Os Valdorianos (GURPS Space)

3204: Brasão do Conglomerado

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 3365998/502
Nível de Segurança 4+ – Ultra Confidencial; trechos de um simpósio de iniciação ministrado à 23ª Classe do Círculo Interno Valdoriano, proferida pelo venerável Magus Yeronimus VI a 502.06.16/10.28

AS ORIGENS

Em 2056 A.D., a Terra é um planeta esgotado, sobrepovoado, à beira da catástrofe. Aos graves problemas ecológicos e socio-económicos que a Humanidade atravessava no princípio do século junta-se, em 2034, a Peste Púrpura, uma virulenta praga de origem desconhecida que dizima, em apenas 7 meses, cerca de 2000 milhões de pessoas um pouco por todo o mundo, antes de ser controlada graças aos esforços sobre-humanos da ONU. Os países mais afectados são os do Terceiro Mundo, como era de esperar. E mesmo após a hecatombe, continuam a percorrer a Terra mais de 8 biliões de pessoas. Apesar da esperança oferecida pela colonização do sistema solar interior, a realidade para biliões de pessoas está longe das maravilhas oferecidas pela exploração da Lua, de Marte ou da cintura de asteróides.

A proliferação de armas atómicas a países como o Sudão e a Pérsia ajuda ainda mais a desequilibrar o delicado balanço de forças existente no mundo desde a queda do Bloco de Leste, no final do século XX. Os conflitos mundiais parecem longe de uma solução, e as tensões aumentam com o passar das três primeiras décadas do século XXI, à medida que os recursos se tornam mais escassos, a população global não pára de aumentar e os desastres ecológicos se tornam mais frequentes e graves.

O desastre final para a Humanidade dá-se em 2042, com o estalar da III Guerra Mundial. O que começa por ser um conflito territorial convencional  entre uma China expansionista, desesperada por espaço vital para os seus quase 3 biliões e meio de habitantes, e a Rússia, pela posse dos territórios siberianos e trans-mongólicos, em breve se torna num conflito mais generalizado, à medida que os vizinhos são arrastados para o conflito, primeiro a Formosa e o Vietname, depois a Coreia unificada e o Japão. Com a entrada do mundo Árabe na guerra, os Aliados Ocidentais, encabeçados pelos EUA e pela UE, vêem-se forçados a agir. Assim, em poucos meses, a guerra é geral, e assiste-se ao pesadelo eminente do Holocausto nuclear. Mas decorrerão três longos e penosos anos de guerra convencional até que, em gesto de desespero, a China ataca nuclearmente os seus inimigos. Apesar do espantoso grau de eficácia da rede anti-míssil americana, algumas ogivas escapam à malha protectora e cidades como Nova Deli, Savannah, Kiev e Praga são erradicadas do mapa, juntamente com as regiões adjacentes. Os Aliados respondem com o bombardeamento nuclear de Beijing e Xangai.
Por fim um armistício é assinado em 2045 que põe termo à guerra, deixando para trás 467 milhões de vítimas, uma economia global em ruínas e uma sociedade à beira do caos. As megacorporações multinacionais tomam conta de economias nacionais inteiras e dominam economica e politicamente o mundo nos anos que se seguem à guerra. O continente Africano torna-se um feudo pessoal de meia dúzia de megacorporações. Curiosamente, a ascensão das Mega-Corporações traz um período de paz e relativa segurança a vastas regiões do mundo – ficará conhecida como a Pax Comlegium, uma nova era que assiste ao desaparecimento das grandes super-potências e à balcanização definitiva de um mundo separado por extremos.

A década seguinte vê nascer o ambicioso Projecto Arca, que visa a construção de dez Naves-Arca que se farão ao Cosmos, carregando cada uma no seu interior 100.000 voluntários de todas as nacionalidades, criteriosamente seleccionados. Em 2056, depois de muitas reviravoltas e revezes da fortuna, apenas três das dez originais são completadas, com o alto patrocínio da ONU. Foquemo-nos na nº 7, composta quase que exclusivamente por ocidentais (americanos e europeus) e japoneses, pois a sua construção só foi possível devido ao financiamento exclusivo dos EUA, União Europeia e Império Japonês. Em 27 de Janeiro de 2056, a Arca nº 7, com o seu complemento de tripulantes e passageiros em hibernação criogénica, é lançada de órbita em direcção a Gliese 581 c, a 20.5 anos-luz. Com ela, e as outras que lhe seguirão o rasto, vão as últimas esperanças da Humanidade.

Acelerando constantemente, a Arca nº 7 demora dois anos a deixar o sistema solar. A sua tripulação trabalha por turnos de 3 meses, para impedir o tédio e o envelhecimento precoce de alguns dos seus membros. Mas a esmagadora maioria dos passageiros (gente de todos os estratos e profissões, pioneiros necessários à fundação de uma colónia de sucesso) dorme o seu sono gelado e sem sonhos, à espera do dia longínquo em que despertarão de novo para uma nova vida num planeta distante.

Do desconhecimento geral é a presença na Arca de uma seita secreta de místicos e estudiosos das ciências ocultas, que graças à sua vasta influência trataram de assegurar a sua presença na Arca, vendo esta como uma forma de escapar à Terra decadente e moribunda e criar uma nova sociedade numa terra virgem. Pertencentes a uma pequena e obscura Loja Maçónica denominada Sociedade de Ceres, os seus membros acreditam ser os descendentes ideológicos de Simão Magus, o infame e lendário feiticeiro hermético que terá vivido nos primeiros tempos da Igreja Cristã. Qualquer que seja a verdade, são um grupo de pessoas extremamente influente, culto e dotado de capacidades extraordinárias.

Onze anos após o início da viagem, ocorre o incidente que mudará o curso da História para metade da Galáxia, pois levará directamente à fundação do Conglomerado: o encontro da Arca nº 7 com a singularidade que ficará doravante conhecida como a Porta das Estrelas. A 6 de Junho de 2067, o volume maciço da Arca nº 7 é sugado para dentro de um gigantesco wormhole, a existência dos quais até então apenas teoricamente predita. Como consequência, a Arca é transportada instantaneamente mais de 40.000 anos-luz, até às imediações de um sistema solar desconhecido, no outro lado da Galáxia. As implicações deste acidente são ao mesmo tempo extraordinárias e quase catastróficas. Primeiro, é apenas graças às muitas redundâncias dos vários sistemas da nave que a mesma não se transforma num enorme caixão a flutuar na imensidão do espaço sideral. Mesmo assim, algumas secções das cubas criogénicas são danificadas para além do limiar de tolerância máxima e 321 pessoas em estado de animação suspensa morrem, os primeiros mártires da Grande Viagem, como mais tarde será conhecida esta expedição entre os historiadores do Conglomerado. Além disso, as vastas quantidades de PEM geradas pela singularidade provocam danos irreversíveis nas bases de dados guardadas no mainframe da Arca, e informação e equipamento insubstituíveis são irremediavelmente perdidos.

Mas, de longe, o mais importante evento consequente da passagem pelo sub-espaço é a subtil transformação que ocorre nas mentes de alguns dos tripulantes. Sem o saberem, algumas pessoas tornam-se mais sensíveis aos campos de energia cósmica que percorrem o espaço em todas as direcções e se concentram nos pontos de mais baixa entropia do Universo: a matéria viva. Esta recém-ganha sensibilidade será de enorme importância no desenrolar dos acontecimentos futuros no seio dos pioneiros da Arca nº 7. Entre os afectados contam-se o comandante da Arca, o piloto-coronel americano de ascendência holandesa William van der Lagerfeldt, a engenheira de sistemas canadiana Clara Robertson, o físico francês Claude Chabal (em animação suspensa) e o sociólogo, historiador (e secreto estudante do oculto) inglês Valerian Grey-Perry (também ele em animação suspensa). Será apenas mera coincidência o facto de todos eles serem membros da Sociedade de Ceres?

A tripulação, alarmada, faz activar os sistemas de apoio de emergência e todos os tripulantes de todos os turnos são reanimados. Depois de um conselho de emergência, a decisão é tomada: rumar ao sistema solar próximo. A viagem, que dura mais seis meses, permite aos tripulantes realizar algumas reparações e constatar o seguinte: todos os cálculos levam à conclusão que a Arca se situa no outro lado da Galáxia. É mesmo impossível determinar a posição exacta da Terra, pelo efeito sombra provocado pelo núcleo da Via Láctea. Mais importante ainda, esses seis meses vão assistir à descoberta dos poderes latentes entre os membros da sociedade hermética.

Segundo o antigo Calendário Gregoriano da Velha Terra, a Arca terá aterrado no 3º planeta orbitando a estrela desconhecida a 27 de Dezembro de 2067. Em certos planetas do Domínio Humano mais tradicionalistas, este ainda é um dia feriado, celebrado como o Final do Êxodo. Foi com espanto que os colonos verificaram que o planeta sustinha uma flora e uma fauna bastante evoluídas. Foi o primeiro contacto da humanidade com vida extra-terrestre. Foi também com agrado que se verificou que as bases bioquímicas da vida parecem ser as mesmas em todo o lado, e que eram muitos os mecanismos evolutivos paralelos (como a fotossíntese). Com os anos, esta primeira constatação da universalidade da Vida no Universo levou ao desenvolvimento do embrião da que é hoje em dia considerada a teoria-mãe das ciências biológicas – a Panspermia.

A história dos anos que se seguiram é fácil de resumir: os colonos deram início à construção de uma nova sociedade num planeta virgem e repleto de esperança. Com cuidados extremos, foram sendo introduzidas no ecossistema algumas das espécies trazidas da Terra; foram inventariados recursos, explorado totalmente o planeta em busca de vida inteligente (nenhuma encontrada); foram construídas infraestruturas em torno da maciça Arca, que funcionou como pólo aglomerador da nova Colónia, baptizada Primus pelos colonos. A primeira geração de humanos extra-terrestres nasceu nessa altura. Foram educados de acordo com a filosofia que regia a colónia: tolerância, respeito, esperança por uma nova oportunidade para a humanidade. Infelizmente, grandes quantidades de informação haviam desaparecido com a destruição da mainframe, e em particular os bancos de memória da história da humanidade haviam sofrido sérios danos; como consequência, a riqueza cultural da velha Terra havia-se perdido para sempre: uma geração educada acerca das suas raízes meramente por tradição oral.

Durante estes primeiros 20 anos, os membros da Sociedade de Ceres tornaram-se particularmente activos. Os seus dotados membros rapidamente atingiram posições de destaque na gestão, organização e liderança da colónia, feita nos primeiros tempos de forma marcial antes da instituição de uma democracia representativa funcional. Valerian Grey-Perry estabeleceu os princípios básicos da regência valdoriana futura, e como principal estudioso da Sociedade de Ceres, foi também o primeiro a dar-se conta, logo nos primeiros tempos após o estabelecimento da colónia, das extraordinárias capacidades adquiridas por si ao atravessarem a Porta das Estrelas. Valerian Grey-Perry havia adquirido a capacidade de sentir e manipular essa energia cósmica que passou a denominar de mana. Dedicou o resto da sua vida a instruir os outros membros da sua sociedade nesse dom, procurando os que eram mais dotados. Coligiu os principais tratados de taumatologia e taumaturgia, baseando-se nos seus próprios conhecimentos, nos que havia trazido da Terra e no resultado das suas experiências já em Primus. À sua morte, deixou aos seus seguidores um legado de escritos e manuais ritualísticos bastante completos. O seu nome hermético, Valdor, haveria de ser no futuro o emblema mais visível da sua herança.

Lenta mas seguramente, os seguidores de Valdor, auto-denominados valdorianos em sua honra, começaram, timidamente primeiro, depois com mais e mais segurança, a demonstrar em público as suas capacidades mânicas. E com essas capacidades a sua hegemonia social, se bem que involuntariamente, acabou por se tornar tácita. A Sociedade de Ceres já não existia; havia renascido das cinzas rosacrucianas da sua origem para se tornar no Culto Valdoriano.

A Grande Aliança

 

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)

Departamento de História Valdoriana

Processo 112058/500

Nível de Segurança 3 – Restrito

O povo Phar, originário do sistema estelar de Pharia, foi a primeira civilização alienígena que os humanos valdorianos encontraram após a descoberta da propulsão sub-espacial e o início das primeiras viagens de exploração estelar, a partir de 114 V.T., dando início à criação do Conglomerado.

O contacto deu-se em 167 V.T., numa altura em que os humanos se haviam já espalhado por uma dúzia de sistemas estelares, fundando pequenas colónias em mundos promissores. Havia sido meio século de exploração cuidadosa, lenta e metódica das regiões adjacentes a Primus, a estrela adoptiva dos valdorianos e da Humanidade exilada da Arca nº 7.

