a perder terreno na rivalidade com Fishburne se de facto o Daniel de súbito se tivesse tornado amiguinho do peito do seu pai. Mas seria possível? Parecia-lhe demasiado incrível que eles de repente fossem amigos. O mundo poderia mudar tanto em tão pouco tempo?

Mas KC tinha algo mais atravessado na garganta.

“E sempre é verdade que te vais casar com ele? Mas que raio, Rita. Pensei que havia algo de especial entre nós! Eu sei que te desiludi mais do que uma vez, mas ainda assim... caramba... sabes mesmo como dar a volta à cabeça de uma pessoa,‿ disse KC. Estava bastante perturbada, inclusive com lágrimas nos olhos.

Rita pestanejou. Não devia ter ouvido bem. Virou um pouco a cabeça e esforçou mais a vista. A sua visão estava a melhorar a cada segundo, mas ainda tinha alguma dificuldade em focar. “Casar?‿ crocitou ela. De repente veio-lhe a memória do vaivém aos tombos, ela com um tiro fresco na barriga e o Fishburne a dizer gracinhas ao pai dela.

Só que afinal não tinha sido nenhuma gracinha. Fishburne estava mesmo a falar a sério! Mais surpreendente ainda era o facto do pai não lhe ter aplicado logo um correctivo. E agora a KC estava a chorar por causa disso.

“Não chores... minha pequena,‿ consolou Rita. Não pôde evitar sentir alguma revolta. Com que então andavam a planear casamentos sem sequer primeiro lhe pedirem a opinião?

“Não estou a chorar!‿ zangou-se KC, virando a cara e retirando a mão que Rita estava a segurar para com ela limpar os olhos.

A KC estava a armar-se em dura outra vez. Rita conhecia muito bem aquele tom de voz, mas nela já não surtia o mesmo efeito de quando era subordinada da outra: agora conhecia a KC demasiado bem. Não te isoles de mim, KC. Não há razão para teres medo, era o que lhe apetecia dizer, mas faltavam as forças. E naquele estado a KC de qualquer modo reagiria mal à menção de medo.

"Chega-te mais perto," pediu Rita. KC voltou novamente o rosto para si, e os seus olhos continuavam molhados. Rita ergueu um braço - os seus membros estavam a começar a responder com alguma normalidade, felizmente – e com uma carícia à face da KC limpou-lhe as lágrimas que saltavam agora dos olhos. “Ele esqueceu-se de... pedir a mim primeiro," explicou devagar. Ainda lhe custava falar, mas pela KC o esforço valia a pena. "Não concordei com nada."

“A sério?‿ perguntou KC, baixinho. Foi o suficiente para ela recuperar um pouco das suas forças e se recompor. Desta vez conseguiu secar os olhos.

Rita fez um sorriso fraco porque a KC precisava disso e porque, teria de admitir, mesmo perturbada como estava era tão bom ver a KC animada, viva. A imagem dela ali prostrada no chão do vaivém, esvaindo-se em sangue e quase morta decerto ainda haveria de lhe povoar muitos pesadelos futuros.

KC recostou-se na cadeira, afastando-se de Rita. Pensativa, suspirou. E depois chegou a algum tipo de conclusão. “Mas é uma questão de tempo. Eu bem vi como olhavas para ele quando te colocaram no comando do pelotão de fuzilamento. Nesse momento senti-me tão mal por ti, por ele... por mim. Gostava que alguém se preocupasse tanto assim comigo.‿

Eu preocupo-me contigo,‿ assegurou Rita incrédula, numa frase tão grande que a deixou quase sem fôlego. Não estava a gostar nada do sentido que a conversa tinha tomado. Tinha tanta coisa para explicar à KC: que voara que nem uma possessa e desafiara o pai por ela, que quase dera em doida de preocupação não fosse ela morrer antes de encontrarem um hospital, que a sua própria vida não interessara senão para lhe dar a ela uma hipótese; e faltavam-lhe as forças para falar depressa o suficiente. No fim só conseguiu que saísse um “Voei por ti...‿ meio rouco.

“Mas como é que eu posso competir com o Major Fishburne?‿ disse KC, amargamente. “Tu e ele... nunca ia poder partilhar nada assim contigo. Mas foi bom ter-te conhecido à mesma.‿ KC continuou a falar antes de Rita ter tempo para mais do que abrir a boca. “Aqui está algo para te lembrares de mim.‿

Oh, não! Rita não acreditava no que acabava de ouvir. Esbugalhou os olhos e abriu a boca como se para falar. O rosto de KC aproximou-se do de Rita e, quando esta já estava a protestar contra o que KC tinha dito, os lábios de KC pressionaram os dela e a sua língua roubou-lhe, literalmente, as palavras da boca. O arrepio de prazer percorreu Rita até lhe criar uma bola no estômago. Nem sabia se havia de continuar a tentar protestar ou apenas deixar-se levar pelo momento e tentar aproveitá-lo ao máximo. Uma das mãos de KC deslocou-se então até ao seu peito, percorrendo-lhe através dos lençóis e da bata que Rita vestia o espaço entre os seios.

Incapaz de resistir, Rita respondeu com as forças que tinha e investiu todo o seu carinho naquele beijo. Talvez conseguisse exprimir-se melhor assim do que em palavras. Se a KC percebesse a mensagem talvez não se fosse embora. É que aquela última frase soara dolorosamente a uma despedida. Rita deixou escapar um gemido fraco de prazer e enterrou os dedos no cabelo negro da KC.

“Oh,‿ exclamou baixinho alguém que entretanto se aproximara. Um objecto, talvez uma caneta, caiu no chão. KC e Rita descolaram-se uma da outra. Não! É cedo! Cedo demais!, foi o pensamento que ecoou na cabeça da Rita. Assim ela não vai perceber!

Aos pés da cama, e tal como elas a esforçar-se sem muito sucesso para manter a compostura e o decoro, estava uma cara conhecida. A Dra. Nadja Romanova, com uma mão a segurar o seu computador de bolso e com a outra mão vazia mas ainda congelada no ar em pleno acto de escrever, olhava em alternância ora para Rita ora para KC. Sentia-se tão embaraçada por as ter interrompido que não conseguia fixar o olhar de nenhuma.

“Eu já estava de saída. Trate bem dela, doutora,‿ disse KC, levantando-se. “Adeus, Rita.‿

“KC?‿ chamou Rita, ignorando a médica e abrindo muito os olhos. Sentia lágrimas começarem a formar-se. Mas a KC tinha virado costas e nem teve a decência de olhar por cima do ombro. “KC,‿ rogou Rita. Nada. “Kayleigh!‿ Au! O esforço de chamar a amante mexera-lhe com o abdómen e isso doía tanto ainda, mas KC nem abrandou o passo.Não me deixes sozinha!

KC afastou-se, parecendo tão segura de si como sempre. Quanto à jovem médica russa, essa sentou-se na cama ao lado de Rita, mas voltou a levantar-se para apanhar a caneta que deixara cair. E depois voltou então a sentar-se. Mesmo assim, ainda demorou mais um minuto a encontrar a fala.

No entanto, também não disse muito. Limitou-se a analisar Rita cuidadosamente e consultar os registos no seu computador, com apenas um cumprimento curto, umas perguntas simples aqui e ali, um ou outro comentário, etc. Via-se que Nadja tinha algo preso na ponta da língua, mas a Rita tinha pregado os olhos marejados de lágrimas à porta que KC fechara atrás de si e não respodia à médica senão com monossílabos.

“Bom, como ainda não me perguntou nada, deduzo que não sabia, ou então que o seu noivo já lhe explicou.‿ disse a médica finalmente. “Ou será que não está de todo interessada no assunto?‿ perguntou ela, olhando a porta por onde KC desaparecera.

Ainda zangada e destroçada com a partida da KC, Rita reagiu finalmente com mais calor do que talvez devesse. “Daniel Fishburne não é meu noivo,‿ rosnou praticamente. Só depois percebeu que não sabia do que a médica estava a falar. Franziu o sobrolho, limpou apressadamente as lágrimas e olhou-a finalmente nos olhos. “Qual assunto?‿

“Então não sabe de nada ainda?‿ Nadja suspirou antes de continuar. “É que a Rita estava grávida de 6 semanas quando se despenhou.‿

A notícia foi como um balde de água fria. Rita estacou, sem saber o que pensar, e não conseguiu fazer nada senão fitar a médica com um olhar em branco. Grávida?!

Antes que Rita pudesse entrar em choque, a médica continuou. “Não se preocupe. Nada está perdido. O desastre, mas especialmente o tiro, causaram a morte do seu bebé. No entanto, tal como nós a trouxemos a si do lado de lá, também estamos prontos para fazer o mesmo pelo feto. Mal demos por ele, colocámo-lo em stasis. Assim que a Rita estiver recuperada, podemos fornecer-lhe os nutrientes e estímulos adequados para que a divisão celular e o crescimento dele se reiniciem. Depois podemos então reimplantá-lo. Será como se ele nunca tivesse saído da sua casinha. Há sempre um risco, claro, mas tudo indica que a Rita poderá ter uma gravidez normal. Ah, ele é uma ela, a propósito. Parabéns.‿

Era informação a mais. Rita só podia estar a viver um pesadelo. Não tardava nada ia acordar ao lado da KC na Firebase Omega e haviam de se rir as duas a caminho do pequeno-almoço. Só que um cantinho pequenino do seu cérebro sabia que não era esse o caso.

Pensa, Rita, pensa! O hospital tinha em stasis uma menina... dela e do Fishburne? Sim, da KC é que não era de certeza! Aah, então era daí que vinha todo este frenesim do casamento... Agora a partida abrupta da KC fazia mais sentido, ou não?

Rita engoliu em seco, pestanejou algumas vezes, olhou para a porta e de novo para a médica. “Ela sabia disto?‿ perguntou numa voz sumida. Pergunta de retórica; o que a KC dissera sobre partilhar coisas com o Fishburne e que Rita interpretara erroneamente como se referindo ao casamento fazia muito mais sentido se se referisse a uma criança. Mesmo assim, Rita esperou pela confirmação da médica.

“Bom, eu julgo que a informação só foi fornecida directamente ao seu noivo, quero dizer, ao pai e ao avô da criança. Mas também não é exactamente segredo de estado, e a sua amiga tem estado aqui a maioria do tempo, portanto...‿ Nadja deixou a palavra pairar no ar, sem necessidade de terminar a frase.

Enquanto a médica falava, Rita lembrara-se finalmente de onde conhecia a cara: era a médica amiga do Capitão Ralek. Portanto o Capitão aterrara são e salvo no planeta. Que seria feito dele neste caos? Era uma pergunta para outra altura porque agora tinha preocupações bem mais imediatas. Decidiu confiar na médica, mesmo que só a conhecesse vagamente. Se era amiga do Capitão não podia ser muito má pessoa.

“Doutora Romanova?‿ falou então, olhando-a bem nos olhos, incapaz de encobrir a vulnerabilidade lá bem no fundo, que KC lia sempre tão facilmente nela. “Faça-me um favor: aquilo que viu há pouco... fica entre nós as três, por enquanto, sim?‿

“Claro, Rita, claro,‿ disse a médica. “São tempos difíceis para todos. Ninguém sabe se amanhã ainda cá vamos estar, ou se Eden vai ser invadido ou bombardeado por alguma das facções em confronto, por isso há que viver um dia de cada vez. A propósito, o Capitão Ralek manda-lhe cumprimentos. Quando as coisas estiverem um pouco mais calmas pode ser que ele a venha visitar a Rita... e a mim,‿ completou a jovem russa com o olhar focado no infinito.

Rita assentiu com a cabeça. Sim, o futuro era imprevisível, neste ponto. Suspirou. Sentia-se cansada, e a ideia da criança que estaria em stasis algures no hospital não a largava. À medida que o cansaço a ia vencendo, essa incógnita misturava-se com a dor e desilusão da partida da KC.

Que diabo fazia agora: engravidava? Seria mesmo capaz de deixar o sangue do seu sangue morrer sem ter tido uma hipótese de vida? E que tal o casamento? Contentar-se-ia com o Daniel embora ele ainda vivesse na sombra do fantasma da Christine; embora ela ainda desejasse a KC? Fugia desta treta toda e refugiava-se nalgum canto remoto da galáxia onde pudesse esquecer quem era e de onde vinha?

O cansaço abateu-se sobre ela. Esgotara as forças a discutir com a KC enquanto estava tão fragilizada. Suspirou de novo, fechou os olhos. Nem notou quando Nadja Romanova saiu do quarto.

Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.3)

E pronto, assim chega ao fim a saga da Primeira Série de Dirtside. Mudámos a face do nosso mundo, perdemos alguns NPCs, e as relações entre os sobreviventes mudaram. Foi óptimo enquanto durou e só tenho pena que tenha sido uma mini-série. Eu não podia ter pedido um grupo de jogadores melhor para Dirtside. Inesquecível. Neste último texto (mais uma vez co-autoria Éowyn / Ric) Rita e KC reencontram-se face a face e a situação do mundo é explicada. O Ric fez uma KC brilhante e colocou ganchos suficientes aqui para manter o interesse numa segunda série, espero. Quem sabe, talvez num futuro não muito longínquo, nós possamos regressar com Dirtside II?

Foi um prazer jogar a Rita.

Raquel "Éowyn" Correia

 

Rita Jamieson estava a conduzir há três horas, num caminho que de estrada só tinha mesmo o nome. Do lado de fora do veículo só se via terra e poeira, daquela fininha, amarela, tão comum em Éden e que se metia em todo o lado cinco minutos depois de se ter desembarcado naquele planeta. O seu destino, uma base remota do novo exército de Éden Independente (há bem poucos meses ainda era uma base da Federação), estava finalmente à vista.

Não tinha sido propriamente fácil encontrar o rasto da KC. Desde aquele dia em que Rita acordara no hospital, KC desaparecera da sua vida e fizera algum esforço para cobrir o seu rasto, só que no fim de contas KC continuava a ser um soldado e o seu nome e morada continuavam na base de dados do exército. Rita só tivera de puxar uns cordelinhos.

Era mesmo típico da KC. Se achava que uma determinada causa estava definitivamente perdida, distanciava-se tanto quanto possível. O posto avançado no deserto que era o Beta Compound, era a base mais longínqua que o novo exército tinha. E à volta era só areia.

