Lord Of The Rings

Retrato de MGBM

Existem poucos livros imemoráveis como o Lord Of The Rings é. O livro é uma experiência única que nos deixa uma marca profunda para o resto da vida. Logo, antes dos filmes terem sido feitos, o senhor Knizia brindou-nos com um jogo baseado nesses livros.

Lord Of The Rings, da Fantasy Flight Games, é um boardgame para cinco jogadores. Este boardgame tem uma particularidade que não se vê muitas vezes noutros boardgames. Este é um boardgame de cooperação pura, ainda mais que no Shadows Over Camelot. No Shadows existe o traidor, no Lord Of The Rings é mesmo todos a cooperarem, todos os jogadores jogam contra as mecânicas do jogo. Isso torna este jogo único e, sinceramente, muito divertido.

Neste jogo os jogadores são os hobbits das estórias, encarregados de destruírem o One Ring em Mount Doom. Para fazerem isso terão que percorrer vários cenários, desde Moria a Helm's Deep até Mordor, e conseguirem superar eventos que muitas das vezes são bastante maus para os jogadores. O tabuleiro dos cenários contem vários caminhos. Se os jogadores como um grupo completarem o caminho principal ou se todos os eventos forem jogados, então o cenário acaba e avança-se para o próximo. Para avançar nos caminhos o jogo usa cartas que serão usadas maioritariamente para avançar, mas existem outras com efeitos variados. Quem conseguir chegar ao Mount Doom e destruir o anel providencia a vitória para todo o grupo. Aqui não há individuos vitoriosos, ou ganham todos ou perdem todos.

Passemos à análise.

Em termos de apresentação este jogo é estranho. Por um lado temos um livro regras que é facilmente compreendido. Temos a arte de John Howe que é magnifica e adorna as cartas e os tabuleiros. Temos um insert na caixa onde todos os componentes cabem perfeitamente. Mas depois temos os componentes em si que contrastam com a arte. O design dos componentes choca com a arte, não são homogéneos, contrastam com a qualidade da arte e a mediocridade do design dos tiles e tokens e shields, o que pode trazer amargura de boca a quem ligue a esses promenores. Ou seja, em termos de apresentação o jogo não é homogéneo. Mas é bom o suficiente e isso é o mais importante.

Neste jogo o ideal será todos os cinco jogadores jogarem, pois embora haja um bom equilibrio com diferentes números de jogadores, quantos mais jogadores mais as probabilidades de se sair vitorioso no fim.

Em termos de tema, este boardgame é uma situação bicuda. É um boardgame do Dr. Knizia, o que implica logo à partida um tema colado com cuspo. No entanto, a magnifica arte dos tabuleiros e cartas ajuda, e muito, a imergir os jogadores no mundo da Terra-Média. No entanto é muito mais provável que, durante o jogo, um jogador pense que só está a mexer cones de madeira do que estar a tentar destruir o One Ring. Mas, para um boardgame do Knizia, o tema aqui é muito mais forte que a média dos boardgames dele. No entanto, se procuram um boardgame que pingue tema por todo o lado sobre a Terra-Média, este boardgame não serve, tentem antes o War Of The Ring em vez deste. Em resumo, tema mais forte que o habitual do Knizia, mas não tão forte que se torne o elemento principal do boardgame.

Quanto a estratégia e táctica, este jogo é engraçado. Temos montes de estratégia, pois há que saber que cartas guardar, e há que fazer planos a longo prazo para planear a melhor forma de atacar um cenário. Há que saber planear em grupo para melhor contornar os problemas que nos são impostos por este jogo. Mas o aspecto táctico não é descurado, de facto os event tiles certificam-se que até os melhores planos podem sair furados. Há que pensar em como usar de imediato certas cartas e em como ultrapassar um evento que nos tenha calhado. Ou seja, este jogo atinge um equilibrio entre táctica e estratégia como eu há muito tempo não via. Este jogo tem montes de estratégia mas também tem montes de táctica, e os jogadores que gostem da combinação de ambos, que gostem de boardgames com muita estratégia e também táctica vão adorar este jogo, desde que não se importem em jogar jogos de pura cooperação, claro.