A nave de exploração S.F.V. Selmar, comandada pelo capitão Roger Bucko, ao efectuar mais uma expedição de rotina ao sub-sector 13254/QW12, iniciou a exploração do sistema catalogado como nº 65785/19 e baptizou-o de Buckonia.

O sistema continha um planeta onde se havia estabelecido uma colónia avançada An Phar, Fenorra, e foi grande a excitação da tripulação humana quando descobriu que havia sinais de vida inteligente no planeta. O contacto não se fez tardar: saudados por uma nave Phar sem óbvias intenções hostis, os humanos desceram até à superfície do planeta e aí, pela primeira vez na sua História, a Humanidade deparou-se cara a cara com uma espécie alienígena inteligente. Apesar da incapacidade para dialogarem, as duas comitivas foram capazes de entabular algum tipo de comunicação baseada na ciência. A matemática, a física e a química foram usadas como linguagem universal de comunicação, e foi assim que novos contactos foram prometidos de parte a parte. Ambas as partes constataram que a tecnologia do outro era bastante semelhante à sua. Como prova de boa vontade, um membro da tripulação humana, Linda Gyron, exobióloga, ficou na colónia Phar, e da mesma forma Dir-Ro Ser Binor-Lom Phar (que passou para a História como Binor-Phar), sociólogo, acompanhou a Selmar na viagem de alguns meses de volta a Espaço valdoriano.

Era magus na altura Yeronimus I, um homem de visão, moderado mas extremamente consciente da fraqueza inerente à humanidade de Primus face a potenciais encontros alienígenas: o seu reduzido número. Na verdade, nesta altura haveria menos de 2 milhões de pessoas a viver no domínio humano, mesmo com a política de incentivo às grandes famílias que vigorava desde a fundação da colónia e que ainda hoje é apanágio cultural da humanidade um pouco por todo o lado. Ora, nessa altura a população an phar atingia os vários biliões… como é natural, o estigma de minoria racial causou receio aos líderes humanos.

Os contactos iniciaram-se oficialmente com o estabelecimento em Buckonia de um consulado valdoriano em 169 V.T. Esse sistema passou a ser a zona franca de comunicação entre os dois povos. Lentamente ao início, depois mais e mais rapidamente, as duas nações iniciaram um processo gradual de trocas comerciais, culturais e científicas, que se tornou expedito após a descodificação mútua das respectivas linguagens.

Esse processo acelerou-se com o estabelecimento, ao longo dos anos que se seguiram, da 1ª rede RCI (Rede de Comunicações Interstelares), baseada na tecnologia FTL, ligando os mundos das duas civilizações. O Domínio Humano estava agora ligado a Pharia e suas Colónias e a troca de informação atingiu o seu pico com a assinatura do tratado de cooperação académica, os Acordos de Buckonia, que efectivamente levaram ao intercâmbio cultural sem par levado a cabo por estudantes, professores e investigadores universitários humanos e an phar. As semelhanças fisiológicas e psicológicas entre as duas espécies eram tão grandes que o processo de aculturação foi rápido, e o choque cultural para ambos os povos funcionou como um catalisador da mudança de mentalidades, costumes e preconceitos. Ao fim de uma geração, estabelecia-se uma classe de humanos e an phar unidos culturalmente. Tal como para os humanos, também esta havia sido uma clivagem histórica para os an phar, que se haviam encontrado pela primeira vez com vida inteligente. E a intrigante questão das semelhanças fisiológicas e mesmo psicológicas entre as duas espécies levou ao refinar da teoria da Panspermia, que se haveria de tornar, com o tempo, no dogma aceite para o aparecimento e difusão da vida na Via Láctea.

Entretanto, a elite an phar foi lenta e inexoravelmente assegurada da franqueza das intenções humanas graças aos esforços da casta valdoriana; os extraordinários poderes destes últimos levantavam receios entre muitos an phar – foi comum, nesses tempos, muitos an phar deixarem-se impressionar de tal forma pelos poderes valdorianos a ponto de se criarem seitas e outras comunidades menos esclarecidas que viam nos valdorianos uma espécie de mensageiros divinos. Tais comportamentos eram muito criticados pela elite an phar, mas mais ainda pelos próprios valdorianos, receosos das consequências de tais actos.

Em 181 V.T. é assinada entre as duas nações a Carta Universal da Harmonia entre Sapientes, e são criados os primeiros organismos supra-nacionais que estarão na génese do futuro Senado do Conglomerado. O representante Phar, então Presidente do Conselho Cho, Da-Cho-No Lare Dir-Los Phar (Dir da família Lare) assinou o tratado juntamente com o representante humano, o magus Yeronimus I. Entre os dois seres existia uma concordância de ideais e uma mútua simpatia que foi talvez o factor isolado mais importante na criação do Conglomerado. Esse entendimento reflectiu-se nas relações entre espécies. Foi, sem dúvida, um período de ouro na História das relações entre seres inteligentes da Galáxia.

Em 189 V.T. é finalmente pronunciada a Declaração de União, aprovada por referendo universal com mais de 60% de votos a favor. A Grande Aliança e o estabelecimento do Conglomerado Federativo An Phar-Valdoriano marca o nascimento da nossa nação. As eleições gerais para o Senado, ocorridas no ano seguinte, estabelecem o precedente: a ciberdemocracia é implantada no espaço do Conglomerado como forma de governo da federação. Os governos nacionais (o Fórum Valdoriano e o Conselho Cho) continuam a existir, independentes e soberanos.

O planeta Primus

3204

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Geografia e Demografia
Processo 58551/503
Nível de Segurança 0 – Público
 

PRIMUS, para além de ser o centro do Domínio Humano, é um dos dois planetas-capital oficiais do Conglomerado (o outro é Pharia, o planeta-mãe dos An Phar), o que faz dele um dos centros nevrálgicos de uma das maiores e mais poderosas nações galácticas conhecidas. A Velha Terra é uma lenda, motivo favorito de discussão entre arqueólogos e historiadores, e é bem sabido que Primus não é o lar ancestral da espécie humana. Mas as suas características geológicas e biológicas são muito semelhantes. É certo que os fundadores de Primus eram terráquios vindos da Velha Terra e enviados para o cosmos em grandes naves-arca, especulando os cientistas que as causas terão sido a degradação do ecossistema terrestre, a guerra ou o excesso de população, ou uma combinação destes e de outros factores. Seja como for, à volta de Primus gravita a mais velha nação humana conhecida, cujas origens remontam a mais de cinco séculos no passado, e que outrora abarcou no seu extenso abraço toda a humanidade e muitos alienígenas.

Várias megalópoles cobrem grandes áreas da superfície planetária, albergando milhões de cidadãos; a maior destas, a Cidade de Valdor, é dominada pelo Fórum Valdoriano, enorme complexo-fortaleza de onde, em tempos idos, o Magus Valdoriano governava os seus pares. Agora é o principal centro de poder do Domínio Humano e sede dos orgãos de governo e de uma miríade de outras instituições humanas, e por tradição a cadeira ocupada pelo magus continua hoje em dia, vazia, a presidir às reuniões do Concelho que governa a humanidade. O Fórum é também a sede nominal da Legião, a elite casta guerreira humana.

Além de ser um dos mais importantes centros de comércio da Galáxia, Primus é também um centro de conhecimento e estudos (aí se situa a sede da Primeira Universidade), ponto fulcral da máquina de guerra valdoriana, com grandes estaleiros e arsenais a orbitar o planeta, para além do próprio quartel-general da Esquadra de Guerra Valdoriana. É incontável o número de naves e gentes de todas as espécies do Concelho Galáctico que todos os dias vão e vêm de Primus de e para os quatro cantos da Galáxia conhecida.

Em Primus situa-se a sede da gigantesca Corporação Synthmech, uma empresa multiestelar especializada em engenharias robótica e de FTL e que se dedica também a inúmeros outros campos da indústria e serviços.
O planeta é palco, naturalmente, de grande actividade política - todas as facções humanas procuram exercer pressão sobre os agentes do Fórum Valdoriano de modo a avançar as suas respectivas agendas; desde o fim da Guerra Negra, há 15 anos, que se vive um clima tenso no Conglomerado e em particular no Domínio Humano. Muitas províncias rebeldes esquivam-se às suas obrigações para com o Senado, e a guerra dentro de fronteiras é tem sido esporádica mas constante: foram muitos os sistemas que se declararam independentes após o fim brusco do conflito com os Kaa, devido à debilidade das forças do Conglomerado.

Especula-se que a Organização, o sindicato do crime galáctico, possui uma extensa rede de operativos e informadores no planeta.

Primus é muito semelhante à Terra em termos de biosfera e clima. Os seus continentes, nas zonas não urbanizadas, albergam grande variedade de vida animal e vegetal tanto nativa como introduzida de outros sistemas do Conglomerado e até algumas trazidas da Velha Terra.

O planeta Yuria

3204
Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Geografia e Demografia
Processo 57591/503
Nível de Segurança 0 – Público
 
O sistema de Arani é o lar dos Cidi, os mais pequenos alienígenas sapientes da Galáxia conhecida. O segundo planeta que orbita esta estrela, Yuria, é o mundo-mãe destes pequenos roedores. Todo o planeta é densamente habitado, com muitos aglomerados populacionais a espalharem-se pelos territórios dos diversos clãs Cidi, sendo Koku a maior megalópole e efectivamente a capital planetária. A nação Cidi é pacífica e boa vizinha, e o planeta-mãe de Yuria é uma terra calma onde os habitantes vivem em harmonia com o seu meio.
Descoberto há 410 anos-padrão pelas forças valdorianas do Conglomerado, o povo Cidi juntou-se de bom grado à comunidade galáctica promovida pela hegemonia An Phar-Humana, reconhecendo a superioridade desta e tomando desde logo parte activa na política e vida económica do Conglomerado, enquanto Estado cliente.
Quando descobertos, os Cidi possuíam já tecnologia STL e exploravam activamente o seu sistema, e é possível que, com o tempo, pudessem ter alcançado, sozinhos, os segredos da tecnologia de propulsão hiperespacial. Após se tornarem num Estado cliente do Conglomerado, demoraram pouco tempo a absorver a cultura e os avanços tecnológicos humanos e an phar, tornando-se súbditos exemplares. Mantendo a sua autonomia e o seu governo, iniciaram a exploração e colonização de outros mundos, sob a tutela do Fórum Valdoriano. Após as Guerras Verm foi-lhes concedido o merecido estatuto de Cidadãos do Conglomerado.
Com o advento da Guerra Negra, os Cidi tornaram-se inimigos viscerais dos Kaa, já que uma das mais repugnantes características destes é inexistência de tabu quanto ao consumo de outros seres sapientes, e em particular a tendência em considerarem os Cidi como excelentes petiscos.
Mantendo-se à margem das rebeliões que entretanto alastraram pelo Domínio Humano, têm conseguido manter um invejável nível de prosperidade e paz.
Hoje em dia, Yuria continua a reconhecer a hegemonia do Senado do Conglomerado e é membro do Conselho Galáctico; de notar, no entanto, que muitos mundos colonizados pelos Cidi são independentes ou parte integrante de outras estruturas políticas, como é o caso das Colónias Cidi da Aliança do Quadrante 20, na Fronteira.
Yuria é a sede de várias mega-corporações, atraídas por um regime fiscal muito vantajoso, como é o caso da gigante Suki Corp., uma empresa multiestelar dominada por Cidi e que se dedica às tecnologias de ponta (informática e electrónica). A Megatronic, outra gigante galáctica, possui aqui as suas mais importantes infra-estruturas de I&D, dedicadas principalmente às tecnologias de comunicação. Em Yuria localiza-se também a sede da CRL, a Liga dos Direitos Cidi, uma organização de activistas que luta pelos direitos dos Cidi à não-discriminação.
O planeta é rico em recursos e é um grande produtor agrícola. A grande estação orbital X-Yuria, adaptada às necessidades das espécies de maior estatura, é um famoso centro cosmopolita de comércio, e onde se encontra praticamente toda a população não-Cidi do sistema, já que na superfície do planeta existem poucas estruturas capazes de albergar confortavelmente seres maiores que os pequenos Cidi.
A Força Espacial de Defesa Cidi corresponde ao braço armado do governo, sempre a postos para defender os interesses dos seus concidadãos.

