Viagens Espaciais

Retrato de tunas

Arquivos Centrais da Agência de Serviços de Inteligência do Conglomerado (ASIC)

Departamento de Ciência e Tecnologia

Processo 521158/471

Nível de Segurança 1 – Público/Especialista

VIAGENS ESPACIAIS

A possibilidade de viajar mais rapidamente que a luz, contrariando desse modo a teoria da relatividade de Einstein, foi pela primeira vez seriamente considerada há cerca de 400 anos, na sequência do estudo de wormholes e Buracos Negros que ocorrem naturalmente no cosmos. O próprio estudo do sub-espaço é extremamente difícil, pois uma nave a viajar mais rapidamente que a luz fica totalmente isolada do resto do universo, e até ao presente ainda não se conseguiu desenvolver nenhum modelo teórico, muito menos a tecnologia, que permita usar alguma forma de sonda ou transmissor que permita o contacto com o universo “real”. Por isso mesmo pouco se sabe ainda da natureza do próprio sub-espaço.

O único tipo de propulsão FTL (mais rápida que a luz) conhecido é o motor sub-espacial. A importância desta tecnologia é tal que se podem considerar ciclos inteiros da história da galáxia tendo por base apenas as épocas de descoberta e uso da mesma. Espécies são classificadas de 1ª e 2ª ordem consoante desenvolvem pelos seus meios ou não tal tecnologia. A própria natureza da nossa civilização e das nossas sociedades é determinada pela existência, tipo e qualidade da propulsão FTL. Desde os primeiros protótipos que permitiram o início das viagens de exploração espacial (iniciadas oficialmente em 114 V.T.), os motores sub-espaciais têm vindo a ser melhorados até hoje.

Estas máquinas fazem uso de colossais quantidades de energia para enfraquecerem o tecido espaço-temporal local, criando um wormhole artificial e lançando a nave no sub-espaço (ou hiperespaço, termo mais raramente utilizado), uma dimensão paralela ao universo dito “real”, permitindo viajar mais rapidamente que a luz. A energia necessária ao salto sub-espacial é fornecida por condensadores que armazenam electricidade gerada pela fusão nuclear de hidrogénio. Por isso, o consumo de combustível não é problemático, uma vez que o H2 é o composto mais comum no universo. O factor limite desta tecnologia é a necessidade que os propulsores têm de uma rara substância, uma forma cristalina complexa de matéria exótica conhecida como CCS (Compósito Cristalino Sub-espacial) para focar e estabilizar a imensa quantidade de energia libertada. Este material degrada-se a cada salto, e é necessário substituí-lo regularmente (aproximadamente a cada 10.000 parsecs viajados). São necessárias instalações industriais hiper-desenvolvidas para a produção deste material, pelo que o monopólio da sua produção recai sob a alçada dos Estados mais poderosos e das maiores corporações, e os stocks existentes adquirem grande importância estratégica.

A velocidade média dos motores sub-espaciais actuais ronda os 4-5 parsecs por hora, mas modelos antigos têm velocidades menores (muitos cargueiros espaciais com muitas décadas de existência podem estar equipados com motores dez vezes mais lentos). Os modelos militares são em geral mais rápidos (entre 8-10 parsecs por hora) que os modelos civis. O tempo útil que se pode passar a navegar no sub-espaço é limitado, devido à necessidade de recalcular as rotas com regularidade (todos os 100 parsecs, aproximadamente), e o cálculo das mesmas leva algum tempo (de 10 minutos a uma hora).

Um erro de astronavegação pode ser fatal, ao fazer colidir a nave com um poço gravitacional (uma estrela, por exemplo); no mínimo, fará desviar a mesma centenas ou mesmo milhares de parsecs da rota! A navegação no sub-espaço só é possível de e para as imediações de poços gravitacionais, e é afectada pelos mesmos. É por esta razão que as naves saltam da periferia de um sistema para a periferia de outro, e do mesmo modo é impossível viajar através do vácuo intergaláctico (não há poços gravitacionais) ou através do centro galáctico (demasiados poços gravitacionais).

O procedimento padrão para um salto sub-espacial envolve a saída da nave da órbita planetária e o afastamento da estrela, dependendo da massa da mesma, tempo usado para o cálculo preliminar do salto. Após o salto, e consoante a duração da viagem, fazem-se uma ou mais paragens entre sistemas para recalcular a rota e carregar capacitadores.

As Casas Navegadoras são responsáveis, no Conglomerado, pelo manutenção das rotas espaciais mais utilizadas, e mantêm um corpo de exploradores cuja função é o mapeamento e manutenção das mesmas, mantendo cartas de navegação actualizadas à disposição dos astronavegadores, que podem descarregar essa informação em cada sistema através das redes locais de comunicação. Assim, as rotas mais usadas são mais facilmente navegáveis que aquelas cuja informação é mais antiga. As rotas são em geral classificadas pelo seu grau de importância (intensidade de tráfego, essencialmente) em R1, R2, R3, etc., sendo R1 uma rota principal e assim por diante.

Os exploradores têm ainda a função adicional de mapear novas rotas entre sistemas recém-colonizados.

Há muito que se sabe da existência do gene navegador, presente em menos de um indivíduo em cada 100.000 e de extraordinária complexidade. Nem todas as espécies inteligentes têm esse gene presente, numa forma ou outra. É esse gene que confere aos astronavegadores imunidade à famosa Síndroma FTL, um estado patológico que afecta os viajantes do sub-espaço durante a sua estadia nessa dimensão alternativa, e que se manifesta por tonturas, cefaleias profundamente debilitantes, extrema sonolência, dificuldade de concentração e irritabilidade. Por esta razão, durante as viagens FTL a maior parte da tripulação dorme ou permanece inactiva. Os efeitos da Síndroma FTL desaparecem quando a nave retoma o espaço normal. Um Navegador sabe que vale o seu peso em ouro.

A Astronavegação é uma ciência difícil cujo estudo exige muita dedicação e uma afinidade particular com a dimensão alternativa do sub-espaço, devido às matemáticas e físicas esotéricas que entram em jogo ao calcular rotas quadridimensionais complexas através do sub-espaço, mesmo com o auxílio de computadores de bordo. É por isso uma especialidade muito procurada que exige anos de treino e aprendizagem. O mesmo se aplica à Engenharia de Propulsão FTL, uma especialidade normalmente escolhida pelos muitos que não conseguem passar os difíceis exames de astronavegação.

O tempo passa ao mesmo ritmo dentro e fora do sub-espaço. Para manobrar ou percorrer curtas distâncias, as naves espaciais estão em geral equipadas com propulsores sem massa de reacção, vulgarmente conhecidos como thrusters, que apenas necessitam de energia para funcionar. O seu factor de aceleração depende da massa efectiva da nave e do número de unidades thrusters presente.

Evidentemente que existem uma infinidade de classes de naves espaciais, e apenas uma fracção tem a capacidade de percorrer os caminhos entre as estrelas; grande parte das naves existentes na Galáxia é naves de sistema, i.e. incapazes de saltar para o sub-espaço. A forma de propulsão utilizada nesta miríade de veículos espaciais varia imensamente, de motores iónicos a velas solares, de queimadores químicos a turbojets, consoante as necessidades, níveis tecnológicos, fabricante e/ou idade das naves. Geralmente apenas grandes naves possuem a viabilidade para ter motores de propulsão FTL instalados, mas há casos como os de naves militares de defesa de sistema que são equiparáveis em tamanho e complexidade aos grandes cruzadores das frotas de guerra das grandes potências.