Ex tenebris in salsam fornacem

Retrato de aileigc

Folium XI


O Deserto de Sal

Gelo Brilhante, dia 26

Depois de sairmos do templo, fui recuperar o meu cavalo. Tinha-o deixado ao pé do lago no lado norte do rochedo, e felizmente ele ainda estava bem. O Google tinha a certeza de que tinha visto alguma criatura sair das águas do lago, mas quando eu tentei ver o que era, ninguém apareceu. Até subi a um penhasco e acho que o Karol também, mas não vimos nada. Não é que o Google não pudesse ter razão, e também acho que ele não brincaria connosco depois de uns dias tão complicados no templo, mas sem mais provas, viemo-nos simplesmente embora.

O nosso objectivo era ir ter com os Mikku, que nos esperavam no oásis do Limoeiro a um dia de distância. Mas a viagem foi bem mais acidentada do que estávamos à espera: passámos por uma tempestade de areia que quase sufocou alguns de nós e ainda tivemos de lidar com um enxame de gafanhotos, que parecia que nos queria devorar. Finalmente, lá encontrámos os Mikku e passámos a noite com eles.

Alacar disse-nos que a melhor forma de chegar a Kendermore era apanhar um barco em Ak-Khurman com destino a Port Balifor, e daí partir para a desolação. Mas deixou bem claro que os Mikku não tinham negócios em nenhuma destas cidades e por isso não iriam connosco. No entanto, como convém sempre saber o que se passa nos grandes centros, e ainda tínhamos uma viagem difícil pela frente, cedeu-nos dois guias, de nomes Khalid e Khatan, para nos ajudar na travessia do grande Deserto de Sal que nos separava da cidade, que lhe levariam, mais tarde, notícias daí.

Assim, enchemo-nos de determinação para enfrentar o calor escaldante da extensão salina e recomeçámos a nossa viagem. O deserto era enorme! Segundo os nossos guias, devia ter uns cinquenta quilómetros de extensão, mas era tão árido e plano que se via o outro extremo em plena luz do dia. Certamente, a superfície de sal também ajudava a este efeito. Acho que era dia 12 quando partimos, e como era de esperar, não viajámos pacificamente. Durante o dia, um qualquer espírito renegado, que o Aldor identificou como um Allip, atravessou-se no nosso caminho e tivemos de o derrotar. Depois, o irrequieto Google, que nunca sabe estar quieto quando deve, decidiu soprar num apito que o outro Kender, se não estou em erro, lhe tinha dado. Quando o Karol lhe perguntou o que fazia o apito, ele disse que devia chamar espíritos, e como ele achou certamente que isso seria uma visão interessante, soprou.

Eu ainda tinha esperanças que fosse uma brincadeira ou uma ilusão própria de Kenders, mas para meu transtorno, a história era verdadeira e dois fantasmas imediatamente apareceram e nos atacaram. Fico sempre esquisita quando defronto espíritos do passado: nunca se sabe o que pretende um fantasma, se é hostil ou benigno, mas em todo o caso, são sempre memórias de outras vidas que acabaram de forma trágica, e quanto mais não fosse por causa disso, já tinha razões para ficar pouco à vontade na presença de um. Quanto mais de dois! Junte-se que eles têm poderes estranhos, as mulheres sábias da minha terra dizem que eles podem envelhecer uma pessoa apenas com o olhar, para perceber o terror que tenho de tais criaturas. Ainda assim, lutei e descobri que a minha espada de cristal era extraordinariamente eficiente contra este tipo de seres. Só mais tarde, em Ak-Khurman, vim a descobrir a natureza real desta espada, mas tal descoberta deixou-me bastante mais confiante.

Ainda antes de anoitecer, vimos ao longe aquilo que parecia ser um grupo de minotauros que caminhavam na nossa direcção. Eram um bando apreciável, mas nós não os tínhamos provocado e eu acreditava que não nos atacariam. Mas o resto do grupo tinha menos confiança. Estávamos algo feridos e o último combate com minotauros não tinha corrido muito bem, pelo que o grupo preferia desviar-se. Mas depois da cena com o demónio barbudo no templo, as minhas entranhas revoltavam-se com a ideia de mudar de caminho apenas para evitar um possível confronto, e tive de engolir todo o meu orgulho para não ir sozinha de encontro ao bando. Ainda pude ver os minotauros parados e a rirem-se quando nós os evitámos pelo largo. Pelo resto do dia, fiquei calada e mal-disposta, ruminando no que tinha acontecido.

Mas nem de noite pudemos descansar bem. Quando o Aldor estava a fazer o terceiro turno, acordou-nos a todos por causa de uma luz que via ao longe, ainda noite escura. Parecia uma fogueira que se mexia e que vinha na nossa direcção. Ficámos todos de alerta e esperámos que se aproximasse, pois não víamos nada para além do círculo de luz da nossa fogueira. E quando a criatura se aproximou o suficiente, pudemos ver que era toda constituída de uma chama viva e crepitante, e bastante grande. Certamente, um Elemental de Fogo, tal como os remoinhos na tenda dos Mikku eram Elementais de Ar, como nos disse o Aprendiz. Derrotámos este adversário, para eterno espanto dos nossos guias, que de queixo caído exclamaram que nós devíamos ser realmente enviados dos deuses.

Devo confessar que também fiquei espantada. Quando entrei nesta viagem, apenas duas ou três semanas antes, já tinha alguma experiência, mas nunca tinha defrontado seres verdadeiramente sobrenaturais ou extra-planares. Ouvia rumores, mas não me sentia à altura, e o Hereth concordava, de os combater. Ver que em apenas duas semanas progredi tanto, claro que com a ajuda de companheiros, mas mesmo assim!, não deixa de me maravilhar.