Dr. Julian Troy (Ricardo)

Julian Troy, a entrar nos seus quarentas, é médico pediatra no Elliot Spencer Memorial Hospital vai já para alguns anos. Nova-iorquino por nascimento, foi na Big Apple que cresceu mas, sempre o eterno rebelde inconformado, assim que terminou o liceu partiu para o Reino Unido para mudar de ares e, quase como um objectivo secundário, formar-se. Contra todas as expectativas, deu por si no curso de medicina a fazer algo mais do que ir às festas estudantis, e chegou mesmo ao cúmulo de descobrir em si um carinho especial por crianças, indo aos arames sempre que recebia um caso de negligência ou maus tratos durante o estágio.

Depois de terminar o curso, acabou por ficar na Europa a especializar-se em Pediatria, empregando-se temporariamente numa série de hospitais em vários países, dos quais ia saindo para participar em missões de largos meses dos Médicos Sem Fronteiras nas regiões mais carentes de África.

Ao fim de muitos anos disto, sem nunca ter um poiso fixo por mais do que dois anos seguidos, Julian voltou a Nova Iorque por ocasião do funeral do pai. Ainda pensou em vender o enorme apartamento que herdara mesmo no centro da cidade, mas acabou por se decidiu a assentar arraiais em NYC e procurar trabalho ali. A primeira, que acabou por ser também a única, entrevista de emprego que teve foi no Elliot Spencer Memorial Hospital, menos de 48h depois de ter enviado o seu currículo. É que, vendo que tinha ali um médico habituado a fazer muito com pouco e a receber ninharias, Abraham Herskovitz não perdeu tempo a contratar Julian. O velho judeu agarrou de imediato o médico, antes que o currículo de Julian pudesse ter tempo de fazer as rondas pela burocracia dos hospitais maiores e mais reputados, oferecendo-lhe um salário quase tão mau como as condições do hospital.

Aquilo que o velho não se lembrou, neste caso, é que há dois lados para cada moeda. Se é verdade que contratou em saldos alguém que faz tudo com o pouco que há sem se queixar, também é verdade que contratou um médico que não hesita em pôr os interesses dos doentes à frente dos interesses financeiros do hospital. Julian, com a sua boa disposição e respeito pelo trabalho dos outros, tem confiança com vários funcionários de menor estatuto – pessoal de secretariado, auxiliares, enfermeiros novatos – que a maioria dos outros médicos prefere ignorar sempre que possível. Entre eles, lá consegue normalmente arranjar os exames, medicamentos e internamentos que alguns dos doentes não podem pagar; tudo isto sem deixar um rasto de papelada para o departamento de contabilidade cobrar. Nos inventários anuais há sempre coisas em falta, e a rentabilidade não é de certeza a que dá a Herskovitz sonhos molhados, mas pronto; é algo que aconteceria sempre em maior ou menor grau num negócio feito de tantos imprevistos e caos permanente como este.

Fora do hospital, Julian não tem actualmente grande vida social. Só tem mesmo o seu apartamento, que hoje em dia quase só usa para dormir, passando quase todo o resto do seu tempo no hospital. De facto, o melhor amigo de Julian é mesmo Bill Brown, o porteiro e mão para toda a obra do hospital. Não é raro Julian passar todo o intervalo entre dois turnos no "escritório" do porteiro, na cave. A vista costuma ser agradável – isto se uma pessoa mantiver os olhos fixos no fundo da garrafa de cerveja, das quais Bill parece ter sempre um par, à temperatura certa, no antigo frigorífico médico que recuperou – e a conversa relaxante; na verdade, os dois já quase só precisam de trocar olhares para se fazerem entender. Além disso, Bill segue o basquetebol com tanta atenção como Julian, e nos jogos importantes é lá em baixo que é possível encontrar os dois, sentados no sofá podre em frente a uma televisão que já devia existir quando Julian estava no liceu. Só Deus sabe onde é que Bill fez uma derivação do cabo, mas a verdade é que lá em baixo têm acesso às centenas de canais do serviço de TV por cabo; se a televisão tivesse um controlo remoto e não exigisse sintonização manual com uma chave de fendas, até se podia ver mais do que canal de desporto.

Julian tem também uma relação de amizade com Christine McBride. Os dois conheceram-se há alguns anos, curiosamente, na Europa. Para recolher material para a sua tese, a recém-formada Dr.ª. McBride andava a visitar asilos e sanatórios Europeus do final do século XIX e com quem havia de dar de caras em plena Riviera Francesa, num pacato château convertido em hospital, senão com outro médico americano? Já nessa altura a médica trabalhava demais e se divertia de menos, mas eventualmente o charme de Julian fez o seu trabalho e os dois começaram a sair para uns passeios de bicicleta pelo campo, que nem sempre terminavam apenas em piqueniques. Foram umas semanas bem passadas; depois Christine seguiu viagem. Ambos haviam prometido escrever-se, mas nada; ela demasiado ocupada com o trabalho para se lembrar de uma paixão de Verão por um homem mais velho, ele perdido entre tantos belos corpos na Côte d’Azur para pensar em mais uma mulher que lhe passou pelas mãos. Foi com surpresa que os dois se reencontraram há um ano, quando Christine ingressou como psiquiatra no Elliot Spencer. Obviamente embaraçados por encontrarem um amante do passado distante que nunca mais pensaram ver, os dois agiram com o maior profissionalismo possível e passaram meses antes de se sentirem confortáveis o suficiente para fazer uma menção que fosse àqueles tempos em França.

