William Rush (Ricardo Madeira)

Aqui está o background (escrito na primeira pessoa, como eu gosto de fazer sempre que há tempo) da minha personagem para a campanha cyberpunk do Miguel no Japão. Decalcado quase a 100% da personagem que queria jogar durante a primeira tentativa (abortada) de jogar esta mesma campanha há alguns anos, este texto ainda precisa de uma grande revisão. Nomeadamente, quero tornar os problemas do personagem mais imediatos (ex: o Romak acabou de me vir bater à porta e diz que me mata se eu não encontrar a minha filha) e incluir ligações aos NPCs que o Miguel criou para o elenco; uma falha que notei durante essa tentativa abortada é que o meu personagem não tinha qualquer ligação com ninguém, nem queria saber de mais ninguém do que ele próprio... isso torna-se um bocado chato, porque a história não nos agarra tão fundo.

Vamos ver o que há-de sair daqui...


Sou um cobarde. Pelo menos acho que devo ser. A minha noiva está morta, esventrada sobre a nossa cama de casal no meu apartamento de 200 mil dólares, e eu estou prestes a apanhar o avião para um país tão longe que espero nunca mais ter de pensar nela.

Nem na nossa filha.

Não tive sequer coragem de telefonar à polícia, e certamente não o vou fazer agora, quase 24 horas depois de ter encontrado o corpo, quando estou sentado num 747 prestes a descolar para o Japão. Isso era ser estúpido.

Quase tão estúpido como estar a escrever esta espécie de confissão no meu computador portátil, bem à vista da passageira que lê uma revista de moda a meu lado e de quem quiser espreitar por cima do meu assento.

Mas nada muda o facto de que estou a fugir. Posso enganar-me, dizer que estou a fugir dos tipos que fizeram isto, dizer que se não fosse por eles eu teria chamado a polícia e enfrentado as consequências, mas… o que importa? Sou um cobarde. Não quero pensar que ela está morta, não quero pensar nela, não quero nem lembrar-me que a conheci.

As minhas mãos não param de tremer. Começaram muito antes de ter de mostrar o bilhete à senhora no cais de embarque. Os suores frios vieram pouco depois. Sinto-me cada vez mais febril, alucinado… não sei dizer se todo o ruído que ouço – as conversas dos turistas, os motores do avião, os avisos do capitão no sistema de som – é real ou se a minha mente perturbada está a imaginar ou a amplificar parte dele.

Porquê eu? Tenho 31 anos, o corpo saudável de quem passa algumas horas no ginásio por semana, um emprego estável e bem pago, e há muito que acumulei mais dinheiro do que aquele que me é possível gastar. De resto, não tenho ninguém. Família, amigos… não me aguentaria sozinho na prisão sem ninguém para me esperar cá fora.

Não sei o que esperar do Japão, embora tenha começado a trabalhar para a Takeda Inc. mesmo antes de me formar no MIT. Mudei de emprego e empresa várias vezes, vivi em seis estados diferentes e passei um ano na Europa, tudo sem nunca sair da Takeda. A minha última subsidiária era, ou é, nem eu próprio sei bem, a Future Genetix. É como um polvo com mil tentáculos, a Takeda; a coisa boa é que, se olharmos por eles, eles olham por nós.

Ontem o meu chefe nem me perguntou porque é que eu lhe telefonei subitamente a aceitar aquela oferta de promoção que andava a recusar há dois anos. Também não comentou o facto de eu querer partir tão rapidamente, naquela mesma noite, se possível. Limitou-se a fazer ele próprio uma chamada, e cá estou eu, de malas aviadas, a poucos minutos de descolar. Não deixo muita coisa para trás, só o país onde nasci e vivi. De resto, levo uma mala com a pouca roupa que consegui arrumar antes de o sangue nos lençóis e nas paredes me fazer vomitar novamente. Assim que me limpei, saí de casa, tranquei a porta e espero nunca mais lá voltar. Passei a noite num motel perto do aeroporto, e esta manhã fui ao banco. O dinheiro já está todo no Japão, transferido em segundos através de cabos submarinos de fibra óptica.

O que vou fazer agora? O mesmo de sempre e mais nada, espero eu: arquitectura e programação de chips informáticos, embora nestes últimos anos me tenha dedicado mais aos biochips. Foi assim que fui parar à F-Gen mesmo. Ao longa da minha carreira trabalhei em dezenas de projectos, muitos ligados à investigação genética. Desenvolvi chips destinados a receber inputs de vários tipos de fontes (variações de parâmetros físicos ou bioquímicos,  comandos directos enviados via rádio ou via pequenas correntes eléctricas aplicadas na zona do corpo que abriga o chip), a armazenar e retransmitir todo o tipo de dados e parâmetros corporais e genéticos,  e a reagirem aos inputs recebidos da maneira apropriada, libertando mais ou menos quantidade de certas hormonas ou químicos neurotransmissores, excitando directamente certos neurónios ou determinadas glândulas.