Foi obrigada a abrir uma nesga da janela quando parou em frente ao portão da base para mostrar identificação e o passe. O tablier ficou logo com uma camada de pó fininho. Deixaram-na passar e acabou por estacionar no parque coberto dos visitantes. Vinha à civil, de calças azuis e camisa justa branca; era um conjunto que ela sabia que a KC gostava, e com o qual a esperava atrair.

Deram-lhe a indicação que encontraria a Sargento-Mor O’Rourke na carreira de tiro, a treinar um grupo de recrutas, de modo que foi para lá que se dirigiu directamente. E de facto lá estava ela: fardada, de pose autoritária, aos berros com os miúdos que passavam por recrutas com a sua voz ligeiramente rouca. Não tinha mudado nada. Rita teve de disfarçar um sorriso – sabia muito bem como era terrível estar do lado errado daquela autoridade toda, e conhecia a mulher que se escondia por trás disso. O contraste era tão grande...

Naquele momento ela repreendia um jovem morenito com uma das suas frases-chavão: “O soldado não pensa, Fawkes, o soldado executa!” E pouco depois, quando o exercício terminava, “Recruta Fawkes, assim que acabar as vinte voltas ao ginásio fica de serviço às latrinas!" KC aparentemente arranjara outra vítima. Rita não pôde deixar de simpatizar automaticamente com o pobre rapaz.

O grupo tinha de passar por ela a caminho do ginásio, já que Rita se deixara ficar de braços cruzados, encostada à parede ao lado da porta observando a KC sem ser vista. Um dos recrutas, com ar de ser o atrevido da fornada, mandou-lhe um piropo qualquer que Rita nem registou, mas KC com os seus ouvidos de lince levantou o olhar para ver quem tinha dito o quê a quem e deparou com ela. A surpresa só foi evidente no seu rosto por uma fracção de segundo. “Jenkins! Já que se sente tão enérgico, porque não dá quarenta voltas ao ginásio, em vez de vinte?”

Jenkins meteu um ar enfiado e Rita teve de rir. Olhou-o de relance e piscou-lhe um olho quando ele passou por si. Depois do grupo sair, KC aproximou-se. O seu olhar estava velado e era difícil ler-lhe as emoções, mas Rita não se deixou desarmar e sorriu abertamente, como se ainda ontem se tivessem visto e fossem as melhores amigas.

KC aproximou-se sem saber muito bem o que sentia. Tinham-se passado dois meses desde que vira Rita. Agora metade de si estava incrivelmente feliz por a sua antiga amante estar ali tão perto, à distância de um toque; sentia-se capaz de a agarrar nos braços e a beijar logo ali, à frente de todos. A outra metade queria estrangular aqueles sentimentos de alegria, aqueles desejos físicos e emocionais, e continuar a sua vida.

Todas aquelas semanas ali, longe de tudo e todos, tinham-lhe permitido concentrar-se em recuperar dos seus ferimentos mas principalmente em tentar esquecer Rita. Agora que começava a parecer que isso não era de todo impossível, ia deitar tudo a perder para cair outra vez sob o feitiço dela?

Cometera esse erro antes; concentrara-se tanto em evitar que os encantos de Rita minassem o desempenho da unidade ao seu cuidado que, quando dera por si, era ela própria quem já não conseguia manter o sangue-frio e a concentração nas suas tarefas porque, sem que se tivesse apercebido, Rita lhe dera a volta à cabeça e nunca andava longe dos seus pensamentos. Inconscientemente, KC arranjava todas as desculpas possíveis para contactar com Rita, para a manter longe de outros e a ter só para si. A sua atenção especial a Rita tomou a única forma que conhecia: a dureza das lições, a rispidez das reprimendas, a humilhação dos castigos. Só bem mais tarde, tanto para sua surpresa como para surpresa de Rita, é que os seus sentimentos encontraram outras vias, mais doces e reveladoras, que não deixavam margem para dúvidas.

“Bom dia, Rita,” disse a sargento, tentando manter a voz neutral. Dadas as circunstâncias, era o melhor que conseguia fazer para esconder a verdadeira extensão das suas emoções. Estando Rita vestida à civil – KC ainda não conseguira deixar de reparar nos contornos provocantes das suas roupas – não fazia sentido tratá-la por tenente; ela podia já ter sido promovida, ou nem sequer já fazer parte das forças armadas. KC teve de dar o braço a torcer e chamá-la pelo primeiro nome.

Por mais que KC tentasse manter-se neutra, Rita detectou um nisco de suavidade na maneira como a KC pronunciava o seu nome. Isso era bom sinal, era um começo. Dizia-lhe que provavelmente não fizera a viagem em vão, que provavelmente não ia apanhar um grande desgosto. Caramba, o que lhe apetecia mesmo era pregar-lhe já com um beijo na boca e acabar com estes rodeios todos, só que havia demasiadas incertezas tanto de um lado como do outro, e a cautela e a sedução eram agora as melhores armas que poderia empunhar.

Portanto respondeu com um “Olá, KC,” caloroso e amigável, acompanhado do seu sorriso carismático. “É bom ver-te.” Aproximou-se ainda mais para lhe plantar um beijo perfeitamente inocente na face, à laia de cumprimento, mas não se deixou ficar ali perto, com medo de exagerar na aproximação. Adivinhando que a KC tinha tarefas para acabar, Rita recuou para abrir a porta de acesso aos corredores.

A familiaridade e a proximidade souberam surpreendentemente bem a KC mas, pensando melhor, era isso que ela queria evitar. Aquilo que temia mesmo era o que viria depois, quando Rita se fosse embora e deixasse para trás um vazio dolorosamente óbvio.

Deus, mas aquele beijo de Rita... as memórias que ele trouxe. Se Rita não se tem afastado depois de lhe beijar o rosto, KC ainda poderia ter feito alguma loucura.

“Ando a tentar apanhar-te o rasto há semanas,” explicou Rita, abrindo a porta para KC passar.

Ao olhar para a mão de Rita apoiada na porta, algo no interior do peito de KC deu um pulo. Rita não estava a usar aliança; se calhar não se tinha casado com Fishburne? A felicidade não durou mais que um momento mas, ainda assim, o apagar daquele breve raio luz foi como um murro no estômago. Sim, porque eles teriam de casar em breve para depois ficarem à espera da criança, que não podia ficar no congelador de um hospital indefinidamente. KC ficou de súbito certa de que Rita estava ali para a convidar para o casamento dos dois. Um gosto mineral formou-se na sua boca, e sentiu náuseas.

“Não foi lá muito decente da tua parte fugires de uma mulher acamada que não podia ir atrás de ti,” continuou Rita num tom meio a sério, meio a brincar. "Escuta, queria ter uma conversinha contigo. Há aí algum sítio com alguma privacidade onde possamos falar? Tens uns minutinhos que me dispenses? Vá lá, estive três horas seguidinhas ao volante..." Rita acompanhava KC pelo corredor e olhou-a com os seus olhos azuis agora muito sérios.

KC tentou resistir à tentação de olhar Rita nos olhos. Uma pessoa podia perder-se naqueles oceanos brilhantes, e ficar ali especada durante horas sem dar pelo tempo passar. Três horas? O que podia ser tão importante? E porque é que ela parecia tão séria? KC gostava mais de a ver alegre e bem-disposta. Más notícias. Eram más notícias de certeza.

“Uns minutinhos, pois claro,” respondeu KC enquanto as duas dobravam a esquina ao fundo do corredor.

Pois claro. Era a KC em modo de soldado eficiente. Rita imaginara tantas vezes a conversa que teria com a KC quando chegasse este momento, mas agora que enfrentava a realidade, as palavras fugiam-lhe e de súbito sentia-se incerta do caminho que deveria trilhar. Como é que lhe ia expôr o caso nuns poucos minutinhos? A KC até andava a evitar olhá-la nos olhos, como diabo ia ultrapassar aquela barreira de teimosia?

Como não havia nenhuma porta nem nenhum sinal, quando Rita deu por si tinha entrado com KC nos balneários do ginásio. Estavam vazios.

KC dirigiu-se a um dos cacifos. Colocou o polegar sobre a fechadura e ouviu-se um clique. “Bom dia, Sargento-Mor O’Rourke. São 10 horas e 46 minutos. A formatura para almoço é às 12:15,” disse com suavidade a voz andrógina do cacifo. Houve então um pequeno estalido no altifalante invisível e ouviu-se um assobio maroto. “Bem, a minha sargento hoje está uma brasa! Permissão para executar abordagem?” disse a gravação.

Rita não conseguiu controlar-se e largou uma gargalhada sonora, musical, antes de conseguir tapar a boca com a mão. O brilho nos seus olhos, no entanto, revelava a verdade: estava mortinha de vontade de rir.

KC rosnou e abriu a porta com uma palmada que fez toda a fila de cacifos estremecer. Levantando o rosto para cima, berrou então: “Vou-te apanhar Jenkins, e vai doer!”

Seria o mesmo Jenkins que lhe tinha mandado o piropo? Se sim, o rapaz devia ser fresco. Rita abanou a cabeça, sem tirar os olhos da KC. Era preciso ter coragem para a desafiar.

Sem esperar que o eco do estrondo metálico morresse no ar, KC começou a remexer as suas coisas e, ainda de costas, disse para Rita: “Um bocado de exercício fazia-te bem; parece que estás a ganhar barriga. Tenho equipamento a mais, se quiseres. Ia ser como nos velhos tempos.”

O tom de voz foi frio, e Rita ter-se-ia sentido magoada se não conhecesse KC o suficiente para saber que aquilo era uma tentativa atabalhoada, e possivelmente inconsciente, de mostrar simpatia e tentar uma aproximação. Aliás, Rita ficara surpreendida que KC tivesse dado pelo pequeno altinho que começava a notar-se na sua barriga. Mesmo sem a olhar nos olhos, KC estava atenta ao pormenor. Obviamente não era o tipo de coisa que fosse ao lugar com exercício, mas ainda era muito cedo para explicar isso à KC.

Embora se sentisse tentada a aceitar a oferta, Rita não tinha vindo até ao fim do mundo para dar umas corridinhas com a KC. “Obrigada, mas vai ter de ficar para outra altura,” recusou Rita. Tentou ordenar as suas ideias para iniciar então a conversa com a KC, mas viu-se perdida, sem saber por onde começar. Mordeu o lábio enquanto observava a amante. Ainda poderiam ser amantes, quando Rita lhe tivesse contado tudo?

KC ficou desiludida com a resposta, mas tentou não o demostrar. Mantendo-se de costas para Rita, KC descalçou-se e começou a trocar de roupa. Teria realmente sido como nos velhos tempos, só elas as duas, juntas, cerrando os dentes em silêncio contra o cansaço, contra a distância da pista, contra a altura da barra de salto, contra a largura do fosso, contra o peso dos halteres. Nada junta duas pessoas como o ultrapassar em conjunto de obstáculos, e ali fora tinham uma pista inteira de obstáculos e provas duras só para elas. Teria sido algo digno de ver; iam deixar aqueles cadetes todos de boca aberta.

Agora que despira a camisola e as calças, KC sentiu-se de súbito penosamente consciente da sua semi-nudez e teve de se esforçar por agarrar lentamente – como se nada se passasse – os calções e a T-shirt que ia vestir. Rita podia pensar que a sua nudez era uma tentativa desesperada de a atrair, mas então estaria longe da verdade. É que em vez de sexy, KC sentia-se um trambolho: achava que estava magra demais nos sítios onde deveria ter curvas e forte demais onde deveria ser lisa e esguia. Insegura de si, sentia, injustificadamente, que ainda não se tinha recuperado das semanas de inactividade física a que o ferimento de combate a obrigara. Já Rita parecia a mesma deusa de sempre. Mesmo aquela gordurinha na cintura passaria perfeitamente despercebida a alguém que não tivesse precisamente tatuados na memória todos os contornos daquele corpo, após o ter amado, respirado, bebido e sonhado dia e noite.

Rita, no entanto, não via nenhum trambolho à sua frente. Aliás, a visão da nudez da KC tirou-lhe a cabeça do discurso que tentava fazer, e apesar de saber que o tempo estava a passar e que a KC não ia esperar muito, quedou-se a observá-la. Dois meses era muito tempo. Notava ligeiras mudanças, mas se possível, elas tornavam a KC mais apetecível, não menos.

Ainda lhe parecia estranho, ao fim deste tempo todo, dar por si a admirar um corpo feminino como teria admirado um masculino. Procurou a cicatriz do tiro nas costas da KC, já que ela se recusava a enfrentá-la. Pareceu-lhe ver um pontinho mais claro do que o resto da pele, e se era esse o caso, estava a cicatrizar lindamente. Quis saber qual o aspecto da ferida de entrada.

KC vestiu o equipamento branco – calções justos e T-shirt – de exercício, e calçou umas meias desportivas e ténis, tudo branco. Tentou ser o mais casual possível, tentando não demonstrar a Rita a vergonha que sentia do seu próprio corpo. É que, longe de uma tentativa de sedução, aquilo era antes um esforço para demonstrar, mais a si própria do que a Rita, que a presença de Rita ali não a afectava nem perturbava a sua rotina diária.

O esforço passou ao lado da Rita, que estava hipnotizada por aquele corpo. “Deixa-me ver,” foram as palavras que finalmente disse, quase num murmúrio, ao mesmo tempo que estendia as mãos para a cintura da KC. Ao sentir a firmeza daquele toque, algo se prendeu na garganta de KC.

Rita obrigou-a a virar-se de frente, levantou um lado da T-shirt e agachou-se para observar a cicatriz. Estava a cicatrizar maravilhosamente: pouco mais era do que um ponto de pele mais esticadinha e ligeiramente descolorida. “Impecável,” disse com um sorriso satisfeito, levantando o olhar para o de KC por uma fracção de segundo. “Não te cheguei a agradecer por isto,” fez notar, antes de plantar um beijo carinhoso mesmo em cima da marca.

KC era como uma boneca nas mãos de Rita, incapaz de reagir, incapaz de a tentar parar, incapaz de a encorajar a fazer mais, o que quer que fosse. Nunca, em toda a sua vida, se rendera voluntariamente e colocara tanto de si nas mãos de outra pessoa. Já se esquecera do quão bem sabia entregar o controlo a Rita.

