Dirtside: Episódio 5 - Ficção (pt.2)

Retrato de Eowyn

Dirtside ainda estrebucha! ;) A cena que se segue é o produto da imaginação conjunta minha e do Ric, e resolve a incógnita da parte 1: afinal quem sobrevive e quem morre? Que futuro para toda esta gente agora que a Federação se desmoronou? Bom, talvez a última pergunta ainda fique um bocadinho em aberto.

Espero que gostem! -- Raquel "Éowyn" Correia

Primeiro veio o som, uma batida surda que lhe fazia lembrar as festas de Sábado à noite na Firebase Omega. Só que era mesmo só a batida, não havia maneira da música em si começar. Ao fim de algum tempo – o tempo parecia não fazer sentido – apercebeu-se que afinal não se tratava de música. Ela tinha era a sensibilidade toda trocada. A batida era o seu próprio coração.

Depois veio o tacto, as sensações. Percebeu que não estava a pairar mas sim deitada nalgum sítio confortável, morno. Estaria na hora da alvorada? Não, não estava na base. Na base as camas eram bem mais duras. Começou a sentir o corpo. Estava toda moída e doía-lhe o ventre. Tinha qualquer coisa na mão, quente e firme. Tentou tactear, mas a mão não respondeu como ela queria, só deu um leve espasmo. Tentou engolir; também lhe doía a garganta.

Então vieram os cheiros. Cheiro a anti-séptico, misturado com o cheiro a sangue e a medo. Cheiro a hospital. E mais qualquer coisa, que não conseguia identificar.

De súbito foi inundada por uma vaga de memórias: o senado a explodir, KC a ser baleada, Lily morta, a fuga desesperada por Metropolis, a aterragem nos jardins. Quis abrir os olhos mas não foi capaz. Tentou mexer a mão e então sentiu o objecto que tinha na mão mexer de sua livre vontade: a mão de alguém? KC?

Voltou a fazer um esforço para abrir os olhos. Caramba, era uma Space Marine, abrir o raio dos olhos não deveria ser assim tão difícil. Desta vez teve um pouco mais de sucesso: conseguiu entreabrir os olhos, mas não conseguiu perceber onde se encontrava. Fosse lá isso onde fosse, estava num espaço amplo e a iluminação parecia não ser muito forte. Tentou falar, mas não saiu nenhum som. Engoliu e voltou a tentar, desta vez conseguindo um sussurro inteligível: “KC?‿

Teria a KC sobrevivido aos solavancos da viagem? Pelos vistos ela própria tinha conseguido chegar ao hospital a tempo, mas e a sua amante? KC fora baleada muito antes; teria tido tempo?

Sentiu um beijo na mão. Tentou soerguer a cabeça e focar a cara, mas isso ainda estava para lá das suas forças.

“Ei, não te queres mexer muito, acredita no que te digo.‿ O coração de Rita bateu mais rápido. Era mesmo aquela voz rouca, sexy, que ela queria ouvir. KC estava viva! Tinha valido a pena aquela fuga desesperada. Sorriu ao de leve. KC... “Sim, sou eu, querida,‿ continuou a outra, como se lhe tivesse lido o pensamento. “Sã e salva graças a ti, ao que me dizem. Se bem que já visitei o local da nossa aterragem, e deixa-me que te diga que parece mais é que nos tentaste matar a todos. Os jardins biónicos? Em que raio é que estavas a pensar?‿

“Superfície... horizontal,‿ explicou Rita num sussurro. A sua voz parecia ainda não estar a funcionar normalmente, mas isso agora era o menos. "Folhagem... para amparar... a queda," concluiu. Com um pequeno esforço piscou um olho à KC e sorriu. “Funcionou.‿

KC riu-se, e arrependeu-se logo de seguida. Começou a tossir com violência enquanto levava as mãos à barriga, e demorou um bocado a parar. “Caramba, olha só para o nosso triste estado. Não fiquei às portas da morte estes dias todos, mas também não estou assim tão melhor do que tu. Posso fazer algo por ti?‿

Rita franziu o sobrolho enquanto a frase da KC era lentamente filtrada pelo seu cérebro. “Dias?‿ perguntou por fim. Tinha passado dias inconsciente? Ah, mas quanto a fazer algo por ela, neste momento bastava que KC se mantivesse ali a seu lado. Isso sabia bem. Caramba, tivera tanto medo que ela morresse...

