Ingenious

Retrato de MGBM

Um jogo abstracto costuma sempre ter pouco apelo para a grande parte dos jogadores. A maioria gosta de ter um tema no seu jogo, mesmo que tal tema seja colado a cuspo e não pegue realmente. Até que um dia um jogo abstracto chega que consegue o feito de convencer muitos jogadores a jogá-lo, e a jogá-lo repetidamente.

Ingenious, um jogo de Reiner Knizia, é um abstracto cujo objectivo é pontuar filas de símbolos iguais que estejam adjacentes à peça que nós colocámos. Típico do Dr Knizia, a mecânica de pontuação é pouco usual, com a pontuação final sendo os pontos da cor onde temos menos pontos.

Vamos à análise.

Em termos de apresentação a versão da Fantasy Flight Games é boa. As regras vêm numa única folha e são incrivelmente simples e fáceis de ensinar. Os tiles de jogo são de qualidade boa e claros a entender, felizmente não usaram cores similares entres elas. O tabuleiro é prático e funcional mas nada de especial e os stands para colocar as peças são decentes. Embora o jogo não tenha insert todo o material cabe bem dentro da caixa e não há peças soltas dentro da caixa. A apresentação não é nada de especial mas faz o trabalho devido.

O tema neste jogo não existe, este jogo é totalmente abstracto. Portanto é inútil abordar este jogo como tendo um tema.

A sorte existe no elemento de sacar ao calhas as peças de dentro de um saco. Sendo assim este jogo, ao contrário do xadrez por exemplo, usa um pequeno elemento de imprevisibilidade, obrigando-nos a adaptar constantemente às novas peças e novas jogadas. Nenhum jogo é igual ao anterior devido a isto, tornando-o apelativo.

E é na área de táctica e estratégia que este jogo brilha. Cada jogador tem 6 peças, tornando a repor uma peça cada vez que joga uma. Isto permite uma grande dose de estratégia, de poder planear umas jogadas à frente. Claro que o factor humano irá sempre influenciar com a sua imprevisibilidade mas é sempre possível fazer planos, é sempre possível imaginar jogadas ideais ou como bloquear um jogador. Este é um jogo com uma profundidade estratégica e táctica tremenda, um jogo com hipóteses de jogadas quase infinitas. A combinação de informação fechada, pois não sabemos que peças os outros jogadores possuem, com a variedade de peças existentes e as maneiras diferentes de se jogar tornam este jogo em algo tão profundo que rivaliza o próprio xadrez. Este jogo é, acima de tudo, um jogo de adaptação. Temos que nos adaptar tanto às peças que temos como às jogadas dos outros jogadores como ao estado actual do tabuleiro. Mas mesmo assim é possível fazer estratégias e é possível que essas estratégias funcionem, e é aqui que a magia do jogo se encontra. O jogo funciona. Apesar da sorte, da aparente imprevisibilidade, o jogo funciona, e funciona muito bem. Recompensa planos estudados mas também planos arrojados, não é um jogo em que jogando ao calhas se ganha, é um jogo em que é preciso pensar um pouco antes da próxima jogada e estar constantemente a analisar a situação de jogo. Este jogo é brilhante, é um verdadeiro tesouro para os amantes de boas e profundas estratégias e tácticas.

Claro que o reverso da medalha num jogo deste género é a falta de interacção entre os jogadores. Embora este jogo não seja um solitaire pois é possível bloquear outros jogadores ou estragar as jogadas de outros jogadores, mas não há interacção directa, tudo o que podemos fazer contra ou a favor de outros jogadores fazemos no tabuleiro com a nossa jogada e mais nada. Este jogo não é interactivo tal como o xadrez não o é. Se gostam de jogos de negociação, leilão, diplomacia então este jogo poderá não vos impressionar.

A meu ver este jogo é um Middleweight, não é nem leve demais nem pesado demais, tem o perfeito equilíbrio de peso e decisões. Ingenious é um jogo que não incomoda, que se joga bem e que não nos faz queimar a mente. Torna-se antes uma experiência de jogo agradável do que uma experiência que nos deixa mentalmente exaustos.

