Dirtside: Episódio 3 - Ficção

"Sargento, Sargento!"

KC virou-se na direcção da voz. Um soldado raso vinha em passo rápido na sua direcção com um pacote postal nas mãos. Quem é que lhe podia ter escrito? Aquele bandido do seu irmão?

"O Capitão Morgan tem-nos a esquadrinhar todo o correio que entra na base," explicou o soldado. A cara era-lhe vagamente familiar; devia ser de alguma das novas unidades. "Este aqui chegou com o correio normal, mas não traz a marca laser dos serviços postais civis. Não há traços químicos de explosivos ou substâncias perigosas, já verificámos."

"Sim. E?" perguntou KC, impaciente por saber que raios é que isto tinha a ver com ela.

"Bom, talvez alguém devesse abrir isto," desculpou-se ele, "só para ter a certeza."

"Então abram, o que é que querem, uma benção papal?" berrou KC. "Acham que não tenho mais nada que fazer?"

"É que, uh, isto vem dirigido à filha do General Jamieson. E se for algo de pessoal e ela fizer queixa?"

"Então, não abram. Pronto, assunto resolvido."

"Mas, e se for alguma armadilha mais sofisticada? Se lhe acontecer algo vai haver tribunal marcial, de certeza!"

KC levou a mão à cabeça. Alguém lhe desse paciência! "Dá cá isso, soldado" disse ela, apanhando num movimento brusco o embrulho das mãos dele. "Pronto, agora já está aberto e ninguém morreu!" exclamou depois de ter rasgado a parte de cima do pacote e ter espreitado para o interior. "Fácil!"

O soldado, em vez de aceitar de volta o pacote, pegou no seu computador pessoal e virou-o para KC. "Pode dedar aqui, Sargento O'Rourke?"

KC nem olhou para o ecrã táctil que pedia a sua impressão digital. Mãe do Céu, tinha de ser ela a resolver tudo? "Burocratas d'um raio, por isso é que o exército está como está. Sai-me da frente; entrego-lhe isto eu mesma."

O soldado ainda ficou ali especado por um segundo com o computador estendido, mas depois fez continência e deu meia-volta.

* * *

KC entrou no seu escritório com o pacote nas mãos e dirigiu-se à secretária. Poisou o embrulho aberto na secretária e sentou-se. Franziu um pouco o sobrolho e olhou a coisa com os seus olhos negros desconfiados. Com um suspiro de resolução, inclinou-se para a frente e abriu as abas do pequeno pacote.

Lá dentro, como já tinham verificado, havia apenas o CD de vídeo e uma carta. Metodicamente, KC pegou no CD primeiro e virou-o nas mãos. Nada que indicasse o que continha nem a sua origem. A carta, então. Poisou o CD na mesa, ao lado do pacote, e pegou na carta. Estava endereçada à Cabo Jamie, claro. Isto não lhe cheirava nada bem, mas se alguém andava preocupada com a saúde da Jamie era ela mesma, portanto pegou na faca de papel e abriu o envelope.

Recostou-se e semicerrou os olhos ao ler as poucas palavras – nada de pistas quanto a uma caligrafia distinta, nem nada disso. Chantagem? Que raio se estava a passar? Teria isto alguma coisa a ver com aquela cena vagamente suspeita do ginásio, que envolvera o Fishburne e o Tenente Jefferson? Não pôde evitar sentir uma pequena pontada de ciúmes ao recordar. A Jamie tinha-a ignorado por completo para tratar o Fish como se ele fosse um bebé.

Bem, assim não ia a lado nenhum. Atirou o papel para cima da secretária com desprezo e em vez disso voltou a pegar no CD. Enfiou-o num leitor e recostou-se na cadeira para ver.

A imagem tinha algum grão; talvez tivesse sido filmado com equipamento manhoso, talvez estivesse apenas muito escuro. No ecrã viam-se os contornos mais ou menos vagos de um quarto de hotel rasca, mas bem no centro era clara a imagem de uma cama, na qual estavam embrulhados um homem e uma mulher. KC franziu o sobrolho em surpresa. Aquilo era o Fishburne? Mas que raio...?

Então era isso! Alguém tinha apanhado o namoradinho da Jamie na cama com outra e queriam estragar o arranjinho aos dois pombinhos do pelotão. Ah, isto era demais! E era bem feito para a Jamie, tinha de aprender a não se deixar levar por homens de falinhas mansas. Era duro, mas era uma lição que ela tinha de aprender para chegar a algum lado na vida. Só que... se era o Fish quem andava a dormir por fora, porque é que estavam a chantagear a Jamie?