Algures uma porta abriu-se, e passos aproximaram-se. “Rita? Estás acordada, querida?‿ A voz de Daniel. “Porque não chamaste logo, KC?‿

“Desculpa,‿ disse a outra com voz neutra. “Ela acabou de acordar.‿

O seu estômago deu um salto e isso doeu, mas Rita conteve o gemido que se deveria ter seguido. Não precisava da mudança no tom de voz da KC para saber que haveria tensão no ar entre KC e Daniel no que tocava à afeição da Rita. Mas o pior era que Rita não sabia ainda como ia lidar com aquela enorme embrulhada emocional. Também não era agora que tinha forças para tratar disso. Limitou-se a apertar um pouco mais a mão da KC para que ela não fugisse.

“Querida,‿ disse o rosto de Daniel, entrando no campo de visão desfocado de Rita. As costas dos dedos dele acariciaram-lhe uma das bochechas. “Durante uns dias pensámos que te íamos perder.‿

Mesmo sem querer magoar os sentimentos da KC, Rita tinha de confessar que fazia bem ao ego saber que se tinham preocupado com ela. Deu por si a sorrir ao Fishburne, mas não teve alento para falar.

Então a cara de Daniel mudou, e ficou muito mais séria. A mão dele parou de a acariciar. “Raios te partam, Rita! O que é julgavas que estavas a fazer, a pilotar assim nesse estado? Porque é que não disseste nada; podíamos ter-te substituído e aplicado os primeiros socorros, não era preciso este drama todo!‿

Ha! Como se algum deles pudesse ter aguentado o vaivém naquele estado. Rita inspirou para falar, mas a dor desta vez obrigou-a a fazer um esgar e ela acabou por apenas suspirar e desistir do discurso que tinha em mente.

Logo de seguida Daniel voltou a sorriu. “Desculpa, eu sei que estás cansada. Posso puxar-te as orelhas depois. Deus, não sei o que faria sem ti. Pregaste-nos um susto!‿

Ele pareceu lembrar-se de algo de repente. “Tenho de ir falar com o teu pai; vai ficar bem mais aliviado. Ele começava a acreditar que te tinha morto. Vou já dar-lhe a novidade. Ficas bem? Não estás mesmo com boa cara. Mas não te preocupes, o médico há-de vir fazer as suas rondas em breve. Descansa, tens de descansar muito. Temos muita coisa para falar.‿

Rita franziu o sobrolho. Muita coisa para falar? Mas as palavras não passaram para fora dela e de qualquer modo o Daniel parecia ansioso por partilhar a notícia da recuperação dela com o pai, de modo que não ficou por ali à espera que ela ganhasse forças para pronunciar uma palavra.

Daniel beijou Rita na testa, e afastou-se. Ela ouviu a porta fechar-se outra vez.

KC expirou lentamente. “Ele e o teu pai são os melhores amigos desde o desastre. Agora que o teu pai já quase voltou a pôr ordem neste pedaço de areia a que chamam planeta, ele é o seu braço direito. O general até já o promoveu a major no novo exército de Eden independente; ‘tempos difíceis e poucos homens à altura’, disse ele.‿ O olhar de KC assumiu aos poucos uma intensidade fulminante que recordava a Rita tempos pouco felizes. “Pois, claro... o Fishburne que toda a vida foi pouco mais que um soldado raso.‿

Éden independente? Mas quanto tempo é que ela tinha passado fora de acção? O que se passava no mundo lá fora? Fish e o pai amiguinhos? Mas que raio...?

Seria isso que tanto perturbava a KC? Rita não gostava nada quando ela punha aquele ar, nada mesmo, só que compreendia que a KC se sentisse a perder terreno na rivalidade com Fishburne se de facto o Daniel de súbito se tivesse tornado amiguinho do peito do seu pai. Mas seria possível? Parecia-lhe demasiado incrível que eles de repente fossem amigos. O mundo poderia mudar tanto em tão pouco tempo?

