A Revolta Kranorita

Retrato de tunas

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Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)
Departamento de História Valdoriana
Processo 8551/471
Nível de Segurança 3 – Restrito
 
 
Durante a progressiva e inexorável colonização do sistema Primus pelos descendentes dos colonos da Arca nº7, assiste-se a um aumento substancial do interesse nas ciências biológicas, devido às exigências de adaptar a forma de vida essencialmente alienígena que é a humana ao novo habitat onde se encontra. Não nos esqueçamos que a humanidade é pela primeira vez confrontada com a existência de vida extra-terrestre - essa exposição alterou para sempre a nossa percepção do Universo e criou as bases para um dos preceitos base da ciência, a ideia da Panspermia, e de que a Vida na galáxia partilha, no seu âmago, das mesmas bases e possivelmente das mesmas origens.

No espaço de uma geração estabelecem-se entrepostos nas profundezas do espaço interplanetário e nos outros planetas não habitáveis de Primus. Colónias e estações de investigação surgem rapidamente por todo o sistema, nos planetas exteriores, gigantes gasosos e na nuvem de Oort; com essa expansão surgem rapidamente novos e grandes desafios, que exigem respostas cada vez mais sofisticadas para suportar e melhorar a capacidade de trabalho e sobrevivência das pessoas em ambientes hostis como gravidade zero, elevados níveis de radiação, etc. Problemas de teor essencialmente fisiológico levam ao desenvolvimento sem paralelo da modificação genética dos especialistas que passam mais e mais do seu tempo no espaço sideral. O nascimento das primeiras crianças no espaço e a subsequente habitação permanente em colónias espaciais leva a que este desenvolvimento se torne rapidamente rotineiro.

Ao mesmo tempo, um governo unificado e democrático acolhe a ascensão meteórica da casta valdoriana, que em menos de 15 anos após a criação da Colónia de Primus se estabelece como a força política dominante, graças aos manifestos e extraordinários poderes mentais exibidos pelos seus membros, que se arvoram guardiães e protectores da Arca nº7, vista, de certo modo, como um novo começo para a Humanidade, uma nova oportunidade. A esperança na capacidade de evitar os erros da Velha Terra permeia todas as actividades, todos os esforços daqueles que, efectivamente, se sentem e consideram os Novos Patriarcas.

Grigori Kranor é um brilhante biólogo e geneticista russo, um dos pioneiros que faz a viagem desde a Velha Terra, e um dos mais importantes proponentes da modificação genética radical dos seres humanos como forma de adaptar, evoluir e suplantar as capacidades e/ou defeitos inerentes à nossa espécie; advoga os mesmos princípios relativamente à restante vida. Um existencialista e utilitarista, acredita que a capacidade de iniciativa e a responsabilidade de cada indivíduo suplantam quaisquer leis de um estado organizado. Crê que cabe a cada um criar a utopia, que o bem comum reside na capacidade de cada um se ultrapassar e reinventar. É um homem motivado pela fé sem paralelo na ciência, no individualismo e na infinita capacidade de adaptação da Humanidade à adversidade. E vê a genética como a ferramenta. É, em última análise, um anarquista. E é em seu torno que se reúne a Escola de genética que aprofundará a especialidade para além do imaginável.
Entre o tempo que medeia o início da exploração espacial e o primeiro contacto com os An Phar, o número de metahumanos - como começam a ser conhecidos os humanos nascidos com modificações genéticas substanciais - aumenta prodigiosamente; claramente, faltou aos responsáveis pela coordenação e gestão da exploração espacial a visão necessária para vigiar e controlar a mesma. Por falta da dita regulação, (não esqueçamos que, nesses tempos pioneiros, a exploração estava na maior parte dos casos nas mão de privados), a clonagem é usada para suplementar o número de pessoas disponíveis para a conquista do espaço.