E nessa altura o casal rebola na cama, por entre alguma risada cuja causa ela não chega a perceber (o som não estava famoso), e a mulher fica por cima. Os gemidos, esses são claros quanto baste, e os movimentos rítmicos não enganam ninguém. Mas KC fica com a garganta seca, e o estômago de repente encolhe-se tanto que parece querer colar-se à espinha. Aquele cabelo loiro era incomum, mas poderia pertencer a qualquer mulher; infelizmente, aquela longa cicatriz irregular, mais branquinha que o resto da pele cremosa, ali mesmo na base das costas conhecia ela muito bem dos duches. Rita Jamieson.

Incapaz de parar o vídeo, KC deixou-se ficar a ver. Deu por si roída de ciúmes do Fishburne. Era degradante, ver os dois terem sexo assim ao pormenor. E logo sexo escaldante como aquele. Nunca se julgara voyeuse, mas não conseguia parar. Não conseguia tirar os olhos da figura da Jamie e como ela era sexy. O Fish até nem era mau rapaz, mas não merecia tal benesse.

KC O’Rourke ficou a ver até os dois atingirem o auge juntos (que horror!) e se deitarem exaustos. Pouco depois começaram a conversar, e quando deu por si, KC estava boquiaberta e de olhos esbugalhados. O Fish bom rapaz? Teria de engolir as suas palavras: ele era um sacana de um rebelde! E a Jamie sabia de tudo!

Sentiu-se traída. Como poderia a Jamie, a Jamie, encobrir um rebelde? Não deveria haver ninguém mais do lado da Federação do que ela! Os seus olhos negros pareceram escurecer ainda mais e fulminar o Fish do ecrã. O filme acabava pouco depois.

Levantou-se de rompante e pôs-se a caminhar de um lado para o outro no seu escritório. Caramba, agora percebia o porquê da cartinha anónima. Este vídeo entalava ambos os actores, mas tramava acima de tudo a Jamie. E o dever da própria KC era denunciar a tramóia toda ao comando. Que embrulhada. Parou a meio de uma passada quando foi assolada pela memória da carreira de tiro, E como estivera tão perto daquele corpo quente e macio.

Bolas! Só podia ter sido o Fish a filmar aquilo. O sacana estava-se a aproveitar da filha do General, dissesse ele o que dissesse. E ela, que até nem era burra, estava a armar-se em parva, a cair assim numa emboscada daquelas. Devia ter logo denunciado o namoradinho.

Nada a fazer. Tinha de a chamar à sua presença e confrontá-la com os factos, meter-lhe algum juízo naquela cabeça de vento. Se Jamie denunciasse já o Fishburne, a revelação pública do vídeo deixaria de ser importante. Embaraçosa, talvez, tanto para o General como para a filha, mas podia arranjar-se sempre uma explicação plausível para a Jamie ter adiado a denúncia do Daniel. Agora se o vídeo aparecia antes da Jamie ter endireitado as coisas... o pai provavelmente safava-a da forca ou da prisão, mas no mínimo ela seria expulsa do exército, retirar-lhe-iam os direitos de cidadania como castigo e haviam de exilá-la para uma colónia qualquer.

KC ia fazê-la ver a razão. Mas tinha de jogar bem as suas cartas; ia chocá-la, claro, fazê-la perceber muito bem o sarilho em que estava. Mas e depois? Mal lhe passasse o choque e a vergonha de saber que havia um filme das suas acrobacias amorosas, o que é que ia acontecer? Sim, porque a Jamie ia ultrapassar isso; a rapariga era forte e, por mais vezes que caísse ao chão, voltava sempre a levantar-se para enfrentar o mundo com ainda mais força de vontade. KC sabia disso bem; ela própria tinha empurrado Jamie para o chão muitas vezes, e de todas elas Jamie acabara por eventualmente se levantar, com o queixo dorido mas um pouco mais erguido, com um pouco menos daquela atraente inocência de criança mas um pouco mais do músculo que é necessário para sobreviver num universo lixado como este.

Estava a chegar o dia em ninguém seria capaz de a empurrar ou manter no chão, KC tinha a certeza disso. E então - talvez - Jamie percebesse por fim quem é que a tinha ajudado a transformar-se de uma rapariga frágil numa mulher que sabe o que quer e que não precisa de pedir desculpas a ninguém. Nessa altura, talvez pudessem ser amigas ou... mais do que isso. KC ia gostar.

