Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.3)

Retrato de Eowyn

E pronto, assim chega ao fim a saga da Primeira Série de Dirtside. Mudámos a face do nosso mundo, perdemos alguns NPCs, e as relações entre os sobreviventes mudaram. Foi óptimo enquanto durou e só tenho pena que tenha sido uma mini-série. Eu não podia ter pedido um grupo de jogadores melhor para Dirtside. Inesquecível. Neste último texto (mais uma vez co-autoria Éowyn / Ric) Rita e KC reencontram-se face a face e a situação do mundo é explicada. O Ric fez uma KC brilhante e colocou ganchos suficientes aqui para manter o interesse numa segunda série, espero. Quem sabe, talvez num futuro não muito longínquo, nós possamos regressar com Dirtside II?

Foi um prazer jogar a Rita.

Raquel "Éowyn" Correia

 

Rita Jamieson estava a conduzir há três horas, num caminho que de estrada só tinha mesmo o nome. Do lado de fora do veículo só se via terra e poeira, daquela fininha, amarela, tão comum em Éden e que se metia em todo o lado cinco minutos depois de se ter desembarcado naquele planeta. O seu destino, uma base remota do novo exército de Éden Independente (há bem poucos meses ainda era uma base da Federação), estava finalmente à vista.

Não tinha sido propriamente fácil encontrar o rasto da KC. Desde aquele dia em que Rita acordara no hospital, KC desaparecera da sua vida e fizera algum esforço para cobrir o seu rasto, só que no fim de contas KC continuava a ser um soldado e o seu nome e morada continuavam na base de dados do exército. Rita só tivera de puxar uns cordelinhos.

Era mesmo típico da KC. Se achava que uma determinada causa estava definitivamente perdida, distanciava-se tanto quanto possível. O posto avançado no deserto que era o Beta Compound, era a base mais longínqua que o novo exército tinha. E à volta era só areia.

Foi obrigada a abrir uma nesga da janela quando parou em frente ao portão da base para mostrar identificação e o passe. O tablier ficou logo com uma camada de pó fininho. Deixaram-na passar e acabou por estacionar no parque coberto dos visitantes. Vinha à civil, de calças azuis e camisa justa branca; era um conjunto que ela sabia que a KC gostava, e com o qual a esperava atrair.

Deram-lhe a indicação que encontraria a Sargento-Mor O’Rourke na carreira de tiro, a treinar um grupo de recrutas, de modo que foi para lá que se dirigiu directamente. E de facto lá estava ela: fardada, de pose autoritária, aos berros com os miúdos que passavam por recrutas com a sua voz ligeiramente rouca. Não tinha mudado nada. Rita teve de disfarçar um sorriso – sabia muito bem como era terrível estar do lado errado daquela autoridade toda, e conhecia a mulher que se escondia por trás disso. O contraste era tão grande...

Naquele momento ela repreendia um jovem morenito com uma das suas frases-chavão: “O soldado não pensa, Fawkes, o soldado executa!” E pouco depois, quando o exercício terminava, “Recruta Fawkes, assim que acabar as vinte voltas ao ginásio fica de serviço às latrinas!" KC aparentemente arranjara outra vítima. Rita não pôde deixar de simpatizar automaticamente com o pobre rapaz.

O grupo tinha de passar por ela a caminho do ginásio, já que Rita se deixara ficar de braços cruzados, encostada à parede ao lado da porta observando a KC sem ser vista. Um dos recrutas, com ar de ser o atrevido da fornada, mandou-lhe um piropo qualquer que Rita nem registou, mas KC com os seus ouvidos de lince levantou o olhar para ver quem tinha dito o quê a quem e deparou com ela. A surpresa só foi evidente no seu rosto por uma fracção de segundo. “Jenkins! Já que se sente tão enérgico, porque não dá quarenta voltas ao ginásio, em vez de vinte?”