Na minha área quase tudo é possível, só estamos limitados pela nossa imaginação e pelo nosso conhecimento do funcionamento do corpo humano. Mesmo o que não é tecnologicamente possível hoje já está em estudos e será realidade amanhã. Alguns dos meus colegas na Takeda até dizem que esse amanhã foi ontem, os resultados é que ainda não estão cá fora. A maior parte dos meus projectos nunca passou da fase de desenho, pelo menos até onde julgo saber, mas sempre tive plena confiança que funcionariam se nos fosse permitido experimentá-los. Mas o dia chegará em que os nossos chips poderão desempenhar e melhorar certas funções biológicas, corrigindo defeitos genéticos ou substituindo glândulas e até orgãos envelhecidos ou incapacitados. Houve alguns projectos que pude levar até ao final, claro, nomeadamente ao nível de placas de sensores destinados a fazer um sequenciamento rápido do DNA – podendo detectar em segundos a presença de determinadas sequências completas numa simples amostra de sangue – de modo a acelerar o processos de investigação e certos diagnósticos.

Até há bem pouco tempo, a minha vida era só o meu trabalho... e agora estou esperançado que volte a ser só isso e nada mais. A minha vida social nunca foi uma prioridade. Os meus pais já cá não estão há tempo suficiente para eu não me lembrar com nitidez dos seus rostos sem ter de olhar para uma fotografia e, para dizer a verdade, há já alguns anos que o álbum de família permanece encaixotado junto com outros livros e fotos emolduradas num canto da arrecadação, do sótão, da cave, onde quer que eu esteja a viver. É que, ao fim de algumas mudanças de residência, há certas coisas que aprendemos a deixar dentro dos caixotes de cartão. Agora talvez nunca mais os volte a ver, visto que deixei o álbum para trás, no apartamento.

Bom, mas o que eu quero escrever, o que eu estou a evitar escrever, é sobre ela: Hannah, a minha noiva. Mas sabem que mais? O avião acabou de descolar. Agora que deixámos o solo dos EUA já me sinto um pouco mais calmo. Vou aproveitar, dormir a minha sesta, gozar estas horas de viagem. Possivelmente terei um grupo de polícias à minha espera no aeroporto de Tóquio, por isso vou aproveitar e gozar o tempo que ainda me resta.

Portanto, acho que isto é um "adeus". Obrigado pela companhia.

* * * * * *

Voltei.

Estou no luxuoso quarto de hotel que me vai servir de casa durante os próximos tempos. Afinal não tinha polícias à minha espera no aeroporto. Admito que quase me mijei de medo ao ver dois japoneses a segurarem na mão uma placa com o meu nome, William Rush, mas eram só dois funcionários da Takeda. Podiam ser um pouco soturnos, mas ao menos não eram polícias.

E afinal também não apaguei o ficheiro que contém este texto, como pensei que ia fazer. Na verdade, acho que até o vou continuar. Senti-me muito melhor depois de colocar ordeiramente em palavras o turbilhão caótico de pensamentos que não pára de girar dentro da minha mente. Até consegui dormir durante a viagem, tal como tinha dito que ia fazer.

Mas... estava a contar-vos dela, não era? Sei que todos os casais devem ter uma história do género, que envolve coincidências improváveis e acontecimentos rocambolescos, mas acho que posso jurar que a forma como conheci a Hannah é ainda mais estranha.

Ela estava à minha espera num dos corredores labirínticos do laboratório da Future Genetix. Era noite, praticamente madrugada, e eu ficara a trabalhar até tarde, como costume. A princípio, pela forma como estava vestida, pensei que ela fosse uma das pacientes; é que o laboratório possuía uma pequena clínica onde se estudava o recurso a novos fármacos em doentes que já tinham esgotado todas as outras opções. Os detalhes não ficaram muito claros na minha memória, mas poderia jurar que, à primeira vista, a bata que ela trazia vestida me pareceu a de um paciente. Hannah parecia fraca e desorientada, até assustada mesmo, mas por alguma razão não chamei os seguranças.

Deve ser a fantasia de qualquer engenheiro informático, encontrar, à noite, nos corredores semi-iluminados do local de trabalho, uma mulher linda vestindo uma bata branca e aparentemente pouco mais. Levei-a lá para fora, para apanhar ar, e foi sob a luz forte dos candeeiros que a pude observar em todo o seu exótico esplendor. Os seus cabelos eram os mais louros que já vi, tão louros que às vezes pareciam cinzentos, e os olhos… a cor lembrou-me o azul interminável dos glaciares antárcticos que vemos nas páginas da National Geographic.

Ofereci-lhe boleia e – sou incapaz de explicar como ou porquê – ela acabou a noite a dormir no quarto de hóspedes em minha casa. Nunca mais a vi na Future Genetix, nem nunca ela me chegou a explicar exactamente o que fazia lá naquela noite. Mas isso não foi o fim dos acontecimentos estranhos. Dela praticamente nunca soube mais que o seu nome, simplesmente Hannah, sem sequer um apelido. Conversávamos muito, ela e eu, mas de alguma maneira as conversas eram sempre sobre mim, o que tinha feito durante o dia, a minha família, os meus colegas de liceu e da faculdade, os meus amigos de infância na minha pequena cidade natal de St. Cloud, a minha família...