Mas era mesmo esse o problema. Podia chocar Jamie, berrar-lhe aos ouvidos, abanar-lhe aquela cabecinha de vento, mas ela ia seguir o seu próprio caminho. A aluna estava a começar a ficar fora do alcance da sua mentora. KC ainda se lembrava de quando, não há muitos dias, Jamie a mandara calar; calar, a ela, a superiora que a podia pôr a limpar latrinas e tachos gordurosos para o resto da vida! KC ficara magoada, verdade, mas também ficara orgulhosa de ver como a sua pupila estava a começar a trilhar o seu próprio caminho.

Talvez, neste momento delicado, uma mudança de táctica fosse melhor. Autoridade e figuras paternais pareciam estar perder a sua influência junto de Jamie. Pelo contrário, a aproximação mais amistosa que KC fizera - nem ela percebia porquê - ainda há poucas horas, parecera resultar muito bem. Aliás, se o maldito Daniel não estivesse a ser espancado no ginásio, quem sabe onde poderiam ter chegado, ela e Jamie? Uns copos juntas no bar, a rirem-se e dizerem mal de todos os homens que lhes lixaram a vida? E depois, com o calor da bebida nos seus estômagos e nos seus rostos, abrigadas do mundo no quarto de KC, talvez uns toques, a princípio inocentes, que despertariam paixões ardentes e descontroladas? Ela seria a primeira mulher da Jamie, de certeza, e poder-lhe-ia mostrar maravilhas que ela desconhecia. Podiam-

Caramba, KC estava mesmo a precisar um duche, um duche bem frio. Precisava de arrefecer as ideias um bocado... e além disso, ainda se sentia suja por ter visto aquele vídeo degradante. Sim, era melhor não tomar nenhuma decisão precipitada. Primeiro um longo duche frio, enquanto pensava como melhor abordar o problema, e depois então chamar Jamie.

KC deixou o seu gabinete, com o pacote na mão e dirigiu-se ao seu quarto. Pegou numa toalha para o duche e, quando estava a escolher um uniforme lavado, ocorreu-lhe que talvez fosse melhor evitar ao máximo pressionar Jamie com galões, regulamentos e autoridade em geral. Apesar de ter pouca roupa civil, KC ainda esteve em frente ao espelho a hesitar entre várias peças. Acabou por se aperceber do ridículo da situação, agarrou num dos conjuntos de roupa, na toalha, e saiu para o duche.

O soldado que estava à porta da casa-de-banho a fumar ainda com o uniforme desabotoado, quase nem a reconhecia quando ela passou por ele. Parecia a mesma KC de sempre, mas não lhe gritou para apagar o cigarro, abotoar o casaco e pôr-se em sentido. Na verdade, ele nem sequer estava seguro dela se ter apercebido que ele estava ali.

* * *

O toque à porta – dois toques com o nó do dedo, rápidos, decididos – fê-la levantar a cabeça das mãos. KC tinha os primeiros dez minutos da conversa planeados. Para além disso teria de esperar por uma reacção da Jamie para se decidir. “Rita?‿ perguntou. Era capaz de ser a primeira vez que pronunciava o nome próprio dela assim isolado. Soava bem, rolava bem na boca. Decidira-se pela estratégia da casualidade para desarmar a Jamie. Ver-se-ia se dava algum resultado

Do outro lado o “sim‿ soou algures entre o surpreso e o desconfiado. Isso era bom. “Entra,‿ disse.

A porta abriu-se para dar lugar à Cabo Rita Jamieson. Esta hesitou junto à porta. "Disseram-me que era urgente?" aventurou ela naquela sua voz suave e musical. KC fez-lhe sinal que se aproximasse; a outra fechou a porta atrás de si e assim fez.

Jamie estava com roupas de treino, e pelo leve cheiro a pólvora KC adivinhou que a teriam ido buscar à carreira de tiro. Tinha estado a praticar as lições que KC lhe tinha dado. Isso era bom. Estava a tomar o controlo da sua vida, e ao mesmo tempo a ficar mais próxima de KC. Óptimo. Vamos ver como te portas agora, Rita.

“Sabes que estás metida num grande sarilho, não é, Rita?‿ atirou logo de chofre, com um pequeno sorriso nos lábios.