Jenkins meteu um ar enfiado e Rita teve de rir. Olhou-o de relance e piscou-lhe um olho quando ele passou por si. Depois do grupo sair, KC aproximou-se. O seu olhar estava velado e era difícil ler-lhe as emoções, mas Rita não se deixou desarmar e sorriu abertamente, como se ainda ontem se tivessem visto e fossem as melhores amigas.

KC aproximou-se sem saber muito bem o que sentia. Tinham-se passado dois meses desde que vira Rita. Agora metade de si estava incrivelmente feliz por a sua antiga amante estar ali tão perto, à distância de um toque; sentia-se capaz de a agarrar nos braços e a beijar logo ali, à frente de todos. A outra metade queria estrangular aqueles sentimentos de alegria, aqueles desejos físicos e emocionais, e continuar a sua vida.

Todas aquelas semanas ali, longe de tudo e todos, tinham-lhe permitido concentrar-se em recuperar dos seus ferimentos mas principalmente em tentar esquecer Rita. Agora que começava a parecer que isso não era de todo impossível, ia deitar tudo a perder para cair outra vez sob o feitiço dela?

Cometera esse erro antes; concentrara-se tanto em evitar que os encantos de Rita minassem o desempenho da unidade ao seu cuidado que, quando dera por si, era ela própria quem já não conseguia manter o sangue-frio e a concentração nas suas tarefas porque, sem que se tivesse apercebido, Rita lhe dera a volta à cabeça e nunca andava longe dos seus pensamentos. Inconscientemente, KC arranjava todas as desculpas possíveis para contactar com Rita, para a manter longe de outros e a ter só para si. A sua atenção especial a Rita tomou a única forma que conhecia: a dureza das lições, a rispidez das reprimendas, a humilhação dos castigos. Só bem mais tarde, tanto para sua surpresa como para surpresa de Rita, é que os seus sentimentos encontraram outras vias, mais doces e reveladoras, que não deixavam margem para dúvidas.

“Bom dia, Rita,” disse a sargento, tentando manter a voz neutral. Dadas as circunstâncias, era o melhor que conseguia fazer para esconder a verdadeira extensão das suas emoções. Estando Rita vestida à civil – KC ainda não conseguira deixar de reparar nos contornos provocantes das suas roupas – não fazia sentido tratá-la por tenente; ela podia já ter sido promovida, ou nem sequer já fazer parte das forças armadas. KC teve de dar o braço a torcer e chamá-la pelo primeiro nome.

Por mais que KC tentasse manter-se neutra, Rita detectou um nisco de suavidade na maneira como a KC pronunciava o seu nome. Isso era bom sinal, era um começo. Dizia-lhe que provavelmente não fizera a viagem em vão, que provavelmente não ia apanhar um grande desgosto. Caramba, o que lhe apetecia mesmo era pregar-lhe já com um beijo na boca e acabar com estes rodeios todos, só que havia demasiadas incertezas tanto de um lado como do outro, e a cautela e a sedução eram agora as melhores armas que poderia empunhar.

Portanto respondeu com um “Olá, KC,” caloroso e amigável, acompanhado do seu sorriso carismático. “É bom ver-te.” Aproximou-se ainda mais para lhe plantar um beijo perfeitamente inocente na face, à laia de cumprimento, mas não se deixou ficar ali perto, com medo de exagerar na aproximação. Adivinhando que a KC tinha tarefas para acabar, Rita recuou para abrir a porta de acesso aos corredores.

A familiaridade e a proximidade souberam surpreendentemente bem a KC mas, pensando melhor, era isso que ela queria evitar. Aquilo que temia mesmo era o que viria depois, quando Rita se fosse embora e deixasse para trás um vazio dolorosamente óbvio.

Deus, mas aquele beijo de Rita... as memórias que ele trouxe. Se Rita não se tem afastado depois de lhe beijar o rosto, KC ainda poderia ter feito alguma loucura.

“Ando a tentar apanhar-te o rasto há semanas,” explicou Rita, abrindo a porta para KC passar.