Passaram vários dias até eu me aperceber que aquela pessoa, que eu não sabia que existia menos de uma semana antes, estava a morar comigo, na minha casa! Com ela era tudo assim, o tempo passava a correr, sem eu a questionar ou lhe dizer não. Nunca lhe perguntei o que eram as estranhas marcas no seu corpo nu que levaram semanas a desaparecer, por exemplo; acho que assumi que fosse algum hábito de toxicodependência ultrapassado, embora ao pensar nisso novamente…

Mas prefiro não seguir essa linha de raciocínio. Poder-me-ia levar a pensar que as pessoas para quem trabalho...

Lá estou eu a ser paranóico, novamente. Pensar nessas coisas dá-me medo; se calhar por isso é que nunca procurei aprofundar mais a conversa em assuntos que a Hannah claramente preferia evitar. Nem sequer sei o que ela fazia durante o dia enquanto eu trabalhava na F-Gen; só sei que às vezes estava lá no meu apartamento à minha espera, e às vezes eu me deitava e só a via de manhã, dormindo pacificamente a meu lado.

Talvez passasse esses dias e essas noites com os amigos dela. Cruzamo-nos algumas vezes lá em casa. Eram quase todos como ela, louros, olhos azuis… perguntei-me se não teriam todos vindo do mesmo país no Norte da Europa, mas, obviamente, ela nunca me chegou a explicar isso com clareza. O que eu sei é um deles, o mais velho, um tal de Romak, me perfurou com o olhar duas ou três vezes… e quando ela engravidou, bom, digamos que senti dois pequenos túneis a arejar o meu crânio, mesmo quando ele não parecia sequer estar por perto – ou isso é estar a ser paranóico também? Eu sei que ele parecia novo demais para ser pai dela, mas nunca se sabe. Talvez um irmão mais velho? Um antigo namorado?

Há coisas que eu questiono hoje em dia. Ela era bonita, inteligente, e debaixo dos lençóis… bom, quase pegávamos fogo à cama. Mas será possível? Será possível que eu tenha vivido tanto tempo com ela sem ter descoberto mais nada do seu passado, da sua vida, da sua família, do seu emprego? É tudo tão estranho que nem eu sei por onde começar a procurar uma explicação. Só me ocorre aquele velho cliché: o amor é cego. Neste caso, eu também fui.

E prefiro continuar: cego, e surdo, e mudo. Prefiro não ter de pensar mais nela. Prefiro não ter de pensar em todas as vezes que eu pensei estar a ser seguido depois de a conhecer, prefiro não pensar na altura em que a minha paranóia chegou a tal ponto que eu tinha a certeza, realmente a certeza, que todas as câmaras dos corredores da F-Gen estavam a observar-me com especial atenção, ou que os meus telefones estavam sobre escuta, ou que havia sempre um carro de certa marca e modelo algures na fila de trânsito atrás de mim. Comprei uma arma há seis meses e aprendi a dispará-la… ia à carreira de tiro três vezes por semana. Não serviu de grande coisa, pois não?

Acham que estou apenas a ser paranóico? Acreditam que eu estava a sonhar quando uma noite me levantei para ir à cozinha beber água e ouvi um Romak zangado a dizer à Hannah à porta do apartamento “Mas o que é que eles te fizeram? É impossível estares grávida, nunca ouvi tal disparate. E ele é um humano, pelo Demiurgo! Tens a certeza que não é um deles?”

Um humano.

Bom, pelo menos acham-me um humano. É bom lembrar-me disso. Nas últimas horas só penso no monstro que sou. Pelo menos acho que devo ser. A minha noiva está morta, esventrada sobre a nossa cama de casal no meu apartamento de 200 mil dólares, e eu estou prestes a fugir para o Japão. Saí de casa com uma mala e umas mudas de roupa, sem avisar a polícia, sem chamar uma ambulância, sem tentar contactar o Romak (mas também, mesmo que eu soubesse como o contactar, ele provavelmente ter-me-ia morto, ou estou a ser paranóico?), sem sequer me certificar que ela estava morta. Mas ninguém pode perder tanto sangue e sobreviver, pois não?

Pois não?

Lá estou eu a ser paranóico outra vez.

Mas de uma coisa eu tenho a certeza. Tenho a certeza que não sei onde a nossa filha está.

Tinham passado apenas cinco meses desde que Hannah começara a enjoar, mas aquilo que o obstetra viu na ecografia foi uma menina completamente formada… e pelo tamanho da barriga que ela tinha ontem de manhã, parecia poder nascer a qualquer minuto.

Se eu fosse paranóico, podia pensar em algo saído do Alien o 8º Passageiro, ou do The Omen. Mas eu vi as marcas nos pulsos e nos tornozelos dela, onde eles a agarraram. E aqueles cortes todos… foram feitos com um bisturi, sem dúvida. Também havia marcas de sapatos e botas no sangue que espirrou para o chão.

Era a nossa filha que eles queriam. Foi nela que eles estiveram interessados o tempo todo.

Agora que a têm, talvez me viver em paz o resto da minha vida. Espero que sim... porque sou um cobarde.

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