Jamie não acusou logo o toque, apenas estreitou um pouco mais os olhos azuis-safira. Desconfiança. Ela tinha a guarda montada, tendo sido chamada à Sargento O'Rourke, o bicho-de-sete-cabeças. Isso não tardaria a desaparecer. Ela disfarçou o olhar desconfiado e limitou-se a um "Que sarilho? Não sei a que te referes."

Tratar por tu. Isso era inesperado (e estranhamente agradável), mas não impeditivo. Desculpa, Rita, mas desta aqui não te posso deixar safar facilmente. As lições mais importantes são também as mais difíceis; espero que compreendas isso.

KC levantou-se e deu a volta à secretária. Desta vez a surpresa foi mais óbvia no rosto da Jamie quando mediu KC de alto a baixo nas suas calças de linho e camisa de alças à civil, bem como a desconfiança que mostrou de seguida nos olhos. Engraçado como uma roupa com o corte certo podia transformar tudo; já se tinha esquecido disso ao fim de tantos anos no exército. Sabia bem sentir o olhar da Rita a percorrer-lhe o corpo daquela maneira. E se fosse mais do que o olhar? Se fossem as mãos dela, os lábios dela? Foca-te, KC, foca-te. Ainda agora tinha saído de um duche frio e já estava a precisar de outro?

KC sentou-se na borda da mesa e começou a explicar como um certo vídeo lhe tinha vindo parar às mãos. Sem lugar onde se sentar a não ser a cama, Jamie preferiu ficar de pé. Tudo planeado e orquestrado. Carregou no botão e o vídeo começou a rolar no ecrã atrás de si – corria o risco de trair as suas emoções se voltasse a olhar para aquelas imagens – enquanto KC observava atentamente a reacção da Jamie.

Primeiro a outra corou, mas segundos depois começou a ficar branca. Teria ela a noção da conversa que se seguiria ao sexo? “Continua por um bocado," meteu KC a farpa a certa altura – vergonha no olhar da Jamie, depois dureza; estava a tentar voltar a erguer um muro à volta das suas emoções mas KC não ia deixar nada disso acontecer. “Porque não passamos à frente os pormenores... degradantes‿ (raiva no olhar frio da Jamie) “e passamos à parte interessante?‿ KC passou à frente até à cena da conversa.

Nessa altura, sim: Jamie quebrou. Ficou pálida e recuou até à borda da cama para se sentar, como se lhe faltassem as forças nas pernas.

Parecia tão vulnerável. KC quase sentiu pena dela... ou sentiu mesmo? Apetecia-lhe abraçar o rosto de Rita contra o peito, mexer-lhe no cabelo e tranquilizá-la. Mas não, não podia ser. Primeiro Jamie tinha de tomar a decisão difícil e livrar-se daquela corda à volta do pescoço que era Daniel Fishburne. Então, e logo depois de KC mandar prendê-lo por alta traição, aí poderia acalmar e afagar Rita.

KC pegou na carta entre indicador e médio e ergueu-se da secretária. Era preciso manter a Jamie em desequilíbrio, se isto ia funcionar, e até agora estava a correr tudo bem. Deu os três passos que a separavam da cama e entregou a carta à Jamie. "Isso vinha com o filme," explicou enquanto se sentava ao lado dela. Inclinou-se para trás, apoiada nos braços e ficou a observá-la, tentando manter um ar casual; tentando disfarçar que de repente notara o seu coração aos saltos.

Agora mais próximo dela, KC conseguia já distinguir no ar o perfume doce dos cabelos de Jamie. Ao princípio, quando os seus caminhos se haviam cruzado pela primeira vez, isso irritara-a; aquele perfume, aquela voz musical, aquele sorriso fácil, aquela boa disposição no rosto de Jamie, davam-lhe vontade de a afogar em lama até tudo isso desaparecer. Afinal, o exército não era suposto ser um hotel ou um campo de férias; era sim um local para treinar e suar, mas mais que isso: para sofrer e se ser castigado, para quebrar uma pessoa e reconstruí-la a partir dos pedaços em alguém mais forte, disciplinado, invulnerável à dor, à emoção, à hesitação. Mas a verdade é que Jamie se havia tornado num gosto adquirido; tinha as suas falhas e imperfeições, mas quem não as tinha? Se algum dia chegasse a altura, KC achava que lhe poderia confiar a sua vida num campo de batalha. Duma coisa já tinha a certeza: podia – não, queria mesmo – partilhar com ela o seu leito e algumas das suas emoções, confiante de que não se sentiria fraca ou vulnerável. Estava a precisar de alguém assim, uma irmã de sangue, ao fim de tanto tempo sozinha.