Ao olhar para a mão de Rita apoiada na porta, algo no interior do peito de KC deu um pulo. Rita não estava a usar aliança; se calhar não se tinha casado com Fishburne? A felicidade não durou mais que um momento mas, ainda assim, o apagar daquele breve raio luz foi como um murro no estômago. Sim, porque eles teriam de casar em breve para depois ficarem à espera da criança, que não podia ficar no congelador de um hospital indefinidamente. KC ficou de súbito certa de que Rita estava ali para a convidar para o casamento dos dois. Um gosto mineral formou-se na sua boca, e sentiu náuseas.

“Não foi lá muito decente da tua parte fugires de uma mulher acamada que não podia ir atrás de ti,” continuou Rita num tom meio a sério, meio a brincar. "Escuta, queria ter uma conversinha contigo. Há aí algum sítio com alguma privacidade onde possamos falar? Tens uns minutinhos que me dispenses? Vá lá, estive três horas seguidinhas ao volante..." Rita acompanhava KC pelo corredor e olhou-a com os seus olhos azuis agora muito sérios.

KC tentou resistir à tentação de olhar Rita nos olhos. Uma pessoa podia perder-se naqueles oceanos brilhantes, e ficar ali especada durante horas sem dar pelo tempo passar. Três horas? O que podia ser tão importante? E porque é que ela parecia tão séria? KC gostava mais de a ver alegre e bem-disposta. Más notícias. Eram más notícias de certeza.

“Uns minutinhos, pois claro,” respondeu KC enquanto as duas dobravam a esquina ao fundo do corredor.

Pois claro. Era a KC em modo de soldado eficiente. Rita imaginara tantas vezes a conversa que teria com a KC quando chegasse este momento, mas agora que enfrentava a realidade, as palavras fugiam-lhe e de súbito sentia-se incerta do caminho que deveria trilhar. Como é que lhe ia expôr o caso nuns poucos minutinhos? A KC até andava a evitar olhá-la nos olhos, como diabo ia ultrapassar aquela barreira de teimosia?

Como não havia nenhuma porta nem nenhum sinal, quando Rita deu por si tinha entrado com KC nos balneários do ginásio. Estavam vazios.

KC dirigiu-se a um dos cacifos. Colocou o polegar sobre a fechadura e ouviu-se um clique. “Bom dia, Sargento-Mor O’Rourke. São 10 horas e 46 minutos. A formatura para almoço é às 12:15,” disse com suavidade a voz andrógina do cacifo. Houve então um pequeno estalido no altifalante invisível e ouviu-se um assobio maroto. “Bem, a minha sargento hoje está uma brasa! Permissão para executar abordagem?” disse a gravação.

Rita não conseguiu controlar-se e largou uma gargalhada sonora, musical, antes de conseguir tapar a boca com a mão. O brilho nos seus olhos, no entanto, revelava a verdade: estava mortinha de vontade de rir.

KC rosnou e abriu a porta com uma palmada que fez toda a fila de cacifos estremecer. Levantando o rosto para cima, berrou então: “Vou-te apanhar Jenkins, e vai doer!”

Seria o mesmo Jenkins que lhe tinha mandado o piropo? Se sim, o rapaz devia ser fresco. Rita abanou a cabeça, sem tirar os olhos da KC. Era preciso ter coragem para a desafiar.

Sem esperar que o eco do estrondo metálico morresse no ar, KC começou a remexer as suas coisas e, ainda de costas, disse para Rita: “Um bocado de exercício fazia-te bem; parece que estás a ganhar barriga. Tenho equipamento a mais, se quiseres. Ia ser como nos velhos tempos.”

O tom de voz foi frio, e Rita ter-se-ia sentido magoada se não conhecesse KC o suficiente para saber que aquilo era uma tentativa atabalhoada, e possivelmente inconsciente, de mostrar simpatia e tentar uma aproximação. Aliás, Rita ficara surpreendida que KC tivesse dado pelo pequeno altinho que começava a notar-se na sua barriga. Mesmo sem a olhar nos olhos, KC estava atenta ao pormenor. Obviamente não era o tipo de coisa que fosse ao lugar com exercício, mas ainda era muito cedo para explicar isso à KC.

