Notre Dame

Retrato de MGBM

O que define um eurogame? Esta pergunta origina centenas de respostas diferentes, muitas das quais entram em conflito. Ora, para mim a melhor maneira de responder a uma pergunta é mostrando a resposta não como uma teoria mas antes em prática. E é isso o que o Notre Dame é, a resposta à pergunta O que é um Eurogame. E acreditem, este jogo responde da melhor maneira possivel a essa tão afortunada pergunta. Este jogo é, para todos os efeitos, tudo o que define um Eurogame, tudo o que um Eurogame pode ser. Logo, temos à partida uma condição essencial a esta review, Amerigamers vão odiar este jogo. Mas passemos à review.

Notre Dame, designed por Stefan Feld, faz parte da colecção da Alea, o que implica logo à partida que é bem provável que este boardgame seja excepcional (Embora pertencer à Alea não é sinal absoluto de qualidade, vejam o 5th Avenue). Editado em Inglês pela Rio Grande Games, este boardgame permite de 2 a 5 jogadores jogarem.

Em Notre Dame, teremos que usar a nossa influência na vizinhança da catedral de Notre Dame de maneira a conseguirmos obter o maior número de pontos possivel. Para tal escolhemos as nossas acções através de um sistema de escolha de cartas. Depois de 9 turnos, o jogo acaba e quem tiver o maior número de pontos de vitória ganha.

Comecemos a análise.

Em termos de apresentação, este boardgame é muito bom. As peças em madeira são de boa qualidade, tipico em centenas de Eurogames. As cartas contêm ilustrações práticas e são de boa qualidade, garantido que durem ao uso intensivo do jogo. O tabuleiro é capaz de ser o aspecto mais intrigante em termos de apresentação, pois não é um tabuleiro regular mas antes várias peças que se juntam de maneira a formar a vizinhança de Notre Dame e que mudam de forma conforme o número de jogadores. Original e prático, esta interessante maneira de colocar o tabuleiro é apelativa. O insert da caixa é genérico, embora tudo caiba dentro da caixa sem problemas. Mas seria bom que se preocupassem em fazer inserts especificos para cada jogo. As regras são tipicas da Alea, ou seja, bem explicada, claras e simples. Um jogador estará preparado para jogar ao Notre Dame mal acabe de ler as regras, que são também muito facilmente explicadas. Em suma, em termos de apresentação este jogo é claramente muito bom. Não excelente, mas certamente muito bom.

Em relação ao número óptimo de jogadores, este jogo é basicamente um multiplayer solitaire, portanto qualquer número de jogadores fará o jogo brilhar à mesma.

Em termos de tema, este jogo é um Eurogame na sua essência mais pura. Ou seja, o tema está colado e mal se segura. De facto este jogo é meio caminho andado para ser um abstracto puro. Mas há algo que notei à medida que se jogava mais neste jogo, que é o tema do jogo torna-se apelativo e começa a colar ligeiramente mais quantos mais jogos fizermos. Claro que nunca chega a níveis decentes de tema e os jogadores estarão sempre com a impressão que o tema não serve para nada, embora a inclusão da mecânica dos ratos ajude muito a visualizar o jogo conforme o seu tema. Mas, sim, o tema está colado, e está colado muito mal. Como um Eurogame típico, este jogo não é sobre o tema, é sobre as mecânicas. Logo não esperem algo a pingar tema por todo o lado porque aqui não há nada disso.

Em relação a estratégia e táctica, bem, este jogo supera a maioria dos jogos que conheço. Tem um equilibrio fenomenal entre táctica e estratégia. Por um lado temos o mecânismo de passar duas das três cartas ao jogador à esquerda e só podermos jogar duas das três cartas na nossa mão. Isso tem como consequência um abafo na estratégia durante o jogo ao mesmo tempo que faz aumentar consideravelmente o nível de táctica, pois uma pessoa acaba por pensar a curto-prazo quando se faz planos neste jogo. No entanto tudo o que fazemos afecta-nos mais tarde e neste jogo planear a longo-prazo, apesar das mecânicas das cartas, recompensa em larga escala os jogadores que assim o planeiam. Estratégicamente falando, torna-se fundamental durante o jogo criarmos um plano a longo-prazo e executá-lo, pois torna-se essencial tirarmos proveito da influência já jogada no tabuleiro. Este é um Eurogame clássico, no sentido em que combina táctica e estratégia de uma maneira brilhante, dando aos jogadores imensas possibilidades tanto tácticas como estratégicas. Eu diria que este boardgame é o exemplo perfeito de como usar táctica e estratégia num eurogame e, como tal, é um jogo que irá agradar imensamente a todos os Eurogamers.

