1ª Sessão de 10/10/2007 - "Perturbação"

Retrato de jrmariano

Bem, depois de uma sessão de criação de personagens e uma outra sessão intermédia de pura cavaqueira lá começamos a jogar Don't Rest Your Head n'"A Terra do Leite e do Mel". Com algum trabalho de casa já tinha preparado alguns NPCs e situações com os quais o Alexander (personagem do Jofazepa), polícia infiltrado tornado junkie, e a Joanna (personagem da Joe), uma detective obcecada com o seu próprio trabalho, iriam enfrentar.

Discutimos um pouco quem tinha direitos de narração e por quem seriam introduzidas as cenas já que o próprio jogo deixa ao critério dos jogadores. Chegamos à conclusão de que, salvo erro, as consequências das mecânicas ligadas apenas à personagem (se dominar a Disciplina, Cansaço e Loucura, e se Fogem ou Lutam, etc.) seriam narradas pelos próprios jogadores e as consequências das mecânicas ligadas a tudo o resto exterior às personagens seria o Mestre de Jogo (se dominar a Dor, etc.). De resto cada jogador podia introduzir à vez uma cena sendo rotativo este acto criativo.

Fui um pouco chato também e além de insistir que arranjássemos uns recipientes para uns marcadores usados durante o jogo (as moedas de Esperança e Desespero) decidimos, por pressão minha, que desenvolvessemos um "ritual" de início e fim de sessão. Não fomos muito originais (Polaris, estou a olhar para ti) mas depois de pôrmos música a tocar, acendemos sempre uma vela e com ela nas o Mestre de Jogo diz: "Esta é a história daqueles peregrinos que procuraram a Terra do Leite e do Mel". Só depois começamos o jogo. A Jo pareceu gostar muito da minha face iluminada pela vela já que o resto da divisão estava pouco iluminada para o efeito. O Jofazepa assentiu com a cabeça sem manifestar tanto entusiasmo mas pareceu-me concordar com tudo. No fim da sessão apaga-se a vela e o Mestre de Jogo diz "E a história continua...".

Como havia pouco tempo, predispusemo-nos a jogar apenas as primeiras cenas descritas na resposta à pergunta "O que me acabou de acontecer?" constante da ficha de personagem e parte fundamental da sua criação. O da Joanna envolvia o chefe Hammer do departamento de pessoas desparecidas confrontá-la duramente com o seu envolvimento pessoal obsessivo e quase exclusivo com o caso da sua irmã desaparecida. A Joanna tentou umas evasivas mas o seu chefe decide na mesma dar-lhe um discurso intenso de motivação/castração. Enquanto isto acontece o pacote de leite, que o chefe havia retirado do frigorífico para beber uma bela caneca de... leite começa a falar com a nossa protagonista. Uma imagem da irmã desaparecida começa a chamar por ela e que precisa da sua ajuda.

Neste momento inicia-se um conflito entre a Joanna e o Hammer, por um lado a nossa protagonista quer roubar o pacote sem o chefe reparar, por outro lado o chefe quer apanhá-la em falso para que possa cair em cima dela como o proverbial "Martelo". A Jo avançou com os seus 3 dados de Disciplina de base e o Hammer com os seus 3 dados de Dor ("Um chefe é sempre um bom chefe!"). Ainda discutimos se valeria a pena ou não a Joanna usar o seu poder de Loucura, a sua Camuflagem, mas a Jo achou não sou despropositado mas também arriscado pois o uso de dados de Loucura (provavelmente desparecer numa sala iluminada e à frente do Chefe mesmo que com o pacote na mão teria um "preço" de seis dados de Loucura!) poderia proporciornar consequências catástroficas. Lançaram-se os dados, a Joanna perdeu o conflito e a Dor dominou: a Dor de ser apanhada em com a "boca no pacote" e expulsa verbalmente do escritório pelo Chefe que a partir daquele momento desconfia da prestação desta e ameaçou com a intervenção dos Serviços Internos enquanto fazia um telefonema furioso para um número incógnito, claro! Isso e acrescentou-se uma moeda de Desespero ao reservatório apropriado, no nosso caso um caixote de lixo (daqueles verdes com tapa como os da rua!) em miniatura.

Depois de a Joanna ficar a ansiar pela sua reunião com o pacote de leite observado através das persianas das janelas do escritório do chefe passou-se então para a cena seguinte: a do Alexander.