Rita endireitou-se, embora lhe custasse largar a cintura da KC, e olhou-a bem nos olhos, na tentativa de medir bem a reacção dela. “Eu e o Fish não chegámos a casar,” disparou na sua voz firme e musical, cruzando os braços. “É sobre isso que nós as duas precisamos falar.”

A quebra do contacto físico interrompeu o feitiço que pairava sobre KC. “Não se casaram?” disse KC baixinho, bastante rouca. Tossiu; ainda tinha algo na garganta e a voz não lhe tinha voltado completamente. Rita esperou que ela acabasse; KC pareceu-lhe surpreendida mas, a julgar pela frase seguinte, continuava cega como sempre... de amor, esperava Rita. “E então? Passa-se algo com o Fishburne e queres que te ajude a pôr-lhe juízo na cabeça, é isso?”

Rita arqueou uma sobrancelha. "Meter-lhe juízo na cabeça? Não quero nada disso," disse abanando a cabeça devagar, de olhar intenso colado aos olhos negros como azeitonas da KC. "Estás a ver, eu não faço a mínima tenção de casar com o Fishburne. Eu bem te disse que ele devia ter falado comigo antes de anunciar casório ao mundo inteiro.”

Por um breve segundo, Rita julgou que KC tinha bloqueado à sua frente como um velho andróide cujo cérebro operativo está a meio de uma descarga epiléptica. Depois os olhos de KC ganharam brilho, a sua testa franziu e ela riu-se. "Ah, sempre foste senhora do teu nariz! Se o teu pai não tivesse muito mais com que se preocupar, provavelmente estaria a espumar." Então o sorriso morreu-lhe nos lábios. "Mas... e a bebé? Aconteceu alguma coisa?"

Ah! KC sorrira finalmente, e Rita deu por si a sorrir também. Vá lá, parecia ter tirado um peso de cima dos ombros à outra. Mais um sinal positivo. Rita manteve um sorriso enigmático. "Essa foi outra das coisas que te esqueceste de mencionar quando eu acordei. A bebé está óptima.” Pegou numa das mãos da KC e encostou-a à sua barriga. “A minha barriguinha é que não irá abaixo com exercício...”

"Caramba!" exclamou a outra. A palma da sua mão mexia-se devagar sobre a pele macia de Rita. Os seus dedos não sentiam nenhuma sensação física especial, mas na sua mente ela imaginava que realmente sentia algo ali, uma presença. "Ela já dá pontapés? Tens tido enjôos?” KC parou com as suas perguntas por um breve instante, para mudar a sua mão de posição. “Quando nasce? Já tem nome?"

Rita riu com a catadupa de perguntas, feliz não só por a KC não ter recuado como por estar a mostrar tanto interesse. E manter a mão quente na sua barriga. Abanou a cabeça à primeira pergunta e respondeu às outras. “Enjôos sim, tive há umas semanas, mas parece que já passou. Estou de três meses e chama-se Lily.” Rita mordiscou o lábio inferior e arriscou por fim a pergunta. “Gostas de crianças, tu?”

"Eu? Estás a brincar?" estranhou KC. Riu-se com vontade. "É claro que não! Fedelhos insolentes, já me chegam os que tenho cá. Lily, huh? Era o nome da tua amiga não, era? Bom dia, Lily!" exclamou KC suavemente na direcção da barriga de Rita enquanto a acariciava. "Achas que ela me consegue ouvir?"

Ora aí estava uma declaração contraditória que confundiu Rita por uns momentos, embora se esforçasse por manter o mesmo sorriso nos lábios. Ah, bom... Era a KC a erguer aquelas barreiras de teimosia outra vez. Mas se ignorasse as palavras, Rita via os outros sinais, o carinho com que a KC se dirigia à sua filha, e percebeu que a KC acabara de dizer uma grande mentira. "Sim, Lily. É graças a ela que estamos aqui nós as duas... três. Acho que ainda é muito cedo para ela te ouvir, no entanto” esclareceu. Tinha de puxar pela KC, ter a certeza que ela queria uma bebé na sua vida, nesta altura do campeonato. “Portanto não estarias minimamente interessada em conhecer a Lily mais de perto, suponho." De novo aquele sorriso enigmático. Seria possível que a KC ainda não tivesse percebido nada?

"Mais de perto?" KC parecia confusa. “Claro, há tanta coisa que lhe posso ensinar!”  KC sorriu, abstraída, por mais uns segundos enquanto esfregava ao de leve a barriga de Rita. Depois ficou com uma expressão mais séria, e finalmente olhou Rita directamente nos olhos. "Olha, Rita, mas afinal o que é vieste cá fazer? Não viajaste de tão longe só para me mostrar o teu umbigo. O que se passa? Podes contar-me, eu aguento, seja lá o que for."

Pronto, a KC ou não via mesmo ou estava-se a fazer desentendida para não apanhar uma desilusão. O sorriso enigmático da Rita esbateu-se e ela humedeceu os lábios, procurando as palavras certas que não havia maneira de conjugar. Acabou por atirar algo mais tosco para o ar. "Tinha esperança que tu ainda me quisesses a mim, mas eu agora venho com bagagem extra, e tu não gostas de crianças..." Era ao mesmo tempo uma confissão e uma provocação. Rita não teve dificuldade em esconder o sorriso matreiro: estava preocupada que a KC recusasse, que afinal saísse dali com um enorme desgosto.

KC endireitou as costas de um salto. "O quê? Falas a sério? Eu... e tu?" Houve uma pausa, e depois voltou a tocar na barriga de Rita. "...e a Lily? A sério?"

Rita assentiu com a cabeça. “Falo muito a sério, KC. Nós as três. Juntas.” A reacção da KC dera-lhe esperança, de modo que se atreveu a voltar a picar. “Mas tinhas de gostar de crianças, claro. E o Fishburne há-de querer participar na vida da Lily também," acrescentou mais a sério.

"Eu, e tu, e a Lily..." repetiu KC pensativa. Olhava fixamente para Rita, como que hipnotizada pelos seus olhos. "Eu não sei o que dizer, Rita. Seria doida para recusar."

Rita sorriu e os seus olhos brilharam. “A sério? Não andas aí metida com o Jenkins?” Rita estava feliz, e o sentido de humor vinha-lhe ao de cima.

"O quê? O Jenkins? Estás a brincar! Ele é..." KC teve de de respirar fundo para conseguir acabar a frase. "Ele é um homem, pelo amor de Deus!"

“Então e depois?” retorquiu Rita, com um brilhozinho no olho e um ligeiro encolher de ombros. “Se eu descobri que dava para os dois lados...” deixou a frase em suspenso e piscou um olho à KC em provocação, mas antes que a discussão se dispersasse, Rita falou mais a sério, numa voz suave e quente. "Então vá, diz que sim e sou tua, se me queres.”

"É claro que sim, Rita. É claro que eu te quero," exclamou KC, envolvendo Rita com os seus braços. "Isto embora, tu sabes, gostes de homens e tenhas deixado que eles te tocassem,” acrescentou KC, numa rara tirada de humor.

Rita aninhou-se naquele abraço com uma gargalhada e retribuiu-o. “Pensa assim: não há mal que não venha por bem,” disse com doçura. “Se não fossem os homens não tinha esta vida preciosa dentro de mim.” Com um suspiro satisfeito, fechou os olhos para melhor apreciar o contacto próximo. “Estava a ver que nunca mais...” murmurou antes de apertar mais o abraço. “Andava a morrer de saudades tuas, do teu toque, da tua voz, do teu cheiro... nunca mais te atrevas a deixar-me daquela maneira. Casmurra."

“Olha quem fala,” respondeu KC, acariciando o couro cabeludo de Rita. Tinha uma lágrima a querer escorregar-lhe do olho. “Se não fosses uma cabeça dura tinhas pedido transferência de unidade depois de eu ter reparado em ti em vez de ficar e tentar manter a cabeça erguida. E o teu pai, não esqueças o teu pai; outra rapariga qualquer teria desistido do exército e ido para casa cozinhar bolos, ou lá qual era carreira que ele tinha escolhido para ti. És dez vezes pior do que eu, pelo menos!”

“Ha! E tu, terias desistido?” Apesar de lhe estar a saber bem a carícia, a provocação tinha de ter uma resposta, de modo que a Rita se afastou o suficiente para olhar KC nos olhos. Com uma carícia suave, limpou a lágrima à KC antes mesmo que esta lhe saltasse do olho. Então enlaçou as mãos atrás da cintura dela e não a largou enquanto falava. "Um teimoso nunca teima sozinho. Seria preciso mais que uma Sargento metediça para me mandar para casa," disse com indignação fingida. "Como bem lembras, em casa teria os bolos, os maridos, os filhos, toda uma vida de avental à cintura e farinha nas mãos. Não, muito obrigada, não tão cedo,” rematou abanando a cabeça numa negação veemente.

Depois com um ar mais sério, Rita continuou. “Apesar do que possas ter pensado à primeira impressão (sei muito bem a primeira impressão que as pessoas têm de mim) eu nunca esperei que fosse fácil a minha vida nas forças armadas.” Um encolher de ombros e um brilhozinho mais brincalhão nos olhos. “É claro que também não antecipei a perseguição cerrada...” E de novo seriedade nos mares azuis tranquilos dos seus olhos. “O meu pai pode ter muitos defeitos, mas ensinou-nos que devemos lutar sempre por aquilo em que acreditamos. Eu acreditava na Federação. Só me tirariam do activo a saca-rolhas.”

“Tal e qual como eu disse...” ofereceu KC, “teimosa como uma porta! Darias uma boa sargento de recruta! Tu é que devias aturar esta cambada toda do Jenkins & Cia; já estou a ficar velha demais para isto. Eu sei que digo isto a todos os pelotões, mas tenho mesmo a certeza que eles são, de facto, a mais inútil escumalha que já me passou debaixo das botas em tantos anos disto. Não servem nem para limpar as solas!”

KC suspirou. “Só porque o teu pai agora os obriga a fazer uns anitos de tropa entre o liceu e a faculdade eles acham-se no direito de passar o dia a lamuriar e a armar-se em comediantes. Se um dia formos invadidos, quero ver!”

Rita arqueou as sobrancelhas, divertida. “Eu, boa sargento de recruta? Deves estar a brincar. Acabávamos todos na discoteca mais próxima,” disse meia a sério, meia a brincar. Então uma pausa em que olhou KC bem fundo nos olhos. Havia ali muita frustração acumulada; estes recrutas das duas uma: ou eram tão frescos que lhe estavam a dar cabo da paciência, ou eram mesmo tão maus como ela dizia. Rita abanou a cabeça suavemente. "Não. Contigo aprendem bem mais do que comigo. E se um dia formos invadidos tenho a certeza que se lembrarão bem melhor da lição dada por uma Sargento O'Rourke do que uma Jamieson." Rita quisera consolar KC, mas tinha de admitir que KC abordara uma questão sensível.

Eden estava realmente numa situação delicada. Até agora a sua posição afastada e os recursos naturais modestos do planeta tinham-no mantido longe de problemas de maior. Tinham outras coisas com que se preocupar, também: o comércio espacial estava em frangalhos e o planeta só podia depender dos seus próprios recursos para sobreviver. Todo aquele minério mesmo ali à superfície à espera de ser minado, mas para quê? A população não podia comer minério. As medidas draconianas do General Jamieson para reorganizar a economia só agora começavam a dar frutos (alguns deles literais), mas ainda era pouco.

Como Rita bem sabia, o pai não estava muito preocupado com a alimentação da população de Eden. A ele tanto lhe fazia que toda a gente comesse derivados sintéticos por mais uns anos. O que o preocupava mesmo era que um dia alguém, em algum lugar, ia olhar para o seu mapa estelar e achar que, por alguma razão, aquele pedaço de rocha tinha importância suficiente para o querer anexar.

A guerra civil alastrara a todo o espaço colonizado, mas já havia tantas facções, alianças, uniões, federações, confederações, repúblicas e planetas independentes, envolvidos em escaramuças de fronteira, raides punitivos, disputas de sucessão, e em simples guerra aberta que o termo guerra civil tinha caído em desuso. Facções que se aliam num dia, guerreavam no outro, e depois novamente se uniam para fazer face a um adversário maior, separando-se novamente para se unirem a aliados diferentes e começarem o ciclo outra vez. O universo estava em caos, e era difícil saber com o que contar. As notícias que iam chegando a Eden contradiziam-se umas às outras.

O General Jamieson – de quem Rita pelos vistos herdara a teimosia, pensou KC – mantivera o planeta neutral e recusara-se a apoiar quem quer que fosse, ou a aliar-se a alguém. Mas quantos planetas e facções neutrais não tinham já sido bombardeados até à submissão ou barbaramente conquistados desde que tudo aquilo começara? E o que dizer de frotas inteiras da antiga marinha da Federação que agora andavam à deriva por aí, dedicando-se à pirataria e pilhagem em larga escala?

“Bom,” disse KC, tentando tirar da sua mente imagens de um futuro menos que risonho. Era surpreendentemente fácil fazê-lo com Rita ali, mesmo à sua frente. “De certeza que não alinhas numa corrida pelo perímetro?” perguntou, afastando-se do abraço de Rita e apoiando os punhos fechados na cintura. “Podemos só andar, se preferires. Até podemos dar as mãos quando o Jenkins passar; ha, isso ia calá-lo por umas semanas! Se não funcionar, volto ao plano original de o lançar em órbita quando os treinos em zero-g finalmente começarem.”

KC sentia-se realmente bem, e Rita teria confirmado que ela parecia tal e qual como se sentia: estava absolutamente radiante, no seu equipamento desportivo branco, um símbolo de confiança contagiosa, pureza imaculada (que no meio de tanto pó e a areia era obra!) e também beleza, é claro. Se o pai tivesse colocado nos anúncios de recruta a imagem dela naquele preciso momento, não ia ter precisado de ressuscitar o serviço militar obrigatório!