Organização do Conglomerado

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Sociologia Política
Processo 584421/469
Nível de Segurança 0 – Público

ESTRUTURA POLÍTICA DO CONGLOMERADO

O Conglomerado é uma nação federativa, que assiste a uma clara dominância racial por parte de an phar, pelo seu poder económico e pró-actividade cultural e política, e de humanos, devido ao seu espírito de corpo, elite valdoriana e sentido de Destino Manifesto. É uma ciberdemocracia republicana laica (ver entrada sobre a ciberdemocracia no Conglomerado) que não reconhece títulos nobiliárquicos hereditários (usados na mesma por questões tradicionais e culturais).

Um dos pilares da federação é a Constituição do Conglomerado, elaborada sobre os fundamentos da Carta de Harmonia entre Sapientes.

O Senado do Conglomerado, a assembleia supranacional com poderes legislativos e executivos, é composto por um corpo de 5000 representantes eleitos por sufrágio directo das mais diversas proveniências. O Senado não tem um presidente, mas sim uma comissão moderadora eleita pelos próprios senadores. Uma vez que a eleição de um representante se prende com uma série de factores como grau de cidadania, população, nível tecnológico, etc., é normal planetas, sectores e regiões inteiras unirem-se em lobbies na defesa de interesses comuns. Os representantes, assim unidos por lobbies ou partidos, dividem-se grosseiramente em progressistas e conservadores, com várias facções.

O Senado, além de elaborar e promulgar leis federais, tem o poder de declarar guerra e é responsável pela eleição do Conselho Judicial do Conglomerado, que por sua vez rege os tribunais federais locais, com jurisdição supranacional. O Senado elege ainda o Secretário-Geral da ASIC, os serviços de espionagem e inteligência do Conglomerado.

As Comissões do Senado são criadas de forma ad hoc para servirem na gestão do dia-a-dia dos mais diversos assuntos do Conglomerado, e são de facto uma espécie de ministérios com poderes mais ou menos amplos.

As organizações federais presentes por todo o território do Conglomerado e sob comando directo do Senado são:
- Tribunais Transestelares
- Rede Interestelar de Comunicações (RIC)
- Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
- Serviços Postais Federais
- Patrulha Estelar
- Esquadra de Guerra do Conglomerado

É normal a presença na maior parte dos sistemas constituintes de um representante oficial do governo federativo, i.e. um cônsul, com poderes plenipotenciários nas colónias (i.e. sob administração directa do Senado) mas meramente administrativos nos domínios dos constituintes. Estes governadores locais têm acesso a recursos federais, como os efectivos da Patrulha Estelar ou da Esquadra de Guerra, e regem nominalmente os tribunais federais, as filiais da ASIC e outras manifestações do poder federal.

Estruturas ditas “nacionais” são mantidas e os povos constituintes autogovernam-se; cidi, humanos e an phar, em particular, são nações independentes em praticamente todos os aspectos. Com as suas próprias leis e forças paramilitares, cada povo constituinte gere os seus assuntos localmente de acordo, na maior parte das vezes, com tradições e sobre estruturas antigas de séculos.

ESTRUTURA MILITAR DO CONGLOMERADO

O Senado controla a Esquadra de Guerra do Conglomerado quer adjudicando os seus budgets quer elegendo os seus líderes. A frota é responsável pela manutenção da paz dentro das fronteiras federais e pelo domínio e superioridade aeroespacial em tempo de guerra; conduz regularmente exercícios de treino, acções anti-pirataria e patrulha dos mundos estratégicos, das rotas sub-espaciais mais importantes e das regiões fronteiriças. De dimensões impressionantes, é de longe a mais poderosa força militar da Galáxia. As suas bases espalham-se pelo espaço do Conglomerado e os seus membros provêm de todos os seus mundos, com um claro ênfase para o corpo de oficiais, claramente dominado pela humanidade. É a única força naval com capacidades FTL permitida dentro do Conglomerado, e um dos pontos mais importantes aquando da entrada de um novo mundo na federação é a rendição de todas as suas forças navais e respectiva inclusão na Esquadra. É uma velha tradição naval que a tripulação de dado vaso de guerra seja recrutada toda do mesmo planeta ou sector, por questões de moral e esprit de corps.

A Patrulha Estelar corresponde a uma força policial paramilitar, sob tutela do Senado e com jurisdição federal sobre todo o espaço do Conglomerado e responsável pelo patrulhamento e inspecção das rotas estelares, acção fiscalizadora e exploradora (com um ramo especializado para tal fim). Apesar de nominalmente ser um ramo da Esquadra, a Patrulha goza de grande se não mesmo total independência operacional em tempo de paz. Composta maioritariamente por veículos espaciais STL (naves de defesa e patrulha de sistema, caças, veículos de inspecção alfandegária, etc.), possui no entanto alguma capacidade FTL, em particular o ramo de exploração espacial.

No Conglomerado, as forças militares baseadas em terra resumem-se às FDP’s, as Forças de Defesa Planetária e à Legião. Em ambos os casos não estão sob o controlo do Senado mas sim das autoridades locais, no caso das FDP’s, e da Casta Valdoriana, no caso da Legião.

As FDP’s são milícias e reservistas, encarregues da manutenção da paz nos seus territórios e defesa do planeta em caso de ataque. A sua composição e número é variável consoante o local de origem, espécie e nível tecnológico, mas são sempre mantidas e equipadas pelas autoridades locais. Mesmo uma entidade privada pode ter o seu próprio grupo armado, desde que justifique a presença das tropas perante as autoridades locais e/ou federais. Regra geral, as FDP’s são estáticas e de qualidade irregular.

A Legião é uma organização humana, sob controlo valdoriano, composta por meta humanos criados especificamente para o combate. É o braço armado do Senado a título oficioso, e é responsabilidade da Esquadra transportar a Legião para os teatros de guerra onde é necessária. A Legião surgiu da necessidade de guerreiros de elite durante as Guerras Verm e é uma das faces visíveis do orgulho humano dentro do Conglomerado. Em tempo de paz, a Legião cinge-se ao Espaço da Legião, um conjunto de mundos de acesso restrito nas fronteiras do Conglomerado, próximo do Núcleo Galáctico e da Vastidão.

Os Magus

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 8852/504
Nível de Segurança 5 – Ultra Confidencial


OS MAGUS VALDORIANOS

A divindade da pessoa do Magus, depois de ter sido declarada por Rebecca MacCormick, a veneranda e carismática primeira mulher magus (conhecida pela história como Hemonidae Virgo I), no Concílio de Velenuevo em meados do século XXII (154 V.T.), não era colocada em causa sob pena de exílio, tal era a lei no primeiro século de existência do Conglomerado; esta premissa afectava apenas humanos e não se aplicava aos outros, muito mais numerosos cidadãos da Nova Civilização, os An Phar. Este estado de coisas seguiu-se ao período de extrema espiritualidade que se seguiu ao final da exploração de Primus, e que desembocou no reforço de poderes da casta valdoriana, que há décadas vinha construindo a sua base de poder entre a humanidade exilada da Arca nº 7, antes ainda do Primeiro Contacto, o fatídico encontro entre humanos e An Phar. A própria casta atingiu nesses anos níveis de poder nunca antes imaginados, e a sua liderança era incontestada. Data desta altura a insidiosa e duradoura filosofia que ainda hoje marca os elementos mais chauvinistas da Humanidade: o Destino Manifesto da Humanidade, os humanos vendo-se a si próprios como a espécie destinada a governar o Universo.

Mas após as Guerras Verm (237 a 249 V.T.), esse período traumático e sangrento da história dos povos, e com a coincidente abertura da Nova Fronteira à exploração do Conglomerado, um dos maiores acontecimentos após a invenção da propulsão hiperespacial viria a abalar as fundações do Conglomerado: a descoberta das primeiras ruínas das velhíssimas civilizações dos Antigos, com os seus artefactos tecnologicamente miraculosos, deixados por povos de outra era e ciência superior (ou assim pensavam os xenoarqueólogos de então).

Um dos primeiros efeitos destas novas descobertas (e da tecnologia miraculosa que lhe estava subjacente) foi o desmistificar das cerimónias de enaltecimento do regime, então muito comuns e responsáveis pelo temor e respeito que todos os seres votavam aos valdorianos. Mesmo após a série de acções levadas a cabo por estes de modo a isolar todas as ruínas dos Antigos conhecidas, a degradação da imagem sagrada do Magus tinha já atingido um ponto irrecuperável. Assim, lentamente, e a partir da década de 260 V.T., as outrora famosas cerimónias de agraciamento público em que os valdorianos praticavam as suas artes deslumbrantes face a um povo embasbacado, deixaram progressivamente de ter lugar. O processo culminou em 271 V.T., ano em que a figura do Magus foi oficialmente extinta, permanecendo apenas como uma representação simbólica e cultural da unificação humana. O último dos Magus, Yrius III, morreu serenamente com 98 anos em 294 V.T., e desde essa altura nunca outro se tornou a sentar à cabeceira do Fórum Valdoriano, o organismo que ainda hoje governa os 5.000 clãs humanos.

Muitos historiadores alegam que a degradação do papel do Magus há muito havia começado, após a Grande Aliança, a declaração da criação do Conglomerado Federativo An Phar-Valdoriano, em 189 V.T., e da importância que este povo desde sempre teve na vida política, cultural e económica do mesmo. Na realidade, o papel começava já a ser apenas um de fachada, uma espécie de aposentadoria para lordes valdorianos em fim de vida, sem implicar grande poder político. Esta queda de estatuto começou a evidenciar-se a partir da fundação do Fórum Valdoriano em 147 V.T., um corpo de representantes que governava a colónia humana ainda em Primus no período pré-contacto.

Mas ao contrário do que é conhecimento comum da maioria dos cidadãos da Galáxia, a pessoa do Magus nunca deixou de existir. Em particular a partir das Guerras Verm, assumiu nova e duradoura importância, reunindo à sua volta todas as diferentes facções valdorianas e criando a Legião. O primeiro dos Magus Sombra, desconhecidos do público em geral, foi Yeronimus IV (Karl van der Flaagen), eleito pelos seus pares em 312 V.T. Desde esse tempo, todos os Magus Sombra têm cumprido, com maior ou menor grau de sucesso, a sua missão de estabilização e defesa (fundamentalmente defesa) do Conglomerado, aproveitando o seu anonimato para maior autonomia e eficiência. As Guerras Verm vêem também nascer a Legião, a elite da elite, a mais poderosa casta guerreira da Galáxia, criação valdoriana assente sobre as lições tiradas das lutas fratricidas com os rebeldes kranoritas e a única arma que em última análise permite vencer a ameaça alienígena sem os custos insustentáveis inerentes à destruição total de planetas inteiros; e é a Legião que se torna rapidamente no símbolo vivo do assombroso poderio humano, espécie diminuta em número mas sem paralelo nas suas capacidades. E é assim que, tranquilamente, os magus desaparecem da arena pública para se tornarem notas de rodapé nos arquivos de História.

Lentamente, toda a casta valdoriana seguiu o exemplo do Magus, assumindo papéis públicos cada vez menos relevantes e passando a actuar cada vez mais discretamente na construção do seu grande desígnio de uma nação multirracial, tal como o grande Valdor havia predito…

Quando a ameaça Kaa invade a Fronteira e precipita a Guerra Negra (478 – 488 V.T.), fez-se preceder por uma ofensiva psíquica de enormes proporções. Esse ataque anulou as defesas valdorianas, e muitos desta casta foram mortos de imediato. Entre os desaparecidos contava-se o próprio Magus, o venerando Yrius IV (Rudolph Laplace-Oshimara). O massacre das suas fileiras só foi parcialmente recuperado quase uma década depois, e foi esta a principal razão pela qual os exércitos Kaa marcharam com relativa facilidade primeiro pela Fronteira e depois pela Periferia do Velho Império, apesar da fanática e feroz resistência oferecida pela Legião.

Mas após o armistício seguiu-se um período de recuperação, e o novo Magus Yeronimus VI (Kurt Luís Schreck, eleito ainda durante a guerra), parece ser um homem capaz e eficiente.

Por tradição, a cadeira que seria preenchida pelo Magus à cabeceira do Fórum Valdoriano ainda hoje é mantida vazia, um símbolo que recorda a todos a importância que os Valdorianos tiveram (e continuam discretamente a ter) na vida da humanidade.
Segue-se a lista dos Magus que governaram a Casa Valdoriana desde a fundação da colónia em Primus pelos exilados da Arca nº 7. As datas são dadas em V.T. (após o nascimento de Valdor, o mítico 1º Magus):

NOME - NOME DE NASCIMENTO - NASCIMENTO/MORTE - PERÍODO DE REGÊNCIA

Valdor, Valerian Grey-Perry, 0 – 86 V.T. --- 77 – 86 V.T.