Havia que respeitar o sangue-frio da Jamie. Ao ler a carta, mal se notava o ligeiro tremer da mão, e a certa altura KC ia jurar que vira desafio no olhar expressivo da sua subordinada, mas foi quase com nojo que ela voltou a dobrar o papel e o poisou a seu lado na coberta da cama. Jamie definitivamente estava bastante pálida. Antes que ela sequer pudesse formular alguma pergunta, KC continuou o ataque. Era agora ou nunca. Se Jamie ia entregar o sacana que a colocara ali e sair desta embrulhada toda, tinha de ser agora.

“Sabes que eu agora devia denunciar o Fishburne e entregar o vídeo, não é, querida?‿ disse. Jamie engoliu em seco, molhou os lábios, virou para ela um olhar duro como a safira onde devia ter ido buscar a cor e ignorou por completo a última palavra saída da boca da sargento. “Porque é que não fazes isso mesmo?‿ foi a resposta suave. Brava! De facto cada vez era mais difícil rasteirar Rita Jamieson.

E porque não fazia KC isso mesmo? Porque é que ainda não denunciara Fishburne e entregara o vídeo? Obviamente que KC não podia responder à Jamie que isso seria estar a ajudá-la a fugir às suas responsabilidades e ao seu dever de entregar às autoridades um criminoso que, ainda que pudesse não ter morto ninguém directamente, tinha de certeza as mãos manchadas de sangue inocente. Se KC colocasse Fishburne na forca – o que ela teria feito com prazer – Rita recusar-se-ia para sempre a ver a razão e, pior que isso, culparia KC pelo destino de Fishburne, como se ela tivesse feito algo de abominável e não algo que qualquer pessoa decente tinha obrigação de fazer. Não, se havia alguma hipótese de salvar esta bela soldado do buraco em que se metera, teria de ser a própria Jamie a tomar a decisão. Assim não haveria ninguém para ela culpar.

Mas - também quem estava KC a querer enganar? – a principal razão para ela não ter mandado prender Daniel e entregue o vídeo aos seus superiores, era apenas aquilo que sentia pela sua subalterna. Rita estava evidentemente confusa, talvez de cabeça perdida, para se meter na cama com um rebelde; KC só esperava que isso não estivesse a contagiá-la a ela também. Afinal, o que é estava ela ali a fazer, a conversar amigavelmente com a cúmplice de um traidor confirmado, vestida naquelas roupas? KC sentia-se tão suja como se tivesse sido ela a estar naquele vídeo, com um homem a usá-la com movimentos mecânicos para se satisfazer. Em que raios estava ela a pensar? Porque raio é que ainda não mandara prender Jamie e Fishburne? Porquê?

Por causa de Rita, pois claro.

A ironia não lhe passou ao lado. Durante meses, ela tentara evitar que a feminilidade e beleza de Rita quebrasse o espírito do pelotão; humilhara-a em público de todas as maneiras e tornara-a em motivo de chacota e vergonha para todos. Conseguira transformar o cisne em patinho feio; evitando assim que atracções, paixões, ciúmes e outras emoções dividissem o espírito de todo o grupo e causassem conflitos. Mas agora era ela própria quem caía na armadilha de deixar o coração sobrepor-se à razão. A sua análise inicial de Rita, há todos aqueles meses atrás, estava correcta: ela e os seus encantos eram um perigo para os que a rodeavam e que se preocupavam com ela. O General Jamieson já fizera de tudo para a proteger, ficando mal visto pelos seus subordinados e camaradas, mas com os irmãos dela não mexera uma palha para os manter fora de perigo ou os fazer progredir na carreira (ou pelo menos era o que se ouvia dizer). Fishburne provavelmente já traíra e matara os seus próprios colegas na rebelião para a proteger. E agora, era vez de KC se ver presa na teia...

Estava na altura de quebrar a charada. Havia que delimitar fronteiras, definir posições e deixar as bombas cair onde tivessem de cair. É agora, Rita. Vamos lá descobrir quão fundo cada uma de nós está enterrada.

“Sim, Rita, porque é que eu não faço isso mesmo, denunciar o Fishburne e entregar o vídeo? É uma óptima pergunta; e a verdade é que não tenho nenhuma resposta. Estava justamente à espera que me desses uma razão."

