A Grande Aliança

Retrato de tunas

 

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)

Departamento de História Valdoriana

Processo 112058/500

Nível de Segurança 3 – Restrito

O povo Phar, originário do sistema estelar de Pharia, foi a primeira civilização alienígena que os humanos valdorianos encontraram após a descoberta da propulsão sub-espacial e o início das primeiras viagens de exploração estelar, a partir de 114 V.T., dando início à criação do Conglomerado.

O contacto deu-se em 167 V.T., numa altura em que os humanos se haviam já espalhado por uma dúzia de sistemas estelares, fundando pequenas colónias em mundos promissores. Havia sido meio século de exploração cuidadosa, lenta e metódica das regiões adjacentes a Primus, a estrela adoptiva dos valdorianos e da Humanidade exilada da Arca nº 7.

A nave de exploração S.F.V. Selmar, comandada pelo capitão Roger Bucko, ao efectuar mais uma expedição de rotina ao sub-sector 13254/QW12, iniciou a exploração do sistema catalogado como nº 65785/19 e baptizou-o de Buckonia.

O sistema continha um planeta onde se havia estabelecido uma colónia avançada An Phar, Fenorra, e foi grande a excitação da tripulação humana quando descobriu que havia sinais de vida inteligente no planeta. O contacto não se fez tardar: saudados por uma nave Phar sem óbvias intenções hostis, os humanos desceram até à superfície do planeta e aí, pela primeira vez na sua História, a Humanidade deparou-se cara a cara com uma espécie alienígena inteligente. Apesar da incapacidade para dialogarem, as duas comitivas foram capazes de entabular algum tipo de comunicação baseada na ciência. A matemática, a física e a química foram usadas como linguagem universal de comunicação, e foi assim que novos contactos foram prometidos de parte a parte. Ambas as partes constataram que a tecnologia do outro era bastante semelhante à sua. Como prova de boa vontade, um membro da tripulação humana, Linda Gyron, exobióloga, ficou na colónia Phar, e da mesma forma Dir-Ro Ser Binor-Lom Phar (que passou para a História como Binor-Phar), sociólogo, acompanhou a Selmar na viagem de alguns meses de volta a Espaço valdoriano.

Era magus na altura Yeronimus I, um homem de visão, moderado mas extremamente consciente da fraqueza inerente à humanidade de Primus face a potenciais encontros alienígenas: o seu reduzido número. Na verdade, nesta altura haveria menos de 2 milhões de pessoas a viver no domínio humano, mesmo com a política de incentivo às grandes famílias que vigorava desde a fundação da colónia e que ainda hoje é apanágio cultural da humanidade um pouco por todo o lado. Ora, nessa altura a população an phar atingia os vários biliões… como é natural, o estigma de minoria racial causou receio aos líderes humanos.

Os contactos iniciaram-se oficialmente com o estabelecimento em Buckonia de um consulado valdoriano em 169 V.T. Esse sistema passou a ser a zona franca de comunicação entre os dois povos. Lentamente ao início, depois mais e mais rapidamente, as duas nações iniciaram um processo gradual de trocas comerciais, culturais e científicas, que se tornou expedito após a descodificação mútua das respectivas linguagens.

Esse processo acelerou-se com o estabelecimento, ao longo dos anos que se seguiram, da 1ª rede RCI (Rede de Comunicações Interstelares), baseada na tecnologia FTL, ligando os mundos das duas civilizações. O Domínio Humano estava agora ligado a Pharia e suas Colónias e a troca de informação atingiu o seu pico com a assinatura do tratado de cooperação académica, os Acordos de Buckonia, que efectivamente levaram ao intercâmbio cultural sem par levado a cabo por estudantes, professores e investigadores universitários humanos e an phar. As semelhanças fisiológicas e psicológicas entre as duas espécies eram tão grandes que o processo de aculturação foi rápido, e o choque cultural para ambos os povos funcionou como um catalisador da mudança de mentalidades, costumes e preconceitos. Ao fim de uma geração, estabelecia-se uma classe de humanos e an phar unidos culturalmente. Tal como para os humanos, também esta havia sido uma clivagem histórica para os an phar, que se haviam encontrado pela primeira vez com vida inteligente. E a intrigante questão das semelhanças fisiológicas e mesmo psicológicas entre as duas espécies levou ao refinar da teoria da Panspermia, que se haveria de tornar, com o tempo, no dogma aceite para o aparecimento e difusão da vida na Via Láctea.

Entretanto, a elite an phar foi lenta e inexoravelmente assegurada da franqueza das intenções humanas graças aos esforços da casta valdoriana; os extraordinários poderes destes últimos levantavam receios entre muitos an phar – foi comum, nesses tempos, muitos an phar deixarem-se impressionar de tal forma pelos poderes valdorianos a ponto de se criarem seitas e outras comunidades menos esclarecidas que viam nos valdorianos uma espécie de mensageiros divinos. Tais comportamentos eram muito criticados pela elite an phar, mas mais ainda pelos próprios valdorianos, receosos das consequências de tais actos.

Em 181 V.T. é assinada entre as duas nações a Carta Universal da Harmonia entre Sapientes, e são criados os primeiros organismos supra-nacionais que estarão na génese do futuro Senado do Conglomerado. O representante Phar, então Presidente do Conselho Cho, Da-Cho-No Lare Dir-Los Phar (Dir da família Lare) assinou o tratado juntamente com o representante humano, o magus Yeronimus I. Entre os dois seres existia uma concordância de ideais e uma mútua simpatia que foi talvez o factor isolado mais importante na criação do Conglomerado. Esse entendimento reflectiu-se nas relações entre espécies. Foi, sem dúvida, um período de ouro na História das relações entre seres inteligentes da Galáxia.

Em 189 V.T. é finalmente pronunciada a Declaração de União, aprovada por referendo universal com mais de 60% de votos a favor. A Grande Aliança e o estabelecimento do Conglomerado Federativo An Phar-Valdoriano marca o nascimento da nossa nação. As eleições gerais para o Senado, ocorridas no ano seguinte, estabelecem o precedente: a ciberdemocracia é implantada no espaço do Conglomerado como forma de governo da federação. Os governos nacionais (o Fórum Valdoriano e o Conselho Cho) continuam a existir, independentes e soberanos.