In aedem proditorum

Retrato de aileigc

Folium VI

 

O Templo de Hurim

Despedimo-nos deles, e preparámo-nos para entrar no templo. Ou melhor, no recinto rochoso que o envolvia. Era um planalto enorme no meio do deserto, uma espécie de muralha de rocha natural à volta de um espaço interior que era grande o suficiente para incluir um pequeno bosque, uma torre de guarda, um templo num grande pedestal de pedra e ainda umas zonas abertas e descampadas, incluindo duas fendas enormes no chão. Era grande!

O acesso fazia-se por uma rampa na muralha. O meu cavalo e o meu falcão recusaram-se terminantemente a entrar, pelo que os deixei cá fora e lhes preparei comida e água para alguns dias. Esperando que não lhes acontecesse nada, preparei-me para entrar com os outros. A rampa estava defendida, por assim dizer, por duas criaturas parecidas com leões, se não me engano, mas acabaram por nos ceder a passagem.

Dentro do recinto, ficámos um pouco sem saber o que fazer. Alguns de nós quiseram ir ver a torre, e eu e já não sei quem mais entrámos no bosque, ou se calhar pomar deixado ao abandono por demasiado tempo. Mas saímos de lá muito depressa, o ambiente era opressivo e parecia haver uma vontade maléfica a carregar na nossa mente como alguém que nos pisa os pés num torno. Quando voltei cá fora, aconteceu a coisa mais bizarra que já vi nesta aventura: apareceu-nos um Kender, ali no meio do nada, que ainda por cima ouvia vozes. Não consegui levar este Kender muito a sério, e nem me lembro de nada que ele tenha feito de notável. No entanto, acho que ele insistiu que falava com um fantasma na torre e que nós devíamos lá ir. Já não sei bem quem, parece-me, tinha lá entrado e fugido de forma desagradável. A torre era habitada, por assim dizer, por criaturas das trevas, sombras quase vivas, a própria escuridão animada! Também posso estar a confundir com o que fizemos depois, esses dias foram muito intensos. Mas acabámos por escalar a torre e entrar pelas janelas do andar superior. Lá em cima, conseguimos com alguma dificuldade abrir portas e janelas fechadas havia muito tempo, até que encontrámos um espírito que parecia hostil. Mas quando lhe disse que vínhamos por bem e em nome da Luz, ele acalmou-se e falou connosco. Aquela era a velha alma do capitão de guarda à torre na noite da traição. Quis testar a nossa honra, e disse que só acreditaria em nós se déssemos descanso às almas de dois companheiros seus que ainda penavam na base da torre. Menos mal, não nos atacou.

Decidimos descer à cave e ver o que podíamos fazer. Mas não vimos nada, estava escuríssimo, e no meio de todo aquele negrume fomos atacados tão impiedosamente que rapidamente tivemos de retirar e voltar à luz do sol. Acabámos por mudar de plano, e em vez de tentar destruir as sombras, voltámos lá abaixo e concentrámo-nos em trazer apenas os seus corpos. Quando finalmente lhes demos um enterro condigno, e voltámos ao capitão, ele ficou extasiado e reconheceu que éramos enviados da Luz... eu pelo menos tento ser, mas quando olho para o Aprendiz, tenho alguma dificuldade em acreditar que todos tenhamos os mesmos ideais. Pouco depois, o capitão desapareceu para sempre, tendo finalmente ganho o seu descanso eterno. Paz à sua alma, e que Habbakuk lhe dê a recompensa que a sua honra merece. Mas antes ainda teve tempo para nos desejar boa sorte para o templo e nos pedir que levássemos as suas armas, que ainda se encontravam no chão à beira do seu esqueleto. Uma delas era uma espada longa magnífica, que ficou comigo durante uns tempos porque mais ninguém sabia usá-la. Pedi ao Bahari que verificasse se havia magia nela, o que de facto se confirmou, mas não foi possível descobrir o que fazia. Finalmente, advertiu-nos que havia um mal antigo no Templo e que segundo a profecia nós haveríamos de o extirpar.

Realmente, não sei o que os faz os heróis, se o seu valor ou apenas a confiança que os outros têm neles. Porque será que todos nos dizem que nós vamos concluir alguma missão? Não vejo como isso possa ser verdade, quando olho para trás e vejo que de todos os que ouviram alguma profecia que os envolvia, pelo menos dois já tombaram, e quanto ao Aprendiz... não sei quantas vidas tem um Irda, mas de certeza que o Bahari já devia ir pelo menos na segunda, porque não voltou como o Zidnerpa. E até os gatos só têm sete... ou nove... nunca tenho a certeza.

Realmente, o dia custa muito a passar aqui na desolação. Se não me perco um pouco a escrever, isto é uma monotonia. Mas agora já chega, continuo mais tarde.