Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.1)

A acção continua ao rubro em Dirtside! Eu não fui capaz de deixar a Rita em suspenso, já que o último episódio acabava com ela a regressar a Éden a bordo de uma nave com uma KC moribunda, um Fishburne ferido, um pai passado dos carretos e uma Lily Wong morta. Tanta coisa podia acontecer durante aquele voo!

E de facto aconteceu, graças à faceta maquiavélica do Ric, que não perde uma oportunidade para lixar a vida à minha pobre Rita Jamieson. É que é uma atrás da outra... O repertório de maldades do Ric não tem fim. Que posso eu fazer senão encolher os ombros? ;)

Mentira, estou-me a divertir imenso com os problemas da Rita. Só espero que os caros leitores se divirtam igualmente com o resultado das nossas trocas de galhardetes.

Ass.: Raquel "Éowyn" Correia.

De facto é curioso como, a dada altura, as maldades iam surgindo aos magotes. Quase cada parágrafo que eu escrevi era para espetar mais uma agulha na Raquel. E foi engraçado trabalhar com uma grande cena de acção e espectáculo visual como pano de fundo. Deve haver poucas coisas piores do que estar numa nave prestes a despenhar-se, estar prestes a morrer de um ferimento de bala e receber uma proposta de casamento inesperada (grande sentido de oportunidade tem o noivo, hein?) de um namorado de quem nos queremos livrar. Esta cena vai ficar para a história como um clássico! Divirtam-se!

Ricardo Madeira

Rita Jamieson não sabia o que deveria sentir. A nave do senado tinha explodido com milhares de pessoas a bordo, incluindo sem dúvida muitos dos marines da unidade dela em Éden. A Federação nunca mais seria a mesma depois de um golpe destes que limpava todo o senado.

Salvara o pai da morte, mas em que estado? Henry Jamieson não era o mesmo desde que lhe tinham morrido três filhos no mesmo dia há coisa de um mês por causa da Rebelião. Agora que o senado fora pelos ares, desmoronava-se a Federação, o porto seguro dele, o pilar da sua existência. Imaginava que o pai estivesse a ruir por dentro.

Pensara por umas horas agonizantes que fora forçada a fuzilar o Fisbburne e depois conseguira-o salvar da nave condenada. Agora não sabia se ainda o amava ou não – ele definitivamente ainda tinha de fazer alguma introspecção porque o nome da Christine aparecera sempre à tona quando o visitara no mês de prisão.

KC também estava a salvo na nave mas fora alvejada com gravidade por uma bala que deveria ter acertado na própria Rita. Obviamente a Rita voltara atrás para salvar a amante, mas a que custo! Lily Wong morrera ao dar-lhe fogo de cobertura.

A melhor amiga que Rita alguma vez tivera jazia sem vida no lugar do co-piloto. Se não fosse ela, nem sequer teriam tido um meio de fuga, e provavelmente Rita e KC teriam ficado para trás. Lily, que tinha sido a última namorada do Francis, e a quem a Rita não tivera ainda coragem de contar a sua situação com a KC.

Desapertou o cinto de segurança e foi abraçar o corpo sem vida da amiga. “Desculpa, Lily,‿ disse baixinho ao ouvido dela. “Se não fosses tu tínhamos morrido todos e nem sequer te consegui valer quando mais precisavas. Grande amiga que arranjaste, que nem sequer teve coragem de te confessar que sim, que os rumores eram verdade.‿

Quando deu por si, as lágrimas corriam-lhe livremente pelas bochechas. “Obrigada por tudo, minha querida. Não serás esquecida, prometo.‿ Com um beijo na face morna da Lily, Rita afastou-se para finalmente limpar as lágrimas. Então pegou na amiga ao colo (parecia tão leve e frágil!) e dirigiu-se à zona de transporte e passageiros.

Depositou o corpo da Lily num lugar vazio e fez-lhe uma festa carinhosa no cabelo. Só então levantou o olhar para o resto dos passageiros.

Eram tão poucos! O pai, Fishburne, ela própria, os três mecânicos de confiança da Lily e KC – se calhar mais morta que viva. Definitivamente não sabia o que sentir; só sentia um enorme aperto no coração e não sabia o que isso significava.