Ganadior I,  Claude Chabal,  16 – 93 V.T. --- 87 – 93 V.T.

Período Democrático, 93 – 101 V.T.

Yrius I, William Smithson, 71 – 148 V.T. --- 101 – 148 V.T.

Hemonidae Virgo I, Rebecca MacCormick, 98 – 165 V.T. --- 148 – 165 V.T.

Yeronimus I, Tomas Kubilius, 123 – 193 V.T. --- 165 – 193 V.T.

Yeronimus II, Raymond Tanaka, 136 – 201 V.T. --- 193 – 201 V.T.

Hemonidae Virgo II, Ilda Ramosvki, 156 – 238 V.T. --- 201 – 238 V.T.

Yrius II, Ferdinand Tagliari, 175 – 243 V.T. --- 238 – 243 V.T.

Yeronimus III, Xano Ruiz, 192 – 258 V.T. --- 243 – 258 V.T.

Yrius III, Jon Bosch, 196 – 294 V.T. --- 258 – 294 V.T.

Tempo das Sete Facções; começo da Regência dos Magus Sombra, 294 – 312 V.T.

Yeronimus IV, Karl van der Flaagen, 256 – 374 V.T. -- 312 – 330 V.T.

Ganadior II, Turgen Hashimoto, 279 – 365 V.T. --- 330 – 365 V.T.

Silyria Maxima I, Emma Castello-Valdez, 286 – 374 V.T. --- 365 – 374 V.T.

Bethnab Cruxicus, Linda Jensen, 310 – 386 V.T. --- 374 – 386 V.T.

Silyria Maxima II, Hanna Sharp-Düsingen, 321 – 397 --- V.T. 386 – 397 V.T.

Ganadior III, Lupo Thorson, 339 – 402 V.T. --- 397 – 402 V.T.

Hemonidae Virgo III, Alma Fiaz-Gogol, 350 – 413 V.T. --- 402 – 413 V.T.

Yeronimus V, Gregor Jones-Marquez, 362 – 451 V.T. --- 413 – 451 V.T.

Ganadior IV, Juan Smith, 384 – 459 V.T. --- 451 – 459 V.T.

Helion, Udo Davidson, 391 – 467 V.T. --- 459 – 467 V.T.

Yrius IV, Rudolph Laplace-Oshimara, 402 – 478 V.T. --- 467 – 478 V.T.

Guerra Negra, 478 – 488 V.T.

Yeronimus VI, Kurt Luís Schreck, 451 V.T. – actualidade --- 482 V.T. – actualidade

A Revolta Kranorita

3204

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 8551/471
Nível de Segurança 3 – Restrito
 
 
Durante a progressiva e inexorável colonização do sistema Primus pelos descendentes dos colonos da Arca nº7, assiste-se a um aumento substancial do interesse nas ciências biológicas, devido às exigências de adaptar a forma de vida essencialmente alienígena que é a humana ao novo habitat onde se encontra. Não nos esqueçamos que a humanidade é pela primeira vez confrontada com a existência de vida extra-terrestre - essa exposição alterou para sempre a nossa percepção do Universo e criou as bases para um dos preceitos base da ciência, a ideia da Panspermia, e de que a Vida na galáxia partilha, no seu âmago, das mesmas bases e possivelmente das mesmas origens.

No espaço de uma geração estabelecem-se entrepostos nas profundezas do espaço interplanetário e nos outros planetas não habitáveis de Primus. Colónias e estações de investigação surgem rapidamente por todo o sistema, nos planetas exteriores, gigantes gasosos e na nuvem de Oort; com essa expansão surgem rapidamente novos e grandes desafios, que exigem respostas cada vez mais sofisticadas para suportar e melhorar a capacidade de trabalho e sobrevivência das pessoas em ambientes hostis como gravidade zero, elevados níveis de radiação, etc. Problemas de teor essencialmente fisiológico levam ao desenvolvimento sem paralelo da modificação genética dos especialistas que passam mais e mais do seu tempo no espaço sideral. O nascimento das primeiras crianças no espaço e a subsequente habitação permanente em colónias espaciais leva a que este desenvolvimento se torne rapidamente rotineiro.

Ao mesmo tempo, um governo unificado e democrático acolhe a ascensão meteórica da casta valdoriana, que em menos de 15 anos após a criação da Colónia de Primus se estabelece como a força política dominante, graças aos manifestos e extraordinários poderes mentais exibidos pelos seus membros, que se arvoram guardiães e protectores da Arca nº7, vista, de certo modo, como um novo começo para a Humanidade, uma nova oportunidade. A esperança na capacidade de evitar os erros da Velha Terra permeia todas as actividades, todos os esforços daqueles que, efectivamente, se sentem e consideram os Novos Patriarcas.

Grigori Kranor é um brilhante biólogo e geneticista russo, um dos pioneiros que faz a viagem desde a Velha Terra, e um dos mais importantes proponentes da modificação genética radical dos seres humanos como forma de adaptar, evoluir e suplantar as capacidades e/ou defeitos inerentes à nossa espécie; advoga os mesmos princípios relativamente à restante vida. Um existencialista e utilitarista, acredita que a capacidade de iniciativa e a responsabilidade de cada indivíduo suplantam quaisquer leis de um estado organizado. Crê que cabe a cada um criar a utopia, que o bem comum reside na capacidade de cada um se ultrapassar e reinventar. É um homem motivado pela fé sem paralelo na ciência, no individualismo e na infinita capacidade de adaptação da Humanidade à adversidade. E vê a genética como a ferramenta. É, em última análise, um anarquista. E é em seu torno que se reúne a Escola de genética que aprofundará a especialidade para além do imaginável.
Entre o tempo que medeia o início da exploração espacial e o primeiro contacto com os An Phar, o número de metahumanos - como começam a ser conhecidos os humanos nascidos com modificações genéticas substanciais - aumenta prodigiosamente; claramente, faltou aos responsáveis pela coordenação e gestão da exploração espacial a visão necessária para vigiar e controlar a mesma. Por falta da dita regulação, (não esqueçamos que, nesses tempos pioneiros, a exploração estava na maior parte dos casos nas mão de privados), a clonagem é usada para suplementar o número de pessoas disponíveis para a conquista do espaço.

As modificações tornam-se, muitas vezes, tão substanciais que os humanos resultantes já não são capazes de sobreviver em condições normais de atmosfera, luz e gravidade, e a maior parte passa as suas vidas inteiras no profundo do espaço. A situação torna-se conflituosa apenas a partir do momento em que algumas "linhas de investigação" se revelam perigosamente desequilibradas e erráticas; a intervenção do Fórum Valdoriano, o corpo regente de Primus, vem já tarde e a opinião pública divide-se quanto às restrições e controlos a impor à modificação genética e à exploração espacial associada. Os benefícios da mesma são inegáveis, à luz das inovações técnicas e da exploração de recursos que de outra forma teriam levado muitas décadas a conseguir, mas muitos questionam a ética e a moralidade, até a própria humanidade, destes ciborgues, estes humanos modificados, os metahumanos, os transhumanos.

Este conflito está bem retratado pelas rebeliões dos Alfas e Alfas+ (as então novas linhagens genéticas usadas na perigosa exploração de gigantes gasosos e extracção de CCS) de 126 V.T., que degeneraram numa série de motins motivados pelas condições de trabalho e suposta utilização irresponsável da mão-de-obra como "trabalho escravo dispensável" (nas palavras dos líderes do motim). A desordem civil durou seis semanas e resultou em mais de 135 mortos e centenas de feridos, para além da destruição do cargueiro HTV Aeos - com morte de toda a tripulação - e obrigou à utilização, pela primeira vez na história da colónia de Primus, de força letal sobre os manifestantes de modo a repor a ordem.

Esta discussão floresce e diversifica-se ao longo dos anos seguintes. É de reconhecer que, em última análise, a descoberta da propulsão hiperspacial resulta indirectamente do enorme trabalho realizado apenas graças aos transhumanos. Na verdade, com o passar de duas gerações, muitos são os que consideram haver duas humanidades: a linha basal e os transhumanos, agora chamados kranoritas por causa do principal defensor e investigador da causa transhumana, Grigori Kranor. Kranor, agora um homem centenário (a utilização dos primeiros anti-agáticos teve na sua pessoa uma cobaia entusiástica), reúne à sua volta uma cada vez maior legião de seguidores da causa transhumana; as suas opiniões carregam um enorme peso, os seus livros são bestsellers, as suas palestras atraem milhares. O seu nome passa a ser sinónimo da causa da modificação genética humana e da investigação genética em geral.

Em 167 V.T. dá-se o contacto com os an phar. Esta é a marca de água que define todo o pensamento humano posterior, e o impacto na sociedade de Primus é avassalador, como é de esperar. A evolução cultural e a aproximação entre aqueles que se tornarão nos membros fundadores do Conglomerado culmina com a Declaração de União de 189 V.T. Uma das muitas consequências do contacto é o acalmar das tensões entre os kranoritas e as outras facções humanas; seguem-se anos de renovada e contínua exploração, comércio e expansão espacial. Os números kranoritas atingem os milhões graças à clonagem radical.

As tensões ganham novamente expressão e ímpeto com a proibição de investigação genética futura decretada pelo Fórum Valdoriano em 203 V.T. A lei, que procura conter os excessos da alteração radical do genoma humano e da linha basal, e que vem ao encontro do pensamento corrente na época acerca dos limites naturais do ser humano, gera enorme controvérsia entre as comunidades kranoritas espalhadas pelo espaço. Muitos consideram que a única forma de evitar uma inexorável erosão do seu estilo de vida, das suas escolhas morais e éticas é simplesmente abandonar o Fórum Valdoriano e assim, efectivamente, cometer secessão.

A gota de água que leva ao conflito aberto é habitualmente considerada como sendo a greve de 205 V.T. dos transportadores de terras raras no sector de Serveronius, que rapidamente mobiliza outras corporações dominadas por kranoritas. Com medo das consequências de uma repressão idêntica à da rebelião dos Alfas, o governo humano vive paralisado pela inacção durante meses, o que permite aos kranoritas granjear mais e mais apoio para a sua causa. A neutralidade do Concelho Cho dos an phar é contraposta pelo apoio de muitos indivíduos dessa espécie à causa kranorita. A escalada militar valdoriana acaba por estremar as posições; todo o sector vive um clima de lei marcial, e em 206 V.T. o conflito armado irrompe com um ataque terrorista por parte de uma organização libertária kranorita radical contras as forças armadas valdorianas, que apesar de repudiado por todos os quadrantes políticos dentro do Conglomerado, incluindo o recém-criado Comissariado Transhumano, não impede que a resposta valdoriana que se segue seja rápida e violenta.

Pode-se no entanto argumentar que a verdadeira causa do conflito reside na descoberta - por parte da célebre equipa de investigação fundada por Kranor (o Grupo de Estudos Genéticos Avançados), Kranor esse entretanto desaparecido desde 199 V.T. após um misterioso acidente nos laboratórios de genética da Primeira Universidade - do gene Anti-Psi, que permite granjear, através da sua manipulação, um certo tipo de imunidade aos poderes mentais dos magus valdorianos. Confrontados com uma ferramenta que poderá desequilibrar definitivamente o status quo estabelecido no Domínio Humano, a casta valdoriana pode simplesmente ter decidido actuar desarmando a ameaça e declarando os kranoritas apóstatas e inimigos da humanidade.

O resultado, de qualquer modo, é uma guerra civil. A guerra civil que definirá o futuro da(s) humanidade(s). A antipatia gerada por anos de subtil propaganda cultural por parte do mainstream leva a que os kranoritas sejam vistos pelos restantes cidadãos como gente assustadora, estranha, até mesmo monstruosa e menos que humana. As suas comunidades são perseguidas e escorraçadas. As posições radicalizam-se: muita gente lembra os propósitos dos seus antepassados da Arca nº7, que criaram em Primus uma nova oportunidade para evitar os erros da Velha Terra, e recusa-se a alinhar num discurso de ódio. Mas muitos são levados pelo medo e por décadas de desconfiança crescente. Do lado kranorita há igualmente grandes clivagens, dado que uma proporção minoritária mas muito activa (e particularmente belicista) considera que o transhumanismo é a última fronteira na evolução da humanidade e a linha basal é primitiva, obsoleta e dispensável - redundante e a caminho da extinção...

