Settlers of Catan, The

Retrato de MGBM

Não há nada pior na vida de um reviewer do que analisar um clássico. Um clássico no verdadeiro sentido da palavra, um jogo que será sempre lembrado pelos aficionados e pelo público em geral. É pior quando esse clássico é apreciado por milhares de pessoas. Esse é o meu desafio de hoje. Fazer o review ao Settlers of Catan. Eu vejo a sorte como algo desnecessário. Como pimenta na comida. Um bocadinho de nada e a comida eleva-se a novos niveis de sabor. Em demasia e a comida fica completamente estragada. O que devem saber sobre mim é que vejo a sorte como desnecessária somente em Eurogames. O meu primeiro boardgame foi o maior Amerigame alguma vez feito, o Civilization. Eu gosto de todo o tipo de jogos, logo sorte num Amerigame não me chateia, de facto até estou à espera que tal aconteça em quantidades massivas. Mas sorte num Eurogame? Naaaaaaaaah. Logo já estão a ver onde quero chegar com o Catan. Passemos à review. O Settlers of Catan é sobre colonizadores numa ilha estranhamente hexagonal. O objectivo é construirem estradas, aldeias e cidades e ganhar dez pontos. O primeiro a ganhar dez pontos ganha o jogo. No meio existe negociações entre jogadores e expansão de territórios. Constrói-se pagando o valor da construção com recursos. Cada objecto que se pode construir tem o seu valor em recursos e é essencial ter um jogo equilibrado, com recursos de todos os géneros. Mas em Catan tal costuma ser impossivel, logo as negociações com outros jogadores. O jogo base está equipado para acolher de 3 a 4 jogadores, mas existem muitas expansões para o jogo, entre elas expansões para acomodarem até 6 jogadores. Agora farei a review da versão da Mayfair, vulga versão Americana. A apresentação do jogo é abaixo da média. A caixa não vem com slots para nada e só vem com caixas de papel para meter as cartas e existem sacos de plástico para as peças de madeira mas é só isso. Por outras palavras é uma decepção. As peças ficam espalhadas por todo o lado e é mau, sem falar que a caixa tem muito espaço inutilizado. A caixa do Catan podia ser mais pequena e não teria feito diferença. Quanto às regras, estão muito boas. Claras e simples, não tentam ser mais complexas do que na realidade são e uma pessoa fica a perceber o jogo à primeira vez que se lê as regras. Ou seja, em termos de apresentação, falha completamente na apresentação fisica dos conteúdos da caixa mas redime-se nas regras. Quanto ao tema, supreende o facto de este jogo ter um tema bem forte. Não é tão forte como um Amerigame vulgar, obviamente, mas ao jogar o Catan uma pessoa realmente fica com a ideia de estarmos a colonizar uma ilha, embora uma ilha estranhamente hexagonal. Tem o seu nivel de abstracto e o tema poderá não colar com todas as pessoas, mas eu chego à conclusão que o tema neste jogo é um dos mais fortes de um Eurogame. Está bem concebido e, mais importante, bem implantado. Nada mau. A interação entre jogadores neste jogo é activa e directa. Activa pois os jogadores podem entrar em negociações directas entre eles e literalmente mudarem as opções de jogo de outros jogadores. Directa pois os jogadores podem negociar entre si. A interação é passiva, no entanto, fora das negociações. Os jogadores simplesmente interagem com os outros jogadores no tabuleiro construindo aldeias e cortando territórios a outros jogadores. Devo dizer que são as negociações que tornam este jogo deveras muito interessante para muitas pessoas. Imaginem este jogo sem as negociações, não teria se tornado num clássico, de maneira nenhuma. São as negociações entre jogadores que tornam tão apelativo este jogo, que dão o toque extra que eleva um jogo do anonimato de ser mais um jogo para algo memorável. Portanto eu digo que a peça chave deste jogo