Bom, primeiro era preciso tratar dos vivos e levar todos a bom porto – fosse lá isso onde fosse. Dirigiu-se a um dos mecânicos e apontou com o polegar por cima do ombro para a cabine de pilotagem. “Está em piloto automático. Vá lá para dentro e mantenha um olho nas coisas. Quando for para entrar na atmosfera chame-me.‿ O mecânico assentiu, olhou de relance para a Lily e obedeceu sem palavra.

Evitando o olhar do resto dos passageiros, Rita dirigiu-se com um passo decidido para o corpo prostrado de K.C. O’Rourke. Tinham-na deixado no chão, provavelmente para não mexer mais que o necessário, mas com um cobertor por cima e outro a servir de almofada.

Rita ajoelhou-se a seu lado e acariciou-lhe o cabelo negro curto. “Como vai isso, KC?‿ perguntou quase num sussurro. Por trás de si sentiu alguém aproximar-se com uma passada familiar. Fishburne. Não desviou os olhos da KC.

“Ri...ta?‿ balbuciou KC por entre olhos semi-cerrados. Aos ouvidos da Rita, KC soava cansada e isso não era lá muito encorajador. Com a mão livre, Rita afastou o cobertor na zona onde KC tinha sido atingida. Alguém tinha feito um curativo improvisado, mas era claro que a KC sangrara bastante. Teria de ter a esperança que a bala tivesse falhado os órgãos vitais.

Sorriu ligeiramente, tentando aparentar mais optimismo do que sentia, não se apercebendo que o rasto recente das lágrimas ainda era visível. “Sim, minha valente, sou eu. Vamos a caminho de Éden; não tarda nada arranjamos alguém que te ponha como nova.‿ Ajeitou o cobertor com cuidado para não causar dor à KC. "Portanto tu deixa-te ficar aqui sossegadinha, para variar, que eu trato de tudo."

“Não pensei... tão calmo... obrigada...‿ sussurrou KC de forma críptica, quase como num suspiro. Os seus olhos estavam agora fechados. Durante um horrível segundo, o peito dela pareceu imobilizar-se e o som da sua respiração desvaneceu-se. Rita quase entrou em pânico, mas ao aproximar o ouvido do rosto dela, voltou a ouvir, muito ao de leve o som do ar a entrar e a sair.

Rita deu a mão a KC para manter algum contacto físico que confortasse a sargento, com um suspiro passou a outra mão pelo cabelo loiro, e só então levantou o olhar para o Fishburne. “E tu, estás inteiro?‿

“Sou um dos sortudos.‿ Para responder a Rita, Fishburne desviara por um segundo o olhar de uma mochila de primeiros-socorros de campanha que estava a rebuscar com cuidado. Depois baixou outra vez o olhar para o que as suas mãos estavam a fazer. “Ela está mal, Rita. Vou tentar pô-la a soro, mas nem o cocktail mágico dos nossos médicos aguenta os seus milagres indefinidamente. Ela precisa de um hospital.‿

Rita assentiu com a cabeça. Isso era óbvio. Tencionava aterrar o mais depressa possível na Firebase Omega e levá-la a correr para o hospital militar, onde sabia que tratariam bem dela. Mas até lá a KC teria de ter forças para resistir, e de contar com os conhecimentos médicos do Fish.

Daniel ajoelhou-se do outro lado de KC, e continuou a falar enquanto trabalhava. A concentração na tarefa apodera-se do seu olhar e do seu rosto, que se mantinha semi-envolto por material de penso. Os seus dedos pareciam ter um toque especial, pois manuseavam as agulhas e tubos com destreza e rapidez mesmo quando ele não estava a olhar para o que faziam. Rita não pode evitar sentir medo enquanto Daniel misturava e administrava o conteúdo daqueles soros e seringas a KC. Estaria a ajudá-la ou a tentar matá-la?