Rita ficou parada, evidentemente não compreendendo a sua situação. No entanto, não demorou mais que uns momentos até que a posição insinuante que KC assumira sobre a cama a fizesse perceber. Ela corou como um tomate sob os sóis gémeos de Ellis, empalideceu bruscamente e voltou a corar, embora com menos violência. KC pagaria uma boa maquia pela oportunidade de saber em que pensava a Rita naquele momento, porque de facto ela parecia ter embarcado numa montanha russa de emoções.

Foi então que surgiu o sorriso escarninho. Isso era inesperado; Jamie devia estar mesmo de cabeça perdida. “Ah, então é isso,‿ disse a outra num tom de voz quase ameaçador. “A Sargento O’Rourke viu o filme e acha que também merece alguma da acção, é isso?‿ A vulgaridade do comentário de Jamie fez subir a temperatura dentro de KC. E ela tinha razão; deixando para trás as aparências de boas intenções e estudando os seus instintos básicos, KC supunha que era mesmo isso que a levara a fazer tudo aquilo. Mas a atracção louca que sentia por Jamie não era apenas carnal. Era isso e algo mais, algo poderoso... e novo para KC. Enquanto falava, Rita mudara de posição e aproximava-se sobre a cama. “A sua própria fatia da filha do General?‿ Aquela voz suave usada assim baixinho parecia segredar, partilhar com ela uma confidência importante.

Mesmo se KC se tivesse conseguido lembrar de alguma resposta à altura, não teria conseguido articulá-la, porque Jamie se pusera de gatas sobre a cama, por cima de KC e aproximara tanto a cara que a sargento podia sentir o bafo morno da respiração dela nas faces. Isso parecia ter-lhe desligado qualquer coisa no cérebro. . O máximo que KC conseguiu fazer foi entreabrir os lábios, como que para falar, e depois ficar ali estacada, sem emitir nenhum som. E ainda bem que assim foi, porque de outro modo teria com certeza solto um gemido em antecipação do que parecia estar para vir.

Não conseguia desviar o olhar dos olhos da Jamie – dois mares gémeos de emoções em conflito. Dali conseguia cheirar-lhe a pele, um aroma que, por qualquer razão, a fazia pensar em manhãs floridas de Primavera da sua infância com os primeiros orvalhos. Devagar, quase hipnotizada, dobrou os cotovelos e deitou-se na cama. Jamie seguiu o movimento sem lhe tocar, como se respondendo a algum magnetismo animal. Nem nos seus sonhos mais loucos teria KC esperado algo assim. Pela primeira vez na sua vida, o choque e a surpresa deixavam-na totalmente passiva face a um parceiro. Se Jamie tivesse uma lâmina na mão e a esventrasse, era bem possível que KC não se mexesse um milímetro que fosse enquanto aqueles olhos a continuassem a hipnotizar.

Então, e por um momento, Jamie conseguiu estancar as emoções que eram tão distintas nos seus olhos; a sua expressão ficou neutra e ela baixou ainda mais a cabeça. Os seus lábios roçaram os de KC – tentativamente, medindo a reacção da superiora, não fosse ela ter interpretado tudo mal. Esse primeiro beijo foi doce, morno, suave, quase inocente. KC respondeu com alguma subtileza, encorajando-a a mais. Sabia, aliás, pelo vídeo que a palavra “púdica‿ não se aplicava à Jamie.

“Rita...‿ murmurou KC, precisando de forçar as suas cordas vocais a emitirem mesmo aquele som tão fraco. Como aquilo era delicioso. Queria mais, muito mais.

Com um clarão de algo parecido com raiva, Jamie lançou-se num segundo beijo, sem meios termos: escaldante, cheio de paixão (ou seria só raiva mesmo? KC preferia a primeira opção), bem fundo, com uma língua quente e sedosa explorando a boca da sargento, que a apanhou de surpresa. Quase ao mesmo tempo KC sentiu a pressão de uma mão quente no seu seio esquerdo - o lado do coração - numa carícia hesitante. Ouviu um gemido do fundo da garganta e, para seu horror, apercebeu-se que vinha de si e não da Jamie. Estaria a perder o controlo da situação?

Qual controlo? Desde que decidira não denunciar Fishburne de imediato que tinha perdido o controlo. Ou talvez já estivesse fora de controlo quando começara a tratar Rita como mais, e ao mesmo tempo menos, que um dos outros soldados. Mas se isto era estar fora de controlo, então ela queria manter-se assim. Não importava o que isso lhe viesse a custar.

