Dirtside II: Episódio Piloto - Ficção

Retrato de Eowyn

Rita estugou o passo pelos corredores apertados do cangalho a que Ralek chamava nave. Vinha fula ainda da conversa com o pai ao jantar na messe da Firebase Omega. E a culpa era toda do Ralek por não só a colocar naquela situação como ainda por cima ter dado lenha mais que suficiente para o pai queimar. A discussão sobre a educação da Lily fora mais feia e aquecida do que era costume.

E depois o capitão ainda tinha a lata de a provocar assim que ela regressava à nave! Rita definitivamente precisava desanuviar um bocado, e a única pessoa que a poderia entender neste momento era a KC. A acreditar no Ralek a KC estaria algures no porão, portanto era para lá que a Rita se dirigia, ainda com o fatinho bonito de saia e camisa que usara para o jantar de ocasião.

Encontrou a escadinha de metal, desceu-a depressa e saltou os últimos três degraus. Quando levantou o olhar discerniu Jenkins encurralando a KC contra um canto do porão, com as duas mãos apoiadas na parede, impedindo-a de fugir. Naquela fracção de tempo antes deles reagirem ao barulho, Rita pôde ver que falavam em sussurros e que o ambiente entre ambos era tenso.

Mas antes que ela própria pudesse perceber algo mais, KC olhou por cima do ombro do mecânico com um olhar difícil de ler e Jenkins tirou uma mão da parede para se virar para trás. Quando viu quem era, deixou cair a outra mão, disse ainda qualquer coisa à KC e afastou-se. Cumprimentou Rita com um meio-sorriso ao passar por ela e desapareceu pelas escadas de metal.

Entretanto a KC afastou-se da parede e iniciou conversa. “Rita! Como foi então com o teu pai?”

Enquanto explicava o pesadelo que tinha sido e esperava que Jenkins saísse do alcance da voz, Rita observou KC. Dois pormenores estavam fora do sítio, tendo em conta que se tratava da KC: um botão a mais desabotoado e um canto da camisa mais puxado para fora das calças do que deveria.

Assim que julgou ser seguro, Rita interrompeu o seu relato e perguntou em vez disso: “Queres-me explicar o que se estava aqui a passar?”

KC desviou o olhar para um dos cantos do porão da nave. Teria ouvido algum som ou estaria simplesmente a evitar os olhos inquiridores de Rita? "Era o Jenkins a fazer-se de engraçado. Como se as anedotas dele tivessem alguma piada. Sabes como é; homens." KC encolheu os ombros.

Rita sentou-se no banco, sentindo-se de repente muito cansada e fragilizada. Em cima de tudo o resto que já se tinha passado nesse dia com o Fish e o pai, agora a KC estava a tentar esconder algo acerca dela e do Jenkins. E as desculpas que estava a dar eram esfarrapadas no mínimo. Rita abanou a cabeça com um suspiro cansado.

“Pareces cansada, Rita," disse KC aproximando-se. Colocou-se atrás de Rita e começou a massajar-lhe os ombros. "Estás toda tensa. Relaxa.”

De facto as mãos fortes da KC a massajá-la sabiam mesmo bem, e Rita suspirou, encostando a cabeça ao ventre da sua amante. Mas a proximidade física não ia por si só conseguir vencer a distância que a KC estava a tentar colocar entre ambas, E essa era uma sensação que Rita detestava e há muito não sentia: a KC a tentar fechar uma porta.

Virou a cabeça para encarar a sua cara-metade. “Não me feches a porta, KC, por favor. Fala comigo. Eu consigo ver que se passa alguma coisa entre ti e o Jenkins, e aquilo há pouco não foi anedota nenhuma. Por favor, minha querida?"

KC abriu a boca para falar, mas não chegou a dizer nada. Era a primeira vez que Rita se lembrava de a ver sem uma resposta pronta na ponta da língua. Só ao fim de uns segundos, fixando bem fundo os olhos de Rita com uma expressão calculadora, é que KC se expressou por fim.

"Não sei se vais ficar chateada... Se calhar é melhor eu não dizer nada. Não precisas de te preocupar, a sério."

Rita franziu o sobrolho ligeiramente e aguentou o olhar de KC, prescrutando ela própria os olhos negros da amante. Só que não conseguia ler a verdade naquelas profundezas escuras, portanto tentou um sorriso que saiu triste. "Não posso prometer, mas nunca consigo ficar chateada contigo por muito tempo, KC."

Por mais que tentasse abrir o coração, Rita não conseguiu afastar um certo nervosismo. O sorriso morreu-lhe nos lábios, engoliu em seco, brincou nervosamente com os dedos das mãos. "Sabes que podes falar comigo acerca de tudo, KC, minha querida. Tudo mesmo."