“Quanto mais tempo achas que temos?‿ perguntou a Rita. Os seus olhos voltaram a descair para o peito da sargento. Era horrível a maneira como mal se notava a respiração. E KC estava tão pálida! Se perdia a KC logo a seguir à Lily, Rita daria em doida. Não era justo. Teria de confiar na habilidade do Fish; não havia ali mais ninguém capaz de aguentar a KC até ao hospital.

“Muito pouco, Rita, muito pouco,‿ disse Fishburne, enquanto sentia o pulso de KC. Como não estava a olhar para Rita, perdeu o impacto que a sua resposta teve nela. Seria possível que ele ainda não se tivesse dado conta do que KC significava para ela? A preocupação dela não lhe estava estampada no rosto?

Daniel levantou-se. “Vou ao porão ver se há mais alguma coisa de útil no equipamento de emergência. Não te preocupes, querida, vai correr tudo bem,‿ disse Daniel colocando as mãos nos joelhos e inclinando-se para Rita, que continuava ajoelhada ao lado de KC.

Evidentemente Daniel não era o único ali que tinha dificuldade em ler as emoções dos outros, porque Rita só percebeu que ele a ia beijar quando os lábios dele comprimiram ao de leve os seus. Como já era tarde para se desviar, ela limitou-se a ficar o mais quieta possível.

“Volto já,‿ disse Daniel, já a caminho do porão.

Ecos do passado. Volto já, Christine. Rita sentiu-se confusa. O nome odiado que parecia pairar sempre entre ela e o Daniel estava a faltar naquela frase; isso era uma fonte inesperada de alegria, por alguma razão estranha. Mas ao mesmo tempo sentia-se como se tivesse traído a KC ainda por cima com ela ali, mesmo às portas da morte, apesar de não ter feito nada, na realidade. Deu por si a dar graças por ela estar inconsciente e de imediato a sentir-se horrivelmente culpada por sequer ter pensado nisso. É que nem sequer era verdade: preferia mil vezes ter de enfrentar a dor e a desilusão no olhar da KC do que tê-la ali sem forças para sequer abrir os olhos porque se estava a esvair em sangue.

Esta viagem ia ser um calvário. Dividida entre duas pessoas que a amavam, sem saber se uma ia viver ou se a outra teria algum futuro com ela. Como escolher entre dois amores que já lhe tinham salvado a vida pondo em risco a deles? Rita não fazia ideia como, só sabia que bem lá no fundo não queria prescindir de nenhum deles e que isso não seria possível a longo prazo.

Rita trouxe a mão de KC aos lábios e deu-lhe um beijo. “Um dia destes vocês os dois têm de perder essa mania que têm de apanhar balas por mim,‿ disse baixinho, abanando a cabeça.

“Meu Deus,‿ exclamou um dos mecânicos, com o rosto encostado ao vidro de uma das janelas laterais. “Nunca pensei ver o dia...‿

Rita levantou-se tanto quanto podia, sem largar a mão da KC. Ante o espectáculo, esbugalhou os olhos. Era horrível, verdadeiramente horrível.

Na direcção do seu olhar, a dezenas de quilómetros de distância, o cruzador que ficara cortado em dois pela gigantesca explosão da nave do senado mergulhava agora lentamente sobre o planeta. Primeiro uma e depois a outra das metades começou a brilhar, e a precipitar-se na atmosfera criando um autêntico rasto de fogo. A super-estrutura mantinha o seu esqueleto intacto, mas uma míriade de pedaços do revestimento e do interior soltavam-se a cada momento para irromperem em chamas e depois desaparecerem. Quantos milhares daquelas estrelas que brilhavam por um segundo ou dois eram pessoas? Objectos do tamanho de um homem não eram visíveis àquela distância, todos sabiam disso, mas ainda assim o horror da pergunta persistia nas suas mentes. Ninguém teria tido para se salvar nos dois cruzadores atingidos. Para eles não houvera qualquer aviso prévio.

A nave sofreu um solavanco. Alguns objectos soltos rolavam pelo chão. Estavam na re-entrada? Ninguém avisara Rita. E onde estava o seu pai? Procurou-o com o olhar e já não o viu, portanto a menos que estivesse no porão de carga, estava no cockpit, provavelmente a dar ordens ao piloto de improviso que Rita colocara aos comandos.