Entrelaçou os dedos nos fios de ouro que eram os cabelos da Jamie e tentou retribuir com igual paixão, mas estava destreinada e não pôde deixar de se sentir desajeitada. No entanto, não havia mal nenhum nisso; Rita parecia determinada a descobrir o caminho sem ajuda. KC sonhara em mostrar-lhe como era fazer amor com uma mulher pela primeira vez, mas a verdade é que agora se sentia como aluna e não professora. Rita...

E então de repente Jamie recuou com um sacão, deixando-a estirada na cama a sentir-se abandonada, nua, incompleta. Esforçando-se por controlar depressa a respiração, KC soergueu-se num braço e olhou Jamie. O que estava errado? Entrara alguém no quarto? Mesmo que tivesse entrado alguém, KC não queria saber. O mundo que se danasse. Só queria continuar o que as duas tinham começado.

Jamie levantara-se, tinha recuado dois passos e nesse momento olhava KC com uma expressão de surpresa como se – poderia ser verdade? – tivesse descoberto gostar de algo que deveria ser desagradável. Mas logo a expressão foi substituida por uma de desprezo que era difícil dizer se seria apontada a KC ou à própria Jamie.

“Não," disse ela numa voz sumida. "Isto está errado. Não vou cair na tua chantagem, KC, rai’s te partam, e muito menos na deles.‿ Recuou mais um passo e teria recuado outro se a secretária não a tivesse impedido. Parecia ansiosa por colocar alguma distância entre si e KC, curiosamente. “Não me vou prostituir sem mais nem menos,‿ rosnou ela na sua voz de veludo. “Nem tu queres isso, se pensares bem. Que irias tu sentir quando acordasses amanhã e te apercebesses que a única maneira que tinhas encontrado para me levar para a cama tinha sido usar de chantagem, hã? Que tal quando te apercebesses que eu só estaria nessa cama a pensar em salvar o meu coiro e o do Fish? Onde ficaria a réstia de auto-estima que ainda te sobra, nessa altura, dizes-me?‿

KC sentou-se na cama devagar, provando o lábio inferior. Ainda demorou alguns segundos a voltar à realidade e entender, em vez de apenas escutar, as palavras duras de Jamie. Caramba, esta Jamie era fogo! Tinha sido apanhada completamente desprevenida pela intensidade do contacto e perdera a noção das coisas. Baixou o olhar que ainda tinha colado à subalterna e passou uma mão pelos olhos. Se por um lado tinha vontade de atirar Jamie de novo para a cama e de continuar onde ela tinha interrompido (e algo lhe dizia que a outra era capaz de nem protestar assim tanto), por outro lado à distância de meros três passos da Jamie já conseguia raciocinar com mais clareza e reconheceu que ela tinha razão. Não era esta a maneira certa de fazer as coisas. Era vergonhoso a professora ser apanhada assim em falso pela aluna.

Portanto KC levantou-se, ajeitou a camisa devagar e ergueu o olhar negro para a Jamie. Com um sorriso embaraçado, assentiu com a cabeça. “Tens razão, claro. Peço desculpa, Rita, não estava a pensar direito.‿ Bolas, tinha a voz mais rouca que o costume. Pigarreou, inspirou fundo, passou uma mão pelo cabelo curto. Estava a recuperar a capacidade de raciocinar, graças a Deus. “Obrigada por me parares antes que fosse longe demais. Quero fazer o mesmo por ti.‿

Com essas palavras, KC dirigiu-se para a secretária. Jamie, franzindo o sobrolho em desconfiança, desviou-se do caminho. Ela ainda tinha o cabelo encantadoramente desalinhado, resultado das mãos da KC. Teve vontade de lhe afagar o cabelo, mas a Jamie já tinha trocado o desprezo por desconfiança e seguia-lhe os movimentos com atenção. Além disso mais valia jogar pelo seguro; estava convencida que não voltaria a perder o controlo assim tão cedo, mas não custava nada manter alguma distância de segurança para a sua subordinada.

“O que é que vais fazer?‿ perguntou a Jamie quando KC pegou no comunicador. Lá estava aquele toquezinho delicioso de vulnerabilidade por baixo da desconfiança na voz dela que dava mesmo vontade de a confortar. Talvez depois desta trapalhada toda.