O factor sorte é o que dá vida a este jogo. Temos sorte em todo o lado, mas não a temos em peso suficiente para estragar o jogo. Para começar, temos a sorte de sacar cartas que é mitigada pelo facto das cartas normais serem só de quatro tipos e haver muitas cartas dessas. Depois temos o dado, que é lançado em certas alturas e que contribui ainda mais para a sorte do que as cartas, ao ponto de haver situações em que o dado pura e simplesmente elimina um jogador, mas tais situações são raras e só acontecem ou com uma má gestão da mão de cartas que possuimos ou então acontece no fim do jogo. Mas o factor sorte mais importante são os event tiles, que determinam se um evento, que muitas das vezes é bastante mau para os jogadores, acontece ou se os hobbits podem andar nos caminhos. Este aspecto é o motor do jogo e contribui para que os jogadores fiquem sempre na expectativa à espera do que poderá sair. Mas, como disse, estes elementos não estão presentes em peso suficiente para arruinar o jogo, de facto têm o peso certo que permite tornar o jogo muito mais interessante.

A interacção entre jogadores é, se quiserem que o grupo dialogue entre si e faça planos, incrivelmente alta e directa. Esta é a melhor parte deste jogo, de facto, a interacção, a maneira como o grupo como um todo planeia as próximas jogadas. Isso torna um jogo mediano num jogo bastante divertido de se jogar. É a interacção, a possibilidade de criar planos como um grupo, que torna tão apetecível as repetidas sessões deste jogo. É um aspecto fundamental da natureza de jogos de cooperação e como tal quem gosta de planear em grupo vai gostar e muito deste jogo.

O peso do jogo é, eu diria, um simples middleweight a tender ligeiramente para o heavy middleweight. Não é um jogo muito pesado, mas realmente quando se joga uma pessoa apercebe-se que este jogo confronta os jogadores com decisões tensas e criticas, o que para mim faz tornar um jogo num jogo pesado. No entanto não é pesado o suficiente para uma pessoa pensar que isto é um heavyweight. Joga-se bem, temos decisões tensas, mas isto não é um Power Grid, um Age Of Steam ou um Die Macher.

Quanto a ser um gamer's game ou um filler, não é nem um nem outro, é um eurogame normal, embora eu admite que às vezes dislumbra-se que o jogo tem aspectos de um gamer's game. Como tal, este é um jogo jogado entre fillers e não jogado entre jogos principais. De facto, este é o jogo principal de qualquer sessão.

E o tempo de jogo ajuda a chegar a essa conclusão. O jogo demora entre uma hora a uma hora e meia ou até mesmo duas horas se o grupo estiver mesmo muito conversador e a planear em grande escala.

A longevidade do jogo é um problema bicudo. Está tudo bem enquanto os jogadores tentam chegar ao fim e não conseguem, mas quando realmente acabam o jogo com sucesso o jogo perde uma parte substancial da sua piada. Muitos grupos irão ter a mentalidade de acabamos o jogo, não há razão para o jogar de novo. E realmente não há assim tanto quanto se pensa. Como o jogo não é propriamente modular, uma pessoa já sabe a ordem dos eventos, o que eles fazem e as estratégias para ganhar o jogo. Este é o ponto mais fraco deste boardgame, a sua longevidade. Se gostam mesmo de jogos de cooperação então este ponto não vos incomodará, mas se são jogadores que nem gostam nem desgostam deste tipo de jogos, então chegar ao fim poderá implicar uma perca de interesse deste jogo. Só mesmo tentar chegar ao fim outra vez com uma pontuação mais alta é que poderá atrair os jogadores a jogá-lo de novo. Mas verdade seja dita, enquanto não chegarem ao fim só pensarão em jogar ao jogo até chegar ao fim.