Em termos do factor sorte, neste jogo é relativamente pouco. O factor sorte neste jogo resume-se a três aspectos, o sacar das cartas de personagem, que acabam por ditar que poderes especiais podemos contratar no fim do jogo e quantos ratos atacam todos os jogadores, o baralhar as nossas 9 cartas de acção e o receber as cartas de acção dos outros jogadores. Embora estas acções tenham um impacto tremendo no jogo, pois a nossa maneira de jogar terá que forçosamente de se adaptar a estas condições, o jogo acaba por se equilibrar e tornar-se um jogo de fazer o máximo com aquilo que nos é dado. Sem dúvida nenhuma que este factor sorte acaba por ser bastante importante para o jogo, mas apesar disso é esse mesmo factor sorte que impede o jogo de se tornar aborrecido e idêntico em todas as jogadas. A sorte neste jogo é um aspecto que torna o boardgame muito mais divertido e diverso, impedindo que a monotonia se instale e obrigando-nos a pensar bem no que fazer durante um turno. Fora isso, este jogo não tem mais nenhum factor de sorte.

A interacção entre jogadores é mínima. Como disse acima, este jogo é, de facto, um multiplayer solitaire. Não há interacção entre os jogadores durante o jogo fora o passar as cartas que não queremos ao jogador à esquerda de nós. Fora isso é cada jogador a jogar só para si, quase sem influência nem interferência dos outros jogadores. Existe uma mecânica no jogo que tenta dar um pouco mais de interacção entre os jogadores, a carruagem. Mas mesmo assim a carruagem acaba só por confirmar que isto é um solitaire no fim. A única forma de realmente interferirmos com os outros jogadores é colocando cubos no Notre Dame, impedindo assim que os outros jogadores levem mais pontos. Mas este jogo acaba por ser um exemplo tipico de um multiplayer solitaire e de como um jogo desse tipo pode ser feito de uma maneira excelente e viciante.

O peso do jogo é, eu diria, um Heavy Middleweight. É um jogo que requer uma boa dose de decisões dificeis e, como tal, torna o jogo bem pesado. Não é algo leve que se possa jogar sem pensar no jogo, este jogo requer a nossa total concentração. Pessoalmente, no entanto, eu considero este jogo Middleweight. Embora os outros jogadores do meu grupo achem o jogo um pouco para o pesado, eu acho-o bem leve para o que é, mas isso é só o que eu acho. Pelo que tenho visto toda a gente considera o jogo um heavy middleweight, e tal definição encaixa-se perfeitamente com o boardgame. Este não é um jogo para ser jogado de ânimo leve, é um jogo que nos irá obrigar a delinear planos e a pensar seriamente no que queremos fazer.

Quanto a ser um gamer's game ou um filler, este é sem dúvida um jogo muito próximo de ser um gamer's game. Pessoalmente, no entanto, não acho o jogo um verdadeiro gamer's game, falta um pouco de complexidade e substância para se tornar em algo que os jogadores veteranos verdadeiramente apreciem e guardem como se fosse um tesouro. Mas apesar disso este é um jogo muito próximo de ser um gamer's game e, como tal, irá atrair aqueles que gostem de jogos com mais substância do que o normal. Este é, como os ingleses dizem, um jogo com muita carne.

A longevidade deste jogo é boa. Apesar de o tabuleiro não ser modular, a mecânica de sacar cartas de personagem randómicamente e de baralharmos as nossas cartas de acção implica que este nenhum jogo seja igual. Existe sempre uma nova maneira de fazer as coisas, uma nova estratégia que emerge. Logo eu diria que este jogo tem uma longevidade boa, apesar de ser um solitaire. Mesmo assim, é possivel que um jogador se farte rapidamente deste jogo, pois apesar de tudo o Notre Dame é um eurogame no mais puro sentido da palavra. O jogo acaba por não ter tanta variedade quanto a desejada e isso pode influenciar negativamente os jogadores. Mas pessoalmente não me vejo cansado de jogar este jogo assim tão cedo. É um jogo que apela aos eurogamers, um jogo que tem a potencialidade de se tornar um jogo muito jogado em qualquer grupo.

O dinâmismo do jogo é excelente para um multiplayer solitaire. É um puro eurogame, onde as mecânicas são mais importantes que a sorte ou o tema, e como tal executa as mecânicas de uma forma sólida e eficaz. O tabuleiro está sempre a mudar e os jogadores são forçados a adaptar-se à mão que lhes é dada de forma a tirar o máximo proveito dela. O jogo nunca se torna estático, pois um jogador terá que equilibrar a sua mão de cartas de acção com a situação presente no tabuleiro, ao mesmo tempo que elabora planos de acção a longo-prazo. Em suma, é um jogo dinâmico, mais dinâmico que o Princes of Florence por exemplo, que aplica as lições dadas pelos Eurogames de forma brilhante e exemplar.

Quanto à introdução a novatos, estamos perante um pequeno problema. Por um lado este jogo é pesado demais para um novato se sentir à vontade enquanto joga o jogo. Por outro lado estamos perante um exemplo perfeito de um Eurogame que permitirá a um novato ter uma boa ideia do que um Eurogame é. No fim o que conta é a acessibilidade do jogo, e quanto a isso eu diria que este é acessivel a novatos. As regras são simples e fáceis de entender, sem nenhuma mecânica particularmente complexa. Mas eu sugeria cautela a introduzir este jogo. Embora acessivel, pode também muito facilmente afastar um jogador, pois um veterano de boardgaming terá uma clara vantagem sobre um novato. A minha opinião pessoal é usarem antes outros jogos mais apropriados como gateway games e usar o Notre Dame como próximo passo.