Não é um gamer´s game nem um filler, embora o tempo de jogo seja muitas vezes o de um filler. Uma partida normalmente dura entre 20 a 25 minutos, o tempo ideal para este jogo.

É na longevidade que este jogo realmente brilha. Com estratégias quase infinitas e com todos os jogos sendo diferentes uns dos outros, este jogo nunca cansa pois há sempre algo novo a experimentar, uma nova estratégia a elaborar, um novo ângulo de jogada a tomar em conta. São raros os jogos na minha colecção que contêm uma longevidade de tal maneira enorme como este jogo. Este é o jogo ideal para quem gosta de jogar algo em alternativa ao xadrez ou às damas.

Felizmente o downtime do jogo não é tão longo como a análise possa dar a entender. Muitas vezes uma jogada é decidida rapidamente e são poucos os que ficam a sofrer de analysis paralysis durante uma jogada. Apesar da sua profundidade táctico-estratégica, este jogo até se joga rapidamente, sem percalços nem paragens longas, uma vantagem tremenda devido à complexidade de jogadas possíveis, pois apesar do jogo ser rápido não quer dizer que é simples. Realmente o jogo parece simples à primeira vista, mas as aparências iludem e isso é bem verdade neste jogo. A frase 'Simples de aprender, difícil de dominar' aplica-se perfeitamente ao Ingenious.

Este é um jogo excelente para introduzir novatos. As regras são incrivelmente simples e qualquer novato ficará logo com uma boa ideia de como se joga. Mas as miríades de jogadas possíveis que não afogam o novato em parálise mental tornam o jogo muito apelativo. Este jogo é um dos melhores abstractos para novatos, um jogo que tem um charme inegável, um jogo onde realmente as aparências iludem tanto para veteranos como para novatos.

O visual do jogo chama a atenção de quem passe. A combinação de cores num fundo preto e de diferentes formações do jogo à medida que o jogo se desenrola pode tornar o jogo num centro de atenção. Mesmo assim não é algo comparável a um Starcraft ou Age Of Empires III ou um Stone Age.

Outro aspecto positivo do jogo é a maneira como se adapta muito bem aos diferentes número de jogadores. O jogo joga-se tão bem com 2 como com 4, tem uma propriedade de scaling que é realmente excelente. Adicionando a isto o facto que o jogo se pode jogar como solitaire e temos aqui um jogo excelente para qualquer número de jogadores até 4.

E prontos.

Ingenious é um abstracto. Muitos jogadores não gostam de abstractos, por muitas e variadas razões. Pessoalmente acho que esses jogadores, até mesmo todos os jogadores, devem jogar Ingenious uma vez pelo menos. Este é um jogo especial, um dos melhores do Knizia. Neste jogo ele junta uma simplicidade brilhante com uma profundidade tremenda e combina-as num jogo memorável.

Eu adoro este jogo e nem sou muito fã de abstractos para ser honesto. Para mim este jogo consegue satisfazer tanto a minha estimulação mental como o prazer de jogar. É um jogo divertido, e não há melhor aspecto dum jogo que não seja o divertimento. Nisso este jogo atinge o alvo em cheio.

Pessoalmente acho que este jogo é dos mais indicados para usar em jogadores de xadrez que não conheçam o universo de boardgames. Tem tudo a seu favor e de todos os boardgames que joguei este parece-me o mais indicado para tal tarefa.

Acho o jogo brilhante. Brilhante tanto no que aparenta ser e no que realmente é. Ingenious consegue-nos tornar competitivos mas no bom sentido, consegue trazer o melhor das nossas habilidades estratégicas ao de cima. É um jogo analítico, disso não tenham dúvidas, mas também é divertido, algo que muitos jogos analíticos não o são.

De todos os jogos abstractos que joguei até hoje elejo este como o melhor. A série GIPF também é muito boa mas este dá para 4 jogadores.

Se gostam de abstractos este é um jogo obrigatório. Se não gostam considerem experimentar este, é bem provável que a vossa opinião sobre abstractos mude.

Um excelente jogo, uma recomendação sólida.

17 de 20.

http://www.boardgamegeek.com/boardgame/9674