Mas KC tinha algo mais atravessado na garganta.

“E sempre é verdade que te vais casar com ele? Mas que raio, Rita. Pensei que havia algo de especial entre nós! Eu sei que te desiludi mais do que uma vez, mas ainda assim... caramba... sabes mesmo como dar a volta à cabeça de uma pessoa,‿ disse KC. Estava bastante perturbada, inclusive com lágrimas nos olhos.

Rita pestanejou. Não devia ter ouvido bem. Virou um pouco a cabeça e esforçou mais a vista. A sua visão estava a melhorar a cada segundo, mas ainda tinha alguma dificuldade em focar. “Casar?‿ crocitou ela. De repente veio-lhe a memória do vaivém aos tombos, ela com um tiro fresco na barriga e o Fishburne a dizer gracinhas ao pai dela.

Só que afinal não tinha sido nenhuma gracinha. Fishburne estava mesmo a falar a sério! Mais surpreendente ainda era o facto do pai não lhe ter aplicado logo um correctivo. E agora a KC estava a chorar por causa disso.

“Não chores... minha pequena,‿ consolou Rita. Não pôde evitar sentir alguma revolta. Com que então andavam a planear casamentos sem sequer primeiro lhe pedirem a opinião?

“Não estou a chorar!‿ zangou-se KC, virando a cara e retirando a mão que Rita estava a segurar para com ela limpar os olhos.

A KC estava a armar-se em dura outra vez. Rita conhecia muito bem aquele tom de voz, mas nela já não surtia o mesmo efeito de quando era subordinada da outra: agora conhecia a KC demasiado bem. Não te isoles de mim, KC. Não há razão para teres medo, era o que lhe apetecia dizer, mas faltavam as forças. E naquele estado a KC de qualquer modo reagiria mal à menção de medo.

"Chega-te mais perto," pediu Rita. KC voltou novamente o rosto para si, e os seus olhos continuavam molhados. Rita ergueu um braço - os seus membros estavam a começar a responder com alguma normalidade, felizmente – e com uma carícia à face da KC limpou-lhe as lágrimas que saltavam agora dos olhos. “Ele esqueceu-se de... pedir a mim primeiro," explicou devagar. Ainda lhe custava falar, mas pela KC o esforço valia a pena. "Não concordei com nada."

“A sério?‿ perguntou KC, baixinho. Foi o suficiente para ela recuperar um pouco das suas forças e se recompor. Desta vez conseguiu secar os olhos.

Rita fez um sorriso fraco porque a KC precisava disso e porque, teria de admitir, mesmo perturbada como estava era tão bom ver a KC animada, viva. A imagem dela ali prostrada no chão do vaivém, esvaindo-se em sangue e quase morta decerto ainda haveria de lhe povoar muitos pesadelos futuros.

KC recostou-se na cadeira, afastando-se de Rita. Pensativa, suspirou. E depois chegou a algum tipo de conclusão. “Mas é uma questão de tempo. Eu bem vi como olhavas para ele quando te colocaram no comando do pelotão de fuzilamento. Nesse momento senti-me tão mal por ti, por ele... por mim. Gostava que alguém se preocupasse tanto assim comigo.‿

Eu preocupo-me contigo,‿ assegurou Rita incrédula, numa frase tão grande que a deixou quase sem fôlego. Não estava a gostar nada do sentido que a conversa tinha tomado. Tinha tanta coisa para explicar à KC: que voara que nem uma possessa e desafiara o pai por ela, que quase dera em doida de preocupação não fosse ela morrer antes de encontrarem um hospital, que a sua própria vida não interessara senão para lhe dar a ela uma hipótese; e faltavam-lhe as forças para falar depressa o suficiente. No fim só conseguiu que saísse um “Voei por ti...‿ meio rouco.