No fundo da nave, outro dos mecânicos levantou-se e removeu o auricular sem fios que o ligava ao seu equipamento electrónico. “Perdi agora o sinal, por causa da ionização da atmosfera em torno da nave, mas a coisa lá em baixo está a ficar complicada. É a guerra civil. Na cidade, o povo e os rebeldes estão a sair às ruas e a reunirem ânimo para assaltarem os níveis superiores. Quanto à nossa base, é um autêntico teatro de guerra. Algumas unidades fazem parte do golpe de estado, enquanto outras se mantêm leais à Federação. Ninguém parece ter autoridade para impor a ordem. O governo do planeta pulverizou-se junto com o senado, e do movimento golpista ainda nenhum líder avançou para tentar resolver as coisas de outro modo.‿

Todos os presentes se entreolharam. Alguns talvez pensando nos familiares que tinham a viver na cidade ou na base, outros pensando na guerra que os aguardava lá em baixo.

Rita pensava que agora não sabia onde raios ia aterrar. Na Firebase Omega é que não era de certeza, não com a KC naquele estado. Enquanto pensava, ia ser preciso tomar os comandos da nave de novo. Baixou a cabeça até ao ouvido da KC e segredou-lhe: “Já venho, minha querida. Tenho de ir pilotar esta carripana até ao hospital mais próximo, sim? Aguenta mais um pouco, KC, que estamos lá quase.‿ Não tinha a certeza se a KC estava consciente ou não – não parecia ser o caso – mas nunca se sabia, as palavras poderiam chegar até KC e confortá-la de alguma maneira. Plantou-lhe um beijo na face e levantou-se.

Encaminhou-se para o cockpit com um ar decidido. O pai que se atrevesse a impedi-la de buscar socorro para a KC! Porque raio ninguém a avisara que já estavam a entrar na atmosfera? Ia tomar comando da nave e aterrá-la no primeiro hospital que visse. Não, no hospital mais alto que conhecesse! Se a rebelião e o povo iam começar a pilhar pelos níveis de baixo, demorariam ainda a chegar aos níveis mais elevados. Se a Rita conseguisse encontrar um hospital pequeno de ricaços, ou uma clínica que pudessem defender com poucos homens – ela, Fishburne e dois ou três mecânicos, basicamente – poderiam proporcionar tratamento de emergência à KC, talvez estabilizá-la antes de serem forçados a procurar paragens mais pacíficas.

Por enquanto o plano teria de servir.

Entrou de rompante no cockpit. “Porque é que ninguém me chamou?‿

A sua frase ficou meio-perdida no ar, pois o seu pai estava nesse preciso momento a dar uma ordem ao mecânico que detinha os comandos, num tom de voz que era praticamente um berro.

Não me interessa! Eles podem até estar a brincar às guerras nucleares lá em baixo, soldado, mas é para a base que eu quero ir. Alguém tem que pôr juízo nesses renegados! Não vou ficar a assistir enquanto o meu exército se destroi a si próprio!‿

“Mas há fogo anti-aéreo na área e–“ tentou retorquir o mecânico.

“Para a base, soldado. É uma ordem!

Rita olhou de um para o outro em descrédito. Seria possível? Ela tinha a KC a morrer lá atrás e o pai queria meter esta nave quadradona no meio de fogo anti-aéreo? Iam morrer todos! Lançou uma olhadela pelo vidro – ainda estavam muito longe da base, nos primeiros estágios da reentrada, mas já dera para perceber que o caos se apoderara do planeta. Engolindo em seco e vendo que não tinha grande escolha, Rita certificou-se que a sua arma pessoal estava na anca, ao alcance de um movimento rápido. Só então voltou a abrir a boca.

“Eu sou o melhor piloto a bordo, pai. Deixa-me passar,‿ apontou com a cabeça para o lugar do piloto. Que o pai não estava em si já ela conseguira perceber – aliás, desde a morte de Francis, John e Phillip que ele não era bem o mesmo – mas agora teria de dançar na corda bamba com o próprio pai, porque raios a partissem se ela ia meter aquela nave dentro do alcance de fogo da Firebase Omega.