ser um clássico são as negociações, sem elas este jogo era mais um jogo igual a todos os outros. São as negociações que tornam este jogo um excelente gateway game. E falemos do estatuto deste jogo como Gateway Game. Como introdução a novatos, há poucos boardgames melhores que este. Este boardgame tem a fórmula certa para introduzir alguém que considera o monopoly como um bom boardgame aos Eurogames. Presentemente há melhores Gateway Game no mercado, Ticket To Ride por exemplo, ou Clans, mas este jogo continuará a ser um perfeito exemplo de Gateway Game. É do melhor para se introduzir novatos nas nossas andanças. O que me traz a outro ponto. Pode ser bom para novatos, e então para veteranos? Bem para veteranos é quando este jogo se quebra. Sinceramente, acho que este jogo não tem nada para oferecer a veteranos que outros jogos não ofereçam de maneira melhor. O meu desagrado em relação a este jogo fundamenta-se principalmente no factor sorte. O factor sorte neste jogo é demasiado elevado. Roda-se dois dados para determinar que recursos saem a quem, e isto é bastante mau para um Eurogame. O jogo tem as suas estratégias, claro, mas a sorte tem um papel demasiado importante, pois pode destruir o jogo de um jogador se esse jogador não conseguir receber recursos. Mais, as cartas especiais também são sacadas depois de baralhadas e o jogador não sabe o que saca. Como tal, a sorte tem um papel demasiado activo neste jogo, o que por consequência estraga o jogo. O jogo acaba por ficar com um factor de sorte demasiado alto para uma pessoa fazer planos a longo-prazo. Mas é esta mesma sorte que afasta os veteranos que também traz os novatos. Novatos normalmente associam boardgames a sorte e dados, e isso o Catan oferece e bastante. Falemos de estratégia e táctica. Este jogo é maioritariamente táctico. Devido ao factor randómico da sorte nunca se sabe o que nos vai calhar no próximo turno, portanto não compensa fazer planos a longo-prazo, pois normalmente não se conseguem concretizar, logo a estratégia neste jogo existe mas em quantidades muito pequenas. A táctica no entanto está cá em doses massiças. Desde o rolar dos dados até às negociações, um jogador pensa não no futuro mas no presente, no que ele pode construir agora não depois. O que é bom, pois a meu ver táctica é mais importante num Gateway Game do que estratégia, uma pessoa nova a boardgames não quer queimar o cérebro a pensar, quer disfrutar do jogo e divertir-se ao máximo sem pensar. O peso deste jogo é, eu diria, um light middleweight game. Não é pesado e joga-se bem, mas também não é muito leve. Requer um nivel de atenção por parte dos jogadores, o que faz com que o jogo não seja um lightweight. Mas também não é um Gamer's Game, nem de longe, é um jogo simples, sem pretenções que alcança aquilo que tenta alcançar, dar uma hora de divertimento. Quanto à sua longevidade, ao seu replayability, este jogo tem uma enorme vantagem. O tabuleiro é completamente modular, ou seja, nenhum jogo será igual. Em teoria pelo menos. Os recursos ficam sempre espalhados de maneira diferente e isso é um factor que captura a imaginação dos novatos, pois é bem provável que um novato nunca tenha visto algo assim. No entanto para um veterano, esta vantagem rapidamente transforma-se em tédio. O tabuleiro pode ser diferente, sem dúvida, mas não altera muito a maneira de jogar. Para um veterano, todos os jogos de Catan parecem-se os mesmos de sempre. Aborrecimento depressa se instala e acaba por tirar o interesse do jogo. Logo o replayability é diferente para novatos e veteranos. Para um novato, este jogo é sempre interessante de se jogar, para um veterano o jogo acaba por chatear demasiado depressa. O dinâmismo deste jogo é equilibrado e interessante. Apesar de tudo há que dar a