Embora se sentisse tentada a aceitar a oferta, Rita não tinha vindo até ao fim do mundo para dar umas corridinhas com a KC. “Obrigada, mas vai ter de ficar para outra altura,” recusou Rita. Tentou ordenar as suas ideias para iniciar então a conversa com a KC, mas viu-se perdida, sem saber por onde começar. Mordeu o lábio enquanto observava a amante. Ainda poderiam ser amantes, quando Rita lhe tivesse contado tudo?

KC ficou desiludida com a resposta, mas tentou não o demostrar. Mantendo-se de costas para Rita, KC descalçou-se e começou a trocar de roupa. Teria realmente sido como nos velhos tempos, só elas as duas, juntas, cerrando os dentes em silêncio contra o cansaço, contra a distância da pista, contra a altura da barra de salto, contra a largura do fosso, contra o peso dos halteres. Nada junta duas pessoas como o ultrapassar em conjunto de obstáculos, e ali fora tinham uma pista inteira de obstáculos e provas duras só para elas. Teria sido algo digno de ver; iam deixar aqueles cadetes todos de boca aberta.

Agora que despira a camisola e as calças, KC sentiu-se de súbito penosamente consciente da sua semi-nudez e teve de se esforçar por agarrar lentamente – como se nada se passasse – os calções e a T-shirt que ia vestir. Rita podia pensar que a sua nudez era uma tentativa desesperada de a atrair, mas então estaria longe da verdade. É que em vez de sexy, KC sentia-se um trambolho: achava que estava magra demais nos sítios onde deveria ter curvas e forte demais onde deveria ser lisa e esguia. Insegura de si, sentia, injustificadamente, que ainda não se tinha recuperado das semanas de inactividade física a que o ferimento de combate a obrigara. Já Rita parecia a mesma deusa de sempre. Mesmo aquela gordurinha na cintura passaria perfeitamente despercebida a alguém que não tivesse precisamente tatuados na memória todos os contornos daquele corpo, após o ter amado, respirado, bebido e sonhado dia e noite.

Rita, no entanto, não via nenhum trambolho à sua frente. Aliás, a visão da nudez da KC tirou-lhe a cabeça do discurso que tentava fazer, e apesar de saber que o tempo estava a passar e que a KC não ia esperar muito, quedou-se a observá-la. Dois meses era muito tempo. Notava ligeiras mudanças, mas se possível, elas tornavam a KC mais apetecível, não menos.

Ainda lhe parecia estranho, ao fim deste tempo todo, dar por si a admirar um corpo feminino como teria admirado um masculino. Procurou a cicatriz do tiro nas costas da KC, já que ela se recusava a enfrentá-la. Pareceu-lhe ver um pontinho mais claro do que o resto da pele, e se era esse o caso, estava a cicatrizar lindamente. Quis saber qual o aspecto da ferida de entrada.

KC vestiu o equipamento branco – calções justos e T-shirt – de exercício, e calçou umas meias desportivas e ténis, tudo branco. Tentou ser o mais casual possível, tentando não demonstrar a Rita a vergonha que sentia do seu próprio corpo. É que, longe de uma tentativa de sedução, aquilo era antes um esforço para demonstrar, mais a si própria do que a Rita, que a presença de Rita ali não a afectava nem perturbava a sua rotina diária.

O esforço passou ao lado da Rita, que estava hipnotizada por aquele corpo. “Deixa-me ver,” foram as palavras que finalmente disse, quase num murmúrio, ao mesmo tempo que estendia as mãos para a cintura da KC. Ao sentir a firmeza daquele toque, algo se prendeu na garganta de KC.