KC pareceu hesitar. Os dedos da sua mão esquerda não paravam de brincar com o cinto do seu uniforme. "Bom, a verdade é que..." KC pareceu hesitar. "Eu e o Jenkins, a modos que... bom, tivémos um pequeno caso." Antes que Rita tivesse tempo para dizer uma palavra que fosse, KC apressou-se a acrescentar: "Mas ele nunca me espetou com a coisa dele!!"

"Quer dizer, não das primeiras vezes..." disse KC, corada, e remeteu-se a um silêncio nervoso à espera de represálias.

O coração de Rita parou. Ou pelo menos era essa a sensação. Por uns segundos o choque impediu-a de reagir. Teve de fazer um esforço consciente para fechar a boca e engolir em seco. A KC com um homem era coisa que nunca lhe teria passado pela cabeça.

Levantou-se do banco e ficou de pé, em frente a KC, inclinando a cabeça para tentar ler melhor a expressão facial da sua companheira. A onda de insegurança que se abateu de repente sobre si apertava-lhe o peito e tornava difícil falar. "Uh..." Era tão raro ver KC corada daquela maneira que isso quase lhe partiu o coração.

Por fim, Rita encontrou algumas palavras. "Não das primeiras vezes?" repetiu. No mesmo instante em que as palavras lhe saíram da boca arrependeu-se. Não queria torturar KC. Caramba, a resposta provavelmente ia mas era torturá-la a si própria! E no entanto não foi capaz de pensar em mais nada.

KC corou ainda mais. "Sabes como é... Ele é cheio de falinhas mansas. Não foi tão mau como eu me lembrava, por isso... Mas também, o que é que tem?" KC assumiu uma postura defensiva. "Até parece que não o fizeste dezenas de vezes com o Fishburne e outros. Eu não deixei de gostar de ti por isso!"

Se há pouco o coração de Rita quase tinha parado, agora disparava. Mordiscou o lábio inferior, lutando ainda com a onda de insegurança que a assolava. "É... falinhas mansas," concordou ela. "É que..." Rita inspirou fundo, tentando controlar as suas emoções. Não foi tão mau ou gostaste mesmo, KC? Mais do que fazer amor comigo?

Afastou os pensamentos com esforço. "É que eu... Pensava que não gostavas de homens, ponto final. E sim, fi-lo com o Fish e com outros, mas eu também gosto de homens," tentou explicar. Isto estava tudo a soar muito mal. Experimentou de outra maneira. "Quando? Como?"

"Como assim 'como'?" KC estava a tentar não dar mostras do seu nervosismo. O resultado é que as suas palavras se atropelavam umas às outras, tão depressa ela falava. "Sei lá, eu fechava os olhos. Já bastava tê-lo em cima de mim. Não queria estar a vê-lo também."

"Isto foi depois de nos separarmos. Queria concentrar-me no trabalho, só no trabalho, e nas primeiras semanas isso até resultou. Depois... não sei o que me deu..." KC pareceu acalmar-se um pouco, finalmente.

O olhar de KC focou-se por uns momentos no passado distante. Falava lentamente agora, como se a sua atenção estivesse presa em outro lugar. "O Jenkins tanto insistiu com as suas insinuações que... não sei... fazia com que me sentisse uma pessoa um pouco especial, ou algo assim. Foi por isso que não lhe parti todos os dedos das mãos quando ele me beijou daquela primeira vez."

Rita tinha tantas perguntas, mas agora não seria talvez a melhor altura. Ainda fazia alguma asneira grande se insistisse em abrir a boca sem pensar duas vezes. E agora que KC acalmava e começava a falar menos defensivamente, Rita tinha resposta para a pergunta que mais a torturava: porquê?

Ora precisamente porque Jenkins a fizera sentir especial, numa altura em que KC pensava que tinha perdido a Rita enquanto Rita em Metrópolis recuperava das feridas e procurava desesperadamente encontrar uma KC que se escondera no cu de Judas.

Rita baixou o olhar finalmente, com um meio-sorriso à ideia de KC partir os dedos ao Jenkins. Olhando para trás, Rita não tinha a certeza se alguma vez fizera KC sentir-se especial, nessa altura. Ou até depois disso. Sentiu o coração estilhaçar-se, ainda inseguro. Seria a KC mais feliz com outra pessoa?

O silêncio de Rita encorajou KC a continuar.

"Estava confusa, só podia," disse KC regressando ao presente. "Bom, mas eu não voltei a vê-lo depois de nos termos juntado outra vez. Quer dizer..."