Rita riu-se. KC tinha recuperado o sentido de humor, parecia liberta de um terrível peso. Não poderia desejar mais do que isso. "Tem sido assim tão insistente, o teu Jenkins?" picou Rita. “Só demonstra bom gosto. Hás-de mo apresentar formalmente; agora fiquei cheia de curiosidade.” Enquanto falava, Rita não conseguia tirar os olhos da imagem da KC. De facto a confiança que KC exibia era tão contagiante que Rita deu por si a assentir. Agora que o assunto entre elas estava esclarecido e resolvido pelo melhor, Rita podia fazer o que lhe desse na bolha.

“Ok,” disse. “Vamos a essa corridinha. Não estou tão grávida que não te consiga acompanhar," esclareceu. "Empresta-me lá equipamento, que a minha tralha ficou no carro." Começou a despir-se. “E se virmos o Jenkins... bom, logo se vê,” acrescentou com um piscar de olho malandro. 

Dirtside: Episódio 5

Uau! É a melhor palavra que encontro para descrever o último episódio (pelo menos da primeira temporada) de Dirtside.

Pré-Produção

Bom, desta vez a preparação foi bastante simples: não preparei nada! Mesmo com fim-de-semana prolongado o tempo-livre faltou e os afazeres mantiveram-me afastado de Dirtside até ao dia do jogo. Portanto não houve nada de preparação. Tinha ideias vagas para alguns acontecimentos, claro, mas só isso. Ia deixar que o setting fizesse o trabalho todo por mim; é que ao fim de tantos episódios o setting tinha ficado verdadeiramente armadilhado com conflitos e – surpresa, surpresa – todos os jogadores e os seus personagens tinham investimentos e ligações fortes às várias faces da moeda (que neste caso eram três... devia ser uma moeda tetradimensional!). Agora era apenas uma questão de colocar os comboios nas inevitáveis rotas de colisão e deixar que o desenrolar dos eventos obrigasse os jogadores a tomar partidos e a escolher lados.

Chama-se a isto Narrativismo baseado em setting, baby, e funcionou na perfeição. Sendo este último episódio o spotlight do Jota, o foco intenso neste aspecto foi inteiramente apropriado, já que foi ele quem apontou este caminho há vários episódios atrás e, inclusivamente, na criação da série.

A Sessão

Ah, desta vez as Desperate Housewives não atrasaram o início da sessão, já que a SIC só passou um episódio e foi logo às 14h (e foi um episódio de arromba, como os outros, eheh). O Benfica também colaborou com Dirtside e perdeu o jogo da taça, ou seja, não houve festa rija com foguetes, buzinas, gritos e urros nas ruas a roubarem-nos a atenção e a prenderem-nos a curiosidade. Óptimo!

Para cena de abertura, não tinha preparado nada mas sabia exactamente o que queria que acontecesse nela: o Senado, o orgão governativo supremo da Federação, ia reunir-se de emergência e chegar ao planeta onde se desenrola a acção de Dirtside numa really-really-big-spaceship, para demonstrar o poder da Federação e impor a ordem outra vez. Obviamente que isto era exactamente o que os responsáveis por todos aqueles actos bárbaros de terrorismo esperavam conseguir; agora, com todos os senadores reunidos numa nave, era só deitá-la abaixo e tomar o poder no meio da confusão total.

Estive quase a ficar-me só pela chegada da nave, mas para quê esperar antes de ligar o gás e acender as chamas? Sendo assim, narrei a nave a chegar com toda a pompa e circunstância e cortei logo para uma reunião entre os personagens do Jota e do Paulo com Jan Van Meyer, o homem dos serviços secretos que tinha aparentemente sido o cabecilha de tudo isto. Basicamente o que ele diz é: “Meus senhores, chegou a hora. Vamos deitar abaixo a nave do senado com toda aquela corja lá dentro.‿

E pronto, agora sim, está dado o mote para todo o episódio. Agora os jogadores que agarrem a bola e que a chutem na direcção que gostarem mais! E foi exactamente isso que fizeram. O resto da sessão foi um verdadeiro frenesim de escolher lados, contar espingardas (para os mais revolucionários), tentar colocar os entes queridos (para quem os tinha) a salvo, aproveitar para saldar contas, e lidar com todo o tipo de situações extremas e inesperadas que surgem quando está tudo em jogo e há tudo a perder.

O Jota desta vez nem se tentou esquivar e agarrou o boi de frente, pelos cornos. Face a face com a tal colisão inevitável de comboios, tomou a sua decisão, escolheu o seu caminho e, ao longo de todo o episódio, foi vê-lo levar a sua por diante não importa que obstáculos tivesse de deitar abaixo ou quem tivesse de empurrar da sua frente.

Deu gosto de ver! Aquele que era o personagem mais certinho de todos, finalmente atingiu o seu ponto de ruptura e começou a mandar tiros para a esquerda e para a direita, abrindo caminho à força. É bem capaz de ter roubado o até então indiscutível título de Maior Sacana ao personagem do Paulo, tudo fruto do que fez nesta sessão, destronando a reputação que o Paulo construíra ao longo de muitos episódios num verdadeiro tour-de-force. Assassinou o seu ex-amigo Van Meyer a sangue-frio com um tiro na cabeça, assassinou a co-conspiradora de Van Meyer, a senada Johanssen, também a sangue-frio, não matou o personagem do Paulo porque este era um dos protagonistas da série, colocando a arma em “stun‿ e deixando-o apenas inconsciente. Por pouco não limpava o elenco todo, eheh!

E mesmo assim, lá pelo meio, ainda lhe sobrou tempo para ir metendo os outros jogadores em apuros. Foi dele a ideia de colocar a Raquel/Rita a liderar o pelotão de fuzilamento que ia despachar o traidor Daniel Fishburne, o namoradinho de Rita. Uau, perverso! A ideia da execução já andava eu a rondar, só que ia apenas colocá-la face-a-face com o acto já executado, mas o Jota aproveitou a sua cena para subir a parada... e de que maneira! Várias respirações se prenderam naquele minuto em que ela permaneceu de boca calada, lutando com a decisão que tinha à sua frente. E então, sim, com todo o Senado a assistir, com os seus amigos soldados a assistir, com o seu pai a assistir impaciente, ela deu a ordem e disparou também ela. Ouch!

Se algum dia internarem a Raquel num manicómio, será com certeza culpa minha with a little help from my friends (ou seja, do grande Jota). A pobrezinha ontem só tinha Screen Presence a 1, mas nem por isso deixou de ser o alvo mais apetecível para bangs, dilemas e todo o tipo de situações difíceis. Com ela é tão fácil criar e improvisar este tipo de situações poderosas que às vezes é assustador! Só posso imaginar a quantidade de jogadores que não sentiram tantas emoções fortes numa campanha inteira como ela apenas neste último episódio; foi uma verdadeira montanha-russa de emoções, e não sei porquê parece que os carris desciam a pique mais do que subiam, ah! :)

Para delicia dos nossos telespectadores masculinos – e com certeza femininos também – aconteceu por fim uma cena de amor puro, duro, e 100% lésbico, em que a Rita não resistiu mais aos encantos e à inocência recém-reencontrada da sua sargento KC e se embrulharam as duas uma na outra; por pouco não se esqueciam de que estavam num corredor movimentado e o faziam logo ali em frente a metade da tripulação da nave. Mas vá lá, ainda tiveram a decência de entrar no quarto de Rita e fechar a porta aos curiosos e aos telespectadores (a cena cortou ali).

No entanto ainda houve um reprise. Para salvar o seu namoradinho Daniel das garras de Van Meyer, Rita concordou em distrair ou eliminar os controladores do hangar de visitantes da nave, para que uma carga muito delicada (“só‿ alguns quilos de anti-matéria) de Van Meyer pudesse entrar a bordo sem ser detectada. Não querendo assassinar os dois controladores, Rita decide apenas distraí-los... e como! Convidou a sua amiga KC para um pequeno petisco fora de horas... na cabine de controlo mesmo ao lado daquela que os dois controladores usavam. Aqui os nossos telespectadores já poderão ter visto mais: umas coxas ali, algumas peças de lingerie acolá, um seio desnudado aqui, etc. Não só Rita poupou a vida aos dois controladores, como ainda lhes deu espectáculo. Quem disse que era mau ser o NPC genérico nº143 ao serviço do Império/Federação? :)

Para concluir este apanhado de coisas que me chamaram a atenção, há uma cena em particular da qual me orgulho muito, pelo uso do sistema do jogo para realçar e multiplicar a emoção já inerente aos acontecimentos. Foi já no final, finalzinho, do episódio onde a Raquel/Rita – depois de reunir os seus entes queridos – corria agora contra o tempo para chegar ao vaivém que os tiraria a todos da nave do Senado antes que aquilo fosse tudo pelos ares. Os outros jogadores já se tinham posto a milhas, tendo o personagem do Jota alertado as autoridades para a sua destruição eminente... o que significava que a Guarda do Senado estava nesse preciso momento a apoderar-se de todos os meios de transporte para proceder à evacuação dos senadores. De maneira que Raquel/Rita e os seus tinham de atravessar o fogo cruzado entre a guarda e os amigos a quem ela tinha pedido para preparar o vaivém.

Atravessando com ela aquela teia potencialmente fatal de tiros estavam as três pessoas mais importantes da sua vida: o General Jamieson (pai/família), Daniel Fishburne (o namorado traidor rebelde) e a Sargento K.C. O’Rourke (a namorada lésbica e antiga némesis de Rita... quem diria?). Sim, é verdade, eu não lhe matei o Daniel com aquela cena da execução. O fuzilamento não passara de uma encenação bem orquestrada do perverso Van Meyer. E não, eu não estava a fazer batota e a deixar que a jogadora se escapasse às consequências do seu acto. É muito simples, amigos. A decisão mais difícil que alguém poderia colocar nas mãos da Raquel era obrigá-la a escolher entre os outros dois vértices daquele triângulo amoroso (Daniel e KC). Retirar um dos vértices de cena antes que ela pudesse tomar a decisão final (tem havido várias decisões ao redor deste assunto, mas nada que seja definitivo) era matar o maior dos vários gansos de ovos de ouro que havia naquele quintal. Portanto, nada mais natural que manter Daniel vivo.

Anyway, o episódio estava mesmo no fim, e também estava o meu orçamento. Tinha dois ou três dados para gastar. A Raquel, bom, ela com Screen Presence de 1 não tinha começado com quase nenhuns recursos, e ainda menos tinha agora, no final do episódio depois de já ter passado por vários apertos. Eu estava a preparar-me para lançar o conflito da maneira óbvia: se os dados dela ganhassem, ela e os seus queridos iam chegar à nave inteiros; se os meus dados ganhassem, algum dos seus três companheiros ia ser atingido e ficar para trás.

E foi então que a ideia me surgiu... Em vez de um conflito, ia ter três conflitos, um para cada personagem querido que a Raquel queria fazer chegar vivo ao vaivém. Eu, sabendo dos parcos recursos que a Raquel tinha para investir no conflito, afirmei desde logo que ia lançar apenas um dado em cada um dos três conflitos. Nem sequer ia gastar orçamento, ia só lançar o dado “automático‿ do produtor três vezes. Agora era com a Raquel; ela também tinha o seu dado automático, mas tinha ainda alguns recursos que podia investir, dividindo-os pelos três conflitos da maneira que achava melhor para tentar garantir o bem-estar dos três NPCs. Era aqui que estava o brilhantismo da ideia.

E então, perguntais vocês? E então que aqui estava a colocar a mecânica/sistema do jogo ao serviço da audiência (eu e os restantes participantes) ao mesmo tempo que a usava para criar um grande bang à Raquel. Como já disse, Raquel/Rita tinha feito tudo para que aqueles três personagens mais queridos da sua vida saíssem vivos daquela confusão. O que eu lhe estava agora a colocar nas mãos era, nada subtilmente, a pergunta ultra-complicada: destes três NPCs queridos, de quais gostas mais, e quão mais? Ou seja, destes recursos limitados que tens à disposição, como é que os vais dividir pelos NPCs sabendo que é a vida de cada um deles que está em jogo?

A pobre Raquel até tremeu só de pensar na tarefa, mas acabou por se decidir rapidamente. Aqui está a divisão de recursos dela e o resultado de cada um dos lançamento dela contra o meu dado solitário:

  • General Jamieson (pai): 1 dado, Raquel venceu e ele safou-se sem problema
  • Daniel Fishburne (namorado): 2 dados, Raquel venceu e ele safou-se sem problema
  • K.C. O’Rourke (namorada): 4 dados, Raquel perdeu e ela foi atingida com gravidade, ficando para trás

Ouch! Aquela parte de os 4 dados da Raquel terem perdido contra o meu dado solitário, essa até a mim me doeu! A Raquel ia desfalecendo e caindo redonda no chão. E ora aqui está o exemplo perfeito de como os dados podem apimentar o vosso roleplay; o truque é não deixar que os dados decidam o que vocês não querem que eles decidam. O sistema de “stakes‿ do PTA é brilhante para isto; só têm de garantir que ambos os stakes são interessantes e depois deixar os dados escolher, sendo que tanto produtor como jogadores podem alterar as hipóteses a favor da opção que acham preferível.

De resto, a minha missão estava cumprida. O meu caso de vida ou morte obrigou a Raquel a dividir os seus recursos pelos três NPCs, indicando claramente quais deles lhe importam mais e em que grau. Como podem ver foi o meu uso do sistema que permitiu colocar a questão de uma forma tão directa e incontornável, e foi também o sistema o único meio de receber e interpretar a resposta da Raquel. Seguramente não era pelo resultado final da cena (KC é baleada) que se ia perceber que, pelo menos naquele momento no tempo, a Raquel/Rita está completamente enamorada pela KC, enamorada pelo (ou pelos menos com sentimentos forte de culpa para com) Daniel, e no honroso terceiro lugar é que vem o homem que a trouxe ao mundo e a criou. System matters, baby! Nunca estive tão seguro disso.

