RA - Análise / Crítica

Retrato de Mallgur
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Chegado à letra R as opções de análise eram, para além de RA, Razzia! que não é mais que uma versão simplificada e em cartas de RA, RoboRally que tenho há relativamente pouco tempo e não joguei vezes suficientes para me sentir à vontade em criticá-lo e Roma que já foi analisado aqui no Abre o Jogo. Adicionalmente, apesar de ser o designer de quem tenho mais jogos, Reiner Knizia não tem sido muito focado nestas minhas análises. Vamos lá ver como se saiu com este...

 

RA

 

Designer: Reiner Knizia
Arte: Allison Kline; Franz Vohwinkel
Edição: Überplay (2005)
página no BGG

 

RA é um jogo de leilões em que os jogadores vão retirando mosaicos de um saco e adicionando-os à oferta a leilão. Existem mosaicos que podem forçar o início de um leilão (ou mesmo eliminar a oferta) para além de os jogadores invocarem RA e assim iniciarem eles próprios esse leilão. O funcionamento dos leilões não é muito comum pois cada jogador pode apenas fazer uma licitação além de ter o número e valor das suas ofertas limitado. Acomoda entre 3 e 5 jogadores durante cerca de uma hora.

 

Componentes

 

Na caixa de RA vem um tabuleiro de boa qualidade mostrando ilustrações alusivas ao antigo Egipto e incluindo tabelas que ilustram a pontuação dada pelos vários mosaicos que os jogadores podem adquirir. Existem duas filas para os mosaicos, uma para a oferta a leilão, outra para os mosaicos de RA que vão saindo. Ao centro um espaço para colocar o marcador de licitação com o valor 1 ao início e depois aquele que venceu o último leilão efectuado. Este tabuleiro não seria verdadeiramente necessário, tal como demonstra a versão em cartas do mesmo jogo (Razzia!) mas é bonito e a tabela de pontuações ajuda nas primeiras partidas e na resolução final de cada época.
Um livro de regras com oito páginas, colorido, ilustrado e impresso em papel de boa qualidade.
Marcadores de pontuação de cartão com numeração semi-hieroglífica que serão dados aos jogadores de acordo com os pontos ganhos em cada época.
Marcadores de licitação (sóis) em madeira com valores de 1 a 16.
Uma figura de Ra para indicar quem deu início ao leilão. O único propósito desta figura é definir quem joga após o término de um leilão, ou seja, o jogador à esquerda daquele seja por ter invocado Ra, seja por ter retirado na sua vez um mosaico de Ra do saco. Não é nada que seja difícil recordar, até porque os leilões percorrem a mesa uma só vez, mas acredito que existam grupos em que por vezes se fique na dúvida.
Um saco para colocar os mosaicos.
180 mosaicos de cartão de boa qualidade, que estão ilustrados de modo a representarem vários aspectos da civilização Egípcia, nomeadamente, 8 Deuses, 25 Faraós e 2 Funerais, 25 mosaicos de Nilo, 12 Inundações e dois de seca, 25 mosaicos de civilização em cinco tipos diferentes e quatro revoltas, 5 de ouro, 40 mosaicos de monumento em oito tipos diferentes e dois terramotos.
A caixa vem compartimentada com paredes de cartão e a divisão feita permite separar convenientemente os componentes em três zonas (pontos, licitações, mosaicos).

Os componentes são realmente de boa qualidade mesmo que, em alguns casos, não fossem absolutamente necessários. Os mosaicos têm aguentado bem o uso e a sua permanência no saco, bem como as muitas baralhadelas que têm sofrido. Esta edição da Überplay está realmente em grande nível neste aspecto.

Pontuação: 5/5

 

Regras

 

Conceptualmente o jogo representará três épocas da civilização Egípcia, os reinos Velho (2665-2155 AC), Médio (2130-1650 AC ) e Novo (1555-1080 AC). Na prática isto define que o jogo tem três momentos de pontuação que ocorrem ou quando já nenhum jogador dispõe de sóis para licitar ou quando a fila de mosaicos RA recebe o último mosaico. Ao fim de três fases de pontuação, o jogador com mais pontos vence.
Para começar o jogo, cada jogador recebe 10 pontos (podem perder-se pontos na pontuação, como veremos) e um conjunto de sóis com valores pré-definidos conforme o número de jogadores. Por exemplo com quatro jogadores os conjuntos são 13-6-2 para o primeiro jogador; 12-7-3 para o segundo; 11-8-4 para o terceiro e 10-9-5 para o último. Os sóis com valores acima de 13 só são usados com cinco jogadores.
É colocado o sol com valor 1 no centro do tabuleiro. Os mosaicos estão todos baralhados no saco.
Os jogadores, na sua vez têm três opções:

  1. Tirar um mosaico do saco. Se não for um mosaico de RA, é colocado na fila de oferta a leilão. Se for de RA, é colocado na fila correspondente e inicia-se um leilão com o jogador à esquerda de quem tirou o mosaico a iniciar. A figura RA fica defronte do jogador que tirou o mosaico.
  2. Jogar um mosaico de Deus. Estes mosaicos permitem ao jogador recolher para si um dos mosaicos disponíveis na fila de oferta. O mosaico de Deus é descartado se for usado desta forma.
  3. Invocar RA. Isto dá início a um leilão, tal como se saísse um mosaico de RA. A diferença é que caso ninguém licite a oferta até ao jogador que invocou RA, este é obrigado a licitar. No caso do mosaico poderia passar. A figura de RA fica defronte deste jogador para que se saiba que aquele à sua esquerda é que continua após o final do leilão.