Os kranoritas defendem-se levando a cabo uma guerra de guerrilha e actos considerados terroristas, justamente lutando por aquilo que consideram ser uma "guerra de libertação". Estão mal organizados e mal equipados, mas lutam com grande fervor. As forças militares valdorianas procuram encurralar e quebrar os protestos e os motins, criando "reservas" onde comunidades inteiras de dissidentes são realojadas e internadas. Em menos de dois anos o conflito, apesar de resumido até aí a acções de guerrilha e subsequente resposta militar valdoriana, espalha-se a todo o espaço humano e até mesmo a alguns sectores an phar (muito an phar lutam de ambos os lados); os kranoritas tornam-se mais e mais bem organizados e equipados, e tornam-se mais arrojados. Os que não estão internados fogem para os confins do espaço, o seu lar natural. Tornam-se esquivos e fugidios. Mas não são capazes de travar a máquina de guerra valdoriana. O conflito acaba bruscamente com a vitória valdorina na Batalha de Fergel IV em 210 V.T., na qual a quase totalidade das forças kranoritas irregulares é destruída pela esquadra valdoriana; no entanto, o lamentável massacre que se segue é duramente criticado pelo próprio Fórum Valdoriano, e a vitória militar transforma-se numa derrota diplomática. Sentados à mesa das negociações, moderadas pelo Concelho Cho, valdorianos e kranoritas assinam a paz que leva ao estabelecimento do Espaço Kranorita em 211 V.T. Os "internados" juntam-se aos seus irmãos rebeldes e em menos de dois anos desaparecem do Domínio Humano, num êxodo que faz lembrar aos neo-cristãos a fuga dos israelitas do Egipto.

No rescaldo desta guerra civil os kranoritas transformam-se num mítico fantasma, um bicho-papão das histórias das crianças, um inimigo sempre presente nas faldas do espaço, nas fronteiras das rotas conhecidas e empurrado para a Vastidão e para o Centro Galáctico. A partir da década de 240 V.T. começam a ser conhecidos por Outriders, nome que se torna sinónimo de kranorita. Desde então, e apesar de em 250 anos-padrão nunca mais ter havido um conflito entre o Conglomerado e os Outriders, sempre que uma nave desaparece misteriosamente, sempre que uma colónia se perde, sempre que coisas estranhas são avistadas no espaço profundo, os Outriders são considerados os responsáveis.

Alienígenas

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de ExoSociologia
Processo 251158/501
Nível de Segurança 0 – Público; para mais informação respeitante a espécies particulares, consultar índice de referência nos arquivos centrais

ALIENÍGENAS DA GALÁXIA CONHECIDA

O glorioso Conglomerado, a maior e mais influente nação galáctica (raras vezes ainda se usa o designativo de Velho Império, comum no séc. III – nome completo Conglomerado Federativo An Phar-Valdoriano), é dominado pelos Humanos e pelos An Phar. Apesar de ambos manterem as respectivas organizações governativas tradicionais (o Fórum Valdoriano e o Conselho Cho) e alguns costumes próprios, as duas espécies partilham uma cultura semelhante e coexistem pacificamente há séculos, cooperando prontamente uma com a outra sob a liderança do governo federal, composto pelo Senado e respectivos ramos. São a aliança racial mais próspera e com a mais forte base industrial, política e económica da Galáxia Conhecida. O planeta Primus do sistema com o mesmo nome é universalmente tido como a capital federal e sede do Senado. Pharia, o planeta natal An Phar, é considerado como seu igual.

Os Irari, espécie sáuria de extraordinária longevidade, é em geral considerada pelos historiadores como tendo iniciado o Ciclo Galáctico actual, há cerca de 1000 anos, quando descobriu a propulsão hiperespacial e se lançou na direcção das estrelas. Relativamente comuns e muito respeitados no Conglomerado pelos seus dotes científicos, a sua total falta de ambição política e de organização racial faz no entanto com que não tenham um papel muito representativo no palco da política galáctica. Não possuem governos nem nações, encontrando-se antes espalhados pelo Espaço sob as mais variadas cidadanias. Encontram-se na Fronteira, e o seu mundo natal, Dolmanar, situa-se naquela região da Galáxia. Muitos vivem e trabalham no e para o traiçoeiro Império Kaa, mas nem todos são aí cidadãos livres, como seria de esperar.

Os Jaril, mamiferóides muito raros, são um caso quase milagroso de recuperação de uma espécie inteligente à beira da extinção, graças fundamentalmente aos esforços extraordinários da comunidade científica do Conglomerado. Apesar disso, a sua reputação como grandes engenheiros e técnicos é já considerável por toda a galáxia conhecida. São cidadãos do Conglomerado de pleno direito (o seu planeta natal, Jabur, situa-se dentro de território valdoriano), e muito raros na Fronteira e noutras regiões do Espaço.

Os Cidi são outra espécie mamiferóide comum no Conglomerado, constituindo a nação conhecida como Hegemonia Cidi, que é um estado-cliente, tributário do Conglomerado. São reconhecidos como membros da Periferia (o conjunto de estados-clientes do Conglomerado), e estão teoricamente sob a tutela e protecção do Senado do Conglomerado. A verdade, porém, é que a Hegemonia é rica e autónoma, possuindo muitas colónias para lá das fronteiras da federação humana-an phar, no território da Fronteira e da Fatia de Karamanov. O seu mundo natal, Yuria, situa-se no território do Domínio Humano. Estes diminutos seres inteligentes são capazes de qualquer proeza tecnológica ou artística, o que vem desmentir aqueles que os julgam baseados unicamente no seu tamanho. São excelentes técnicos, cientistas e engenheiros em todos os campos do saber, comerciantes, tripulantes de naves espaciais, até mesmo soldados (em especial nos ramos de Comunicações e Inteligência).

Os Fasanni são membros respeitados da comunidade galáctica, originários da Fronteira, do planeta Bilek. São os melhores mediadores e diplomatas do Conselho Galáctico, e os membros desta espécie podem ser encontrados em todas as nações do espaço conhecido, inclusive no Império Kaa. O seu estatuto melhorou muitíssimo desde a Guerra Negra, devido à necessidade das inúmeras facções que surgiram a partir dessa altura de diplomatas e mediadores. São também conhecidos pela sua curiosidade e têm um talento nato para a comunicação, o que leva muitos a enveredar por carreiras jornalísticas nas grandes agências noticiosas da Galáxia Conhecida.

Os Gerodianos, originários do mundo de Roranor (na Fatia de Karamanov), são uma das mais antigas raças conhecidas, e são muito respeitados pelo seu saber, gentileza e dotes na área da ciência médica, biológica e cibernética. Apesar de pouco numerosos, podem encontrar-se na Fronteira, no Conglomerado e até mesmo no Império Kaa, onde gozam de excelentes reputações. A sua história milenar remonta a milhares de anos no passado, mas nunca desenvolveram tecnologia de propulsão hiperespacial, e quando “descobertos” pela primeira vez por exploradores do Velho Império, a sua civilização havia-se já tornado na utopia igualitária que é hoje. O Conselho Galáctico, formado após a Guerra Negra, tem sede numa das suas colónias e conta com o seu alto patrocínio.

Os Memer & Saret, cujo mundo natal de A1A1 (à falta de melhor tradução) se situa nas fraldas do Espaço conhecido, são outra das nações da Periferia. Estes estranhos simbiontes de características artrópodes sofrem da antipatia da maior parte dos seres sapientes, devido às suas fortes características misantropas e xenófobas, mas são indispensáveis ao comércio galáctico, fornecendo transporte barato e eficiente nas suas decrépitas naves encontradas por toda a galáxia.

Os Kronin, provenientes de Sorgun, um planeta de um sistema próximo da Vastidão, são uma espécie de nómadas espaciais sem rei nem roque, sem nações nem terra, vivendo à margem da sociedade galáctica como mercenários ao serviço de qualquer empregador. A sua lealdade vai em primeiro lugar para os seus clãs. Relativamente raros, são vistos por muitos povos com temor e respeito, devido aos seus formidáveis dotes guerreiros e ao seu inflexível código de honra. São contratados por todo o género de empregadores, desde o Conglomerado às grandes mega-corporações da Fronteira, mas recusam-se a participar em acções por eles consideradas “desonrosas”, e é sabido que já se voltaram contra empregadores hipócritas ou desleais.

Os Gormelitas são, tal como os Kronin, uma raça de expatriados e marginais, mas ao contrário destes últimos, gozam de uma reputação infame, pois são tidos universalmente como seres brutos, violentos e um pouco estúpidos, perfazendo em grande parte a escol de trabalhadores não especializados (e pequenos criminosos) da Galáxia Conhecida. São encontrados em todo o lado, muito embora a sua diáspora não seja obra sua mas fruto das manipulações seculares de outras raças, mais inteligentes

Os Pachekki são uma espécie anfibiana pouco comum e isolacionista, cujo território se estende para lá das fronteiras do Conglomerado, na região do espaço conhecida como Fatia de Karamanov. São ferozmente independentes, e a sua mestria das ciências biotecnológicas não tem par. A vox populi diz que possuem colónias no centro galáctico, tido como inultrapassável. Devido a um passado de amarga e sangrenta guerra com as gloriosas e vitoriosas forças do Conglomerado, são desconfiados ou mesmo hostis em relação a Humanos e An Phar, e não hesitaram em se aliar com os Kaa contra os seus inimigos fidagais durante a Guerra Negra. Foi, no entanto, uma aliança de curta duração, pois em breve os próprios Pachekki estariam envolvidos em luta contra os Kaa de modo a garantir a sua própria sobrevivência, após a traição inevitável destes últimos

O Povo-Árvore, embora raro (é uma forma de vida que combina estranhas sobreposições entre bioquímica vegetal e animal), é universalmente conhecido e respeitado pelos seus dons psíquicos de cura e, dado que o seu mundo natal (conhecido unicamente como o Planeta do Povo-Árvore) se situa em território do Conglomerado, todos os membros desta raça são considerados cidadãos. Aparentemente, é-lhes totalmente indiferente.

Os Kaa são, a par dos Humanos e An Phar do Conglomerado, uma das mais fortes e influentes espécies inteligentes da Galáxia Conhecida, se não a mais forte, como a recente Guerra Negra veio provar. São agressivos (mesmo pelos padrões humanos), implacáveis e sem misericórdia, temidos e odiados devido à sua crueldade e tirania. Sob o jugo do Império Kaa podemos encontrar Humanos, An Phar, Irari e muitos outros membros de várias das espécies galácticas inteligentes. O seu império é um Estado secretivo, teocrático, esclavagista e feudal. Por causa de tudo isto, um indivíduo Kaa sofre de péssima reputação fora das fronteiras da sua nação.

Existem outras espécies inteligentes a viver entre as sociedades descritas atrás, como é o caso dos Sparrial ou os estranhos alienígenas conhecidos apenas como Comerciantes, mas em geral a sua contribuição para os eventos galácticos é de fraca repercussão devido ao isolamento, baixa densidade populacional ou puro desinteresse pelas políticas galácticas.


ESPÉCIES PROSCRITAS

Os Verm são perigosos alienígenas parasíticos monstruosos, tidos universalmente como uma terrível praga a exterminar. São uma raça quitinosa e insectóide, considerada inteligente (apesar do aceso debate em torno deste assunto) e disseminada por toda a galáxia (provavelmente desde tempos anteriores ao ciclo galáctico actual), extremamente perigosa e engenhosa. As suas infestações têm sido responsáveis pela destruição de centenas ou mesmo milhares de colónias civilizadas de todas as espécies, desde o primeiro incidente registado pelos historiadores humanos, há mais de 250 anos-padrão, que desencadeou as infames Guerras Verm. Quase todos os mundos civilizados do Conglomerado possuem brigadas especiais dedicadas em exclusivo à patrulha e ao combate contra a infiltração Verm. Esse bastião da defesa humana que é a Legião nasceu precisamente da necessidade de guerreiros de elite durante os duros combates contra os terríveis alienígenas.
Não possuem o estatuto de espécie sapiente em nenhum local da Galáxia Conhecida e são tratados como monstros. Organizados em grupos tipo colmeia, liderados por uma Rainha possuidora de estranhos poderes mentais, são a única espécie votada ao extermínio pelo Conselho Galáctico.
Tal como os Verm, as colónias de Vírus Rider são outra forma de vida inteligente universalmente detestada pelos seus hábitos parasíticos e malignos.

As Guerras Verm

3204: Brasão do Conglomerado

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História
Processo 21348/506
Nível de Segurança 0 – Público
 
AS GUERRAS VERM (237 V.T.-249 V.T.)
 