mão à palmatória e admitir que o jogo tem um bom dinâmismo. O rolar dos dados para receber recursos adicionado com a negociação directa entre jogadores torna este jogo dinâmico, o que é uma vantagem. Este jogo não pode ser acusado de ser estático. O dinâmismo das regras une o jogo como um todo e não como vários mini-jogos num só jogo. Eu diria que é o dinâmismo o ponto mais forte do Catan. Quanto ao problema de Analysis Paralysis, este jogo não o tem. Rolar dados, recolher recursos, negociar, repetir n vezes. Mesmo as negociações são rápidas. Neste jogo os turnos passam rapidamente e não ficamos mais de 30 segundos sem fazer nada. Ûm ponto positivo para este jogo, sem dúvida. O componente visual do jogo é tipico dos Eurogames. Peças em madeira, tiles em cartão, cartas de boa qualidade. Nada fora do normal. Quanto ao tabuleiro, não é lá muito interessante de se ver. Este jogo não é um Big City em termos visuais, mas também não é nada muito de mau, simplesmente não atrai a vista à mesa de um Catan a meio do jogo. As mecânicas do jogo são simples. Rolar, recolher recursos, negociar. O jogo é um bocadinho mais do que isto, é verdade, mas pode-se basicamente resumir a isto. O que pode ser tão bom como mau. A sua simplicidade baseada na sorte é ambigua, pois enquanto que os novatos irão adorar, os veteranos acharão demasiado caótico e simples. O ponto forte do jogo acaba por se tornar também no ponto fraco. Por mim, vejo esta simplicidade como algo ingénuo mas eficaz. Simplicidade é sempre bom, mas quando a simplicidade tem como base a sorte as coisas podem-se tornar feias. Neste caso, para um veterano, não há nada aqui que outros boardgames não façam de maneira muito melhor. Quanto ao tempo de jogo, esperem terminar uma sessão de Catan em cerca de uma hora. Se tiverem a expansão para seis jogadores, então o tempo deverá aumentar em cerca de quinze minutos. Uma das vantagens deste jogo é ter uma carrada de expansões. Muitas mesmo, demasiadas. Se tiverem mais de 4 jogadores, a expansão para 6 jogadores é obrigatória. Eu diria que este jogo é mais divertido a 6 do que a 4. O Seafarers é obrigatório, não por ser uma expansão essencial mas porque completa o jogo. O Catan foi designed originalmente como o Catan base com o Seafarers mas a empresa que publicou o jogo decidiu separar o jogo nessas duas componentes. O Cities and Knights torna o Catan em algo completamente diferente. Bem, aqui está a minha análise. O que penso do jogo? Acho-o literalmente mediano. Nem bom nem mau, é algo que se joga mas que não deixa nenhuma impressão. O factor sorte é demasiado irritante para mim pois acaba por condicionar o jogo de qualquer jogador e isso é mau num Eurogame. Se este jogo não tivesse tanta sorte este jogo teria sido muito melhor, muito melhor mesmo, mas os dados acabam por estragar o jogo. No entanto, como Gateway Game, este jogo é incontornável. Este jogo é perfeito para introduzir um novato e deixará sempre boas impressões. É um bom primeiro passo no caminho dos boardgames, e uma das razões que o jogo se tornou num clássico. Eu, por outro lado, embora veja porque razão se tornou um clássico, acho que o jogo não merece tal estatuto. É divertido, pelo menos nas primeiras vezes que se joga, mas depois aborrece e bem qualquer jogador com experiência. E é pena, porque o jogo está bem pensado e concebido em termos de mecânica. Este jogo enjoa demasiado depressa. É um boardgame que deve estar na coleção de todos os jogadores? Sem dúvida! É um boardgame que deve ser sempre jogado? Não. Um design que apela às massas? Absolutamente. Perfeito para novatos, aborrecido para veteranos. Comprem, joguem, apreciem o clássico, só não esperem é algo grandioso pois não o irão encontrar aqui. 10 de 20. http://www.boardgamegeek.com/game/13