Rita obrigou-a a virar-se de frente, levantou um lado da T-shirt e agachou-se para observar a cicatriz. Estava a cicatrizar maravilhosamente: pouco mais era do que um ponto de pele mais esticadinha e ligeiramente descolorida. “Impecável,” disse com um sorriso satisfeito, levantando o olhar para o de KC por uma fracção de segundo. “Não te cheguei a agradecer por isto,” fez notar, antes de plantar um beijo carinhoso mesmo em cima da marca.

KC era como uma boneca nas mãos de Rita, incapaz de reagir, incapaz de a tentar parar, incapaz de a encorajar a fazer mais, o que quer que fosse. Nunca, em toda a sua vida, se rendera voluntariamente e colocara tanto de si nas mãos de outra pessoa. Já se esquecera do quão bem sabia entregar o controlo a Rita.

Rita endireitou-se, embora lhe custasse largar a cintura da KC, e olhou-a bem nos olhos, na tentativa de medir bem a reacção dela. “Eu e o Fish não chegámos a casar,” disparou na sua voz firme e musical, cruzando os braços. “É sobre isso que nós as duas precisamos falar.”

A quebra do contacto físico interrompeu o feitiço que pairava sobre KC. “Não se casaram?” disse KC baixinho, bastante rouca. Tossiu; ainda tinha algo na garganta e a voz não lhe tinha voltado completamente. Rita esperou que ela acabasse; KC pareceu-lhe surpreendida mas, a julgar pela frase seguinte, continuava cega como sempre... de amor, esperava Rita. “E então? Passa-se algo com o Fishburne e queres que te ajude a pôr-lhe juízo na cabeça, é isso?”

Rita arqueou uma sobrancelha. "Meter-lhe juízo na cabeça? Não quero nada disso," disse abanando a cabeça devagar, de olhar intenso colado aos olhos negros como azeitonas da KC. "Estás a ver, eu não faço a mínima tenção de casar com o Fishburne. Eu bem te disse que ele devia ter falado comigo antes de anunciar casório ao mundo inteiro.”

Por um breve segundo, Rita julgou que KC tinha bloqueado à sua frente como um velho andróide cujo cérebro operativo está a meio de uma descarga epiléptica. Depois os olhos de KC ganharam brilho, a sua testa franziu e ela riu-se. "Ah, sempre foste senhora do teu nariz! Se o teu pai não tivesse muito mais com que se preocupar, provavelmente estaria a espumar." Então o sorriso morreu-lhe nos lábios. "Mas... e a bebé? Aconteceu alguma coisa?"

Ah! KC sorrira finalmente, e Rita deu por si a sorrir também. Vá lá, parecia ter tirado um peso de cima dos ombros à outra. Mais um sinal positivo. Rita manteve um sorriso enigmático. "Essa foi outra das coisas que te esqueceste de mencionar quando eu acordei. A bebé está óptima.” Pegou numa das mãos da KC e encostou-a à sua barriga. “A minha barriguinha é que não irá abaixo com exercício...”

"Caramba!" exclamou a outra. A palma da sua mão mexia-se devagar sobre a pele macia de Rita. Os seus dedos não sentiam nenhuma sensação física especial, mas na sua mente ela imaginava que realmente sentia algo ali, uma presença. "Ela já dá pontapés? Tens tido enjôos?” KC parou com as suas perguntas por um breve instante, para mudar a sua mão de posição. “Quando nasce? Já tem nome?"

Rita riu com a catadupa de perguntas, feliz não só por a KC não ter recuado como por estar a mostrar tanto interesse. E manter a mão quente na sua barriga. Abanou a cabeça à primeira pergunta e respondeu às outras. “Enjôos sim, tive há umas semanas, mas parece que já passou. Estou de três meses e chama-se Lily.” Rita mordiscou o lábio inferior e arriscou por fim a pergunta. “Gostas de crianças, tu?”

"Eu? Estás a brincar?" estranhou KC. Riu-se com vontade. "É claro que não! Fedelhos insolentes, já me chegam os que tenho cá. Lily, huh? Era o nome da tua amiga não, era? Bom dia, Lily!" exclamou KC suavemente na direcção da barriga de Rita enquanto a acariciava. "Achas que ela me consegue ouvir?"