O período da história do Conglomerado que ficou conhecido como as Guerras Verm teve início com a infestação de Dor Lom XII em 237 V.T., uma colónia an phar já perto do núcleo galáctico, na Nebulosa Vermelha, um cluster estelar a ser explorado na altura pelo Conselho Cho (e uma zona fronteiriça de então); Dor Lom XII era a 12ª lua do gigante gasoso Dor Lom, no sistema VT-221a, e um planeta promissor para exploração e colonização graças à presença de água, vida desenvolvida e ao seu raro ecossistema, 92% compatível com a biologia an phar e humana; especula-se que os Verm possam ser originários desse planeta, ou ter vindo de regiões adjacentes do núcleo galáctico. Qualquer que seja a verdade dificilmente se conseguirá aferir a mesma, dado que Dor Lom XII foi catastroficamente destruído no decorrer da guerra sem possibilidade de prosseguir com uma investigação mais minuciosa do assunto.

A infestação passou totalmente despercebida aos colonos até ser tarde demais: na altura em que os Verm emergiram dos seus refúgios subterrâneos e destruíram a colónia, nada havia a fazer para os parar. Alguns colonos conseguiram fugir do massacre e atingir uma base remota algumas semanas depois; os seus testemunhos eram confusos e díspares, falando ora de monstros aterradores que destruíam e matavam tudo à sua volta até histórias fantasiosas dos mesmos monstros arrebanhando os sobreviventes como gado, controlados mentalmente de alguma forma inexplicável; o que parece ser certo é que o ataque durou poucas horas. As autoridades an phar decidiram investigar o ocorrido.

Nas semanas que decorreram entre a fuga dos colonos sobreviventes e a chegada de uma equipa de investigação, crê-se agora que os Verm conseguiram, de alguma forma, enviar grupos de reconhecimento para fora de Dor Lom XII - o mais provável é ter sido feito uso de naves locais e de pelo menos dois cargueiros espaciais que visitavam a colónia nessa altura e cujo desaparecimento data desse momento. A equipa de investigação encontrou um cenário desolador, mas nenhuns sinais nem de alienígenas estranhos, nem de colonos, mortos ou vivos. O relatório foi submetido e accionados os respectivos alertas. No entanto, nas semanas que se seguiram não houve mais ataques ou desaparecimentos; todo o sector foi mantido em alerta laranja durante os seis meses seguintes, mas a notícia deixou de ser novidade e passou a ser mais uma misteriosa história de estranheza e morte passada nas colónias da Fronteira, como tantas outras que abundavam nesses tempos de ouro de exploração espacial por parte das forças do Conglomerado. Esforços foram feitos para recolonizar Dor Lom XII.

Em meados de 239 V.T. dá-se subitamente uma explosão de alertas de ataques por parte de alienígenas monstruosos, que correspondiam à descrição dos que haviam destruído a colónia de Dor Lom XII dois anos antes. Os ataques ocorrem como que de forma coordenada e totalmente de surpresa, um pouco por todos os sectores da Nebulosa Vermelha; a resposta inicial das autoridades é incapaz de controlar a situação, e o caos instala-se em menos de um mês na região; como na altura era necessária uma viagem de três semanas de Serris 4 (capital regional da Nebulosa Vermelha) até Gundabad, o sistema solar que unia a rota NV-1 ao resto do Conglomerado, passa-se muito tempo antes das administrações centrais perceberem que algo estranho se passava naquela região da Galáxia. Gundabad era então o último ponto da RCI antes da fronteira, e só depois dos relatos aterradores de diversos sobreviventes de múltiplos ataques na Nebulosa Vermelha chegarem ao cônsul de Gundabad foi possível enviar pedidos urgentes de ajuda a Pharia e Primus.

Dirur 12; ZsD 4; ZsD 9; Klimennu; Lem No Do; ASR-21 e ASR-23; as luas de Contrau II; a base da esquadra de Lomnios. Todos estes entrepostos e colónias, algumas já bem estabelecidas e com mais de 100.000 habitantes (na maioria an phar) foram atacadas e destruídas ou conquistadas pelos Verm, antes de qualquer notícia chegar a Serris 4.

A resposta central foi enviar um destacamento da esquadra do Conglomerado para a Nebulosa Vermelha, a Força de Intervenção 54. No que ficou conhecida como a 1ª Campanha de Pacificação da Nebulosa Vermelha das Guerras Verm (ou entre os veteranos da mesma, como A Trituradora), as forças do Conglomerado foram confrontadas com um inimigo como nunca antes visto; foi, aliás, a primeira guerra de grande escala em que o Conglomerado se viu envolvido depois da Revolta Kranorita. As forças terrestres eram milícias das FDP's da região mais próxima do conflito, essencialmente an phar e destacamentos dos recentemente "descobertos" cidi, sendo as forças navais maioritariamente humanas. A campanha durou menos de um ano, mas a ferocidade dos combates nas colónias sob controlo Verm foi terrível; as tropas do Conglomerado viram-se muitas vezes a lutar contra antigos colonos controlados pelos Verm e a resistência do alienígena era sempre fanática e total. Nessa altura foram descobertas as principais características dos Verm enquanto espécie, nomeadamente a existência de colónias autónomas, a liderança da chamada Rainha, a capacidade desta de controlar mentalmente tanto os seus guerreiros drones como as suas vítimas de formas nunca completamente estudadas e compreendidas, e a aparente capacidade de coordenação de colónias vizinhas em ataques planeados e coordenados.

Todos os esforços de contacto e comunicação, todas as tentativas diplomáticas esbarraram numa parede de silêncio. O Conglomerado estava a ser confrontado por uma espécie aparentemente animalesca e sem tecnologia, mas com evidente inteligência e capacidade de planeamento. Uma espécie cujo único objectivo parecia ser a conquista e literal consumo da civilização.

Os pormenores da campanha foram ocultados da opinião pública e só mais tarde os seus horrores vieram à tona: os campos de concentração Verm onde os colonos eram arrebanhados como gado e usados como um recurso tanto para trabalho forçado como para alimentação dos alienígenas; as esterilizações planetárias forçadas com bombardeamentos nucleares de saturação; as baixas assustadoras entre as FDP's; os horrores perpetrados pelos Verm nas colónias atacadas; a capacidade assustadora e incrível dos Verm em destruir e subverter a tecnologia superior usada contra eles; as tenebrosas capacidades mentais das rainhas.

Quando a campanha foi dada como terminada, a Nebulosa Vermelha era um palco de guerra sob lei marcial, onde mais de duas dezenas de colónias haviam sido destruídas, um sexto das quais irremediavelmente (i.e. uso de engenhos nucleares), onde as baixas civis ascendiam a mais de 400.000 e onde as FDP's haviam perdido, entre mortos, feridos, incapacitados e desaparecidos, mais de 350.000 tropas. A esquadra havia perdido, de forma surpreendente tendo em conta a inexistente capacidade tecnológica do inimigo, duas corvetas e 23 transportes de tropas.

Foi decidido declarar quarentena tanto em Serris 4 como em Gundabad, os portões da rota NV-1. A campanha foi oficialmente concluída em 241.01.21/20.38. Seguiram-se meses de vigia e rescaldo, e depois anos de estudos inconclusivos quanto à origem e motivos da ameaça.

Chegados a este momento, os historiadores dividem-se quanto ao que terá acontecido de seguida. Sabe-se que em 243.06.23/09.21 chegaram ao Senado do Conglomerado, através da RCI, centenas de relatos simultâneos de ataques Verm um pouco por todo o Conglomerado e Periferia (na altura constituída essencialmente pela Hegemonia Cidi). Teriam os alienígenas, de alguma forma, escapado à quarentena da Nebulosa Vermelha e chegado a outros pontos da Galáxia, ou seriam estes polos independentes actuando em coordenação com a ofensiva inicial? Sabe-se agora que as colónias Verm necessitam de cerca de dois anos-padrão para atingirem o seu tamanho máximo, e nunca se encontrou uma colónia com mais de 1000 guerreiros drones. Este período de tempo corresponde grosso modo ao intervalo temporal que medeia a conclusão d'A Trituradora e o rebentar da nova hecatombe. O que é certo é que se assistiu a uma repetição do cenário já vivido nas colónias da Nebulosa Vermelha e, apesar de outra prontidão por parte das forças do Conglomerado, o caos instalado e a destruição foram pelo menos uma ordem de magnitude acima dos ataques de 240 V.T.

A grande crise desencadeada por esta nova invasão leva a uma série de medidas como a imposição da lei marcial em sectores atacados, a cessação de toda a actividade de exploração espacial, um crescimento das forças militares e paramilitares e um abrandamento económico significativo em todo o Conglomerado, com fecho de rotas e diminuição das viagens espaciais, com consequente quebra de trocas comerciais e consumo.

Entre 241 V.T. e 244 V.T. vive-se um clima de guerra acesa e um repetir de muitas das acções da 1ª Campanha de Pacificação da Nebulosa Vermelha (a que se segue uma 2ª campanha em finais de 243 V.T.); as forças do Conglomerado aplicam quarentenas forçadas, há fomes e doenças nos planetas isolados, aumenta o contrabando e a pirataria, gera-se um clima de paranoia e há sérios riscos de revoltas e perturbações da ordem pública mesmo em regiões aparentemente não afectadas pelo pior das infestações. São criados grupos de controlo e combate à praga em praticamente todos os planetas habitados do Conglomerado, criam-se metodologias de prevenção e controlo em todas as viagens interestelares, impõe-se racionamentos.

244 V.T. é um ano terrível, e o culminar das infestações; o caos ameaça abater-se sobre a Galáxia; planeta atrás de planeta é destruído, refugiados invadem as zonas ainda em relativa paz, as infestações surgem do nada, o inimigo revela-se cada vez mais numeroso e implacável, sem tréguas. A 3ª Campanha de Serris 4 não consegue estancar a hemorragia através da NV-1; a 2ª Campanha de Ulmior-Xanos V extermina a ameaça Verm no Sector 4 da província de Primus, mas a um custo aterrador em vidas; a Incursão de Termii acaba em desastre quando toda a esquadra humana é contaminada a bordo, sem se saber bem como, e perdem-se três cruzadores, doze corvetas e um dos quatro couraçados existentes na esquadra, na altura.
Em finais de 244 V.T. o Fórum Valdoriano, após aceso debate, toma a decisão que influenciará o curso da guerra, e comissiona a criação de uma casta de guerreiros metahumanos, utilizando tecnologia proibida após a Revolta Kranorita de manipulação genética radical aliada a cibertecnologia de ponta. Assim nasce a Legião, beneficiando das lições aprendidas durante a guerra civil. Uma casta lutadora de poderes sobrehumanos, são necessários três anos para estar concluído o processo de clonagem, modificação e treino dos primeiros 350.000 guerreiros. São três anos de standoff com o inimigo, num clima de guerrilha constante, com os Verm lenta mas inexoravelmente a ganhar a guerra de atrito que prossegue sem fim.
Finalmente, a Legião é lançada contra a ameaça alienígena em Hunsrad II. Revela-se um sucesso retumbante. Com a morte da sua Rainha, uma colónia Verm definha e morre em poucos dias, e este revela-se o segredo para a vitória; mas atacar uma colónia a matar a sua Rainha revela-se um objectivo que apenas a Legião pode atingir. E assim, planeta atrás de planeta, infestação atrás de infestação, colónia atrás de colónia, a ameaça Verm é rechaçada, num processo que leva cerca de dois anos. Consideram-se as Guerras Verm concluídas em 249 V.T.

Com o final do conflito, o Conglomerado está esgotado, as cicatrizes deixadas entre a população grandes e duradouras; os an phar, em particular, saem do conflito horrorizados com a matança; de bom grado passam para as mãos da Legião a tarefa futura de lidar com ameaças alienígenas. O Fórum Valdoriano, em conformidade com os desejos expressos pelo Senado e pelo Conselho Cho, cria um pequeno feudo nos confins do Domínio Humano onde a Legião e seus veteranos serão albergados de futuro; o seu estatuto é consagrado com o reconhecimento do Senado do Conglomerado, e a casta torna-se parte integrante das estruturas federativas do Estado, com a ressalva que a tecnologia usada para a sua criação permanecerá um monopólio exclusivo usado unicamente para a sua manutenção.

A vitória é pesada; levará ao Conglomerado mais de 50 anos-padrão a recuperar os níveis de prosperidade de antes da invasão. O custo da vitória é tremendo: 27 planetas destruídos pelo cataclismo atómico. Calcula-se que mais de 260 milhões de pessoas perdem a vida, cerca de 2.5 milhões de militares, na sua maioria FDP's. A Legião contabiliza 38.000 baixas entre os seus. Quanto aos Verm, não se sabe quantos drones e rainhas terão sido destruídos, mas certamente muitas centenas de milhar.