“Mas como é que eu posso competir com o Major Fishburne?‿ disse KC, amargamente. “Tu e ele... nunca ia poder partilhar nada assim contigo. Mas foi bom ter-te conhecido à mesma.‿ KC continuou a falar antes de Rita ter tempo para mais do que abrir a boca. “Aqui está algo para te lembrares de mim.‿

Oh, não! Rita não acreditava no que acabava de ouvir. Esbugalhou os olhos e abriu a boca como se para falar. O rosto de KC aproximou-se do de Rita e, quando esta já estava a protestar contra o que KC tinha dito, os lábios de KC pressionaram os dela e a sua língua roubou-lhe, literalmente, as palavras da boca. O arrepio de prazer percorreu Rita até lhe criar uma bola no estômago. Nem sabia se havia de continuar a tentar protestar ou apenas deixar-se levar pelo momento e tentar aproveitá-lo ao máximo. Uma das mãos de KC deslocou-se então até ao seu peito, percorrendo-lhe através dos lençóis e da bata que Rita vestia o espaço entre os seios.

Incapaz de resistir, Rita respondeu com as forças que tinha e investiu todo o seu carinho naquele beijo. Talvez conseguisse exprimir-se melhor assim do que em palavras. Se a KC percebesse a mensagem talvez não se fosse embora. É que aquela última frase soara dolorosamente a uma despedida. Rita deixou escapar um gemido fraco de prazer e enterrou os dedos no cabelo negro da KC.

“Oh,‿ exclamou baixinho alguém que entretanto se aproximara. Um objecto, talvez uma caneta, caiu no chão. KC e Rita descolaram-se uma da outra. Não! É cedo! Cedo demais!, foi o pensamento que ecoou na cabeça da Rita. Assim ela não vai perceber!

Aos pés da cama, e tal como elas a esforçar-se sem muito sucesso para manter a compostura e o decoro, estava uma cara conhecida. A Dra. Nadja Romanova, com uma mão a segurar o seu computador de bolso e com a outra mão vazia mas ainda congelada no ar em pleno acto de escrever, olhava em alternância ora para Rita ora para KC. Sentia-se tão embaraçada por as ter interrompido que não conseguia fixar o olhar de nenhuma.

“Eu já estava de saída. Trate bem dela, doutora,‿ disse KC, levantando-se. “Adeus, Rita.‿

“KC?‿ chamou Rita, ignorando a médica e abrindo muito os olhos. Sentia lágrimas começarem a formar-se. Mas a KC tinha virado costas e nem teve a decência de olhar por cima do ombro. “KC,‿ rogou Rita. Nada. “Kayleigh!‿ Au! O esforço de chamar a amante mexera-lhe com o abdómen e isso doía tanto ainda, mas KC nem abrandou o passo.Não me deixes sozinha!

KC afastou-se, parecendo tão segura de si como sempre. Quanto à jovem médica russa, essa sentou-se na cama ao lado de Rita, mas voltou a levantar-se para apanhar a caneta que deixara cair. E depois voltou então a sentar-se. Mesmo assim, ainda demorou mais um minuto a encontrar a fala.

No entanto, também não disse muito. Limitou-se a analisar Rita cuidadosamente e consultar os registos no seu computador, com apenas um cumprimento curto, umas perguntas simples aqui e ali, um ou outro comentário, etc. Via-se que Nadja tinha algo preso na ponta da língua, mas a Rita tinha pregado os olhos marejados de lágrimas à porta que KC fechara atrás de si e não respodia à médica senão com monossílabos.

“Bom, como ainda não me perguntou nada, deduzo que não sabia, ou então que o seu noivo já lhe explicou.‿ disse a médica finalmente. “Ou será que não está de todo interessada no assunto?‿ perguntou ela, olhando a porta por onde KC desaparecera.

Ainda zangada e destroçada com a partida da KC, Rita reagiu finalmente com mais calor do que talvez devesse. “Daniel Fishburne não é meu noivo,‿ rosnou praticamente. Só depois percebeu que não sabia do que a médica estava a falar. Franziu o sobrolho, limpou apressadamente as lágrimas e olhou-a finalmente nos olhos. “Qual assunto?‿

“Então não sabe de nada ainda?‿ Nadja suspirou antes de continuar. “É que a Rita estava grávida de 6 semanas quando se despenhou.‿

A notícia foi como um balde de água fria. Rita estacou, sem saber o que pensar, e não conseguiu fazer nada senão fitar a médica com um olhar em branco. Grávida?!

