Dirtside II: Pré-Episódio Piloto - Ficção

Retrato de Eowyn

Dirtside regressa aos écrans com uma lacuna de dez anos por preencher na vida das personagens que transitam desde a primeira série. Uma dessas personagens é a Rita Jamieson (agora inseparável da K.C. O'Rourke) com a sua filha Lily Jamieson.

O seguinte texto é uma tentativa de explicar parcialmente os eventos que ligam as duas séries e ao mesmo tempo serve de ponte para o Episódio Piloto de Dirtside II. A primeira parte foi escrita só por mim, mas a segunda já teve a participação preciosa do RicMadeira - como se deve notar pela mudança de ritmo devida ao texto criado via MSN.

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Raquel “Éowyn” Correia.


Deitada em cima do murete que delineava a entrada para a pensão rasca, mãos atrás da cabeça e pernas pendendo de cada lado, KC descontraiu e fechou os olhos, absorvendo o calor doce do sol. Tinha encontrado um recanto mesmo delicioso; era raro neste nível da cidade um sítio onde o sol batesse mas aqui, ao meio-dia solar, o sol local encontrava um buraquito entre prédios e arcologias para incidir em quatro ou cinco metros quadrados de betão e metal.

Outra raridade naquele recanto era a calma. Aqui não se notava o movimento das ruas mais próximas, apesar da concentração de prédios residenciais e do comércio local. A combinação era mesmo perfeita para o estado de espírito da KC, e convidava-a a deixar os seus pensamentos vaguear preguiçosamente.

Nos últimos anos, momentos destes tinham-se tornado preciosos: KC estava cheirosa, acabadinha de sair de um duche a sério, com roupa lavada, a tomar um banhito de sol sozinha. A vida no espaço, saltitando de planeta em planeta à procura de pequenos trabalhos tinha as suas vantagens – como acesso a mais recursos – mas tinha a enorme desvantagem dos espaços claustrofóbicos das naves: sempre as mesmas caras, sempre a mesma paisagem, nada de água para banhos (já iam com sorte quando se podiam lavar com uma esponja húmida), e nada de sol.

Era uma das poucas coisas que lhe dava saudades de Éden: o sol.

E mesmo assim KC não trocaria os últimos tempos por nada do mundo, porque estava feliz. Pela primeira vez na vida KC encontrara uma paz interior que lhe era desconhecida antes dos eventos em Éden, e a grande responsável por isso era Rita Jamieson. Dez anos volvidos desde aquela época conturbada, KC e Rita continuavam juntas, unidas por um misto de amor, amizade e companheirismo, que sobrevivera já a sete anos de viagens interplanetárias em naves exíguas e aos altos e baixos de educar uma menina reguila como a Lily.

Era verdade que às vezes o convívio forçado nas missões mais longas punha alguma pressão na relação entre elas as três, mas isso não era nada que não acontecesse a qualquer ser humano. A bem da verdade, KC não se conseguia fartar de olhar para a Rita, de conversar com ela, de partilhar aventuras e de a amar.

KC sorriu sem se aperceber, de tão distraída que estava. Já lá iam anos desde o último pesadelo com o Fish.

O medo consciente que o Danial Fishburne reconquistasse o coração da Rita tinha-a perseguido durante um bom par de anos, e os pesadelos tinham-se prolongado por outros quantos. Fishburne tinha carisma, uma boa posição nos Space Marines em Éden, era o braço direito do General Jamieson, e o pai biológico da Lily. Com tanto a favor dele, KC passara uns maus bocados só com o medo de perder a Rita.

Mas o incrível acontecera e Rita ficara com KC.

E mais: com a sua gentileza inata, Rita tinha conseguido penetrar as suas defesas e desenterrado lá bem do fundo a essência da própria KC, moldando uma nova KC com o seu toque carinhoso. A ex-Space Marine não perdera o sangue-frio que a tornava uma mercenária competente, mas recuperara a alegria de viver e um cheirinho da criança que havia dentro de si. Tinha afastado a rigidez que a tornara uma Sargento de recruta tão temível, e dado lugar a uma maior empatia com as pessoas mais próximas.

E quanto ao Fish... Fish já não era uma ameaça, principalmente desde que se casara. Elas as três mantinham com ele algum contacto porque seria injusto negar à Lily o seu próprio pai. E se calhava darem um pulo a Éden era certo e sabido que o Fish arranjava umas horas para passar com a filha.