Em vez de responder de imediato, KC baixou o olhar para o visor do objecto e procurou o número certo. “Sei que vai doer,‿ começou a explicar, “e que não vais compreender agora, mas é para teu bem.‿ E com isso carregou no botão que ia estabelecer a ligação.

Rápida que nem um relâmpago, Jamie alcançou o comunicador e carregou no botão de interrupção da chamada. "Espera um pouco!" pediu. Uma pausa. Os dedos de ambas estavam-se a tocar. Seria apenas KC a sentir a electricidade ali? Talvez não, porque um momento depois Jamie retirou a mão como se o comunicador queimasse. KC fingiu calma no seu olhar, esperando pela explicação da outra.

Jamie, por seu lado, abanou a cabeça. “Não quis dizer que encobrisses o caso, mas se telefonares agora o Fish vai para a forca e eu sou bem capaz de ser expulsa.‿ Pausa apenas suficiente para engolir em seco. “Caramba, KC, não dás mesmo hipóteses nenhumas... Eu não fujo dos meus erros,‿ explicou, a voz ganhando segurança e determinação à medida que falava. “Pago sempre o custo das minhas decisões, por mais caro que seja, e não é agora que vou fugir com o rabo à seringa, mas tenho de pensar no Fish.‿

Outra vez o Fishburne. KC abanou a cabeça. Nem na face do inevitável seria a Jamie capaz de abrir os olhos? O Fish não prestava! ! Como é que ela ainda o defendia? Afinal, como é que ela achava que a rebelião filmara o vídeo? A Jamie entalara o Fish, de mais maneiras que uma, e agora ele e os seus comparsas tinham invertido a situação e criado uma apólice de seguro!

“Espera um segundo e ouve-me até ao fim," interrompeu a Jamie, sentindo talvez o que ia na cabeça de KC. “O Fishburne é um bom soldado. Já salvou a vida a qualquer um de nós no pelotão – incluindo a tua, KC – mas no que me toca a mim em particular tenho certas responsabilidades para com ele. Quem julgas que me tirou daquele covil de rebeldes no outro dia? Se não fosse por ele eu teria sido morta assim que me reconheceram como ‘a filha do General', e afinal foi ele quem orquestrou a minha fuga. E para mais, salvou a vida ao meu irmão Francis há uns tempos atrás.‿ Uma pausa para inspirar fundo. “Portanto eu devo-lhe uma última hipótese de voltar para a Federação. Que dizes: dás-me uma hora para o convencer a denunciar os rebeldes? Se eu não conseguir, denunciamo-lo ambas...‿ no final a voz falhou-lhe ligeiramente, tornando-se pouco mais que um sussurro.

Como podia Jamie estar tão enamorada de... de... um homem? Um traidor? Um traidor à federação, à rebelião, e possivelmente à própria Jamie. KC sentiu-se derrotada. O poder estava todo nas suas mãos, ao alcance de um botão, mas ainda assim ela se sentia sem forças. “Uma hora; tens uma hora.‿ disse, ouvindo as palavras saírem da sua boca mas tendo a certeza que não era aquilo que era queria dizer. “Depois acabo com isto. Agora vai, o tempo está a contar,‿ disse ela, tentando recuperar a sua pose autoritária sem grande sucesso. Os seus olhos traíam-na. O seu desejo por Jamie minava agora todos os seus pensamentos, comandava as suas acções.

E de facto a Jamie devia ter-lhe lido qualquer coisa do seu desejo no olhar porque hesitou um segundo e baixou os olhos com um ar embaraçado. Então pareceu tomar consciência que de facto o tempo estava a contar. Passou uma mão pelo cabelo e disse “Certo,‿ antes de girar nos calcanhares e se dirigir para a porta. Já com a mão no puxador, ainda se voltou para trás de sobrolho franzido. “Pensava que me odiavas com todas as forças.‿ Abriu a porta. “Para variar, é bom estar errada.‿ E fechou a porta atrás de si.

Sozinha no seu quarto, com o perfume da Jamie ainda a pairar no ar, KC sentou-se à secretária, olhou o seu relógio de pulso, iniciou o cronómetro. Uma hora e nem um segundo a mais. O Fish que se danasse; ele nem merecia respirar o mesmo ar que a Rita. Fechou os olhos e tentou não pensar em nada, porque se pensasse nos lábios da Rita, era bem capaz de dar por si a terminar a contagem antes dos 60 minutos.