O Poder Secreto

Retrato de tunas

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 855474/504
Nível de Segurança 5 – Ultra Confidencial; extracto de uma palestra dada a 504.02.08/14.32 por Suki Yaki, Lorde Elara, magus valdoriana, a um grupo de iniciados.

ESOTERISMO E DISCIPLINAS ESPECIAIS

“Bem vindos, vós que fostes escolhidos.

Todos sabeis porque estão presentes aqui e agora. Todos sabeis qual a tarefa grandiosa que vos espera. Todos sabeis as provações que essa estrada promete, e a esperança do futuro radioso que por vontade manifesta do destino pertence à Humanidade e aos que se abrigam sob a sua protecção. E todos sabeis também quais os perigos que enfrentarão no decorrer da vossa altíssima missão.

Mas saberão?

Uma das forças mais vitais à sobrevivência do Universo é aquilo a que muitos primitivos chamam magia… Ah, vejo que se agitam nas vossas cadeiras, vejo os esgares de desprezo nos vossos lábios de alguns de vós… não desprezeis a ignorância do leigo, pois é a vossa maior aliada. Sim, é verdade que a existência desta força natural é do desconhecimento da maior parte dos nossos concidadãos, pois como é o caso nas civilizações tecnológicas, e a nossa não é excepção, a “razão” acaba quase sempre por se sobrepor à “superstição”. E ainda bem que assim é, pois é a Razão, temperada pelo nosso Poder, que permite à Humanidade subsistir num cosmos repleto de perigos.

Não vos iludis, nunca: somos poucos, somos frágeis… um velho adágio, citado tantas vezes pelo Grande Valdor. É nosso dever defender a Humanidade, velar pelo seu futuro. E a ignorância dos nossos pares ajudar-nos-á sempre na nossa missão, pois a nossa é uma mão que conduz com subtileza e sensibilidade, nunca pela violência!

Essa força, a que chamamos mana, é gerada pelos focos de menor entropia do universo: os organismos vivos, cuja matéria se encontra no estádio mais complexo de organização conhecido. É a vida que gera a mana. E descobrimos, ao longo de séculos de estudo, que a vida inteligente tem um poder extraordinário não só de gerar e manter, como de manipular essa energia. A mana é tão vital à estrutura física do Universo como a Lei da Gravidade; sem mana não existiria vida. Sem vida o Universo perde o sentido. Pois que som faz a árvore que cai no cimo da montanha, se não houver ninguém para o escutar?

Alguns indivíduos, como todos os aqui presentes, nascem com a capacidade de sentir os fluxos da mana, e se devidamente treinados conseguem utilizá-los para criar efeitos físicos complexos e extraordinários, capazes de desafiar a imaginação do leigo e qualquer explicação científica ortodoxa. O estudo da mana e das formas de a manipular faz-se através da aprendizagem de rituais e fórmulas, que exigem grande esforço e empenho e que são rigidamente estruturados. Esse saber é passado de mestre para discípulo ao longo das gerações, numa tradição venerável que se estende aos primórdios da nossa Ordem nos tempos remotos da Velha Terra. E em breve também vós iniciareis o vosso aprendizado. Desejo-vos boa fortuna e concentração no domínio da nossa Taumaturgia e Taumatologia.

Nós somos Valdorianos, e haveria quem nos chamasse de casta secretiva de feiticeiros, capazes de manipular estas estranhas energias. Sim, somos uma casta. Sim, somos discretos. Mas feiticeiros? Designações rudes fruto de mentes torpes. Somos acima de tudo agentes ao serviço do bem comum. Nunca o esqueçam: o vosso dom é uma dádiva para usarem ao serviço da Humanidade e do Conglomerado. Desejamos uma sociedade harmoniosa e em paz e trabalhamos para o avançar da cultura e civilização. E por nós e pelos nossos protegidos, somos obrigados a manter o secretismo que envolve a natureza do nosso poder e das nossas actividades.

Ao longo de gerações, nós, seguidores de Valdor, temos usado o nosso dom para auxiliar, orientar os governantes do Conglomerado, e antes disso, da Arca nº 7 proveniente da Velha Terra. A nossa é uma acção metódica, um estabelecer de políticas, atitudes e mentalidades que nos auxiliem no eventual renascimento de uma Nova Terra, um ideal, uma visão quimérica se quiserem, de construção de um futuro e de uma sociedade em que a Humanidade já não necessite ter medo.

Antigamente, quando os velhos mestres demonstravam em público as suas capacidades, dizia-se que éramos capazes de controlar mentes, manipular vontades e dominar os elementos. Dizia-se que éramos déspotas iluminados; lembrem-se sempre da Revolta Kranorita e encontrarão aí os verdadeiros déspotas e os verdadeiros manipuladores! Desconfiai de traidores e desorientados. Desconfiai de kranoritas, cabalistas e numerologistas, que existem ainda no seio da Humanidade.

E agora, e talvez o ponto mais importante de todo o meu discurso, uma palavra sobre os nossos inimigos, que são legião: o Império Kaa é, como sabem, governado por uma seita religioso, cujos membros são sacerdotes que prestam culto a uma “divindade” a que chamam Sem’Nochlor, que é sem dúvida uma aberração de incomensurável poder e malignidade nativa do sub-espaço. Tal como nós, são implacáveis e eficientes, mas ao contrário da nossa Ordem, são sanguinolentos, sádicos e cruéis, mantêm o poder pela força e especialmente pelo terror. E contudo merecem acima de tudo a nossa piedade… sim, a nossa piedade, meus discípulos, a vossa indignação não é fundamentada! Pois não serão os Kaa e outros perdidos meros escravos dos poderes do sub-espaço, essas inteligências tão profundamente malignas e perigosas que apenas desejam a destruição do nosso Universo? E uma vez escravizada pelas monstruosidades que habitam essa outra dimensão, meus irmãos, nada poderá salvar uma criatura de uma eternidade de sofrimento.

Sim, é verdade que desde há muito suspeitamos que os Antigos eram grandes mestres das ciências ocultas, e que o seu desaparecimento está de algum modo relacionado com essas inteligências verdadeiramente alienígenas e totalmente predispostas à violência absurda e à destruição sem sentido. Se os Kaa identificam estas presenças assustadoras com o seu deus Sem’Nochlor, nós valdorianos chamamos-lhes Criaturas do Vazio… demónios, se quiserem.

É a crença dos nossos mestres mais sábios que terá havido uma invasão sem precedentes na história da Galáxia por parte dessas criaturas e que terá erradicado rápida e violentamente toda a civilização dos Antigos, há cerca de 20 milhões de anos…”