Numa dessas visitas, tinham conhecido a esposa do Fish em carne e osso; uma surpresa desconcertante. Elizabeth Fishburne tinha acompanhado o marido até ao espaçoporto e recebera-as com um sorriso que, KC notara, não lhe chegara aos olhos. Liz Fishburne apanhara KC de surpresa, pois esperara encontrar uma senhora caseira, elegante, se calhar uma das secretárias dos militares. Em vez disso dera de caras com uma piloto de caças, segura de si própria, senhora do seu nariz, e nada do tipo menina-delicada.

Mas a primeira coisa que notara fora a parecença física entre Elizabeth e Rita – e a julgar pelo olhar duro da primeira, KC não fora a única a dar por isso. Ambas loiras, de olhos azuis, do tipo militar, em forma. Ambas com ideias próprias e um certo tipo de sentido de humor. Mas Rita tinha mais ar de menina, com o seu físico mais elegante e inocência aparente, enquanto Lizbeth era mais directa, mais brusca, menos delicada. KC não podia dizer que não tivesse gostado da combinação, e inicialmente prendara-a com a sua melhor educação.

Tinham deixado Lily entregue ao casal durante o dia e aproveitado elas próprias para completar uns negócios e depois relaxar um pouco juntas. Mas à noite, no jantar a que tinham ido todos juntos... bom, KC notara em pequenas coisas que Elizabeth não morria de amores por elas.

Não ajudara o facto de terem passado uma parte do serão a relembrar aventuras da altura do pelotão de Ralek, uma discussão na qual Elizabeth não pudera participar activamente. E mesmo Lily, que conseguia conquistar todos os corações ao fim de cinco minutos, não conseguira penetrar a hostilidade disfarçada de Lizbeth; KC apostaria que isso se devia às parecenças demasiado óbvias com a Rita, por demais evidentes na Lily.

Quanto à Rita, o que ela pensava do incidente não era claro, e KC não puxara muito pelo assunto. Das duas uma: ou Rita não dera pelas parecenças nem pela hostilidade recalcada de Liz Fishburne (e KC não apostaria a vida nisso), ou então fizera-se desentendida para não piorar a coisa.

O som de passos familiares fê-la virar a cabeça e abrir um olho negro como carvão. O coração bateu-lhe um pouco mais depressa no peito; nunca o conseguia evitar. Rita vinha a sair da pensão com a Lily pela mão. Estavam ambas lindas. KC sentou-se e baloiçou as pernas enquanto as observava a aproximar.

Rita parecia brilhar, ainda com as faces rosadas do seu duche quentinho, com o cabelo loiro pelo queixo reflectindo a luz do sol. O top branco e a saia curta azul faziam-lhe sobressair o azul vivo dos olhos e mostravam uma quantidade de pele suave pálida. Aos trinta e picos e depois de uma filha, Rita mantinha todas as curvas certas nos lugares certos.

Lily vinha a fazer beicinho e de cenho franzido, obviamente amuada com alguma coisa – KC adivinhou que fosse por causa do banho “a sério”, do qual a miúda fugia como o diabo da cruz, sempre que podia. Hoje Rita quase a tinha arrastado pela orelha, mas o resultado valia a pena. O cabelo loirinho de Lily brilhava como o da mãe, preso em dois carrapitos no topo da cabeça, e já se conseguia ver a carinha laroca que normalmente se escondia debaixo de camadas tectónicas de poeira, óleo de máquinas e suor. De jardineiras azuis e camisa amarela, Lily era a imagem da inocência a fazer uma grande birra.

KC levantou-se e foi ter com elas.

“Estamos prontas, finalmente,” declarou Rita à laia de cumprimento, naquela sua voz musical e com o sorriso caloroso que a derretia sempre. Deuses como ela era bela!

Mas Lily estava-se a preparar para amuar a tarde inteira e lhes azedar o passeio pela cidade, de modo que KC resolveu cortar logo o mal pela raiz. Pôs-se a cheirar o ar em volta delas com gestos teatrais. “Cheira-me a... a... a carne tenrinha!”

Lily carregou ainda mais o beicinho e escondeu-se mais atrás da mãe, decidida a continuar a birra. KC não ligou e de repente apanhou-a num abraço que transformou num rodopio. "Aha! Carne tenrinha, mmm, por baixo de todo o óleo de máquina, quem diria? Quem consegue resistir? Nhac!" e fingiu morder o bracinho e depois lamber os beiços deliciada, enquanto fazia cócegas à Lily.

Lily desfez-se num ataque de riso enquanto se contorcia numa vã tentativa de escapar aos dedos certeiros da KC. Rita sorriu e piscou-lhe um olho.