De qualquer maneira, a cena não ficou por aqui. Morta, semi-morta ou apenas ferida, Raquel/Rita não ia deixar a sua paixão para trás e correu para resgatar KC. Em hindsight, é fácil para mim perceber que foi este momento que decidiu que se ia haver uma segunda temporada de Dirtside. Não sei se deixei passar essa ideia aqui, mas o meu plano original era espremer esta série até à última gota e depois partir para outros projectos, que é como quem diz, outras séries de PTA. Agora, de tudo o que Dirtside tem de bom e de óptimo, há uma coisa que reina suprema no que toca a prender o meu interesse e curiosidade: é exactamente o triângulo amoroso KC-Rita-Daniel. Eventualmente, a coisa vai aquecer e o triângulo vai ruir; Rita vai ter então de abandonar o estado de coisas actual (duas vidas separadas, tentar conciliar o que a longo prazo é inconciliável) e escolher um dos dois vértices, ou contentar-se com aquilo que lhe sobrar depois do pó assentar, se sobrar algo. Enquanto isso não estiver resolvido, não há maneira de eu largar o Dirtside! :)

E isso podia ter ficado resolvido logo ali, neste exacto momento em que ninguém reparou mas que se revelou um ponto de viragem fulcral para o futuro da série. Se eu tivesse deixado a KC morrer com o tiro, adeus triângulo. Se eu tivesse impedido a Rita de resgatar KC e as matasse às duas numa cena brilhante e comovente, adeus triângulo. Em vez disso, deixei Rita resgatar KC, sim, mas com um preço a pagar: a sua amiga do peito Lily Wong, que a ajudou a trazer KC para bordo do vaivém, é atingida fatalmente no último momento (o que combinava na perfeição com um dos Next Week On que faltavam). Os restantes acabam todos por escapar, mesmo no último segundo, antes de ocorrer a explosão de proporções ciclópicas que varreu a nave do Senado da face do universo.

E o resultado final disto é, é claro, que o triângulo se mantém tão intacto e tão atraente como sempre. Não tendo este assunto ficado resolvido definitivamente neste último episódio, terá de ficar resolvido numa eventual segunda temporada, ou pelo menos num texto de ficção da Raquel. Enquanto houver triângulo Dirtside tem de continuar, é tão simples como isso! :)

E pronto, de modo que a primeira temporada lá terminou com a Rita, o corpo sem vida da sua amiga Lily Wong, o seu namorado Daniel Fishburne, a sua namorada KC O’Rourke, o seu pai General Jamieson e alguns NPCs genéricos a voarem numa nave sobre as nuvens do desértico planeta Eden, com o sol a nascer no horizonte. Tudo muito parecido com o final do filme Alien 4... ainda perguntei aos jogadores o que achavam de eu colocar uma rainha-mãe-alien no porão de carga, mas os olhares estranhos deles levaram-me a acreditar que se calhar agora não era o momento certo. Também, com dois namorados rivais e um pai que é comandante das forças armadas da federação (a mesma federação que Raquel/Rita ajudou, voluntariamente ou não, a colocar de joelhos) a bordo, acho que a carga que a Raquel/Rita levam naquela pequena nave já é explosiva o suficiente. Antes fosse a tal anti-matéria; ao menos isso dá uma morte perfeitamente indolor!

Stay with me
for the little night that’s left to be,
For a moment and a memory
that time cannot defile.

Stay with me
while the night still offers amnesty,
And the ending’s still yet to be
tomorrow’s unborn child.

Stay with me awhile.

--Savatage, Stay with me awhile

Dirtside - Gravação Áudio da Cena Final

No fim-de-semana passado tivémos uma excelente sessão de Amber, da qual ainda não relatei aqui nada porque esta discussão na Forge me manteve ocupado durante a maior parte da semana: Dirtside - A Moment to Remember. O texto trata de um assunto que eu tinha prometido a mim mesmo discutir na Forge: o efeito dos três conflitos simultâneos que usei na cena final da primeira série de Dirtside. Já tinha relatado tudo isso aqui, para Português ler, no resumo da última sessão de Dirtside.

Acabei por não receber muito feedback sobre o uso simultâneo dos conflictos, mas pronto... Ao menos as questões e dúvidas levantadas durante a discussão fizeram-me ir desenterrar as gravações áudio que fiz nessa sessão.

Como curiosidade, coloco aqui a gravação integral dessa poderosa cena final que terminou a série de seis episódios de Dirtside. É uma experiência linda, mas também muito estranha, estar a reviver aqueles momentos! Há uma série de inúmeros detalhes a nível da interacção do grupo que me tinham passado completamente despercebidos: a forma como a Raquel geme constantemente quando lhe atiramos coisas para cima (oferecendo-nos um feedback precioso sobre se estamos a atingir o alvo certo), a forma como o Paulo está a torcer com tanta força por um dos NPCs que interrompe o Produtor para colocar palavras na boca do dito NPC, a forma como mesmo não estando presente na cena o Paulo está completamente absorvido nela, oferecendo sugestões e comentários constantes. Muito, muito fixe! Tantos detalhes interessantes para absorver, e tudo isto em apenas 18 minutos.

Não será assim tão interessante para quem não está a perceber nada do que raios se está a passar no mundo do jogo, mas se a curiosidade vos vencer, está aqui o ficheiro MP3 com 2,61 megabytes. A minha voz é a primeira que se ouve, a segunda voz é, é claro, a da Raquel, e uns segundos mais para a frente começam a ouvir a voz do Paulo. O Jota acho que infelizmente teve de sair mais cedo, no final da cena anterior, depois de resolver tudo o que seu personagem tinha por resolver, de modo que ele não participa neste excerto.

Se gostarem, manifestem-se! Posso ir procurar outros excertos fixes. Algures por aqui está uma cena "quente" em que a personagem da Raquel e uma NPC distraem os operadores da torre de controlo com um demonstração de amor lésbico 100% não-fingido. Foi tudo tão convincente que nem foi preciso lançar dados! 

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Dirtside - Cena Final2.61 MB

Elenco de Dirtside II

Dirtside voltou aos écrans para uma segunda época com um elenco parcialmente renovado. Pudera, depois da mortandade que vitimou tantos elementos do elenco secundário no último episódio da série I não tínhamos mesmo outro remédio. Os donos das personagens principais estão desde já convidados a escrever sobre eles, já que ninguém conhece essas personagens melhor do que eles mesmos. Sem mais demoras, eis de que cepa é feita a segunda série.

Elenco Principal:

  • Viktor Ralek
  • Chris Spencer

Elenco Secundário:


  • Nadia Romanova
  • Helen Spencer

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Dirtside_Tom_Bradshaw_Thumb.JPG7.42 KB
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Rita Jamieson

Rita Ann Burnay Jamieson, a.k.a. R. Burnay, a.k.a. “Burnout"

Actriz: Bridget Fonda
Posto: Piloto freelance

Ex-Tenente dos Space Marines, filha do famoso General Jamieson (a mais nova de um total de 10, dos quais sobrevivem 7), mãe de Lily e parceira de KC O’Rourke. Rita sobreviveu aos eventos da primeira série com algumas cicatrizes, uma amante, e uma filha para criar. Deixou os Marines para ter a filha, e depois embarcou numa série de pequenos trabalhos ligeiramente mais lucrativos.

Por razões pessoais que se diz terem causado desgosto ao General Jamieson e a Daniel Fishburne (o pai da criança), Rita e KC decidiram deixar Éden para trás e lançar-se numa carreira freelance assim que acharam que Lily poderia lidar com viagens interplanetárias. Nos últimos dez anos, portanto, Rita desenvolveu ainda mais as suas qualidades de piloto e vai ganhando alguma reputação nos meios em que se move. Um incidente em particular com uma descolagem mais atribulada ganhou-lhe a alcunha de "Burnout".

A nível pessoal, Rita está feliz com a KC. A relação entre ambas evoluiu e consolidou-se numa amálgama de amor, amizade e companheirismo que sobreviveu a dez anos de incertezas e de educação da Lily e que, portanto, parece capaz de resistir a qualquer coisa no universo. E escusado será dizer que Rita é uma mãe muito babada.

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Elizabeth Fishburne

Elizabeth Connor Fishburne, a.k.a. “Afterglow”

Actriz: Katee Sackhoff

A esposa de Daniel Fishburne é uma piloto de caças para a Força Aeroespacial de Éden, o que significa que no fundo trabalha para o General Jamieson e que é subalterna do próprio marido. Inteligente, corajosa, intrépida, Elizabeth é sem dúvida a melhor piloto em Éden e provavelmente arredores também.

A parecença física entre Elizabeth e Rita não passa ao lado de ninguém que as veja juntas – ambas loiras, de olhos azuis, aproximadamente da mesma idade, e do tipo desenrascado e em forma (que parece ser como o Fishburne gosta das suas mulheres.) Para mais, o temperamento de ambas é parecido, com a diferença de Elizabeth ser mais auto-confiante e ter um jeitinho mais à maria-rapaz. Aliás, se as circunstâncias fossem outras o mais provável seria elas serem melhores amigas, mas tal não foi o caso durante os últimos sete anos. E a fonte dos problemas era o Fishburne, claro.

Desenvolveu-se entre ambas uma espécie de competição. Elizabeth queria manter Rita afastada de Daniel e longe de Éden e Rita não queria que Lily perdesse contacto com o pai. E ambas são pilotos de craveira. Elizabeth só disfarçava o desprezo que sentia pelo estilo de vida de Rita quando Daniel ou os miúdos estavam por perto.

 

A guerra quase aberta entre ambas terminou por causa de eventos na série 2.0, quando ambas se despenharam. Elizabeth ficou desfigurada e ferida com alguma gravidade, mas a sua vida foi salva por Rita, e desde então têm estado muito próximas.

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K. C. O'Rourke

Kayleigh Ciarán Moore O’Rourke, a.k.a. KC

Actriz: Demi Moore
Posto: Mercenária freelance

Ex-Sargento dos Space Marines, parceira de Rita Jamieson, “mãe" de Lily.

Com umas quantas cicatrizes a mais, KC sobreviveu aos eventos da primeira série largamente graças a Rita Jamieson, que agora é a sua parceira e amante. Foi com alguma surpresa que KC demonstrou ter jeito para ser uma espécie de segunda mãe para a Lily.

Depois de três anos a ensinar recrutas em Éden, KC embarcou com Rita numa carreira de freelance no novo mundo pós-Federação. Desde transporte de pessoas e bens (com algum contrabandismo pelo meio) até ao da segurança, acabando como caçadoras de cabeças, KC e Rita fizeram um pouco de tudo, sempre com a Lily atrás. Hoje em dia, KC faz o papel de mercenária, dando bom uso ao que aprendeu com os Marines.

À partida, KC está feliz na sua relação com Rita e Lily, tendo encontrado uma paz interior que nunca antes conhecera. Conseguirá a longa relação delas sobreviver aos altos e baixos de uma segunda série?

Dirtside 2.5 - Brainstorming (2006-Jan-22)

Algumas fotos da sessão de brainstorming para uma nova série de PTA, com um grupo renovado. Uma vez que o Rodrigo, o novo jogador, já conhecia muitas das peripécias da personagem da Raquel em Dirtside (costuma estar lá por casa a espreitar quando ela joga online comigo), e o resto do pessoal tinha muitos storylines inacabados, acabámos por decidir jogar uma continuação dessa série. Chamámos-lhe Dirtside 2.5 (também sugeri Dirtside Reloaded) uma vez que dá seguimento quase directo aos assuntos inacabados de Dirtside II ao mesmo tempo que renova o tema e o ambiente, abrindo-o também à criatividade do novo jogador.

Dirtside II - Ep. Piloto (2005-Set-11)

Dirtside II - Episódio 1 (2005-Dez-30)

Para terminar 2005 em beleza, no dia 30 de Dezembro reunimos os suspeitos do costume e continuámos a nossa campanha de PTA: Dirtside II. 2005 foi sem dúvida o ano de PTA! Mais novidades para breve...

Dirtside II: Pré-Episódio Piloto - Ficção

Dirtside regressa aos écrans com uma lacuna de dez anos por preencher na vida das personagens que transitam desde a primeira série. Uma dessas personagens é a Rita Jamieson (agora inseparável da K.C. O'Rourke) com a sua filha Lily Jamieson.

O seguinte texto é uma tentativa de explicar parcialmente os eventos que ligam as duas séries e ao mesmo tempo serve de ponte para o Episódio Piloto de Dirtside II. A primeira parte foi escrita só por mim, mas a segunda já teve a participação preciosa do RicMadeira - como se deve notar pela mudança de ritmo devida ao texto criado via MSN.

Assina:
Raquel “Éowyn” Correia.


Deitada em cima do murete que delineava a entrada para a pensão rasca, mãos atrás da cabeça e pernas pendendo de cada lado, KC descontraiu e fechou os olhos, absorvendo o calor doce do sol. Tinha encontrado um recanto mesmo delicioso; era raro neste nível da cidade um sítio onde o sol batesse mas aqui, ao meio-dia solar, o sol local encontrava um buraquito entre prédios e arcologias para incidir em quatro ou cinco metros quadrados de betão e metal.

Outra raridade naquele recanto era a calma. Aqui não se notava o movimento das ruas mais próximas, apesar da concentração de prédios residenciais e do comércio local. A combinação era mesmo perfeita para o estado de espírito da KC, e convidava-a a deixar os seus pensamentos vaguear preguiçosamente.

Nos últimos anos, momentos destes tinham-se tornado preciosos: KC estava cheirosa, acabadinha de sair de um duche a sério, com roupa lavada, a tomar um banhito de sol sozinha. A vida no espaço, saltitando de planeta em planeta à procura de pequenos trabalhos tinha as suas vantagens – como acesso a mais recursos – mas tinha a enorme desvantagem dos espaços claustrofóbicos das naves: sempre as mesmas caras, sempre a mesma paisagem, nada de água para banhos (já iam com sorte quando se podiam lavar com uma esponja húmida), e nada de sol.

Era uma das poucas coisas que lhe dava saudades de Éden: o sol.

E mesmo assim KC não trocaria os últimos tempos por nada do mundo, porque estava feliz. Pela primeira vez na vida KC encontrara uma paz interior que lhe era desconhecida antes dos eventos em Éden, e a grande responsável por isso era Rita Jamieson. Dez anos volvidos desde aquela época conturbada, KC e Rita continuavam juntas, unidas por um misto de amor, amizade e companheirismo, que sobrevivera já a sete anos de viagens interplanetárias em naves exíguas e aos altos e baixos de educar uma menina reguila como a Lily.