O General Jamieson nem precisou de pensar. Berrou de imediato para o actual piloto “Sai-me já daí seu inútil, deixa isto para quem sabe.‿ O mecânico também não precisou de pensar, levantou-se no instante seguinte e deixou os controlos para Rita. Saiu do cockpit parecendo aliviado, mas não muito.

Rita sentou-se aos comandos da nave, apertou o cinto e colocou as mãos nas alavancas, os pés nos pedais. Pronto, agora a nave era sua. Corrigiu ligeiramente o ângulo de reentrada, numa tentativa de reduzir a trepidação; quanto menos sacudissem a KC lá atrás, melhor. OK, a primeira parte tinha corrido bem; pelos vistos não ia precisar da arma.

“Ah, assim está melhor. Rápido, filha; eles estão a matar-se lá em baixo, preciso de parar isto.‿ disse o pai de Rita. Depois dirigiu-se para o lugar do co-piloto, para se sentar, mas ao ver a mancha fresca do sangue de Lily Wong no assento pareceu reconsiderar a decisão e manteve-se de pé.

Momentos depois ultrapassavam as fases de reentrada e voavam agora já na atmosfera de Éden. O espectáculo era feio. A queda dos cruzadores e de detritos estava a trocar as voltas à meteorologia local; havia tempestades de areia violentas e enormes no deserto. Lá do alto, podia-se ver a cratera gigantesca que uma das metades do cruzador fizera no meio do deserto.

Agora não era o momento de se preocupar com considerações gerais dessas. Tinha o pai a espreitar-lhe por cima do ombro e a querer um destino diferente do dela. Tentaria ir a bem, primeiro. “General, é melhor ir lá para trás,‿ disse, tentando imprimir profissionalismo na voz. “Somos bem capazes de apanhar turbulência, que a coisa está feia, e não o quero aqui aos tombos. Sente-se e aperte bem o cinto de segurança.‿

“Obrigado, filha,‿ respondeu ele. Depois retirou-se.

Excelente. Rita teve vontade de abraçar o pai por nem sequer questionar os motivos dela, mas agora tinha era de pilotar como nunca pilotara na vida. Ao não ter o pai ali apenas ganhara alguns minutos, isso sabia ela bem.

O vaivém mergulhou até aos arredores da cidade, só então nivelando o voo. Rita pensara em manter-se acima dos edifícios mais altos, mas uns pontos móveis no céu e os rastos de fumo que os seus mísseis deixavam fizeram-na descer mais. Antes ziguezaguear entre edifícios do que ser um alvo totalmente a descoberto.

Daniel Fishburne entrou pelo cockpit adentro, agarrando-se aos apoios estrategicamente colocados aqui e ali de cada vez que Rita fazia outro zigue ou outro zague, até que finalmente se pôde agarrar ao assento de Rita.

“O teu querido pai está a dar connosco em doidos lá atrás.,‿ disse ele, aproveitando o tempo entre duas curvas apertadas para colocar uma mão no ombro de Rita e o massajar. “Não está a gostar nada da vista que tem pela janela. Não percebe porque é que não desceste directamente na base. Eu já esgotei as desculpas. Qual é o plano afinal?‿

A mão ao ombro distraíu-a um pouco e fê-la colidir com um placar luminoso. As faíscas de electricidade saltaram por todo o lado. Não que um objecto tão pequeno fizesse diferença àquela nave, mas não se podia deixar distrair daquela maneira, ou da próxima vez poderia ser mais sério. Num recanto remoto do seu cérebro, no entanto, o contacto registou como reconfortante. Rita continuava a gostar do toque do Daniel; isso não augurava nada bom para o futuro.