***

Ao fim de seis meses na mesma nave, era bom ter os pés em terra firme e passear um pouco sem grandes preocupações. Tinham acabado de completar um contrato e tinham algumas horas para matar antes de terem de comparecer no espaçoporto para um trabalho potencial.

Enquanto passeavam pelo bazar, Rita observou KC, que levava Lily às cavalitas. Estavam todas as três bem dispostas com a mudança de cenário, e KC tinha uma paciência aparentemente infindável para lidar com as birras da Lily quando muitas vezes a própria Rita ficava exasperada.

Pareciam a noite e o dia, aquelas duas: a Lily loirinha, pálida, vestida com cores garridas, e a KC de olhos e cabelo escuros, vestida de calças pretas e camisa caqui.

Rita não conseguiu evitar um sorriso carinhoso. Faziam uma bela equipa, elas as três. Rita era piloto, KC mercenária e Lily... Lily aprendia a velocidades estonteantes e demonstrava uma aptidão para mecânica – ironias do destino, sem dúvida. Não era de surpreender, tendo em conta que passara a maior parte da vida enfiada em naves de várias cores e feitios e que só conhecia esta vida nómada.

Lily veio a correr para a mãe, com um sorriso enorme na cara, e lançou-se sobre as suas pernas, ficando agarrada à coxa de Rita.

Por entre a azáfama de pessoas, abriu-se de súbito uma passagem e do meio de toda aquela gente emergiu um homem. A sua idade, obviamente menos de trinta anos mas talvez não por muito, ainda o fazia merecer o adejctivo de jovem, mas a aparente dureza de algumas linhas esculpidas em certas partes do seu rosto indicavam que já tinha vivido muita coisa.

"Olá," disse Lee Jenkins para KC, abrindo-se num pequeno mas certo sorriso.

"Olá," respondeu ela, num tom de voz neutral.

Rita semicerrou os olhos e tentou abafar o sorriso. Jenkins! Com uns anos em cima, mas era impossível esquecer o Jenkins. E ele sempre tinha gostado de se meter com a KC, de modo que a Rita decidiu manter-se um pouco aparte e ver no que dava o reencontro deles.

Com um grande sorriso, dirigiu o olhar para a filha, fazendo-lhe uma festa na cabeça. “Fartaste-te da KC,” perguntou com um piscar de olho, “ou deu-te um ataque de vergonha?” Pelo canto do olho observou a interacção entre KC e Jenkins.

"Não posso dizer que eras a última pessoa que eu esperava encontrar aqui, hoje, ao fim destes anos todos, mas quase..." disse Jenkins. Ele vestia um uniforme de... algo... as insígnias que não tinham sido arrancadas já estavam gastas, e não proclamavam nenhuma aliança. Já as manchas de óleo aqui e ali, e as ferramentas penduradas no seu colete, não deixavam muitas dúvidas sobre a sua profissão.

"Como tens passado, Kay? Sei que já não fazes passar os recrutas pelo inferno há muitos anos. O que é feito de ti?"

"Estou bem. Estou óptima, na verdade," respondeu-lhe KC, virando a cabeça na direcção de Rita.

"Ah, deves ser a Rita," disse Lee, aproximando-se a passos largos, com a mão estendida.

Rita fez um dos seus sorrisos brilhantes e apertou a mão de Lee Jenkins. “Sim, sou a Rita." Não valia a pena lembrar-lhe que se tinham conhecido muito brevemente em Éden. Já lá iam dez anos e ele de qualquer modo não se devia lembrar da cara dela.

"E tu," disse ele baixando para espreitar em torno das pernas de Rita para a cara de Lily, que se tentava esconder entre risadas, "E tu... não faço ideia quem és. Quem és, pequenina?"

Lily, por sua vez, espreitou de um lado da Rita com um ar reguila e respondeu logo, “Eu sou a Lily!” com um ar muito despachado. “E tenho uma chave inglesa melhor que a tua,” acrescentou à laia de esclarecimento apontando com um dedinho para o objecto em questão pendendo entre o equipamento do jovem.

Aproveitando que Lee estava distraído com a Lily, Rita virou um olhar demasiado inocente para a sua amante e esboçou silenciosamente com os lábios a pergunta, “Kay?” Estávamos numa de diminutivos, hã? Teve de se conter para não se desmanchar a rir.

"Ah, mas esta chave é especial. Já me salvou de muitas alhadas!" disse Lee para Lily, beijando a ponta da chave repleta de amolgadelas no seu perímetro exterior. "Não há parafuso que lhe resista. Os que tentam depressa mudam de ideias."