Ora aí estava uma declaração contraditória que confundiu Rita por uns momentos, embora se esforçasse por manter o mesmo sorriso nos lábios. Ah, bom... Era a KC a erguer aquelas barreiras de teimosia outra vez. Mas se ignorasse as palavras, Rita via os outros sinais, o carinho com que a KC se dirigia à sua filha, e percebeu que a KC acabara de dizer uma grande mentira. "Sim, Lily. É graças a ela que estamos aqui nós as duas... três. Acho que ainda é muito cedo para ela te ouvir, no entanto” esclareceu. Tinha de puxar pela KC, ter a certeza que ela queria uma bebé na sua vida, nesta altura do campeonato. “Portanto não estarias minimamente interessada em conhecer a Lily mais de perto, suponho." De novo aquele sorriso enigmático. Seria possível que a KC ainda não tivesse percebido nada?

"Mais de perto?" KC parecia confusa. “Claro, há tanta coisa que lhe posso ensinar!”  KC sorriu, abstraída, por mais uns segundos enquanto esfregava ao de leve a barriga de Rita. Depois ficou com uma expressão mais séria, e finalmente olhou Rita directamente nos olhos. "Olha, Rita, mas afinal o que é vieste cá fazer? Não viajaste de tão longe só para me mostrar o teu umbigo. O que se passa? Podes contar-me, eu aguento, seja lá o que for."

Pronto, a KC ou não via mesmo ou estava-se a fazer desentendida para não apanhar uma desilusão. O sorriso enigmático da Rita esbateu-se e ela humedeceu os lábios, procurando as palavras certas que não havia maneira de conjugar. Acabou por atirar algo mais tosco para o ar. "Tinha esperança que tu ainda me quisesses a mim, mas eu agora venho com bagagem extra, e tu não gostas de crianças..." Era ao mesmo tempo uma confissão e uma provocação. Rita não teve dificuldade em esconder o sorriso matreiro: estava preocupada que a KC recusasse, que afinal saísse dali com um enorme desgosto.

KC endireitou as costas de um salto. "O quê? Falas a sério? Eu... e tu?" Houve uma pausa, e depois voltou a tocar na barriga de Rita. "...e a Lily? A sério?"

Rita assentiu com a cabeça. “Falo muito a sério, KC. Nós as três. Juntas.” A reacção da KC dera-lhe esperança, de modo que se atreveu a voltar a picar. “Mas tinhas de gostar de crianças, claro. E o Fishburne há-de querer participar na vida da Lily também," acrescentou mais a sério.

"Eu, e tu, e a Lily..." repetiu KC pensativa. Olhava fixamente para Rita, como que hipnotizada pelos seus olhos. "Eu não sei o que dizer, Rita. Seria doida para recusar."

Rita sorriu e os seus olhos brilharam. “A sério? Não andas aí metida com o Jenkins?” Rita estava feliz, e o sentido de humor vinha-lhe ao de cima.

"O quê? O Jenkins? Estás a brincar! Ele é..." KC teve de de respirar fundo para conseguir acabar a frase. "Ele é um homem, pelo amor de Deus!"

“Então e depois?” retorquiu Rita, com um brilhozinho no olho e um ligeiro encolher de ombros. “Se eu descobri que dava para os dois lados...” deixou a frase em suspenso e piscou um olho à KC em provocação, mas antes que a discussão se dispersasse, Rita falou mais a sério, numa voz suave e quente. "Então vá, diz que sim e sou tua, se me queres.”

"É claro que sim, Rita. É claro que eu te quero," exclamou KC, envolvendo Rita com os seus braços. "Isto embora, tu sabes, gostes de homens e tenhas deixado que eles te tocassem,” acrescentou KC, numa rara tirada de humor.