Em relação a Analysis Paralysis, não estou a ver este jogo ter muito desse problema. Afinal cada jogador só terá três cartas de acções na mão a qualquer altura do jogo e dessa três só poderá jogar duas. Muitas vezes os jogadores já sabem perfeitamente o que jogar, o que ajuda em muito a diminuir o problema de Analysys Paralysis. Eu diria que este jogo não sofre desse problema e, de facto, é um exemplo de como um Eurogame deve ser feito para evitar analysis paralysis. Se não gostam de analysis paralysis nos vossos jogos então recomendo vivamente este boardgame.

Quanto a downtime, este jogo é também um bom exemplo de como fazer um boardgame sem downtime quase nenhum. As jogadas acontecem rapidamente e é raro ficarmos mais de um minuto sem fazermos nada. É comum estarmos a jogar as nossas duas acções num instante e nunca nos sentimos aborrecidos por não estarmos a jogar ou só por estar a ver os outros jogar, neste jogo tal não acontece. É um jogo que se joga rapidamente, em que as decisões são claras, embora dificeis. Basicamente é um jogo rápido que não chega a por os jogadores num estado de monotonia por ver o jogo a andar e ficar sem se jogar.

Em termos de visual, este jogo é engraçado. Como referi, o tabuleiro deste jogo é deveras singular, com um formato original. Como tal, tende a captar a atenção e interesse de quem quer que esteja a passar. Se adicionarmos a isso as peças coloridas e as cartas teremos um jogo que irá chamar a atenção de não-jogadores e, com sorte, espicaçar-lhes a curiosidade. Não é um jogo que ocupe muito espaço, e isso é uma vantagem para quem quer jogar o jogo num bar ou café. Tem um bom aspecto visual que poderá permitir uma maior captura da atenção das pessoas e, com sorte, fazer com que as pessoas perguntem o que é que estão a jogar.

Em termos de mecânicas, temos Hand Management, Card Drafting e Solitaire Area Control. Essas três mecânicas são usadas extensivamente neste jogo e são usadas de maneira sólida e sem falhas. De facto, este jogo é um perfeito Eurogame, onde as mecânicas é que contam e, como tal, é um jogo que executa as suas mecânicas de maneira exemplar e sem falhas. É um sólido exemplo de como um Eurogame deve funcionar e embora nenhuma das suas mecânicas seja original está tudo executado de maneira a proporcionar um maior divertimento por parte dos jogadores. É um Eurogame que, embora não sendo original ou inovador, acaba por se revelar um jogo que sabe o que faz, que sabe como executar de maneira muito boa mecânicas que já haviam sido usadas noutros jogos. Em suma, um Eurogame puro onde impera o pragmatismo das suas mecânicas em detrimento do tema. Um perfeito exemplo de como um Eurogame deve ser concretizado em termos de aplicar mecânicas ao jogo.

Em relação ao tempo de jogo, ficará entre os 45 minutos e a hora e meia. Pessoalmente todos os jogos que tenho jogado não demoraram mais de 50 minutos, mas isso irá variar conforme a natureza de cada grupo. Sendo este jogo tão rico em estratégia e táctica, um grupo que goste de analisar muito bem as jogadas poderá prolongar o tempo deste jogo consideravelmente, visto este ser um jogo bom para análise de jogadas por parte dos jogadores.

E é isto.

Para mim, o Notre Dame é o exemplo perfeito do que um Eurogame deve ser. Mecânicas sólidas e sem falhas embora não sejam originais é a marca deste jogo, e como tal é um boardgame que irá apelar a todos os eurogamers. É um boardgame que diverte tremendamente os jogadores e que apela a todos que gostam de um bom equilibrio entre estratégia e táctica.

Pessoalmente é um dos meus Eurogames favoritos. Um jogo onde a execução das suas mecânicas é mais importante que tentar iludir o jogador com um tema ou apelar ao jogador com uma boa dose de sorte. É um jogo que, embora não seja original em nenhum aspecto, o que faz faz muito bem.

O Notre Dame acaba assim por se tornar num exemplo perfeito do que um Eurogame deve ser e deve aspirar a ser. Obviamente quem goste de Amerigames irá odiar por completo este jogo, sendo um jogo que vai contra quase tudo em que acredita. Mas para quem goste de Eurogames, este jogo é absolutalemente obrigatório ter na coleção.

Para mim um dos melhores jogos de 2007 e uma referência obrigatória no mundo dos Eurogames.

Recomendado vivamente. Comprem e comprem o mais cedo possivel.

18 de 20.

http://www.boardgamegeek.com/game/25554