Se pensasse nisso, Julian provavelmente chegaria à conclusão que não queria deixar as coisas apenas pela amizade. Depois de ter vivido duas décadas de vida despreocupada, sem ligações permanentes a nada nem a ninguém, começa a sentir que lhe falta algo. Mas agora é tarde: Christine está mais focada no trabalho que nunca, com três empregos, e diz-se que tem um caso com Matthew Laurie, director clínico e playboy residente. Se Julian não gosta particularmente de Laurie, também não o odeia, mas uma coisa é certa: nunca deixaria um dos seus pequenos pacientes nas mãos dele.

Desde que Christine lá está, Julian ganhou um interesse pela ala psiquiátrica do hospital. O único residente habitual é Peter Greenberg, que Julian cumprimenta sempre, e com o qual às vezes mete conversa para passar o tempo se Christine não andar por ali. O raio do homem, quando menos mórbido, tem umas conversas completamente absurdas, dignas do humor non-sense em horário nobre do Comedy Channel, mas pronto… Julian tenta manter uma cara séria – Christine detesta que ridicularizem os seus doentes – ao mesmo tempo que vai encorajando o homem a despejar disparates cada vez maiores, até Julian não resistir mais e ter de se ir mijar a rir para outro lado.

Mas nem tudo é tão divertido assim na ala psiquiátrica. Julian, quando tem um turno nocturno, em vez de ficar a dormir no quartinho da sala dos médicos até precisarem de si, sobe até à sala de experiências sobre o sono e fica por lá à conversa com o enfermeiro de serviço ou, se tiver sorte, com a própria Christine. É de lá que conhece Lucy Monaghan; já por várias vezes a teve de reconfortar ou até sedar depois de esta acordar com gritos de gelar o sangue… e pensava Julian que já tinha ouvido todos os sons de terror produzíveis pela garganta humana em África, nos campos de refugiados – que se tornavam autênticos campos de morte, com a eterna falta de mantimentos, medicamentos e condições.

Outro paciente curioso é Fredericks, um sem-abrigo alcoólico, veterano de guerra. Quem poderia esquecer aquela vez em que ele acordou de um coma alcoólico na Unidade de Cuidados Intensivos aos gritos incessantes de “Médico! Médico!” como se estivesse num casting para “O Resgate do Soldado Ryan”? Julian, quando Fredericks lhe aparece em mau estado, costuma conseguir arranjar-lhe uma refeição quente e quarto para a noite.

Mas no melhor pano cai a nódoa, e recentemente Julian ia-la fazendo bonita. Numa consulta de rotina de uma adolescente, suspeitou de abusos sexuais e, frustrado por não conseguir provar nada e por os serviços de acção social não conseguirem arrancar nada da rapariga nem do padrasto apesar de este ser obviamente culpado, atirou-se ao homem ao soco e ao empurrão em pleno hospital apinhado de gente, só o largando quando um segurança e vários enfermeiros o dominaram. Julian foi, é claro, suspenso de imediato por Herskovitz e Laurie, e iniciou-se um processo judicial que se adivinhava ser o final da sua carreira e possivelmente do hospital (havia rumores de que o seguro do hospital só cobria indemnizações por negligência médica, não por actos criminosos deliberados). No entanto, se tudo acabou por se resolver a bem, foi devido a William H. Tucker. O advogado fez o seu trabalho na perfeição e talvez mais do que isso também: um tal de Kowlovski, um sujeito com ar de poucos amigos, apareceu um dia no serviço de Julian, dizendo que vinha da parte de Tucker, a pedir informações supostamente confidenciais da ficha de hospital da rapariga e do padrasto. Alguns dias depois, o caso estava terminado, com Tucker a conseguir um acordo fora da barra dos tribunais que custou ao hospital uma ninharia. É a ele que Julian deve o seu emprego.

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Fetiches...

Tu deves de ter fetiches com a malta do Nip Tuck...

Já n foi da outra vez que joguei kult contigo, que tb fizeste um perso em que a foto era baseada no outro doutor dessa mesma serie?

Como ainda me lembro da maneira especial e querida que torturei a tua perso com os fios electricos arrancados a um candeeiro... One of my finest moments! ;)

Ainda n li a tua perso (dá mt cana fazer isso durante o work). Vejo depois em casa, depois de ver Portugal perder com a França.

cya

aP