Rita aninhou-se naquele abraço com uma gargalhada e retribuiu-o. “Pensa assim: não há mal que não venha por bem,” disse com doçura. “Se não fossem os homens não tinha esta vida preciosa dentro de mim.” Com um suspiro satisfeito, fechou os olhos para melhor apreciar o contacto próximo. “Estava a ver que nunca mais...” murmurou antes de apertar mais o abraço. “Andava a morrer de saudades tuas, do teu toque, da tua voz, do teu cheiro... nunca mais te atrevas a deixar-me daquela maneira. Casmurra."

“Olha quem fala,” respondeu KC, acariciando o couro cabeludo de Rita. Tinha uma lágrima a querer escorregar-lhe do olho. “Se não fosses uma cabeça dura tinhas pedido transferência de unidade depois de eu ter reparado em ti em vez de ficar e tentar manter a cabeça erguida. E o teu pai, não esqueças o teu pai; outra rapariga qualquer teria desistido do exército e ido para casa cozinhar bolos, ou lá qual era carreira que ele tinha escolhido para ti. És dez vezes pior do que eu, pelo menos!”

“Ha! E tu, terias desistido?” Apesar de lhe estar a saber bem a carícia, a provocação tinha de ter uma resposta, de modo que a Rita se afastou o suficiente para olhar KC nos olhos. Com uma carícia suave, limpou a lágrima à KC antes mesmo que esta lhe saltasse do olho. Então enlaçou as mãos atrás da cintura dela e não a largou enquanto falava. "Um teimoso nunca teima sozinho. Seria preciso mais que uma Sargento metediça para me mandar para casa," disse com indignação fingida. "Como bem lembras, em casa teria os bolos, os maridos, os filhos, toda uma vida de avental à cintura e farinha nas mãos. Não, muito obrigada, não tão cedo,” rematou abanando a cabeça numa negação veemente.

Depois com um ar mais sério, Rita continuou. “Apesar do que possas ter pensado à primeira impressão (sei muito bem a primeira impressão que as pessoas têm de mim) eu nunca esperei que fosse fácil a minha vida nas forças armadas.” Um encolher de ombros e um brilhozinho mais brincalhão nos olhos. “É claro que também não antecipei a perseguição cerrada...” E de novo seriedade nos mares azuis tranquilos dos seus olhos. “O meu pai pode ter muitos defeitos, mas ensinou-nos que devemos lutar sempre por aquilo em que acreditamos. Eu acreditava na Federação. Só me tirariam do activo a saca-rolhas.”

“Tal e qual como eu disse...” ofereceu KC, “teimosa como uma porta! Darias uma boa sargento de recruta! Tu é que devias aturar esta cambada toda do Jenkins & Cia; já estou a ficar velha demais para isto. Eu sei que digo isto a todos os pelotões, mas tenho mesmo a certeza que eles são, de facto, a mais inútil escumalha que já me passou debaixo das botas em tantos anos disto. Não servem nem para limpar as solas!”

KC suspirou. “Só porque o teu pai agora os obriga a fazer uns anitos de tropa entre o liceu e a faculdade eles acham-se no direito de passar o dia a lamuriar e a armar-se em comediantes. Se um dia formos invadidos, quero ver!”

Rita arqueou as sobrancelhas, divertida. “Eu, boa sargento de recruta? Deves estar a brincar. Acabávamos todos na discoteca mais próxima,” disse meia a sério, meia a brincar. Então uma pausa em que olhou KC bem fundo nos olhos. Havia ali muita frustração acumulada; estes recrutas das duas uma: ou eram tão frescos que lhe estavam a dar cabo da paciência, ou eram mesmo tão maus como ela dizia. Rita abanou a cabeça suavemente. "Não. Contigo aprendem bem mais do que comigo. E se um dia formos invadidos tenho a certeza que se lembrarão bem melhor da lição dada por uma Sargento O'Rourke do que uma Jamieson." Rita quisera consolar KC, mas tinha de admitir que KC abordara uma questão sensível.