Antes que Rita pudesse entrar em choque, a médica continuou. “Não se preocupe. Nada está perdido. O desastre, mas especialmente o tiro, causaram a morte do seu bebé. No entanto, tal como nós a trouxemos a si do lado de lá, também estamos prontos para fazer o mesmo pelo feto. Mal demos por ele, colocámo-lo em stasis. Assim que a Rita estiver recuperada, podemos fornecer-lhe os nutrientes e estímulos adequados para que a divisão celular e o crescimento dele se reiniciem. Depois podemos então reimplantá-lo. Será como se ele nunca tivesse saído da sua casinha. Há sempre um risco, claro, mas tudo indica que a Rita poderá ter uma gravidez normal. Ah, ele é uma ela, a propósito. Parabéns.‿

Era informação a mais. Rita só podia estar a viver um pesadelo. Não tardava nada ia acordar ao lado da KC na Firebase Omega e haviam de se rir as duas a caminho do pequeno-almoço. Só que um cantinho pequenino do seu cérebro sabia que não era esse o caso.

Pensa, Rita, pensa! O hospital tinha em stasis uma menina... dela e do Fishburne? Sim, da KC é que não era de certeza! Aah, então era daí que vinha todo este frenesim do casamento... Agora a partida abrupta da KC fazia mais sentido, ou não?

Rita engoliu em seco, pestanejou algumas vezes, olhou para a porta e de novo para a médica. “Ela sabia disto?‿ perguntou numa voz sumida. Pergunta de retórica; o que a KC dissera sobre partilhar coisas com o Fishburne e que Rita interpretara erroneamente como se referindo ao casamento fazia muito mais sentido se se referisse a uma criança. Mesmo assim, Rita esperou pela confirmação da médica.

“Bom, eu julgo que a informação só foi fornecida directamente ao seu noivo, quero dizer, ao pai e ao avô da criança. Mas também não é exactamente segredo de estado, e a sua amiga tem estado aqui a maioria do tempo, portanto...‿ Nadja deixou a palavra pairar no ar, sem necessidade de terminar a frase.

Enquanto a médica falava, Rita lembrara-se finalmente de onde conhecia a cara: era a médica amiga do Capitão Ralek. Portanto o Capitão aterrara são e salvo no planeta. Que seria feito dele neste caos? Era uma pergunta para outra altura porque agora tinha preocupações bem mais imediatas. Decidiu confiar na médica, mesmo que só a conhecesse vagamente. Se era amiga do Capitão não podia ser muito má pessoa.

“Doutora Romanova?‿ falou então, olhando-a bem nos olhos, incapaz de encobrir a vulnerabilidade lá bem no fundo, que KC lia sempre tão facilmente nela. “Faça-me um favor: aquilo que viu há pouco... fica entre nós as três, por enquanto, sim?‿

“Claro, Rita, claro,‿ disse a médica. “São tempos difíceis para todos. Ninguém sabe se amanhã ainda cá vamos estar, ou se Eden vai ser invadido ou bombardeado por alguma das facções em confronto, por isso há que viver um dia de cada vez. A propósito, o Capitão Ralek manda-lhe cumprimentos. Quando as coisas estiverem um pouco mais calmas pode ser que ele a venha visitar a Rita... e a mim,‿ completou a jovem russa com o olhar focado no infinito.

Rita assentiu com a cabeça. Sim, o futuro era imprevisível, neste ponto. Suspirou. Sentia-se cansada, e a ideia da criança que estaria em stasis algures no hospital não a largava. À medida que o cansaço a ia vencendo, essa incógnita misturava-se com a dor e desilusão da partida da KC.

Que diabo fazia agora: engravidava? Seria mesmo capaz de deixar o sangue do seu sangue morrer sem ter tido uma hipótese de vida? E que tal o casamento? Contentar-se-ia com o Daniel embora ele ainda vivesse na sombra do fantasma da Christine; embora ela ainda desejasse a KC? Fugia desta treta toda e refugiava-se nalgum canto remoto da galáxia onde pudesse esquecer quem era e de onde vinha?

O cansaço abateu-se sobre ela. Esgotara as forças a discutir com a KC enquanto estava tão fragilizada. Suspirou de novo, fechou os olhos. Nem notou quando Nadja Romanova saiu do quarto.