Gene Navegador

Retrato de tunas

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de Ciência e Informação
Processo 12542/500
Nível de Segurança 2 – Autorizado

antiSFTL/0220 - O GENE NAVEGADOR

O gene navegador continua a iludir os nossos cientistas. Presente em menos de 1 em cada 100.000 membros de certas das espécies inteligentes conhecidas – Humanos (incluindo kranoritas), An Phar, Irari, Cidi, Kaa, Kronin, Pachekki e Memer & Saret – confere imunidade ao Síndroma FTL e uma afinidade especial com o sub-espaço. É a sua raridade que o torna desejável e precioso; no Espaço civilizado do Conglomerado todos os recém-nascidos são rotineiramente testados para a presença do gene no seu genoma. Se encontrado, os pais ou guardiães legais são aconselhados a encaminhar o seu educando na via do Navegador. Como o gene parece estar ligado matrilinearmente entre gerações, formaram-se naturalmente Casas Navegadoras com o passar do tempo. No Conglomerado existem vários destes consórcios, servindo tanto a sociedade civil como a instituição militar.

A maior parte dos astronavegadores vive a sua vida dentro dos padrões reguladores dos consórcios constituídos pelas grandes Casas Navegadoras, mas outros escolhem uma vida independente e mercenária – essa escolha acarreta alguns riscos, como a perda da protecção conferida por essas poderosas guildas.

Desde pequenos que os astronavegadores treinam para a sua profissão. Os seus estudos começam imediatamente no ensino básico, e na altura em que um jovem navegador acaba a adolescência (no caso humano – outras espécies poderão ter patamares de maturação diferentes; é favor o leitor referir-se ao ficheiro apropriado), os seus conhecimentos de matemática e física são extensos e completos. Segue-se um período de 5-6 anos de estudos superiores, altura em que é feito o implante craniano de uma A.I. dedicada, factor determinante no sucesso do navegador. Os estudos lidam com a navegação espacial propriamente dita e com a aprendizagem das difíceis físicas e matemáticas que constituem a base dos cálculos sub-espaciais. Uma vez que as leis da física não funcionam da mesma forma na dimensão alternativa do sub-espaço, até mesmo as potentes A.I.’s e máquinas que auxiliam o trabalho dos navegadores têm de ser construídas especificamente para o efeito, e é notória a forma errática como os cérebros electrónicos funcionam no sub-espaço… um astronavegador necessita ser independente.

Dos candidatos, nem todos passam os difíceis exames e se tornam astronavegadores credenciados – aliás, a taxa de sucesso não ultrapassa os 50% mesmo nas melhores instituições, como é o caso da Universidade Metropolitana do Conglomerado - mas os que não passam são mesmo assim reciclados para outras funções de bordo. Afinal, a imunidade à síndroma FTL é, por si só, uma característica invejável.

O gene navegador é altamente complexo e parece estar ligado, de forma ubíqua, com os mais variados aspectos da fisiologia do indivíduo. Tal torna-o difícil de emular, apesar das continuadas tentativas dos melhores ciberneticistas e geneticistas. O poder das Casas Navegadoras constituiu um lobby que se opõe ao continuado estudo do gene, por medo da perda do status quo.

A Síndroma FTL é uma condição patológica, caracterizada por um estado crónico semelhante ao dos piores sintomas causados por uma ressaca após ingestão de drogas, estupefacientes ou outros inebriantes tóxicos; apenas os Navegadores são imunes a este efeito, que se apresenta pouco depois do salto para o sub-espaço. Por esta razão, enquanto no sub-espaço, a tripulação activa de uma nave é muito reduzida, a maior parte confinada nos seus camarotes tentando evitar os piores efeitos da síndroma, muitas vezes em estado de suspensão criogénica para viagens muito longas ou de sono induzido em viagens mais curtas.

A descoberta do gene navegador ocorreu, como tantas outras vezes na História, por um acaso. Tanto em humanos como an phar, kaa e kronin, foi por estudo e análise daqueles indivíduos que pareciam imunes aos efeitos nefastos das viagens mais rápidas que a luz, enquanto que no caso dos irari e pachekki foi concomitante com o desenvolvimento dos primeiros motores sub-espaciais funcionais. As espécies que não desenvolveram tecnologia FTL pela sua mão, mas que se veio a descobrir possuir o gene no seu genoma foram os cidi e os simbiontes memer & saret. Após investigação pós-contacto, revelou-se que nem os fasanni, gormelitas, tamile, sparrials, jaril ou gerodianos possuem o gene, descoberta que veio acentuar a corrente supremacista que defende estarem as espécies inteligentes divididas em de 1ª Ordem e de 2ª Ordem, consoante desenvolveram ou não tecnologia FTL, e consoante possuem ou não o gene. Esta corrente de opinião não é partilhada pelo Conselho Galáctico. Os cidi reagem muito mal a esta categorização das espécies, aludindo que estavam no bom caminho para a descoberta da tecnologia FTL e que esta era iminente, não fosse o contacto com os exploradores humanos e an phar do Conglomerado.

De notar que no caso dos gerodianos e, possivelmente, no caso dos jaril, a comunidade científica acredita que o gene foi propositadamente extirpado do património genético da espécie por escolha dos seus membros, por razões e usando técnicas ainda desconhecidas.