Eden estava realmente numa situação delicada. Até agora a sua posição afastada e os recursos naturais modestos do planeta tinham-no mantido longe de problemas de maior. Tinham outras coisas com que se preocupar, também: o comércio espacial estava em frangalhos e o planeta só podia depender dos seus próprios recursos para sobreviver. Todo aquele minério mesmo ali à superfície à espera de ser minado, mas para quê? A população não podia comer minério. As medidas draconianas do General Jamieson para reorganizar a economia só agora começavam a dar frutos (alguns deles literais), mas ainda era pouco.

Como Rita bem sabia, o pai não estava muito preocupado com a alimentação da população de Eden. A ele tanto lhe fazia que toda a gente comesse derivados sintéticos por mais uns anos. O que o preocupava mesmo era que um dia alguém, em algum lugar, ia olhar para o seu mapa estelar e achar que, por alguma razão, aquele pedaço de rocha tinha importância suficiente para o querer anexar.

A guerra civil alastrara a todo o espaço colonizado, mas já havia tantas facções, alianças, uniões, federações, confederações, repúblicas e planetas independentes, envolvidos em escaramuças de fronteira, raides punitivos, disputas de sucessão, e em simples guerra aberta que o termo guerra civil tinha caído em desuso. Facções que se aliam num dia, guerreavam no outro, e depois novamente se uniam para fazer face a um adversário maior, separando-se novamente para se unirem a aliados diferentes e começarem o ciclo outra vez. O universo estava em caos, e era difícil saber com o que contar. As notícias que iam chegando a Eden contradiziam-se umas às outras.

O General Jamieson – de quem Rita pelos vistos herdara a teimosia, pensou KC – mantivera o planeta neutral e recusara-se a apoiar quem quer que fosse, ou a aliar-se a alguém. Mas quantos planetas e facções neutrais não tinham já sido bombardeados até à submissão ou barbaramente conquistados desde que tudo aquilo começara? E o que dizer de frotas inteiras da antiga marinha da Federação que agora andavam à deriva por aí, dedicando-se à pirataria e pilhagem em larga escala?

“Bom,” disse KC, tentando tirar da sua mente imagens de um futuro menos que risonho. Era surpreendentemente fácil fazê-lo com Rita ali, mesmo à sua frente. “De certeza que não alinhas numa corrida pelo perímetro?” perguntou, afastando-se do abraço de Rita e apoiando os punhos fechados na cintura. “Podemos só andar, se preferires. Até podemos dar as mãos quando o Jenkins passar; ha, isso ia calá-lo por umas semanas! Se não funcionar, volto ao plano original de o lançar em órbita quando os treinos em zero-g finalmente começarem.”

KC sentia-se realmente bem, e Rita teria confirmado que ela parecia tal e qual como se sentia: estava absolutamente radiante, no seu equipamento desportivo branco, um símbolo de confiança contagiosa, pureza imaculada (que no meio de tanto pó e a areia era obra!) e também beleza, é claro. Se o pai tivesse colocado nos anúncios de recruta a imagem dela naquele preciso momento, não ia ter precisado de ressuscitar o serviço militar obrigatório!

Rita riu-se. KC tinha recuperado o sentido de humor, parecia liberta de um terrível peso. Não poderia desejar mais do que isso. "Tem sido assim tão insistente, o teu Jenkins?" picou Rita. “Só demonstra bom gosto. Hás-de mo apresentar formalmente; agora fiquei cheia de curiosidade.” Enquanto falava, Rita não conseguia tirar os olhos da imagem da KC. De facto a confiança que KC exibia era tão contagiante que Rita deu por si a assentir. Agora que o assunto entre elas estava esclarecido e resolvido pelo melhor, Rita podia fazer o que lhe desse na bolha.

“Ok,” disse. “Vamos a essa corridinha. Não estou tão grávida que não te consiga acompanhar," esclareceu. "Empresta-me lá equipamento, que a minha tralha ficou no carro." Começou a despir-se. “E se virmos o Jenkins... bom, logo se vê,” acrescentou com um piscar de olho malandro.