Era verdade que às vezes o convívio forçado nas missões mais longas punha alguma pressão na relação entre elas as três, mas isso não era nada que não acontecesse a qualquer ser humano. A bem da verdade, KC não se conseguia fartar de olhar para a Rita, de conversar com ela, de partilhar aventuras e de a amar.

KC sorriu sem se aperceber, de tão distraída que estava. Já lá iam anos desde o último pesadelo com o Fish.

O medo consciente que o Danial Fishburne reconquistasse o coração da Rita tinha-a perseguido durante um bom par de anos, e os pesadelos tinham-se prolongado por outros quantos. Fishburne tinha carisma, uma boa posição nos Space Marines em Éden, era o braço direito do General Jamieson, e o pai biológico da Lily. Com tanto a favor dele, KC passara uns maus bocados só com o medo de perder a Rita.

Mas o incrível acontecera e Rita ficara com KC.

E mais: com a sua gentileza inata, Rita tinha conseguido penetrar as suas defesas e desenterrado lá bem do fundo a essência da própria KC, moldando uma nova KC com o seu toque carinhoso. A ex-Space Marine não perdera o sangue-frio que a tornava uma mercenária competente, mas recuperara a alegria de viver e um cheirinho da criança que havia dentro de si. Tinha afastado a rigidez que a tornara uma Sargento de recruta tão temível, e dado lugar a uma maior empatia com as pessoas mais próximas.

E quanto ao Fish... Fish já não era uma ameaça, principalmente desde que se casara. Elas as três mantinham com ele algum contacto porque seria injusto negar à Lily o seu próprio pai. E se calhava darem um pulo a Éden era certo e sabido que o Fish arranjava umas horas para passar com a filha.

Numa dessas visitas, tinham conhecido a esposa do Fish em carne e osso; uma surpresa desconcertante. Elizabeth Fishburne tinha acompanhado o marido até ao espaçoporto e recebera-as com um sorriso que, KC notara, não lhe chegara aos olhos. Liz Fishburne apanhara KC de surpresa, pois esperara encontrar uma senhora caseira, elegante, se calhar uma das secretárias dos militares. Em vez disso dera de caras com uma piloto de caças, segura de si própria, senhora do seu nariz, e nada do tipo menina-delicada.

Mas a primeira coisa que notara fora a parecença física entre Elizabeth e Rita – e a julgar pelo olhar duro da primeira, KC não fora a única a dar por isso. Ambas loiras, de olhos azuis, do tipo militar, em forma. Ambas com ideias próprias e um certo tipo de sentido de humor. Mas Rita tinha mais ar de menina, com o seu físico mais elegante e inocência aparente, enquanto Lizbeth era mais directa, mais brusca, menos delicada. KC não podia dizer que não tivesse gostado da combinação, e inicialmente prendara-a com a sua melhor educação.

Tinham deixado Lily entregue ao casal durante o dia e aproveitado elas próprias para completar uns negócios e depois relaxar um pouco juntas. Mas à noite, no jantar a que tinham ido todos juntos... bom, KC notara em pequenas coisas que Elizabeth não morria de amores por elas.

Não ajudara o facto de terem passado uma parte do serão a relembrar aventuras da altura do pelotão de Ralek, uma discussão na qual Elizabeth não pudera participar activamente. E mesmo Lily, que conseguia conquistar todos os corações ao fim de cinco minutos, não conseguira penetrar a hostilidade disfarçada de Lizbeth; KC apostaria que isso se devia às parecenças demasiado óbvias com a Rita, por demais evidentes na Lily.

Quanto à Rita, o que ela pensava do incidente não era claro, e KC não puxara muito pelo assunto. Das duas uma: ou Rita não dera pelas parecenças nem pela hostilidade recalcada de Liz Fishburne (e KC não apostaria a vida nisso), ou então fizera-se desentendida para não piorar a coisa.

O som de passos familiares fê-la virar a cabeça e abrir um olho negro como carvão. O coração bateu-lhe um pouco mais depressa no peito; nunca o conseguia evitar. Rita vinha a sair da pensão com a Lily pela mão. Estavam ambas lindas. KC sentou-se e baloiçou as pernas enquanto as observava a aproximar.

Rita parecia brilhar, ainda com as faces rosadas do seu duche quentinho, com o cabelo loiro pelo queixo reflectindo a luz do sol. O top branco e a saia curta azul faziam-lhe sobressair o azul vivo dos olhos e mostravam uma quantidade de pele suave pálida. Aos trinta e picos e depois de uma filha, Rita mantinha todas as curvas certas nos lugares certos.

Lily vinha a fazer beicinho e de cenho franzido, obviamente amuada com alguma coisa – KC adivinhou que fosse por causa do banho “a sério”, do qual a miúda fugia como o diabo da cruz, sempre que podia. Hoje Rita quase a tinha arrastado pela orelha, mas o resultado valia a pena. O cabelo loirinho de Lily brilhava como o da mãe, preso em dois carrapitos no topo da cabeça, e já se conseguia ver a carinha laroca que normalmente se escondia debaixo de camadas tectónicas de poeira, óleo de máquinas e suor. De jardineiras azuis e camisa amarela, Lily era a imagem da inocência a fazer uma grande birra.

KC levantou-se e foi ter com elas.

“Estamos prontas, finalmente,” declarou Rita à laia de cumprimento, naquela sua voz musical e com o sorriso caloroso que a derretia sempre. Deuses como ela era bela!

Mas Lily estava-se a preparar para amuar a tarde inteira e lhes azedar o passeio pela cidade, de modo que KC resolveu cortar logo o mal pela raiz. Pôs-se a cheirar o ar em volta delas com gestos teatrais. “Cheira-me a... a... a carne tenrinha!”

Lily carregou ainda mais o beicinho e escondeu-se mais atrás da mãe, decidida a continuar a birra. KC não ligou e de repente apanhou-a num abraço que transformou num rodopio. "Aha! Carne tenrinha, mmm, por baixo de todo o óleo de máquina, quem diria? Quem consegue resistir? Nhac!" e fingiu morder o bracinho e depois lamber os beiços deliciada, enquanto fazia cócegas à Lily.

Lily desfez-se num ataque de riso enquanto se contorcia numa vã tentativa de escapar aos dedos certeiros da KC. Rita sorriu e piscou-lhe um olho.

***

Ao fim de seis meses na mesma nave, era bom ter os pés em terra firme e passear um pouco sem grandes preocupações. Tinham acabado de completar um contrato e tinham algumas horas para matar antes de terem de comparecer no espaçoporto para um trabalho potencial.

Enquanto passeavam pelo bazar, Rita observou KC, que levava Lily às cavalitas. Estavam todas as três bem dispostas com a mudança de cenário, e KC tinha uma paciência aparentemente infindável para lidar com as birras da Lily quando muitas vezes a própria Rita ficava exasperada.

Pareciam a noite e o dia, aquelas duas: a Lily loirinha, pálida, vestida com cores garridas, e a KC de olhos e cabelo escuros, vestida de calças pretas e camisa caqui.

Rita não conseguiu evitar um sorriso carinhoso. Faziam uma bela equipa, elas as três. Rita era piloto, KC mercenária e Lily... Lily aprendia a velocidades estonteantes e demonstrava uma aptidão para mecânica – ironias do destino, sem dúvida. Não era de surpreender, tendo em conta que passara a maior parte da vida enfiada em naves de várias cores e feitios e que só conhecia esta vida nómada.

Lily veio a correr para a mãe, com um sorriso enorme na cara, e lançou-se sobre as suas pernas, ficando agarrada à coxa de Rita.

Por entre a azáfama de pessoas, abriu-se de súbito uma passagem e do meio de toda aquela gente emergiu um homem. A sua idade, obviamente menos de trinta anos mas talvez não por muito, ainda o fazia merecer o adejctivo de jovem, mas a aparente dureza de algumas linhas esculpidas em certas partes do seu rosto indicavam que já tinha vivido muita coisa.

"Olá," disse Lee Jenkins para KC, abrindo-se num pequeno mas certo sorriso.

"Olá," respondeu ela, num tom de voz neutral.

Rita semicerrou os olhos e tentou abafar o sorriso. Jenkins! Com uns anos em cima, mas era impossível esquecer o Jenkins. E ele sempre tinha gostado de se meter com a KC, de modo que a Rita decidiu manter-se um pouco aparte e ver no que dava o reencontro deles.

Com um grande sorriso, dirigiu o olhar para a filha, fazendo-lhe uma festa na cabeça. “Fartaste-te da KC,” perguntou com um piscar de olho, “ou deu-te um ataque de vergonha?” Pelo canto do olho observou a interacção entre KC e Jenkins.

"Não posso dizer que eras a última pessoa que eu esperava encontrar aqui, hoje, ao fim destes anos todos, mas quase..." disse Jenkins. Ele vestia um uniforme de... algo... as insígnias que não tinham sido arrancadas já estavam gastas, e não proclamavam nenhuma aliança. Já as manchas de óleo aqui e ali, e as ferramentas penduradas no seu colete, não deixavam muitas dúvidas sobre a sua profissão.

"Como tens passado, Kay? Sei que já não fazes passar os recrutas pelo inferno há muitos anos. O que é feito de ti?"

"Estou bem. Estou óptima, na verdade," respondeu-lhe KC, virando a cabeça na direcção de Rita.

"Ah, deves ser a Rita," disse Lee, aproximando-se a passos largos, com a mão estendida.

Rita fez um dos seus sorrisos brilhantes e apertou a mão de Lee Jenkins. “Sim, sou a Rita." Não valia a pena lembrar-lhe que se tinham conhecido muito brevemente em Éden. Já lá iam dez anos e ele de qualquer modo não se devia lembrar da cara dela.

"E tu," disse ele baixando para espreitar em torno das pernas de Rita para a cara de Lily, que se tentava esconder entre risadas, "E tu... não faço ideia quem és. Quem és, pequenina?"

Lily, por sua vez, espreitou de um lado da Rita com um ar reguila e respondeu logo, “Eu sou a Lily!” com um ar muito despachado. “E tenho uma chave inglesa melhor que a tua,” acrescentou à laia de esclarecimento apontando com um dedinho para o objecto em questão pendendo entre o equipamento do jovem.

Aproveitando que Lee estava distraído com a Lily, Rita virou um olhar demasiado inocente para a sua amante e esboçou silenciosamente com os lábios a pergunta, “Kay?” Estávamos numa de diminutivos, hã? Teve de se conter para não se desmanchar a rir.

"Ah, mas esta chave é especial. Já me salvou de muitas alhadas!" disse Lee para Lily, beijando a ponta da chave repleta de amolgadelas no seu perímetro exterior. "Não há parafuso que lhe resista. Os que tentam depressa mudam de ideias."

"O que é?" desculpou-se KC silenciosamente para Rita, encolhendo os ombros.

"Isto é mesmo incrível," diz Lee, levantando-se. "Quem diria? Ao fim de tantos anos... e então, o que fazem? Um passeio de família?"

O olhar de Jenkins, agora constantemente em movimento entre KC e Rita, pareceu fixar-se um pouco mais de tempo em KC. Mas é claro que isso pode ter sido só impressão de Rita, porque logo depois, quando o olhar dele regressou ao dela, ele pareceu demorar-se um pouco mais também.

Rita hesitou, olhou de relance para a KC, que não parecia muito inclinada em dar corda ao Jenkins. Aí não havia grande novidade. KC nunca soubera muito bem o que fazer com ele. Mas o momento foi breve e logo a Rita o olhou nos olhos para dar a resposta.

“Neste momento? Sim,” confessou ela. “Estamos entre trabalhos,” ofereceu à laia de explicação com um meio-sorriso. “E tu?” Se não fosse ela a perguntar a KC nunca abriria a boca. "Parece que largaste os Space Marines e Éden. O que te traz a estas bandas, negócios ou prazer?”

Por um momento, Rita ponderou sobre Jenkins. Exactamente quanto saberia ele acerca dela e KC? Sabia o suficiente para se lembrar do seu nome, pelo menos, mas quão mais? Que pensaria ele delas? Teria ainda um fraco pela KC? Que conclusões tiraria da óbvia parecença de família entre Rita e Lily? Tantas perguntas...

"Bom, agora que vos encontrei, são as duas coisas, parece-me," respondeu Lee a Rita sem ser mais específico. "Isto é óptimo. Entre trabalhos, dizem vocês? Óptimo... é que eu conheço um tipo que conhece outro e, bom, digamos que mais duas marines duras de roer eram mesmo a adição ideal à tripulação. Se encontrássemos um piloto também, então era perfeito!"

"Por acaso não sabes pilotar um classe F, pois não, querida?" disse ele olhando para baixo, para Lily, que fixava para uma das ferramentas esquisitas penduradas no seu colete.

"Sabes o que é isto?" perguntou Lee a Lily. "Serve para fazer ajustes de calibração no núcleo de um Wheton 400; há já um século que não se fabricam esses motores. Tive de construir a peça eu mesmo. Pouco depois o motor explodiu definitivamente e tivémos de o substituir por um modelo novo, mas ainda guardo isto comigo. Dá mesmo jeito para aquelas comichões nas costas!"

Lily riu-se. "Ela é uma linda rapariga," disse Jenkins fixando Rita, enquanto despenteava a cabeça de Lily, que tinha agora um sorriso de uma orelha à outra.

"É sim," respondeu KC atrás dele, avançando na direcção de Rita para ficar ao lado dela, com o braço em torno da cintura da sua companheira. O olhar de Lee desceu por uns momentos para aquele braço, e depois desceu mais um pouco até Lily. Voltou a pôr-lhe o cabelo no lugar, e esta correu de volta à mãe, escondendo-se com uma gargalhada estridente atrás dela.

Rita tentara apanhar o olhar da KC para ver o que ela achava desta proposta do Jenkins, mas KC não tinha tirado os olhos dele, com uma expressão guardada, difícil de ler. Por um lado, Rita sabia que KC sempre tivera dificuldade em lidar com o jovem mulherengo, mas por outro lado tinha a impressão que ele até era boa pessoa e gostaria de trabalhar com ele.

Mas nada de apanhar o olhar da KC. Quando ela colocou o braço à sua volta, Rita deixou-se encostar um pouco numa posição de familiaridade. O que fazes, querida?, pensou. É só afecto ou há aqui um bocadinho de territorialidade? Mas por fora Rita sorriu, corando levemente sob o elogio da KC.