Conselho Galáctico

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 51998/503
Nível de Segurança 1 – Público/Especialista

O CONSELHO GALÁCTICO

O Conselho Galáctico é um organismo internacional criado após a Guerra Negra para mediar os conflitos entre as nações e povos da galáxia conhecida. Situado no mundo neutral de Del-Anar, na Fatia de Karamanov (uma colónia gerodiana), aí se podem encontrar diplomatas (bem como espiões…) de todas as raças, inclusive Kaa. Excepção é feita aos Verm e outras raças como esta, universalmente detestadas.

O Conselho Galáctico foi fundado com o alto patrocínio dos Gerodianos, primeiramente para tentar mediar a paz entre o Conglomerado e o Império Kaa (logo após a Guerra Negra) e como tentativa de implementar uma espécie de comunidade interplanetária capaz de implementar e fazer respeitar os direitos mais básicos de todos os seres inteligentes da Galáxia Conhecida.

Com 350 membros, reúne delegações mais ou menos numerosas, consoante o prestígio e/ou proactividade da nação/povo/corporação representados que depois se distribuem por grupos de trabalho e comissões dedicadas, na maior parte dos casos, a acções de fiscalização e monitorização de conflitos. Organismo voluntário, os seus custos são suportados por contribuições voluntárias dos estados membros mas, acima de tudo, pela participação maciça do governo gerodiano.

Como arcaica experiência democrática que é, e recente ademais, serão precisos ainda muitos anos e testes de força para avaliar a sua acção e eficácia na mediação dos conflitos galácticos.

Espaço Conhecido


Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Astrofísica
Processo 65524/498
Nível de Segurança 3 – Restrito; acesso a cartas sub-espaciais e orto-normo reguladas sujeito a aprovação pelo respectivo chefe de secção


O ESPAÇO CONHECIDO

A Via Láctea é um local vastíssimo, com 70.000-100.000 anos-luz de diâmetro e possuindo 400±200 biliões de estrelas. Mas apenas uma pequena porção se encontra descrita e mapeada.

Crê-se que a comunidade científica do Conglomerado, apesar do seu reconhecido domínio de todas as áreas em Ciência, apenas possui conhecimento de cerca de metade deste enorme espaço, e mesmo assim com imensas lacunas. Por exemplo, a Fatia de Karamanov e a Fronteira só recentemente começaram a ser sistematicamente cartografadas apesar de exploradas e colonizadas há décadas, e muitas estrelas destas regiões estão apenas registadas mas não exploradas, ou nem sequer estão registadas.

Como se sabe, os braços galácticos encontram-se virtualmente isolados uns dos outros pela baixa densidade estelar do espaço ente eles; a importância estratégica dos corredores sub-espaciais existentes entre estas regiões nunca é demais ser mencionada. É nos braços galácticos e respectivos enxames de estrelas que se concentra a civilização. Recentemente foi oficializada a directiva que considera o controlo do braço Norma e Scutum-Crux de vital importância para os interesses do Conglomerado. É favor remeter-se o leitor para os arquivos respeitantes à Fronteira, seus Estados e actual status quo, bem como quaisquer artigos não-classificados sobre os Antigos.

Por causa das enormes dificuldades em viajar pelo sub-espaço através da Vastidão (devido à grande agitação do mesmo nessa região – ver ficheiro respectivo) e do Centro Galáctico (devido à grande concentração de poços gravitacionais nessa área, graças à grande densidade estelar), também estas duas regiões do espaço são largamente desconhecidas, e isolam mais de metade da Galáxia às viagens de exploração. A Velha Terra fica situada para lá das nossas capacidades actuais de exploração, algures no braço de Sagitário, possivelmente em Espaço Kaa.

O grosso do território do Conglomerado abrange os braços de Norma e parte dos de Perseu e Sagitário, sendo que o Espaço da Legião corresponde a uma mão-cheia de mundos na fronteira com o núcleo galáctico, na raiz do braço de Scutum-Crux, e o Domínio Humano ao final dos braços de Norma e Scutum-Crux. A Vastidão começa nas raízes dos braços de Sagitário e Scutum-Crux, percorrendo, numa profundidade desconhecida, toda a extensão do raio galáctico médio, i.e. 35.000-50.000 anos-luz, desde o núcleo até às fronteiras extremas da galáxia.

A Fatia de Karamazov percorre o terço final do braço de Scutum-Crux. A Fronteira estende-se pelo final de Sagitário e através da mediania de Sctutum-Crux, até encontrar o núcleo galáctico.

A mais recente informação proveniente dos nossos operativos a actuar em Espaço Kaa faz pensar que o seu Império seja vastíssimo (alguns alegam que ocupará um terço da Galáxia, estendendo-se pelos braços de Perseu e Sagitário), sendo as suas fronteiras com a marca da Fronteira, mas pouco ou nada se sabe dos pormenores dessa região. Do mesmo modo, recentemente têm sido levantados rumores que os pachekki possuem colónias viáveis no núcleo galáctico.

 

Gene Navegador

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Ciência e Informação
Processo 12542/500
Nível de Segurança 2 – Autorizado

antiSFTL/0220 - O GENE NAVEGADOR

O gene navegador continua a iludir os nossos cientistas. Presente em menos de 1 em cada 100.000 membros de certas das espécies inteligentes conhecidas – Humanos (incluindo kranoritas), An Phar, Irari, Cidi, Kaa, Kronin, Pachekki e Memer & Saret – confere imunidade ao Síndroma FTL e uma afinidade especial com o sub-espaço. É a sua raridade que o torna desejável e precioso; no Espaço civilizado do Conglomerado todos os recém-nascidos são rotineiramente testados para a presença do gene no seu genoma. Se encontrado, os pais ou guardiães legais são aconselhados a encaminhar o seu educando na via do Navegador. Como o gene parece estar ligado matrilinearmente entre gerações, formaram-se naturalmente Casas Navegadoras com o passar do tempo. No Conglomerado existem vários destes consórcios, servindo tanto a sociedade civil como a instituição militar.

A maior parte dos astronavegadores vive a sua vida dentro dos padrões reguladores dos consórcios constituídos pelas grandes Casas Navegadoras, mas outros escolhem uma vida independente e mercenária – essa escolha acarreta alguns riscos, como a perda da protecção conferida por essas poderosas guildas.

Desde pequenos que os astronavegadores treinam para a sua profissão. Os seus estudos começam imediatamente no ensino básico, e na altura em que um jovem navegador acaba a adolescência (no caso humano – outras espécies poderão ter patamares de maturação diferentes; é favor o leitor referir-se ao ficheiro apropriado), os seus conhecimentos de matemática e física são extensos e completos. Segue-se um período de 5-6 anos de estudos superiores, altura em que é feito o implante craniano de uma A.I. dedicada, factor determinante no sucesso do navegador. Os estudos lidam com a navegação espacial propriamente dita e com a aprendizagem das difíceis físicas e matemáticas que constituem a base dos cálculos sub-espaciais. Uma vez que as leis da física não funcionam da mesma forma na dimensão alternativa do sub-espaço, até mesmo as potentes A.I.’s e máquinas que auxiliam o trabalho dos navegadores têm de ser construídas especificamente para o efeito, e é notória a forma errática como os cérebros electrónicos funcionam no sub-espaço… um astronavegador necessita ser independente.

Dos candidatos, nem todos passam os difíceis exames e se tornam astronavegadores credenciados – aliás, a taxa de sucesso não ultrapassa os 50% mesmo nas melhores instituições, como é o caso da Universidade Metropolitana do Conglomerado - mas os que não passam são mesmo assim reciclados para outras funções de bordo. Afinal, a imunidade à síndroma FTL é, por si só, uma característica invejável.

O gene navegador é altamente complexo e parece estar ligado, de forma ubíqua, com os mais variados aspectos da fisiologia do indivíduo. Tal torna-o difícil de emular, apesar das continuadas tentativas dos melhores ciberneticistas e geneticistas. O poder das Casas Navegadoras constituiu um lobby que se opõe ao continuado estudo do gene, por medo da perda do status quo.

A Síndroma FTL é uma condição patológica, caracterizada por um estado crónico semelhante ao dos piores sintomas causados por uma ressaca após ingestão de drogas, estupefacientes ou outros inebriantes tóxicos; apenas os Navegadores são imunes a este efeito, que se apresenta pouco depois do salto para o sub-espaço. Por esta razão, enquanto no sub-espaço, a tripulação activa de uma nave é muito reduzida, a maior parte confinada nos seus camarotes tentando evitar os piores efeitos da síndroma, muitas vezes em estado de suspensão criogénica para viagens muito longas ou de sono induzido em viagens mais curtas.

A descoberta do gene navegador ocorreu, como tantas outras vezes na História, por um acaso. Tanto em humanos como an phar, kaa e kronin, foi por estudo e análise daqueles indivíduos que pareciam imunes aos efeitos nefastos das viagens mais rápidas que a luz, enquanto que no caso dos irari e pachekki foi concomitante com o desenvolvimento dos primeiros motores sub-espaciais funcionais. As espécies que não desenvolveram tecnologia FTL pela sua mão, mas que se veio a descobrir possuir o gene no seu genoma foram os cidi e os simbiontes memer & saret. Após investigação pós-contacto, revelou-se que nem os fasanni, gormelitas, tamile, sparrials, jaril ou gerodianos possuem o gene, descoberta que veio acentuar a corrente supremacista que defende estarem as espécies inteligentes divididas em de 1ª Ordem e de 2ª Ordem, consoante desenvolveram ou não tecnologia FTL, e consoante possuem ou não o gene. Esta corrente de opinião não é partilhada pelo Conselho Galáctico. Os cidi reagem muito mal a esta categorização das espécies, aludindo que estavam no bom caminho para a descoberta da tecnologia FTL e que esta era iminente, não fosse o contacto com os exploradores humanos e an phar do Conglomerado.

De notar que no caso dos gerodianos e, possivelmente, no caso dos jaril, a comunidade científica acredita que o gene foi propositadamente extirpado do património genético da espécie por escolha dos seus membros, por razões e usando técnicas ainda desconhecidas.

O Calendário Valdoriano

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 1038/120
Nível de Segurança 0 – Público

O CALENDÁRIO VALDORIANO

Uma das formas acordadas pela Assembleia de Primus como parte da celebração do centenário do nascimento de Valdor foi a adopção de um novo calendário, há muito adiado por questões fundamentalmente culturais. O novo calendário, baptizado em honra de Valdor, passava a contar o tempo a partir do ano 0, o ano do nascimento de Valdor na Velha Terra, correspondente ao ano 2000 do antigo calendário Gregoriano.

A notação do novo calendário padrão usado nos domínios humanos refere o ano, mês, dia, e hora e minuto se necessário, na nomenclatura de uma data, tendo em conta que a referência padrão para dia, hora, mês, etc. continua a ser a mesma herdada da Velha Terra, e que corresponde certamente a diversos parâmetros biofísicos do berço da Humanidade. Assim, por exemplo, 102.06.12/21.35 corresponde ao dia 12 de Junho de 102, às 21h35m, tempo-padrão.

O Poder Secreto

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 855474/504
Nível de Segurança 5 – Ultra Confidencial; extracto de uma palestra dada a 504.02.08/14.32 por Suki Yaki, Lorde Elara, magus valdoriana, a um grupo de iniciados.

ESOTERISMO E DISCIPLINAS ESPECIAIS

“Bem vindos, vós que fostes escolhidos.

Todos sabeis porque estão presentes aqui e agora. Todos sabeis qual a tarefa grandiosa que vos espera. Todos sabeis as provações que essa estrada promete, e a esperança do futuro radioso que por vontade manifesta do destino pertence à Humanidade e aos que se abrigam sob a sua protecção. E todos sabeis também quais os perigos que enfrentarão no decorrer da vossa altíssima missão.

Mas saberão?

Uma das forças mais vitais à sobrevivência do Universo é aquilo a que muitos primitivos chamam magia… Ah, vejo que se agitam nas vossas cadeiras, vejo os esgares de desprezo nos vossos lábios de alguns de vós… não desprezeis a ignorância do leigo, pois é a vossa maior aliada. Sim, é verdade que a existência desta força natural é do desconhecimento da maior parte dos nossos concidadãos, pois como é o caso nas civilizações tecnológicas, e a nossa não é excepção, a “razão” acaba quase sempre por se sobrepor à “superstição”. E ainda bem que assim é, pois é a Razão, temperada pelo nosso Poder, que permite à Humanidade subsistir num cosmos repleto de perigos.

