Et jussit Nuntius "Ite, pro clave abscondita"

Retrato de aileigc

Folium II

 

Pashin

Ao entrar em Pashin, estava finalmente desobrigada da minha missão para com Hereth, mas seguindo o seu conselho, não tinha pressa em voltar já para trás: Uma Handora tinha-nos reservado quartos na Taverna dos Cinco Dragões, na Praça principal, e achei que valia a pena ficar lá a noite e decidir no dia seguinte, ou nos dias seguintes, se regressava a Solamnia.

A taverna ficava perto do mercado. De importante, há a ressaltar que o Arauto estava lá nesse dia. O Arauto é uma personagem importante de Krynn. Acho que já toda a gente ouviu falar dele, mas sempre pensei que fosse uma lenda, até o ver ali, de carne e osso. Foi literalmente impossível aproximar-me dele, e tive de o ver e ouvir de longe contar a história da Guerra dos Espíritos e da jovem Mina.

Aproveitei o jantar na sala comum para ter uma percepção melhor dos meus companheiros de jornada. Zidnerpa (na altura, ainda se chamava assim) estava sempre a escrevinhar alguma coisa no seu caderno, e mostrou-se bastante insistente em querer falar com o Arauto e perguntar-lhe uma quantidade enorme de coisas. Desde o princípio, senti alguma antipatia por ele: as suas vestes escuras levavam-me a crer que fosse um mago da pior espécie, e a sua atitude arrogante e egoísta (que se foi reforçando com a viagem) mexia-me com as entranhas.

Eruanne, que parecia ser a sua companheira, ficou calada a maior parte do tempo. Ela só falava élfico, e Zidnerpa era o único que a entendia. Até hoje, não consigo entender o que une estes dois, acho que ela se devia levantar mais contra o autoritarismo dele. Curiosamente, um anão viajava com eles, de nome Bahari. Foi sempre de pouquíssimas falas, se possível ainda menos que Eruanne, mas como tive de dividir o quarto com ele nessa noite, posso pelo menos afiançar que era correcto e bem-educado.

Os outros dois elementos da escolta também pareciam viajar juntos: um Kender cheio de energia que parecia ter um saco inesgotável de perguntas e que foi vigiado pela dona da estalagem toda a noite, e um Draconiano que parecia carregar em cima dos ombros o peso e a raiva de todo o ódio votado à sua raça pelas civilizações de Krynn. Karol era o seu nome, e era extraordinariamente reservado, procurando sempre recolher-se nas sombras.

Como se tornou costume, Karol e o Kender partilharam o quarto, e Eruanne e Zidnerpa também. Como só havia três quartos, e como já disse acima, eu fiquei com Bahari.

* * * * * *

Pode-se dizer que neste dia mal dormimos, pois acordámos todos de madrugada com sonhos esquisitos. O Arauto, aquela celebridade que toda a gente queria conhecer e a quem ninguém chegava, falou-nos em sonhos. Reunimo-nos todos num quarto, sobressaltados, para partilhar a nossa experiência e descobrimos que todos tivéramos sonhos quase iguais, excepto nalguns pormenores subtis: o Arauto entregava-nos uma missão, uma missão perigosa e sublime.

Os sonhos nem sempre trazem mensagens, mas a História está cheia de portentos, e certamente eu não vou desprezar um sonho que se repete em seis cabeças distintas com diferenças talhadas para a personalidade de cada um. O sonho pareceu-me uma mensagem divina e levei-o muito a sério. A partir daí, considerei missão minha encontrar a Chave de Silvanesti, de que o Arauto falava, e levá-la para segurança. Foram já tantas as confirmações que tivemos desta visão depois disto que já não consigo distingui-las todas, nem o que disse o Arauto exactamente, mas tenho a certeza que ele nos disse que ela tinha sido roubada aos elfos por um homem chamado Pegrin, um renegado de alguma espécie, e decidimos que nesse dia o procuraríamos. Para mim, era uma missão divina entregue por Kiri-Jolith ou Habbakuk,  a forma de me provar como cavaleira e lutar para o Bem de Krynn.

Mal tivemos tempo para andar por Pashin, mas foi o suficiente para nos cruzarmos com uma quadrilha de Cavaleiros de Neraka. Eles perceberam a minha ligação com a Ordem de Solamnia, mas felizmente não procuravam uma luta e Kiri-Jolith ensina a não reagir às provocações gratuitas. Os cavaleiros de Neraka são a lei em Pashin, pelo menos na prática, e mostraram-nos dois retratos de fugitivos: um homem de cabelo escuro e uma mulher elfa de cabelos loiros, mas não nos disseram quem eram. Como tudo o que vem desta gente, o melhor era desconfiar.

Saímos então de Pashin em busca de Pegrin e conseguimos fugir a uma emboscada dos seus homens, mas não chegámos a encontrar o seu acampamento.
Nessa noite saímos, mas já não me lembro bem porquê. Acho que Bahari, Eruanne, o Zidnerpa e o Karol foram dar uma volta, e que só mais tarde eu e o Google fomos à procura deles, quando já estavam a demorar bastante. Mas só encontrámos dois deles: a Eruanne e o Bahari tinham desaparecido após uma luta de rua, que tinha deixado o Zidnerpa e o Karol inconscientes no meio do chão. Eu e o Google ajudámo-los e tentámos procurar os outros, mas as únicas pessoas que encontrámos foram uma prostituta a ser acossada pelos homens do Pássaro Negro. Como é evidente, não podia deixar isso acontecer e ameacei-os, mas tive mesmo de os atacar até eles fugirem. O Karol ajudou-me neste combate, mesmo que ele não tivesse muita vontade de o fazer. Tenho a certeza que no fundo ele não é tão mau como nos quer fazer crer.

* * * * * *

No dia seguinte, descobrimos que Bahari e Eruanne estavam cativos dos Cavaleiros de Neraka. Fomos apanhados numa cilada! Eles só libertam os nossos companheiros se lhes dermos em troca a Chave de Silvanesti dentro de cinco dias. O Zidnerpa não aceita sequer a hipótese de os deixar lá, e eu recuso-me a deixar estes cães levar o seu esquema avante.

Mas é inegável que os Cavaleiros de Neraka estão de certeza entre os primeiros de quem temos de defender a Chave. Pelo que tínhamos um dilema, e por isso, partimos de novo em direcção ao sul, e desta vez lá conseguimos achar o campo escondido.