As modificações tornam-se, muitas vezes, tão substanciais que os humanos resultantes já não são capazes de sobreviver em condições normais de atmosfera, luz e gravidade, e a maior parte passa as suas vidas inteiras no profundo do espaço. A situação torna-se conflituosa apenas a partir do momento em que algumas "linhas de investigação" se revelam perigosamente desequilibradas e erráticas; a intervenção do Fórum Valdoriano, o corpo regente de Primus, vem já tarde e a opinião pública divide-se quanto às restrições e controlos a impor à modificação genética e à exploração espacial associada. Os benefícios da mesma são inegáveis, à luz das inovações técnicas e da exploração de recursos que de outra forma teriam levado muitas décadas a conseguir, mas muitos questionam a ética e a moralidade, até a própria humanidade, destes ciborgues, estes humanos modificados, os metahumanos, os transhumanos.

Este conflito está bem retratado pelas rebeliões dos Alfas e Alfas+ (as então novas linhagens genéticas usadas na perigosa exploração de gigantes gasosos e extracção de CCS) de 126 V.T., que degeneraram numa série de motins motivados pelas condições de trabalho e suposta utilização irresponsável da mão-de-obra como "trabalho escravo dispensável" (nas palavras dos líderes do motim). A desordem civil durou seis semanas e resultou em mais de 135 mortos e centenas de feridos, para além da destruição do cargueiro HTV Aeos - com morte de toda a tripulação - e obrigou à utilização, pela primeira vez na história da colónia de Primus, de força letal sobre os manifestantes de modo a repor a ordem.

Esta discussão floresce e diversifica-se ao longo dos anos seguintes. É de reconhecer que, em última análise, a descoberta da propulsão hiperspacial resulta indirectamente do enorme trabalho realizado apenas graças aos transhumanos. Na verdade, com o passar de duas gerações, muitos são os que consideram haver duas humanidades: a linha basal e os transhumanos, agora chamados kranoritas por causa do principal defensor e investigador da causa transhumana, Grigori Kranor. Kranor, agora um homem centenário (a utilização dos primeiros anti-agáticos teve na sua pessoa uma cobaia entusiástica), reúne à sua volta uma cada vez maior legião de seguidores da causa transhumana; as suas opiniões carregam um enorme peso, os seus livros são bestsellers, as suas palestras atraem milhares. O seu nome passa a ser sinónimo da causa da modificação genética humana e da investigação genética em geral.

Em 167 V.T. dá-se o contacto com os an phar. Esta é a marca de água que define todo o pensamento humano posterior, e o impacto na sociedade de Primus é avassalador, como é de esperar. A evolução cultural e a aproximação entre aqueles que se tornarão nos membros fundadores do Conglomerado culmina com a Declaração de União de 189 V.T. Uma das muitas consequências do contacto é o acalmar das tensões entre os kranoritas e as outras facções humanas; seguem-se anos de renovada e contínua exploração, comércio e expansão espacial. Os números kranoritas atingem os milhões graças à clonagem radical.

As tensões ganham novamente expressão e ímpeto com a proibição de investigação genética futura decretada pelo Fórum Valdoriano em 203 V.T. A lei, que procura conter os excessos da alteração radical do genoma humano e da linha basal, e que vem ao encontro do pensamento corrente na época acerca dos limites naturais do ser humano, gera enorme controvérsia entre as comunidades kranoritas espalhadas pelo espaço. Muitos consideram que a única forma de evitar uma inexorável erosão do seu estilo de vida, das suas escolhas morais e éticas é simplesmente abandonar o Fórum Valdoriano e assim, efectivamente, cometer secessão.

A gota de água que leva ao conflito aberto é habitualmente considerada como sendo a greve de 205 V.T. dos transportadores de terras raras no sector de Serveronius, que rapidamente mobiliza outras corporações dominadas por kranoritas. Com medo das consequências de uma repressão idêntica à da rebelião dos Alfas, o governo humano vive paralisado pela inacção durante meses, o que permite aos kranoritas granjear mais e mais apoio para a sua causa. A neutralidade do Concelho Cho dos an phar é contraposta pelo apoio de muitos indivíduos dessa espécie à causa kranorita. A escalada militar valdoriana acaba por estremar as posições; todo o sector vive um clima de lei marcial, e em 206 V.T. o conflito armado irrompe com um ataque terrorista por parte de uma organização libertária kranorita radical contras as forças armadas valdorianas, que apesar de repudiado por todos os quadrantes políticos dentro do Conglomerado, incluindo o recém-criado Comissariado Transhumano, não impede que a resposta valdoriana que se segue seja rápida e violenta.