"O que é?" desculpou-se KC silenciosamente para Rita, encolhendo os ombros.

"Isto é mesmo incrível," diz Lee, levantando-se. "Quem diria? Ao fim de tantos anos... e então, o que fazem? Um passeio de família?"

O olhar de Jenkins, agora constantemente em movimento entre KC e Rita, pareceu fixar-se um pouco mais de tempo em KC. Mas é claro que isso pode ter sido só impressão de Rita, porque logo depois, quando o olhar dele regressou ao dela, ele pareceu demorar-se um pouco mais também.

Rita hesitou, olhou de relance para a KC, que não parecia muito inclinada em dar corda ao Jenkins. Aí não havia grande novidade. KC nunca soubera muito bem o que fazer com ele. Mas o momento foi breve e logo a Rita o olhou nos olhos para dar a resposta.

“Neste momento? Sim,” confessou ela. “Estamos entre trabalhos,” ofereceu à laia de explicação com um meio-sorriso. “E tu?” Se não fosse ela a perguntar a KC nunca abriria a boca. "Parece que largaste os Space Marines e Éden. O que te traz a estas bandas, negócios ou prazer?”

Por um momento, Rita ponderou sobre Jenkins. Exactamente quanto saberia ele acerca dela e KC? Sabia o suficiente para se lembrar do seu nome, pelo menos, mas quão mais? Que pensaria ele delas? Teria ainda um fraco pela KC? Que conclusões tiraria da óbvia parecença de família entre Rita e Lily? Tantas perguntas...

"Bom, agora que vos encontrei, são as duas coisas, parece-me," respondeu Lee a Rita sem ser mais específico. "Isto é óptimo. Entre trabalhos, dizem vocês? Óptimo... é que eu conheço um tipo que conhece outro e, bom, digamos que mais duas marines duras de roer eram mesmo a adição ideal à tripulação. Se encontrássemos um piloto também, então era perfeito!"

"Por acaso não sabes pilotar um classe F, pois não, querida?" disse ele olhando para baixo, para Lily, que fixava para uma das ferramentas esquisitas penduradas no seu colete.

"Sabes o que é isto?" perguntou Lee a Lily. "Serve para fazer ajustes de calibração no núcleo de um Wheton 400; há já um século que não se fabricam esses motores. Tive de construir a peça eu mesmo. Pouco depois o motor explodiu definitivamente e tivémos de o substituir por um modelo novo, mas ainda guardo isto comigo. Dá mesmo jeito para aquelas comichões nas costas!"

Lily riu-se. "Ela é uma linda rapariga," disse Jenkins fixando Rita, enquanto despenteava a cabeça de Lily, que tinha agora um sorriso de uma orelha à outra.

"É sim," respondeu KC atrás dele, avançando na direcção de Rita para ficar ao lado dela, com o braço em torno da cintura da sua companheira. O olhar de Lee desceu por uns momentos para aquele braço, e depois desceu mais um pouco até Lily. Voltou a pôr-lhe o cabelo no lugar, e esta correu de volta à mãe, escondendo-se com uma gargalhada estridente atrás dela.

Rita tentara apanhar o olhar da KC para ver o que ela achava desta proposta do Jenkins, mas KC não tinha tirado os olhos dele, com uma expressão guardada, difícil de ler. Por um lado, Rita sabia que KC sempre tivera dificuldade em lidar com o jovem mulherengo, mas por outro lado tinha a impressão que ele até era boa pessoa e gostaria de trabalhar com ele.

Mas nada de apanhar o olhar da KC. Quando ela colocou o braço à sua volta, Rita deixou-se encostar um pouco numa posição de familiaridade. O que fazes, querida?, pensou. É só afecto ou há aqui um bocadinho de territorialidade? Mas por fora Rita sorriu, corando levemente sob o elogio da KC.

Curiosamente, foi a Lily quem desempanou a situação. Rindo ainda, satisfeita por ter encontrado um amigo das duas mamãs com quem simpatizava logo, a pequena prontificou-se logo a explicar. "Eu cá não voo, mas a mamã sabe voar tudo!" disse Lily com gestos largos.

Apanhada de surpresa sem ter tido oportunidade de conferenciar com a KC, Rita encolheu os ombros e inclinou a cabeça para o lado, numa expressão vagamente embaraçada. Poisou uma mão no ombro de KC, afagando-a distraidamente com o polegar. “Bom... Quase tudo,” esclareceu. “Mas sei lidar com um Classe F, sim.”