O dinâmismo do jogo é excelente, afinal é um jgo de cooperação e isso provoca um dinâmismo interpessoal incrivel. Outro aspecto é o facto deste boardgame ser incrivelmente dificil de ganhar. Isso torna o jogo interessante e pôe sempre problemas engraçados para os jogadores. Sinceramente, este jogo tem uma bela dinâmica que será apreciada muito mais por veteranos boardgamers do que por pessoas com menos experiência.

Quanto a ser um bom boardgame de introdução a novatos, ele é mas têm que estar reunidas as condições certas, ou seja, o novato tem que gostar de jogos de cooperação, que muitas das vezes gostam, e têm que apreciar Tolkien pois caso contrário muito dos eventos e acção do jogo ficará perdido para ele. Embora eu considerar este jogo ligeiramente mais pesado que um middleweight normal, acho que este jogo irá atrair os novatos pela sua arte, background e natureza de cooperação. Mas pelo sim pelo não joguem antes a um Clans ou a um Ticket To Ride com o novato para ele se habituar um bocadinho.

Quanto ao problema de Analysis Paralysis, temos aqui uma curiosidade. Não existe analysis paralysis individual neste jogo mas ela existe em grupo, pois muitas das vezes o grupo pára para discutir a próxima jogada e como deverá ser jogada. É engraçado pois individualmente os jogadores têm pouca analysis paralysis mas em grupo, bem em grupo este jogo pode demorar uns belos minutos até se decidir fazer uma jogada.

Quanto ao downtime, o jogo é jogado por turnos individuais sem dúvida mas, a não ser que os jogadores todos comecem a discutir a melhor maneira de jogar, o downtime é relativamente normal com tendências a arrastar-se mais do que devia, pois cada jogador tem que fazer decisões importantes e adaptar-se às circunstâncias que estão em constante evolução neste jogo.

Quanto às mecânicas, este jogo é de Cooperação, temos set collection e hand management e também uma boa dose de tile draw. Também temos uma variante de roll and move que é play a card and move. Todas estas mecânicas o jogo executa-as de forma lógica, organizada e, mais importante que essas duas, divertida. É um boardgame bom com mecânicas saudáveis e sólidas e como tal torna-se um boardgame com uma boa combinação de mecânicas.

Quanto ao visual, fora o design dos tokens e tiles, a arte é do John Howe. Está tudo dito.

E é isto.

Este jogo é engraçado, além de ser um jogo de cooperação é incrivelmente dificil ganhar a este jogo a não ser que o grupo esteja em perfeita sintonia. Como tal, isto muda o focus do boardgame de indivdualismo para algo próximo de pensamento colectivo comum. Como boardgame de cooperação pura eu diria que este é dos melhores que está no mercado. É um bom boardgame, com mecânicas sólidas e que une o grupo de jogo em vez de os obrigar a cada um a pensar por si.

Pessoalmente eu gosto muito deste boardgame. Não é nada de espectacular, nada que nos faça pensar nele constantemente, mas é um jogo que não me importo de jogar sempre que a oportunidade assim o permita. É um boardgame muito bom que recomendo a qualquer pessoa que goste de boardgames de cooperação. De facto, se gostam desse tipo de boardgames, este jogo é obrigatório terem na vossa colecção. Além do facto que já tem três expansões que tornam o jogo muito mais interessante e variado.

Mas o problema deste boardgame é, como referi acima, quando um grupo acaba o jogo. Para jogadores que não se interessem por jogos de cooperação, acabar o jogo pela primeira vez poderá ser o golpe final no jogo e nunca mais terão interesse em jogar. Mas sinceramente acho que este é um jogo que se deve jogar pelo menos uma vez. Ou cinco ou seis.

Recomendado. Um boardgame bom que irá divertir qualquer boardgamer que esteja disposto a cooperar com o resto do grupo.

15 de 20.

http://www.boardgamegeek.com/game/823