O Jofazepa começou logo com uma descrição bem sugestiva e psicadélica da quase overdose em que o Alexander se encontrava. A descrição dele foi bem visual estabeleceu logo um ambiente opressivo e descontrolado do que se seguiu. Esquecendo-me por momentos que não era apenas uma trip que o nosso protagonista estava a experienciar mas sim uma overdose eu introduzi a presença de uma figura estranha a assombrar este momento de fraqueza pulsante do personagem. Um barulho estranho de sucção e vapor libertado, tubos metálicos e ômbolos de plástico em seringas de tamanho anormal, uma máscara de gás da Primeira Guerra Mundial por debaixo de um chapéu de formato redondo com pala curta no mais imaculado branco, tudo isto são detalhes que descreviam essa sombra humanóide que se aproximava perigosamente de Alexander com propósito desconhecido. A minha intenção, aquando da introdução desta personagem, era criar algum tipo de reacção por parte de Alex que nunca chegou a ocorrer. Mas depois de conversar com o Jofazepa reparei que ele estava em quase overdose e que era por isso que o Alexander não reagia mas que assistia passivamente ao horror que lhe passava diante dos olhos.

Vendo que não havia nenhuma razão para um conflito avançamos para os efeitos finais da overdose sugerindo eu que Alexander tinha sentido um enorme extáse advindo de uma sensação de regresso a algo primordial e confortável como o absoluto regaço maternal ou algo que o valha. Depois foi o rude acordar perto da madrugada na discoteca ranhosa desértica, num daqueles assentos confortáveis de cores sanguíneas em forma de "u". Tinha sido invadido o seu espaço pessoal com um toque prolongado no ombro o que levou a que Alexander despertasse de maneira enraivecida. Júlio Hernandez, o traficante de meia-tijela de quem o Alexander se quer livrar, senta-se à sua frente e tem um convite irrecusável com o qual Alexander entrará finalmente na organização que se queria infiltrar. Seguiu-se uma negociação tensa sobre os detalhes do serviço que este irá prestar e o seus benefícios futuro que degenera rapidamente numa tentativa de Hernandez de intimidar Alexander, de modo a que este ficasse com uma parte mais pequena do lucro, com uma referência velada à possibilidade de ele próprio ser o polícia infiltrado que na organização todos desconfiam estar a rondá-la. Segurando a sua pistola escondida dentro do bolso mas bem à vista Alex responde com uma ameaça mortal a Hernandez e este cede às exigências do protagonista.

Entretanto reparei que a cena não estava a chegar a nenhum conflito interessante e discuti isso com o Jofazepa. Reparamos então que esta conversa intensa que tínhamos acabado de jogar era ela o conflito que estávamos à procura. Fizemos rewind e avançamos para a resolução de conflito usando as regras. O Jofazepa avançou com os 3 dados base de Disciplina e decidiu adicionar 2 dados de Loucura pois achou apropriado o seu uso contemplando a hipótese da Loucura dominar e tudo ir para o "bailaléu". Dados lançados a Disciplina dominou completamente e como já tinha acontecido o Hernandez acobardou-se um bocado, o Alexander não se deixou o disfarce cair, e traficante de meia-tijela disfarçou uma cumplicidade afirmativa com um aperto prolongado no ombro do protagonista.

Fim de cena e ainda deu tempo para acabar a sessão com a frase ritual. Lembrei-me de pedir aos jogadores que imaginassem imagens rápidas e sugestivas de um momento interessante que pudesse acontecer aos seus personagens na sessão a seguir e heis que a Jo sugeriu que num supermercado milhentos pacotes de leite começassem a falar com ela em uníssono e por seu lado, o Jopazepa sugeriu que ao percorrer um dos becos da cidade várias figuras diminutas constituídas de sombra e com máscaras rotativas a esconderem-lhes a cara surgissem nas janelas, caixotes de lixo e escadas de emergência à medida que este passasse observando-o com uma paciência enervante.

Eu por meu lado diverti-me, especialmente com o riso genuíno da Jo quando lhe descrevi os "bigodes de leite" do chefe ao beber da sua caneca com a inscrição "This cup belongs to the greatest captain in the force", a maneira como ela considerou as acções da sua personagem no conflito, a a descrição concentrada e vívida da overdose por parte do Jofazepa e a negociação tensa entre o Hernandez e o Alexander.