Curiosamente, foi a Lily quem desempanou a situação. Rindo ainda, satisfeita por ter encontrado um amigo das duas mamãs com quem simpatizava logo, a pequena prontificou-se logo a explicar. "Eu cá não voo, mas a mamã sabe voar tudo!" disse Lily com gestos largos.

Apanhada de surpresa sem ter tido oportunidade de conferenciar com a KC, Rita encolheu os ombros e inclinou a cabeça para o lado, numa expressão vagamente embaraçada. Poisou uma mão no ombro de KC, afagando-a distraidamente com o polegar. “Bom... Quase tudo,” esclareceu. “Mas sei lidar com um Classe F, sim.”

Jenkins fez uma pose dramática. "Eu sabia, isto é perfeito! Ouçam, apareçam aqui," disse ele entregando à Rita um pedaço de papel dobrado que tirara do bolso, "a essa hora e ouçam o que o capitão tem para vos oferecer. Garanto-vos que vão ficar interessadas."

"Gostava de ficar aqui a pôr a conversa em dia, mas ainda tenho umas quantas oficinas para vasculhar em busca de umas peças mais antigas. Vêmo-nos lá no hangar, pode ser?" Jenkins estava a despedir-se de Rita com um aperto de mão, mas a pergunta foi notoriamente lançada na direcção de KC.

"Adeus, Kay," disse Lee mais baixinho, pegando na mão de KC e beijando-a rapidamente. Depois virou-se para a cabeça loura que espreitava por detrás de Rita e berrou: "Até logo, Lily!" E assim, mais ou menos como tinha surgido, Lee Jenkins penetrou no turbilhão de pessoas que usava o bazar como local de passagem e desapareceu dum instante para o outro entre a multidão.

Rita apertou de novo a mão de Jenkins e ficou a ver enquanto ele se despedia da KC. Pela primeira vez, o seu sorriso descaíu um pouquinho e sentiu um ligeiro aperto no estômago. É claro que era um tremendo disparate sentir aquela pontada de ciúme, mas a bem da verdade Rita não estava habituada a que lhe cobiçassem a KC. Normalmente era a própria Rita quem atraía primeiro a atenção dos homens. Só que agora Jenkins tinha invertido o tabuleiro.

Ficou a vê-lo afastar-se, guardando o papelinho cuidadosamente no bolso de trás das calças da KC, já que a sua vestimenta não tinha onde o pôr. Quando ele desapareceu de vista, Rita atreveu-se a comentar num tom bem mais sério do que usara durante a conversa. "Kayleigh,” o uso do primeiro nome completo dava a entender a seriedade do assunto, "aquele rapaz está perdido de amores por ti."

"Não aconteceu nada!" exclamou KC com muita irritação, num tom de voz que até fez Lily parar tudo e olhar, e saiu disparada na direcção para onde estava virada.

O espanto não impediu que Rita agisse de imediato. Pegou na mão de Lily para não a perder e seguiu na peugada da amante. “KC!” chamou. “Espera! Ninguém disse que tinha—“ Alcançando-a, Rita tentou pará-la com uma mão no ombro. “KC, querida?”

KC deteve-se, e girou para encarar Rita. Se Rita esperava uma cara irritada e dura, não foi nada disso que teve. "Desculpa, Rita," disse KC, arrependida. "É só que... não sei o que me deu."

Nunca soubeste lidar muito bem com ele, é o que é... ou será que há aqui algo mais que me passou ao lado?, pensou Rita enquanto estudava KC com os seus olhos azuis penetrantes. Mas num instante fez um sorriso, daqueles que derretiam sempre a KC. “Estás bem? Ouve, parece um bom trabalho...” A sua voz transportava a esperança que KC quisesse aceitar o encontro no hangar.

E Lily, essa olhava as duas mães com grandes olhos esbugalhados, absorvendo a cena incerta do resultado. Podia ser miúda mas instintivamente sabia que algo de errado se passava.

"Sim, é um trabalho. Não gosto é de intimidades com ex-recrutas, só isso." KC tentou fazer um sorriso, que algures a meio se tornou completamente amarelo. Acrescentou rapidamente: "Tu és a única excepção, claro."

Estranho a KC não ter logo sacado do velho argumento ‘mas ele é um homem’ e isso por si só deixava Rita de pé atrás porque queria dizer no mínimo que a KC estava bastante perturbada. Mas o pior era que os seus instintos lhe gritavam que ela estava a mentir. Mas acerca do quê?

Bom, não era nem a hora nem o sítio para discutir isto, portanto Rita rapidamente arqueou uma sobrancelha e depois piscou um olho matreiro na tentativa de aliviar o ambiente. “Eu sei,” sussurrou-lhe perto da orelha, plantando depois um beijo carinhoso na face.

Então, sem tirar os olhos da KC, Rita dirigiu as suas palavras à filha. “Que dizes, Lily, cravamos à mamã KC uma mãcheia de rebuçados?”

A resposta foi entusiasta e Lily começou logo a arrastá-las pelas mãos em busca de uma loja que vendesse doces.

Visivelmente aliviada, KC finalmente sorriu um sorriso verdadeiro. A sua mão apertou a de Rita algumas vezes, em sinal de amor.

Dirtside II: Episódio Piloto - Ficção

Rita estugou o passo pelos corredores apertados do cangalho a que Ralek chamava nave. Vinha fula ainda da conversa com o pai ao jantar na messe da Firebase Omega. E a culpa era toda do Ralek por não só a colocar naquela situação como ainda por cima ter dado lenha mais que suficiente para o pai queimar. A discussão sobre a educação da Lily fora mais feia e aquecida do que era costume.

E depois o capitão ainda tinha a lata de a provocar assim que ela regressava à nave! Rita definitivamente precisava desanuviar um bocado, e a única pessoa que a poderia entender neste momento era a KC. A acreditar no Ralek a KC estaria algures no porão, portanto era para lá que a Rita se dirigia, ainda com o fatinho bonito de saia e camisa que usara para o jantar de ocasião.

Encontrou a escadinha de metal, desceu-a depressa e saltou os últimos três degraus. Quando levantou o olhar discerniu Jenkins encurralando a KC contra um canto do porão, com as duas mãos apoiadas na parede, impedindo-a de fugir. Naquela fracção de tempo antes deles reagirem ao barulho, Rita pôde ver que falavam em sussurros e que o ambiente entre ambos era tenso.

Mas antes que ela própria pudesse perceber algo mais, KC olhou por cima do ombro do mecânico com um olhar difícil de ler e Jenkins tirou uma mão da parede para se virar para trás. Quando viu quem era, deixou cair a outra mão, disse ainda qualquer coisa à KC e afastou-se. Cumprimentou Rita com um meio-sorriso ao passar por ela e desapareceu pelas escadas de metal.

Entretanto a KC afastou-se da parede e iniciou conversa. “Rita! Como foi então com o teu pai?”

Enquanto explicava o pesadelo que tinha sido e esperava que Jenkins saísse do alcance da voz, Rita observou KC. Dois pormenores estavam fora do sítio, tendo em conta que se tratava da KC: um botão a mais desabotoado e um canto da camisa mais puxado para fora das calças do que deveria.

Assim que julgou ser seguro, Rita interrompeu o seu relato e perguntou em vez disso: “Queres-me explicar o que se estava aqui a passar?”

KC desviou o olhar para um dos cantos do porão da nave. Teria ouvido algum som ou estaria simplesmente a evitar os olhos inquiridores de Rita? "Era o Jenkins a fazer-se de engraçado. Como se as anedotas dele tivessem alguma piada. Sabes como é; homens." KC encolheu os ombros.

Rita sentou-se no banco, sentindo-se de repente muito cansada e fragilizada. Em cima de tudo o resto que já se tinha passado nesse dia com o Fish e o pai, agora a KC estava a tentar esconder algo acerca dela e do Jenkins. E as desculpas que estava a dar eram esfarrapadas no mínimo. Rita abanou a cabeça com um suspiro cansado.

“Pareces cansada, Rita," disse KC aproximando-se. Colocou-se atrás de Rita e começou a massajar-lhe os ombros. "Estás toda tensa. Relaxa.”

De facto as mãos fortes da KC a massajá-la sabiam mesmo bem, e Rita suspirou, encostando a cabeça ao ventre da sua amante. Mas a proximidade física não ia por si só conseguir vencer a distância que a KC estava a tentar colocar entre ambas, E essa era uma sensação que Rita detestava e há muito não sentia: a KC a tentar fechar uma porta.

Virou a cabeça para encarar a sua cara-metade. “Não me feches a porta, KC, por favor. Fala comigo. Eu consigo ver que se passa alguma coisa entre ti e o Jenkins, e aquilo há pouco não foi anedota nenhuma. Por favor, minha querida?"

KC abriu a boca para falar, mas não chegou a dizer nada. Era a primeira vez que Rita se lembrava de a ver sem uma resposta pronta na ponta da língua. Só ao fim de uns segundos, fixando bem fundo os olhos de Rita com uma expressão calculadora, é que KC se expressou por fim.

"Não sei se vais ficar chateada... Se calhar é melhor eu não dizer nada. Não precisas de te preocupar, a sério."

Rita franziu o sobrolho ligeiramente e aguentou o olhar de KC, prescrutando ela própria os olhos negros da amante. Só que não conseguia ler a verdade naquelas profundezas escuras, portanto tentou um sorriso que saiu triste. "Não posso prometer, mas nunca consigo ficar chateada contigo por muito tempo, KC."

Por mais que tentasse abrir o coração, Rita não conseguiu afastar um certo nervosismo. O sorriso morreu-lhe nos lábios, engoliu em seco, brincou nervosamente com os dedos das mãos. "Sabes que podes falar comigo acerca de tudo, KC, minha querida. Tudo mesmo."

KC pareceu hesitar. Os dedos da sua mão esquerda não paravam de brincar com o cinto do seu uniforme. "Bom, a verdade é que..." KC pareceu hesitar. "Eu e o Jenkins, a modos que... bom, tivémos um pequeno caso." Antes que Rita tivesse tempo para dizer uma palavra que fosse, KC apressou-se a acrescentar: "Mas ele nunca me espetou com a coisa dele!!"

"Quer dizer, não das primeiras vezes..." disse KC, corada, e remeteu-se a um silêncio nervoso à espera de represálias.

O coração de Rita parou. Ou pelo menos era essa a sensação. Por uns segundos o choque impediu-a de reagir. Teve de fazer um esforço consciente para fechar a boca e engolir em seco. A KC com um homem era coisa que nunca lhe teria passado pela cabeça.

Levantou-se do banco e ficou de pé, em frente a KC, inclinando a cabeça para tentar ler melhor a expressão facial da sua companheira. A onda de insegurança que se abateu de repente sobre si apertava-lhe o peito e tornava difícil falar. "Uh..." Era tão raro ver KC corada daquela maneira que isso quase lhe partiu o coração.

Por fim, Rita encontrou algumas palavras. "Não das primeiras vezes?" repetiu. No mesmo instante em que as palavras lhe saíram da boca arrependeu-se. Não queria torturar KC. Caramba, a resposta provavelmente ia mas era torturá-la a si própria! E no entanto não foi capaz de pensar em mais nada.

KC corou ainda mais. "Sabes como é... Ele é cheio de falinhas mansas. Não foi tão mau como eu me lembrava, por isso... Mas também, o que é que tem?" KC assumiu uma postura defensiva. "Até parece que não o fizeste dezenas de vezes com o Fishburne e outros. Eu não deixei de gostar de ti por isso!"

Se há pouco o coração de Rita quase tinha parado, agora disparava. Mordiscou o lábio inferior, lutando ainda com a onda de insegurança que a assolava. "É... falinhas mansas," concordou ela. "É que..." Rita inspirou fundo, tentando controlar as suas emoções. Não foi tão mau ou gostaste mesmo, KC? Mais do que fazer amor comigo?

Afastou os pensamentos com esforço. "É que eu... Pensava que não gostavas de homens, ponto final. E sim, fi-lo com o Fish e com outros, mas eu também gosto de homens," tentou explicar. Isto estava tudo a soar muito mal. Experimentou de outra maneira. "Quando? Como?"

"Como assim 'como'?" KC estava a tentar não dar mostras do seu nervosismo. O resultado é que as suas palavras se atropelavam umas às outras, tão depressa ela falava. "Sei lá, eu fechava os olhos. Já bastava tê-lo em cima de mim. Não queria estar a vê-lo também."

"Isto foi depois de nos separarmos. Queria concentrar-me no trabalho, só no trabalho, e nas primeiras semanas isso até resultou. Depois... não sei o que me deu..." KC pareceu acalmar-se um pouco, finalmente.

O olhar de KC focou-se por uns momentos no passado distante. Falava lentamente agora, como se a sua atenção estivesse presa em outro lugar. "O Jenkins tanto insistiu com as suas insinuações que... não sei... fazia com que me sentisse uma pessoa um pouco especial, ou algo assim. Foi por isso que não lhe parti todos os dedos das mãos quando ele me beijou daquela primeira vez."

Rita tinha tantas perguntas, mas agora não seria talvez a melhor altura. Ainda fazia alguma asneira grande se insistisse em abrir a boca sem pensar duas vezes. E agora que KC acalmava e começava a falar menos defensivamente, Rita tinha resposta para a pergunta que mais a torturava: porquê?

Ora precisamente porque Jenkins a fizera sentir especial, numa altura em que KC pensava que tinha perdido a Rita enquanto Rita em Metrópolis recuperava das feridas e procurava desesperadamente encontrar uma KC que se escondera no cu de Judas.

Rita baixou o olhar finalmente, com um meio-sorriso à ideia de KC partir os dedos ao Jenkins. Olhando para trás, Rita não tinha a certeza se alguma vez fizera KC sentir-se especial, nessa altura. Ou até depois disso. Sentiu o coração estilhaçar-se, ainda inseguro. Seria a KC mais feliz com outra pessoa?

O silêncio de Rita encorajou KC a continuar.

"Estava confusa, só podia," disse KC regressando ao presente. "Bom, mas eu não voltei a vê-lo depois de nos termos juntado outra vez. Quer dizer..."