Jenkins fez uma pose dramática. "Eu sabia, isto é perfeito! Ouçam, apareçam aqui," disse ele entregando à Rita um pedaço de papel dobrado que tirara do bolso, "a essa hora e ouçam o que o capitão tem para vos oferecer. Garanto-vos que vão ficar interessadas."

"Gostava de ficar aqui a pôr a conversa em dia, mas ainda tenho umas quantas oficinas para vasculhar em busca de umas peças mais antigas. Vêmo-nos lá no hangar, pode ser?" Jenkins estava a despedir-se de Rita com um aperto de mão, mas a pergunta foi notoriamente lançada na direcção de KC.

"Adeus, Kay," disse Lee mais baixinho, pegando na mão de KC e beijando-a rapidamente. Depois virou-se para a cabeça loura que espreitava por detrás de Rita e berrou: "Até logo, Lily!" E assim, mais ou menos como tinha surgido, Lee Jenkins penetrou no turbilhão de pessoas que usava o bazar como local de passagem e desapareceu dum instante para o outro entre a multidão.

Rita apertou de novo a mão de Jenkins e ficou a ver enquanto ele se despedia da KC. Pela primeira vez, o seu sorriso descaíu um pouquinho e sentiu um ligeiro aperto no estômago. É claro que era um tremendo disparate sentir aquela pontada de ciúme, mas a bem da verdade Rita não estava habituada a que lhe cobiçassem a KC. Normalmente era a própria Rita quem atraía primeiro a atenção dos homens. Só que agora Jenkins tinha invertido o tabuleiro.

Ficou a vê-lo afastar-se, guardando o papelinho cuidadosamente no bolso de trás das calças da KC, já que a sua vestimenta não tinha onde o pôr. Quando ele desapareceu de vista, Rita atreveu-se a comentar num tom bem mais sério do que usara durante a conversa. "Kayleigh,” o uso do primeiro nome completo dava a entender a seriedade do assunto, "aquele rapaz está perdido de amores por ti."

"Não aconteceu nada!" exclamou KC com muita irritação, num tom de voz que até fez Lily parar tudo e olhar, e saiu disparada na direcção para onde estava virada.

O espanto não impediu que Rita agisse de imediato. Pegou na mão de Lily para não a perder e seguiu na peugada da amante. “KC!” chamou. “Espera! Ninguém disse que tinha—“ Alcançando-a, Rita tentou pará-la com uma mão no ombro. “KC, querida?”

KC deteve-se, e girou para encarar Rita. Se Rita esperava uma cara irritada e dura, não foi nada disso que teve. "Desculpa, Rita," disse KC, arrependida. "É só que... não sei o que me deu."

Nunca soubeste lidar muito bem com ele, é o que é... ou será que há aqui algo mais que me passou ao lado?, pensou Rita enquanto estudava KC com os seus olhos azuis penetrantes. Mas num instante fez um sorriso, daqueles que derretiam sempre a KC. “Estás bem? Ouve, parece um bom trabalho...” A sua voz transportava a esperança que KC quisesse aceitar o encontro no hangar.

E Lily, essa olhava as duas mães com grandes olhos esbugalhados, absorvendo a cena incerta do resultado. Podia ser miúda mas instintivamente sabia que algo de errado se passava.

"Sim, é um trabalho. Não gosto é de intimidades com ex-recrutas, só isso." KC tentou fazer um sorriso, que algures a meio se tornou completamente amarelo. Acrescentou rapidamente: "Tu és a única excepção, claro."

Estranho a KC não ter logo sacado do velho argumento ‘mas ele é um homem’ e isso por si só deixava Rita de pé atrás porque queria dizer no mínimo que a KC estava bastante perturbada. Mas o pior era que os seus instintos lhe gritavam que ela estava a mentir. Mas acerca do quê?

Bom, não era nem a hora nem o sítio para discutir isto, portanto Rita rapidamente arqueou uma sobrancelha e depois piscou um olho matreiro na tentativa de aliviar o ambiente. “Eu sei,” sussurrou-lhe perto da orelha, plantando depois um beijo carinhoso na face.

Então, sem tirar os olhos da KC, Rita dirigiu as suas palavras à filha. “Que dizes, Lily, cravamos à mamã KC uma mãcheia de rebuçados?”

A resposta foi entusiasta e Lily começou logo a arrastá-las pelas mãos em busca de uma loja que vendesse doces.

Visivelmente aliviada, KC finalmente sorriu um sorriso verdadeiro. A sua mão apertou a de Rita algumas vezes, em sinal de amor.