Ocorrendo um leilão, os jogadores têm uma oportunidade de licitar com os seus sóis, sendo obrigado a licitar acima de licitações anteriores caso queiram ganhar o leilão. O sol que vence o leilão é colocado, com o valor visível no lugar do que estava no centro do tabuleiro e o que aí se encontrava fica, com o valor voltado para baixo, na posse de quem venceu o leilão juntamente com todos os mosaicos na fila de oferta.
Existem mosaicos de catástrofe que caso sejam adquiridos numa oferta obrigam quem os vence a remover do jogo dois mosaicos correspondentes. Isto é feito assim que o leilão é recolhido pelo jogador.

Um jogador que não tenha mais sóis disponíveis para licitar (todos os que tem estão voltados para baixo) está fora de jogo até ao final da época.

Quando a fila de RA fica cheia, não ocorre leilão. Tudo o que estiver na fila de oferta é removido do jogo e passa-se logo à pontuação.

Pontuações no final da época:

Mosaicos de Ouro – 3 pontos. Removem-se do jogo depois de pontuados.
Mosaicos de Deus não usados – 2 pontos cada. Removem-se de jogo no final da época depois de pontuarem.
Mosaicos de Faraó – O jogador que possuir mais destes ganha 5 pontos. O que tiver menos perde 2 pontos. Se todos tiverem o mesmo número destes mosaicos, não são ganhos ou perdidos pontos. Guardam-se após pontuar.
Mosaicos de Nilo e Inundações – 1 pontos por cada um destes mosaicos se se possuir pelo menos uma inindação. Sem estas, nada se pontua. Os mosaicos de Inundação são removidos de jogo. Os de Nilo guardam-se.
Mosaicos de Civilização – Por possuir 3, 4 ou cinco diferentes ganham-se 5, 10 e 15 pontos respectivamente. Se se não tiver nenhum perdem-se 5 pontos. São removidos de jogo após a pontuação.
Mosaicos de Monumentos – Só pontuam na terceira época. Por se ter 1 a 6, 7 ou 8 diferentes ganham-se 1 a 6, 10 e 15 pontos respectivamente. Por possuir 3, 4 ou 5 idênticos ganham-se 5, 10 ou 15 pontos, respectivamente.
Sóis – Pontuam apenas na terceira época. Quem tiver o maior total no valor de sóis ganha 5 pontos. Quem tiver o menor total perde 5 pontos.

No final da terceira época quem tiver mais pontos é o vencedor. O desempate é feito com recurso aos totais nos valores dos sóis.

Assim resumidas as regras parecem complexas mas realmente não é um jogo difícil de jogar. A cada turno a opção é apenas retirar um mosaico do saco ou invocar RA. O mais importante é saber valorizar o conjunto de mosaicos que estão na oferta e controlar o que cada jogador vai possuindo para tentar obter vantagem, especialmente nos casos em que se comparam quantidades de mosaicos para ganhar ou perder pontos.
As regras desta edição são claras, estão bem escritas e organizadas e dispõem de exemplos ilustrados.
Também não é difícil de ensinar mas pode acontecer que novos jogadores tenham dificuldade em avaliar os vários mosaicos e saber quando licitar ou não. Sendo, porém, essa a capacidade que é testada a quem joga, é algo que se vai ganhando conforme se joga.

Pontuação: 5/5

 

Jogabilidade

 

É um jogo relativamente rápido mas interessante. Repete-se com facilidade e por vezes conduz a momentos de tensão enquanto os jogadores vão tentando a sua sorte perto do final de uma época por faltar um ou dois mosaicos de RA. Explica-se facilmente pelo que é fácil por pessoas sem experiência a jogar, mas é um jogo em que a experiência é uma vantagem por isso pode ser algo frustrante nas primeiras partidas.

 

Equilíbrio

 

Já se disse que neste jogo a experiência conta. Isto coloca logo na equação algum factor de desequilíbrio mas não é um factor que se deva ao jogo mas antes a factores externos ao mesmo. Mecânicamente o jogo é equilibrado pois não há vantagem à partida entre jogadores com o mesmo nível de experiência. O factor aleatório presente pode, por vezes, inclinar a balança em favor de um ou outro jogador, é certo, mas parte da perícia em jogar consiste precisamente em saber quando tentar a sorte ou não.

 

Sorte

 

Está presente, como já se viu, mas não é o factor primordial para a vitória. Poderá suceder numa ou noutra partida mas genericamente é um factor relativamente controlável. Ainda assim, existirão momentos em que a infelicidade na extracção dos mosaicos será extremamente irritante.

Pontuação: 3/5

 

Estratégia / Táctica

 

É um jogo eminentemente táctico. A cada novo mosaico retirado do saco os factores e o valor da oferta mudam. É sempre necessário estar a avaliar se este é o momento adequado para invocar RA ou não. Ao longo do jogo, conforme se vão recolhendo certos tipos de mosaicos nas ofertas começamos a pensar em apostar mais em certos factores, mas esta parte mais estratégica não é definida logo ao início. Trata-se de um pensamento a médio prazo que será determinado pelas primeiras jogadas.

 

Conclusão

 

RA é um bom jogo de leilões. Para quem não conhece o género será normalmente uma agradável surpresa. Apesar da aparente secura das mecânicas usadas e de não existir propriamente uma ligação visível entre estas e o tema, não é um jogo desprovido de ambiente. Um grupo de jogadores a desafiar outro a invocar gritando RA! RA! RA! não é de estranhar. O facto de existir uma variante com um tema completamente diferente (Rusgas policiais e a Máfia) em que a única diferença é a inexistência de catástrofes demonstra que o tema é irrelevante neste jogo. Mas isso não faz diferença nenhuma. O jogo é bom na mesma.
Se não possuem nenhum jogo de leilões e o género vos desperta curiosidade, experimentem este.

Pontuação Geral: 13/15