Rita demorou alguns segundos a responder, tão concentrada que estava no manejo da nave. “O plano,‿ disse por fim, sem tirar os olhos do caminho e com o sobrolho franzido em concentração, “é aterrar num hospital e dar assistência à KC. Raios me partam se meto este cangalho dentro do alcance de fogo da Firebase Omega connosco todos cá dentro. Seria suicídio colectivo.‿

“Bom, motim; posso viver com isso. De qualquer maneira, o teu pai ia-me meter na cadeia outra vez, de certeza. Perdido por cem, perdido por mil.‿

Uma terceira voz fez-se ouvir no cockpit. “Mas qual é o significado disto? Até tu, Rita?‿ O General Jamieson estava à entrada da cabine, com uma mão agarrada a um apoio na parede e a outra a segurar um rifle de assalto, apontado a Rita e Daniel. “Também fazes parte dos traidores? Como é que podes trair assim a memória dos teus irmãos? Como é que podes trair o teu próprio pai?‿

Rita sentiu o estômago contrair-se. Tinha chegado a hora do confronto com o pai e a coisa não ia ser nada bonita. Tirou os olhos do caminho apenas tempo suficiente para olhar para trás e ver o pai armado. Voltou a virar-se para a frente rapidamente, antes que colidisse com algum prédio. Pensou a todo o vapor.

“Não sou traidora, pai, educaste-me melhor que isso.‿ Rita teve de obrigar a nave a mergulhar um pouco para fugir a um engarrafamento. “Não estou a trair ninguém e muito menos a ti, pai.‿ Mais uma pausa para uma guinada. “A Firebase Omega está a disparar sobre tudo o que mexe; nós estamos a mexer e nem somos muito ágeis. Se fôssemos para lá morríamos todos ingloriamente. Não indo directamente para lá estou a preservar a vida de um general que depois possa--‿

Rita viu o perigo um microssegundo antes da luz vermelha no seu painel se ter acendido e o correspondente aviso sonoro começar. Sem qualquer hesitação, sacudiu a nave violentamente e rolou na direcção de um espaço entre duas filas de prédios, numa manobra que qualquer piloto julgaria impossível para um veículo daqueles.

Atrás de si, o seu pai e Daniel voaram em direcções opostas. Uma saraivada de balas disparada acidentalmente da arma do general percorreu os painéis de controlo, e as faíscas irromperam em todas as direcções. Os projécteis faziam ricochete nas paredes e varriam toda a cabina.

O objecto brilhante que Rita tinha visto surgir à sua frente, tentou acompanhar as manobras do vaivém, mas deu demasiada compensação e passou por cima da nave, explodindo um segundo depois contra um edifício. Os estilhaços da explosão do míssil esventraram a nave.

Rita tentou estabilizar o vaivém, mas o máximo que conseguiu foi uma espécie de voo bêbado, com a nave a fugir em três direcções ao mesmo tempo e Rita a ter de dar tudo por tudo apenas para não chocar com as paredes dos prédios e manter a altitude. A nave estava cheia de pessoas que ela amava; era imperativo que conseguisse voar até um bom porto. Doía-lhe o corpo todo.

Atrás de si, Fish e o seu pai pareciam estar vivos, pelo menos. O seu pai tentava levantar-se do chão, mas o chocalhar da nave impedia-o de o fazer. Fish, pelo contrário, já tinha agarrado o rifle e equilibrava-se habilmente com uma mão agarrada à parede enquanto segurava a arma com a outra.

A distracção de Rita, mesmo por aquele breve segundo, custou parte da fachada de vidro a um dos edifícios da rua. A traseira da nave escapara ao seu controlo, tentara assumir a liderança do voo, e arrastara-se ao longo de dezenas de metros contra a fachada do edifício. Rita voltou a conseguir controlar a nave e a trazê-la mais para o meio daquele autêntico desfiladeiro sem fim entre edifícios.

O piloto-automático era para esquecer. Mesmo que o painel de controlo não estivesse naquele estado – completamente morto e destroçado – o computador não seria capaz de manobrar a nave. Alguns dos foguetes direccionais estavam fora de serviço, outros estavam bloqueados em direcção malucas, e os que sobravam só se movimentavam quando Rita empurrava as duas colunas de controlo com toda a sua força. Os sistemas hidráulicos tinham ido pelos ares.