Pode-se no entanto argumentar que a verdadeira causa do conflito reside na descoberta - por parte da célebre equipa de investigação fundada por Kranor (o Grupo de Estudos Genéticos Avançados), Kranor esse entretanto desaparecido desde 199 V.T. após um misterioso acidente nos laboratórios de genética da Primeira Universidade - do gene Anti-Psi, que permite granjear, através da sua manipulação, um certo tipo de imunidade aos poderes mentais dos magus valdorianos. Confrontados com uma ferramenta que poderá desequilibrar definitivamente o status quo estabelecido no Domínio Humano, a casta valdoriana pode simplesmente ter decidido actuar desarmando a ameaça e declarando os kranoritas apóstatas e inimigos da humanidade.

O resultado, de qualquer modo, é uma guerra civil. A guerra civil que definirá o futuro da(s) humanidade(s). A antipatia gerada por anos de subtil propaganda cultural por parte do mainstream leva a que os kranoritas sejam vistos pelos restantes cidadãos como gente assustadora, estranha, até mesmo monstruosa e menos que humana. As suas comunidades são perseguidas e escorraçadas. As posições radicalizam-se: muita gente lembra os propósitos dos seus antepassados da Arca nº7, que criaram em Primus uma nova oportunidade para evitar os erros da Velha Terra, e recusa-se a alinhar num discurso de ódio. Mas muitos são levados pelo medo e por décadas de desconfiança crescente. Do lado kranorita há igualmente grandes clivagens, dado que uma proporção minoritária mas muito activa (e particularmente belicista) considera que o transhumanismo é a última fronteira na evolução da humanidade e a linha basal é primitiva, obsoleta e dispensável - redundante e a caminho da extinção...

Os kranoritas defendem-se levando a cabo uma guerra de guerrilha e actos considerados terroristas, justamente lutando por aquilo que consideram ser uma "guerra de libertação". Estão mal organizados e mal equipados, mas lutam com grande fervor. As forças militares valdorianas procuram encurralar e quebrar os protestos e os motins, criando "reservas" onde comunidades inteiras de dissidentes são realojadas e internadas. Em menos de dois anos o conflito, apesar de resumido até aí a acções de guerrilha e subsequente resposta militar valdoriana, espalha-se a todo o espaço humano e até mesmo a alguns sectores an phar (muito an phar lutam de ambos os lados); os kranoritas tornam-se mais e mais bem organizados e equipados, e tornam-se mais arrojados. Os que não estão internados fogem para os confins do espaço, o seu lar natural. Tornam-se esquivos e fugidios. Mas não são capazes de travar a máquina de guerra valdoriana. O conflito acaba bruscamente com a vitória valdorina na Batalha de Fergel IV em 210 V.T., na qual a quase totalidade das forças kranoritas irregulares é destruída pela esquadra valdoriana; no entanto, o lamentável massacre que se segue é duramente criticado pelo próprio Fórum Valdoriano, e a vitória militar transforma-se numa derrota diplomática. Sentados à mesa das negociações, moderadas pelo Concelho Cho, valdorianos e kranoritas assinam a paz que leva ao estabelecimento do Espaço Kranorita em 211 V.T. Os "internados" juntam-se aos seus irmãos rebeldes e em menos de dois anos desaparecem do Domínio Humano, num êxodo que faz lembrar aos neo-cristãos a fuga dos israelitas do Egipto.

No rescaldo desta guerra civil os kranoritas transformam-se num mítico fantasma, um bicho-papão das histórias das crianças, um inimigo sempre presente nas faldas do espaço, nas fronteiras das rotas conhecidas e empurrado para a Vastidão e para o Centro Galáctico. A partir da década de 240 V.T. começam a ser conhecidos por Outriders, nome que se torna sinónimo de kranorita. Desde então, e apesar de em 250 anos-padrão nunca mais ter havido um conflito entre o Conglomerado e os Outriders, sempre que uma nave desaparece misteriosamente, sempre que uma colónia se perde, sempre que coisas estranhas são avistadas no espaço profundo, os Outriders são considerados os responsáveis.

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