"Tive de o ver para lhe dizer que estava tudo acabado, certo? E depois uma outra vez, para lhe confirmar que sim, que não havia mais nada entre eu e ele. E por fim ainda mais uma, para eu lhe fazer entrar a ideia naquele crânio duro que eu não queria vê-lo mais. Mesmo. E foi isso. Pronto, já te contei tudo."

Rita roeu uma unha. Deuses, como queria abraçar a KC agora mesmo, confortar e ser confortada ao mesmo tempo, mas de súbito tinha receio. Queria dizer Amo-te muito, KC, e nada disto importa mas afinal o que lhe saiu da boca foi: "E há pouco, o que queria ele?" e depois logo de seguida, quase atropelando a primeira pergunta, "Preferias estar com ele?"

Com o coração na boca, esperou a resposta da companheira, olhando-a com incerteza espelhada nos olhos azuis.

KC ficou algo agitada. "Estás a ver? Eu sabia que não te devia ter contado nada... Raios, Rita, consegues ser tão insegura! É claro que eu só quero estar contigo. Era isso mesmo que eu estava a tentar meter dentro daquela cabeça dura do Jenkins. Por alguma razão ele tinha esta ideia maluca de que eu sentia algo por ele. Ah! Como se alguma vez..."

As primeiras palavras fizeram o coração de Rita cair-lhe aos pés, mas antes que tivesse oportunidade de apanhar um grande desgosto, a segunda parte da declaração da KC iluminou-lhe a existência. É claro que só quero estar contigo. Rita hesitou e então sorriu por fim, num sorriso misto de alívio e delícia.

E se bem que se sentisse vagamente ofendida por ter sido basicamente chamada de insegura (que importava se era verdade? Ninguém gosta de ouvir uma coisa dessas vinda de quem ama), Rita deu o passo que a separava da KC e abraçou-a. "Então nada disto importa, KC," murmurou-lhe ao ouvido. "Oh, amo-te tanto!" confessou.

Rita estreitou os braços em redor de KC. "Houve ali um momento em que pensei que te ia perder. Desculpa, apanhaste-me desprevenida com... com isto tudo."

"Eu sei. Desculpa, querida.  Anda cá," disse KC aproximando os seus lábios dos de Rita para um beijo bem longo. "Amo-te."

Rita correspondeu ao beijo, e ainda o aprofundou. Depois de uma noite cheia de discussões e incertezas Rita estava a precisar de algum carinho, precisava de poisar num porto familiar e de se reorientar. KC era o seu porto de abrigo, a sua âncora. Se alguma vez ela a deixasse, perderia o rumo.

Atirando as incertezas para trás das costas, Rita concentrou toda a sua atenção na KC, no beijo que as unia, num afago aos seus cabelos sedosos. Não tardou a sentir a KC responder ao aumento da temperatura entre elas com um ligeiro gemido. Quebrou o beijo pouco depois, e olhou-a bem nos olhos para descobrir uma centelha de desejo e alguma desconfiança à mistura.

“Rita? Que fazes?” perguntou KC desconfiada, mas não largando a cintura da Rita, onde as suas mãos tinham ido parar numa carícia.

Rita fez então aquele sorriso brilhante que derretia sempre a KC, mas com um toque de malícia no olhar. “Que faço? Faço amor contigo no porão da nave. Que dizes?” E com isso mordiscou a orelha da mercenária.

“És doida!” respondeu KC, tentando sem sucesso ignorar o efeito que a carícia tinha sobre si. “Ainda alguém nos apanha,” objectou com pouca convicção.

Rita riu-se, e puxou-a pela mão até ao mesmo recanto onde há pouco Jenkins prendera KC, e que estava mais escondido da vista. “Estão todos ocupados, desconfio.” E depois com uma sobrancelha arqueada: “E a Lily está com o Fish. Anda lá, vive perigosamente,” provocou, aproximando-se para mais um beijo escaldante. KC soltou uma gargalhada rouca.

Minutos depois Lee Jenkins emergiu de uma escotilha para a passadeira de grade de ferro que circundava todo o porão a meia altura, virou para a esquerda e quase esbarrou com Chris Spencer, que estava apoiado ao corrimão absorto em algo que se passava lá em baixo. Sem pausar, Lee continuou caminho e só baixou o olhar para o porão alguns passos à frente. O que viu fê-lo estacar.

Terá olhado no máximo por um segundo, antes de girar nos calcanhares e retroceder pelo mesmo caminho, apenas um pouco mais corado, mas foi tempo suficiente para que a imagem lhe ficasse gravada no cérebro: KC encostada a um caixote lá em baixo, com a cabeça atirada para trás, a boca num ó de prazer, uma mão enterrada em cabelo loiro e outra desaparecendo no decote da camisa de uma Rita alapada a um dos seus seios, e cuja mão se perdera bem fundo dentro das calças desapertadas de KC.

Dirtside II: Episódio Piloto - Sessões Online

Aqui ficam os textos obtidos a partir da colagem e revisão dos logs de muitas sessões de roleplay online por messenger entre mim e a Raquel. Tudo junto, dá uma quantidade assustadora de texto, que reflecte bem o nosso amor pelo jogo.

Os textos nasceram sobretudo de uma vontade imensa de continuar a jogar esta campanha mesmo quando os meses passavam e não parecia haver hipóteses de reunir o grupo. A Raquel começou o processo, escrevendo o que era suposto ser o início de um pedaço de ficção que explorava um pouco mais da vida actual da sua personagem, e de imediato o texto evoluiu para um jogo verdadeiro, em tempo real, do tipo agora escreves tu sobre o teu personagem, agora escrevo eu sobre o que se passa à volta dele. Lá para o final, e com muitas saudades (pelo menos do meu lado) do elemento aleatório e excitante do sistema de dados/cartas, começamos inclusivamente a aplicar uma versão adaptada do sistema de resolução de conflitos do PTA.

O resultado final talvez não o demonstre, mas tudo isto é produto de umas tantas sessões verdadeiramente espectaculares onde os nervos de toda a gente (nós dois, a PC e a maioria do elenco de NPCs) andaram à flor da pele. Quase sempre dávamos por nós a olhar para o relógio e a pensar "não, não é possível, o sol está quase a nascer!".

Não só isso, como na maioria das vezes conseguíamos criar um clima quase insuportável de tensão e incerteza. A Raquel roía as unhas antes de eu escrever cada uma das minhas jogadas e depois a ria/gemia/chorava/gritava ou fazia tudo isto junto quando a lia. Do meu lado, também estava sempre em pulgas para ver o que ela ia fazer; isto porque desbravávamos território inexplorado, uma vez que estava gradual e insistentemente a apertar o torno em volta do pescoço/alma/coração dela e da sua personagem. Ora, justamente, debaixo de tanta pressão nunca sabemos bem para que lado vão partir ou explodir a situação, e de facto a coisa chegou a tal ponto que eu deixei de reconhecer a personagem/jogadora que tinha diante de mim; a menina doce e frágil que eu me habituara a conhecer deu por vezes lugar a outra pessoa que me conseguiu deixar muito assustado... e eu sou o Produtor! Desde uma certa sessão de Kult há muitos anos atrás, que representou o primeiro passo (de gigante, diga-se!) numa forma nova de encarar o roleplay, que esse é para mim o maior e mais claro sinal de que as coisas estão a correr bem.

De resto, a pressão foi tanta que usei quase todos os recursos à minha disposição para entalar a Raquel em todo o tipo de situações. A NPC que era começou como a Némesis da personagem dela percorreu todo um arco de história, passando de uma cabra incómoda, a uma inimiga total sem dó nem escrúpulos, e por fim, num insight surpreendente ao interior da sua alma, se revelou uma pessoa como qualquer outra, com medos, sonhos e esperanças, por quem a sua antiga inimiga acabou mesmo por se apaixonar. Tudo isto no espaço de algumas cenas!

Ninguém se vai divertir tanto a ler os texto como eu e a Raquel a jogá-los, o mais provável é dormirem logo ao fim da primeira página (e olhem que são muitas dezenas delas!!), mas no meio destas cenas íntimas e pessoais, a trama desta segunda temporada de Dirtside conseguiu também evoluir. Perto do início, uma conversa de Rita (a personagem da Raquel) com o seu ex-namorado Daniel Fishburne (um NPC) revelou bastante do que se está a passar no backstage, e aqui e ali foram caindo prenúncios de alguns problemas que o setting está prestes a enfrentar. Por essa razão talvez os outros participantes da campanha (sentimos a vossa falta, gente!) lhe queiram dar uma olhada... por isso e pelos momentos picantes (que andam a ficar cada vez mais picantes!) do costume, claro. :)

AnexoTamanho
10 - Dirtside Desfecho.doc68 KB
9 - Dirtside Mac.doc107 KB
8 - Dirtside 1a Noite.doc30.5 KB
7 - Dirtside Penso.doc80 KB
6 - Dirtside Jenkins.doc49 KB
1 - Dirtside Dinner Party.doc183 KB
2 - Dirtside Base Aérea.doc149.5 KB
3 - Dirtside Interlúdio.doc77 KB
4 - Dirtside Hospital.doc100 KB
5 - Dirtside Supernova.doc54.5 KB

Preparando-me para Dirtside 2.5 - Parte 1

Parece que finalmente temos um grupo de jogadores para jogar regularmente PTA outra vez. Reunimo-nos Domingo passado para acertar agulhas, e optámos por jogar uma continuação da Dirtside. A primeira sessão de jogo está agora marcada para este Domingo. Numa tentativa de tornar Dirtside 2.5 tão memorável como a série original, acho que se exige da parte do Produtor (eu!) algum trabalho de casa.

A ideia é atirar constantemente à cara dos jogadores todo o tipo de escolhas difíceis. É assim que gosto de jogar, e é assim que acho que vou criar à mesa de jogo as situações mais intensas e mais memoráveis. Dirtside I provou-me isso mesmo. Só falta saber se o meu "público" reagirá bem a este estilo de jogar. Tenho três jogadores: a Raquel, o António Padeira e o Rodrigo.

Da Raquel quase nem preciso de falar; ela adora isto, e eu pareço ter algum tipo de telepatia/empatia com ela porque é-me estupidamente fácil, e quase instantâneo, arranjar-lhe dilemas poderosos. Ela agarra-se emocionalmente a certos aspectos do jogo, tornando fácil a tarefa de desencadear nela emoções fortes. Não só isso, como ainda por cima ela nos transmite um feedback excelente sobre o que está a sentir; ninguém à mesa tem dúvidas sobre quando uma situação lhe aperta o coração, por exemplo, porque ela geme! Assim é canja saber onde está aquele sweet spot e como o atingir consistentemente, vez após vez após vez.

Será mais complicado agradar ao Padeira. Sei que está entusiasmadíssimo com a campanha e que se vai divertir imenso; só não sei até que ponto lhe conseguirei criar escolhas difíceis. Ele tem um bocado de tendência a encarar as minhas potenciais escolhas difíceis como desafios analíticos, de modo que, por exemplo, em vez de agonizar sobre qual de duas coisas boas incompatíveis ele vai querer, ele tenta usa a sua esperteza (que já é lendária em vários grupos de jogo) para tentar obter ambas ao mesmo tempo. Isto aconteceu-me  nas duas ou três sessões de Sorcerer que tentámos jogar há muito tempo, e voltou a acontecer - em menor grau - ainda na recente sessão de Dirtside II. O problema acho que é mais meu que dele, por não me ter ainda esforçado ou dedicado o suficiente para encontrar o sweet spot que me permite chegar directamente ao coração dele sem passar pelo cérebro. Vamos ver como isto se desenvolve!

Sobre o Rodrigo, pouco posso dizer ou sequer especular neste momento. Jogou Call of Cthulhu comigo, uma vez, há muitos anos... nem eu me lembro disso, nem ele se lembra, o que é óptimo; são menos coisas para ele "desaprender", uma vez que o que se procura aqui é algo diferente e de certo modo incompatível. Não sei o que o emociona (rezo para que ele tenha realmente escolhido um Issue para o seu personagem que ache interessante), mas vou tentar descobrir. Façam figas!

Infelizmente, ter um alvo tão fácil como a Raquel estraga-me: deixa-me muito preguiçoso no que toca a arranjar problemas para os outros jogadores. No entanto, vou tentar contrariar isso; aqui fica a promessa para depois me virem pedir contas.

Enfim, mesmo sem ter tido ainda nenhum sucesso estrondoso com o Padeira, e não ter ideia de como se vai portar o Rodrigo, estou confiante. Acho que temos potencial como grupo, porque somos todos fãs babados da nova Battlestar Galactica, com certeza uma das melhores série de TV do nosso tempo... aliás, o mais certo é abrirmos/terminarmos todas as semanas as nossas sessões de jogo a ver o episódio de BSG que é emitido nos EUA às sextas, aparece na Internet aos Sábados, e aos Domingos costuma estar gravado num CD-RW dentro da minha X-Box. ;)

Engraçado, quando eu era mestre de Call of Cthulhu costumava abordar os meus jogadores depois de saber que eles eram fãs ou não de X-Files. Era meio-caminho andado para saber se iam gostar de jogar Cthulhu 1990s, com todos aqueles mistérios para desvendar e um ambiente pesado e escuro. Hoje em dia, para PTA Dirtside (e não só), seria a Battlestar Galactica que figuraria no meu perfil de candidatos ideiais. Nem sequer é a temática de Sci-Fi Militar que BSG e Dirtside partilham; afinal, o jogador mais entusiasta de Dirtside I depois da Raquel nem sequer gosta de jogar em ambientes Sci-Fi. É mesmo... por causa disto.

Destas escolhas difíceis, e para tirar o máximo partido possível de cada sessão, algumas delas serão planeadas antes da sessão (e usadas quando a ocasião se preste a isso) enquanto outras terão necessariamente de ser improvisadas no momento. Para me ajudar tanto de um modo como outro, tenho duas ferramentas poderosas: o Setting e os Issues.

Era sobre isso que queria escrever e organizar aqui as minhas notas, mas tipicamente perdi-me a escrever longamente sobre assuntos tangenciais (ainda bem que é o meu blogue e não tenho nenhum editor a quem prestes contas, eh eh), de modo que fica para o próximo post. Até breve!