Pior do que isso, ou pelo menos tão mau, Rita estava a perder as suas forças. Sem querer distrair-se outra vez, não olhou para baixo, mas levou uma mão ao estômago por um momento. Foi o suficiente para sentir o seu uniforme molhado e pastoso em redor do seu abdómen. Fora atingida por uma das balas perdidas... e o caso parecia tão sério como o de KC. Que ironia, escapar a tantas balas naquele dia e acabar por ser atingida sem querer pelo próprio pai. Desta vez, pelo menos, ninguém se metera no caminho da sua bala e ninguém mais sairia magoado.

“Merda para isto,‿ disse Daniel, deixando a arma cair no chão. Rita pensou que ele tivesse reparado na ferida ao mesmo tempo que ela, e que a viesse confortar e dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Em vez disso, sentiu-o caminhar até ao local onde o seu pai continuava de gatas no chão.

“Dê cá a mão, general.‿ Fish ajudou o general a levantar-se, e este agarrou-se a ele com força mal a nave deu outro solavanco. Miraculosamente, ambos ficaram em pé. “Acha que agora era má altura para lhe pedir também a mão da sua filha?‿ atirou Fishburne para o ar, e sorriu. Rita estava de costas, e portanto não viu a reacção – com certeza chocada – do pai. Só sentiu, pela milésima vez no último minuto, a nave a sacudir-se toda. “Quando sairmos desta, eu ofereço-lhe um anel e fica tudo oficial, não se preocupe.‿

Fishburne não estava a levar longe demais a sua gracinha? Ou estava a falar a sério? Porque se era esse o caso então tinha um sentido de oportunidade do caraças.

“Muito engraçadinho,‿ resmoneou Rita, tentando disfarçar o ligeiro tremor na voz. Esperou que o atribuíssem ao esforço de controlar a nave e não à dor que sentia no abdómen. Puxou mais uma alavanca à bruta para evitar um carro que caía por entre os prédios. O esforço fê-la ver estrelas. “Larguem mas é a porra das armas antes que atinjam a pessoa errada,‿ acrescentou tarde demais. Podia ser que tomassem juízo e não atingissem mais ninguém.

A sua preocupação original, KC, ainda lhe estava presente no espírito. Com tanto safanão da nave, como estaria ela? Rita só podia fazer o seu melhor aos comandos e esperar que o estrago não fosse muito grande, que ela ainda pudesse ser remendada pelos médicos.

Os edifícios continuavam a deslizar vertiginosamente de ambos os lados do vaivém, e Rita tinha de lutar autenticamente com os controlos para se esquivar às pontes entre os edifícios e às linhas de cabo por onde centenas de carros aéreos circulavam pendurados. Será que ela deveria continuar até ao hospital que tinha em mente ou poisar no primeiro sítio que lhe aparecesse? Na primeira opção arriscava-se a matar toda a gente ali naquele vaivém. Na segunda, e com um pouco de sorte, só deixava morrer KC e ela própria. Se bem que isso lhe pudesse resolver muitos problemas a médio prazo, Rita não estava muito entusiasmada com a ideia de perder a vida.

A nave sacudiu novamente, e Rita sentiu-a querer voltar-se sobre si própria e mergulhar directa ao chão. Lutou contra a gravidade e contra a vontade daquele pedaço de ferro torturado que era o vaivém.

“Vou com o teu pai lá para trás antes que um de nós parta a cabeça. Ficas bem, Rita?‿ perguntou Fishburne. Antes de responder, Rita levou novamente a mão à sua ferida. O sangue continuava a escorrer, e cada gota do precioso líquido levava com ela mais um pedaço das suas forças, da sua vida. Rita estava a ficar enregelada, e cada vez lhe era mais difícil pensar direito. Talvez o tempo que lhe restava fosse o suficiente para chegar ao destino que ela tinha em mente... ou talvez não. A única certeza é que ela era a única ali que podia pilotar o vaivém naquelas condições. Mas será que Fishburne e o pai a iam deixar continuar aos comandos se soubessem?