Não vos iludis, nunca: somos poucos, somos frágeis… um velho adágio, citado tantas vezes pelo Grande Valdor. É nosso dever defender a Humanidade, velar pelo seu futuro. E a ignorância dos nossos pares ajudar-nos-á sempre na nossa missão, pois a nossa é uma mão que conduz com subtileza e sensibilidade, nunca pela violência!

Essa força, a que chamamos mana, é gerada pelos focos de menor entropia do universo: os organismos vivos, cuja matéria se encontra no estádio mais complexo de organização conhecido. É a vida que gera a mana. E descobrimos, ao longo de séculos de estudo, que a vida inteligente tem um poder extraordinário não só de gerar e manter, como de manipular essa energia. A mana é tão vital à estrutura física do Universo como a Lei da Gravidade; sem mana não existiria vida. Sem vida o Universo perde o sentido. Pois que som faz a árvore que cai no cimo da montanha, se não houver ninguém para o escutar?

Alguns indivíduos, como todos os aqui presentes, nascem com a capacidade de sentir os fluxos da mana, e se devidamente treinados conseguem utilizá-los para criar efeitos físicos complexos e extraordinários, capazes de desafiar a imaginação do leigo e qualquer explicação científica ortodoxa. O estudo da mana e das formas de a manipular faz-se através da aprendizagem de rituais e fórmulas, que exigem grande esforço e empenho e que são rigidamente estruturados. Esse saber é passado de mestre para discípulo ao longo das gerações, numa tradição venerável que se estende aos primórdios da nossa Ordem nos tempos remotos da Velha Terra. E em breve também vós iniciareis o vosso aprendizado. Desejo-vos boa fortuna e concentração no domínio da nossa Taumaturgia e Taumatologia.

Nós somos Valdorianos, e haveria quem nos chamasse de casta secretiva de feiticeiros, capazes de manipular estas estranhas energias. Sim, somos uma casta. Sim, somos discretos. Mas feiticeiros? Designações rudes fruto de mentes torpes. Somos acima de tudo agentes ao serviço do bem comum. Nunca o esqueçam: o vosso dom é uma dádiva para usarem ao serviço da Humanidade e do Conglomerado. Desejamos uma sociedade harmoniosa e em paz e trabalhamos para o avançar da cultura e civilização. E por nós e pelos nossos protegidos, somos obrigados a manter o secretismo que envolve a natureza do nosso poder e das nossas actividades.

Ao longo de gerações, nós, seguidores de Valdor, temos usado o nosso dom para auxiliar, orientar os governantes do Conglomerado, e antes disso, da Arca nº 7 proveniente da Velha Terra. A nossa é uma acção metódica, um estabelecer de políticas, atitudes e mentalidades que nos auxiliem no eventual renascimento de uma Nova Terra, um ideal, uma visão quimérica se quiserem, de construção de um futuro e de uma sociedade em que a Humanidade já não necessite ter medo.

Antigamente, quando os velhos mestres demonstravam em público as suas capacidades, dizia-se que éramos capazes de controlar mentes, manipular vontades e dominar os elementos. Dizia-se que éramos déspotas iluminados; lembrem-se sempre da Revolta Kranorita e encontrarão aí os verdadeiros déspotas e os verdadeiros manipuladores! Desconfiai de traidores e desorientados. Desconfiai de kranoritas, cabalistas e numerologistas, que existem ainda no seio da Humanidade.

E agora, e talvez o ponto mais importante de todo o meu discurso, uma palavra sobre os nossos inimigos, que são legião: o Império Kaa é, como sabem, governado por uma seita religioso, cujos membros são sacerdotes que prestam culto a uma “divindade” a que chamam Sem’Nochlor, que é sem dúvida uma aberração de incomensurável poder e malignidade nativa do sub-espaço. Tal como nós, são implacáveis e eficientes, mas ao contrário da nossa Ordem, são sanguinolentos, sádicos e cruéis, mantêm o poder pela força e especialmente pelo terror. E contudo merecem acima de tudo a nossa piedade… sim, a nossa piedade, meus discípulos, a vossa indignação não é fundamentada! Pois não serão os Kaa e outros perdidos meros escravos dos poderes do sub-espaço, essas inteligências tão profundamente malignas e perigosas que apenas desejam a destruição do nosso Universo? E uma vez escravizada pelas monstruosidades que habitam essa outra dimensão, meus irmãos, nada poderá salvar uma criatura de uma eternidade de sofrimento.

Sim, é verdade que desde há muito suspeitamos que os Antigos eram grandes mestres das ciências ocultas, e que o seu desaparecimento está de algum modo relacionado com essas inteligências verdadeiramente alienígenas e totalmente predispostas à violência absurda e à destruição sem sentido. Se os Kaa identificam estas presenças assustadoras com o seu deus Sem’Nochlor, nós valdorianos chamamos-lhes Criaturas do Vazio… demónios, se quiserem.

É a crença dos nossos mestres mais sábios que terá havido uma invasão sem precedentes na história da Galáxia por parte dessas criaturas e que terá erradicado rápida e violentamente toda a civilização dos Antigos, há cerca de 20 milhões de anos…”

Viagens Espaciais

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)

Departamento de Ciência e Tecnologia

Processo 521158/471

Nível de Segurança 1 – Público/Especialista

VIAGENS ESPACIAIS

A possibilidade de viajar mais rapidamente que a luz, contrariando desse modo a teoria da relatividade de Einstein, foi pela primeira vez seriamente considerada há cerca de 400 anos, na sequência do estudo de wormholes e Buracos Negros que ocorrem naturalmente no cosmos. O próprio estudo do sub-espaço é extremamente difícil, pois uma nave a viajar mais rapidamente que a luz fica totalmente isolada do resto do universo, e até ao presente ainda não se conseguiu desenvolver nenhum modelo teórico, muito menos a tecnologia, que permita usar alguma forma de sonda ou transmissor que permita o contacto com o universo “real”. Por isso mesmo pouco se sabe ainda da natureza do próprio sub-espaço.

O único tipo de propulsão FTL (mais rápida que a luz) conhecido é o motor sub-espacial. A importância desta tecnologia é tal que se podem considerar ciclos inteiros da história da galáxia tendo por base apenas as épocas de descoberta e uso da mesma. Espécies são classificadas de 1ª e 2ª ordem consoante desenvolvem pelos seus meios ou não tal tecnologia. A própria natureza da nossa civilização e das nossas sociedades é determinada pela existência, tipo e qualidade da propulsão FTL. Desde os primeiros protótipos que permitiram o início das viagens de exploração espacial (iniciadas oficialmente em 114 V.T.), os motores sub-espaciais têm vindo a ser melhorados até hoje.

Estas máquinas fazem uso de colossais quantidades de energia para enfraquecerem o tecido espaço-temporal local, criando um wormhole artificial e lançando a nave no sub-espaço (ou hiperespaço, termo mais raramente utilizado), uma dimensão paralela ao universo dito “real”, permitindo viajar mais rapidamente que a luz. A energia necessária ao salto sub-espacial é fornecida por condensadores que armazenam electricidade gerada pela fusão nuclear de hidrogénio. Por isso, o consumo de combustível não é problemático, uma vez que o H2 é o composto mais comum no universo. O factor limite desta tecnologia é a necessidade que os propulsores têm de uma rara substância, uma forma cristalina complexa de matéria exótica conhecida como CCS (Compósito Cristalino Sub-espacial) para focar e estabilizar a imensa quantidade de energia libertada. Este material degrada-se a cada salto, e é necessário substituí-lo regularmente (aproximadamente a cada 10.000 parsecs viajados). São necessárias instalações industriais hiper-desenvolvidas para a produção deste material, pelo que o monopólio da sua produção recai sob a alçada dos Estados mais poderosos e das maiores corporações, e os stocks existentes adquirem grande importância estratégica.

A velocidade média dos motores sub-espaciais actuais ronda os 4-5 parsecs por hora, mas modelos antigos têm velocidades menores (muitos cargueiros espaciais com muitas décadas de existência podem estar equipados com motores dez vezes mais lentos). Os modelos militares são em geral mais rápidos (entre 8-10 parsecs por hora) que os modelos civis. O tempo útil que se pode passar a navegar no sub-espaço é limitado, devido à necessidade de recalcular as rotas com regularidade (todos os 100 parsecs, aproximadamente), e o cálculo das mesmas leva algum tempo (de 10 minutos a uma hora).

Um erro de astronavegação pode ser fatal, ao fazer colidir a nave com um poço gravitacional (uma estrela, por exemplo); no mínimo, fará desviar a mesma centenas ou mesmo milhares de parsecs da rota! A navegação no sub-espaço só é possível de e para as imediações de poços gravitacionais, e é afectada pelos mesmos. É por esta razão que as naves saltam da periferia de um sistema para a periferia de outro, e do mesmo modo é impossível viajar através do vácuo intergaláctico (não há poços gravitacionais) ou através do centro galáctico (demasiados poços gravitacionais).

O procedimento padrão para um salto sub-espacial envolve a saída da nave da órbita planetária e o afastamento da estrela, dependendo da massa da mesma, tempo usado para o cálculo preliminar do salto. Após o salto, e consoante a duração da viagem, fazem-se uma ou mais paragens entre sistemas para recalcular a rota e carregar capacitadores.

As Casas Navegadoras são responsáveis, no Conglomerado, pelo manutenção das rotas espaciais mais utilizadas, e mantêm um corpo de exploradores cuja função é o mapeamento e manutenção das mesmas, mantendo cartas de navegação actualizadas à disposição dos astronavegadores, que podem descarregar essa informação em cada sistema através das redes locais de comunicação. Assim, as rotas mais usadas são mais facilmente navegáveis que aquelas cuja informação é mais antiga. As rotas são em geral classificadas pelo seu grau de importância (intensidade de tráfego, essencialmente) em R1, R2, R3, etc., sendo R1 uma rota principal e assim por diante.

Os exploradores têm ainda a função adicional de mapear novas rotas entre sistemas recém-colonizados.

Há muito que se sabe da existência do gene navegador, presente em menos de um indivíduo em cada 100.000 e de extraordinária complexidade. Nem todas as espécies inteligentes têm esse gene presente, numa forma ou outra. É esse gene que confere aos astronavegadores imunidade à famosa Síndroma FTL, um estado patológico que afecta os viajantes do sub-espaço durante a sua estadia nessa dimensão alternativa, e que se manifesta por tonturas, cefaleias profundamente debilitantes, extrema sonolência, dificuldade de concentração e irritabilidade. Por esta razão, durante as viagens FTL a maior parte da tripulação dorme ou permanece inactiva. Os efeitos da Síndroma FTL desaparecem quando a nave retoma o espaço normal. Um Navegador sabe que vale o seu peso em ouro.

A Astronavegação é uma ciência difícil cujo estudo exige muita dedicação e uma afinidade particular com a dimensão alternativa do sub-espaço, devido às matemáticas e físicas esotéricas que entram em jogo ao calcular rotas quadridimensionais complexas através do sub-espaço, mesmo com o auxílio de computadores de bordo. É por isso uma especialidade muito procurada que exige anos de treino e aprendizagem. O mesmo se aplica à Engenharia de Propulsão FTL, uma especialidade normalmente escolhida pelos muitos que não conseguem passar os difíceis exames de astronavegação.

O tempo passa ao mesmo ritmo dentro e fora do sub-espaço. Para manobrar ou percorrer curtas distâncias, as naves espaciais estão em geral equipadas com propulsores sem massa de reacção, vulgarmente conhecidos como thrusters, que apenas necessitam de energia para funcionar. O seu factor de aceleração depende da massa efectiva da nave e do número de unidades thrusters presente.

Evidentemente que existem uma infinidade de classes de naves espaciais, e apenas uma fracção tem a capacidade de percorrer os caminhos entre as estrelas; grande parte das naves existentes na Galáxia é naves de sistema, i.e. incapazes de saltar para o sub-espaço. A forma de propulsão utilizada nesta miríade de veículos espaciais varia imensamente, de motores iónicos a velas solares, de queimadores químicos a turbojets, consoante as necessidades, níveis tecnológicos, fabricante e/ou idade das naves. Geralmente apenas grandes naves possuem a viabilidade para ter motores de propulsão FTL instalados, mas há casos como os de naves militares de defesa de sistema que são equiparáveis em tamanho e complexidade aos grandes cruzadores das frotas de guerra das grandes potências.