"Tive de o ver para lhe dizer que estava tudo acabado, certo? E depois uma outra vez, para lhe confirmar que sim, que não havia mais nada entre eu e ele. E por fim ainda mais uma, para eu lhe fazer entrar a ideia naquele crânio duro que eu não queria vê-lo mais. Mesmo. E foi isso. Pronto, já te contei tudo."

Rita roeu uma unha. Deuses, como queria abraçar a KC agora mesmo, confortar e ser confortada ao mesmo tempo, mas de súbito tinha receio. Queria dizer Amo-te muito, KC, e nada disto importa mas afinal o que lhe saiu da boca foi: "E há pouco, o que queria ele?" e depois logo de seguida, quase atropelando a primeira pergunta, "Preferias estar com ele?"

Com o coração na boca, esperou a resposta da companheira, olhando-a com incerteza espelhada nos olhos azuis.

KC ficou algo agitada. "Estás a ver? Eu sabia que não te devia ter contado nada... Raios, Rita, consegues ser tão insegura! É claro que eu só quero estar contigo. Era isso mesmo que eu estava a tentar meter dentro daquela cabeça dura do Jenkins. Por alguma razão ele tinha esta ideia maluca de que eu sentia algo por ele. Ah! Como se alguma vez..."

As primeiras palavras fizeram o coração de Rita cair-lhe aos pés, mas antes que tivesse oportunidade de apanhar um grande desgosto, a segunda parte da declaração da KC iluminou-lhe a existência. É claro que só quero estar contigo. Rita hesitou e então sorriu por fim, num sorriso misto de alívio e delícia.

E se bem que se sentisse vagamente ofendida por ter sido basicamente chamada de insegura (que importava se era verdade? Ninguém gosta de ouvir uma coisa dessas vinda de quem ama), Rita deu o passo que a separava da KC e abraçou-a. "Então nada disto importa, KC," murmurou-lhe ao ouvido. "Oh, amo-te tanto!" confessou.

Rita estreitou os braços em redor de KC. "Houve ali um momento em que pensei que te ia perder. Desculpa, apanhaste-me desprevenida com... com isto tudo."

"Eu sei. Desculpa, querida.  Anda cá," disse KC aproximando os seus lábios dos de Rita para um beijo bem longo. "Amo-te."

Rita correspondeu ao beijo, e ainda o aprofundou. Depois de uma noite cheia de discussões e incertezas Rita estava a precisar de algum carinho, precisava de poisar num porto familiar e de se reorientar. KC era o seu porto de abrigo, a sua âncora. Se alguma vez ela a deixasse, perderia o rumo.

Atirando as incertezas para trás das costas, Rita concentrou toda a sua atenção na KC, no beijo que as unia, num afago aos seus cabelos sedosos. Não tardou a sentir a KC responder ao aumento da temperatura entre elas com um ligeiro gemido. Quebrou o beijo pouco depois, e olhou-a bem nos olhos para descobrir uma centelha de desejo e alguma desconfiança à mistura.

“Rita? Que fazes?” perguntou KC desconfiada, mas não largando a cintura da Rita, onde as suas mãos tinham ido parar numa carícia.

Rita fez então aquele sorriso brilhante que derretia sempre a KC, mas com um toque de malícia no olhar. “Que faço? Faço amor contigo no porão da nave. Que dizes?” E com isso mordiscou a orelha da mercenária.

“És doida!” respondeu KC, tentando sem sucesso ignorar o efeito que a carícia tinha sobre si. “Ainda alguém nos apanha,” objectou com pouca convicção.

Rita riu-se, e puxou-a pela mão até ao mesmo recanto onde há pouco Jenkins prendera KC, e que estava mais escondido da vista. “Estão todos ocupados, desconfio.” E depois com uma sobrancelha arqueada: “E a Lily está com o Fish. Anda lá, vive perigosamente,” provocou, aproximando-se para mais um beijo escaldante. KC soltou uma gargalhada rouca.

Minutos depois Lee Jenkins emergiu de uma escotilha para a passadeira de grade de ferro que circundava todo o porão a meia altura, virou para a esquerda e quase esbarrou com Chris Spencer, que estava apoiado ao corrimão absorto em algo que se passava lá em baixo. Sem pausar, Lee continuou caminho e só baixou o olhar para o porão alguns passos à frente. O que viu fê-lo estacar.

Terá olhado no máximo por um segundo, antes de girar nos calcanhares e retroceder pelo mesmo caminho, apenas um pouco mais corado, mas foi tempo suficiente para que a imagem lhe ficasse gravada no cérebro: KC encostada a um caixote lá em baixo, com a cabeça atirada para trás, a boca num ó de prazer, uma mão enterrada em cabelo loiro e outra desaparecendo no decote da camisa de uma Rita alapada a um dos seus seios, e cuja mão se perdera bem fundo dentro das calças desapertadas de KC.