Provavelmente não. Portanto inspirou tanto ar quanto conseguisse sem lhe doer muito e tentou dar alguma firmeza à voz. “Fico óptima.‿ Duas míseras palavritas e o esforço para que soassem normais fora enorme. A preocupação levou-a a redobrar o esforço com mais uma frase. “Vê a KC.‿

Definitivamente estavam a ficar sem tempo. Estava tanto frio naquele cockpit, de repente, e sentia os braços cada vez mais pesados. Não tardava muito, Rita não seria capaz de reagir a tempo se algum inesperado (míssil, projéctil, carro) lhes atravessasse o caminho. Sentia-se a perder capacidades a olhos vistos. Já só se conseguia focar no caminho e nos comandos. O vaivém, esse, baloiçava por todos os lados. Rita achava que já era fisicamente impossível voar numa linha recta com esta coisa.

Foi aí que tomou a decisão dolorosa. Antes que se despenhasse e matasse toda a gente, Rita teria de poisar à primeira oportunidade viável. Já não se achava capaz de levar aquela lata até à zona fina da cidade; a KC não receberia tratamento numa clínica fina e de facto correriam o risco de serem engolidos pelo motim de rua antes que ela fosse operada. Rita já só rezava que se deparasse com a cruz vermelha que sinalizava os hospitais antes que a nave se desfizesse por completo.

De súbito um raio de luz nas trevas da sua cabeça: os jardins biónicos! Havia um hospital não muito longe, e seria mais ou menos fácil aterrar no meio do jardim porque era um espaço mais desafogado. Pestanejou várias vezes e tentou perceber em que zona da cidade se encontravam. Pareceu-lhe que não estavam longe. Empenhou todo o seu peso para guinar à bruta. Não conseguiu morder um gemido, meio do esforço, meio da dor lancinante na barriga, mas tinha conseguido meter por uma rua familiar. Era só passar este desfiladeiro e estariam na praça dos jardins.

A nave sacudiu violentamente. Rita já nem sabia o que os tinha atingido. Os seus reflexos estavam a ficar lentos e não havia adrenalina que lhe valesse. Mais um gemido por causa do esforço para voltar a endireitar o vaivém e quando deu por si havia uma mancha verde à sua frente. Graças a Deus! Carregou no botão do intercomunicador e desta vez não se deu ao trabalho de disfarçar a voz. Dentro em pouco já não importaria, de qualquer maneira. “Preparem-se... para impacto,‿ avisou.

Apontou a nave para a mancha verde, tão bem quanto conseguiu, e só fechou os olhos quando embateu na cúpula. A nave sacudiu com violência, patinou, girou sobre si própria, embateu repetidas vezes em árvores. Amarrada ao banco pelo cinto de segurança, Rita não pôde fazer nada a não ser agarrar-se à barriga com ambas as mãos.

Quando deu por si, estavam parados. Rita não sabia se tinha desmaiado ou não, nem quanto tempo se teria passado. O seu cérebro parecia embotado, como se a ligação ao resto do corpo estivesse pêrra. As mãos tintas de sangue escorregaram-lhe na rodela de ferro que reunia as quatro faixas do cinto de segurança, e só o conseguiu desapertar à segunda tentativa.

Doía-lhe respirar, porque isso mexia com a ferida de bala, mas na verdade também lhe doía o resto do corpo, tal fora a violência do vôo e da aterragem. Tentou levantar-se mas percebeu que já não tinha forças para isso. Concentrou-se em se inclinar para a frente e para o lado. Se conseguisse sair do assento talvez conseguisse rastejar até lá atrás, até junto da KC... a primeira parte do seu plano correu bem, conseguiu escorregar e estatelar-se no chão. Infelizmente não tinha forças para mais nada, muito menos para rastejar. As suas pálpebras estavam tão pesadas que as fechou e não se voltaram a abrir. Tudo ficou escuro, demasiado escuro.

Ainda ouviu ruídos e vozes distantes (“Rita!‿ gritou ao longe a voz de Fishburne. “Rita!‿ ecoou o grito, agora na voz do pai.). Ouviu passos apressados que se aproximavam, e que ao mesmo tempo ficavam cada vez mais longe. Tudo ficou silencioso, demasiado silencioso.