Chelsea Hotel number 9

“...Nessa noite chuvosa... Já mencionei que chove sempre em Midway? Todo o cabrão do dia, não pára de chover, seja Primavera, Outono e Inverno. Só no Verão é que não chove, mas o calor chega a ser abrasador, de cortar a respiração. Enfim, chovia a cântaros e eu e o Torello – que a sua alma repouse em paz – estávamos em missão de vigilância junto ao Chelsea Hotel, no bairro dos hippies. Chamam-lhe Chelsea, como em Nova Iorque, mas acho que não há muitas semelhanças entre os dois. Não há propriamente artistas na Chelsea de Midway, só hippies sujos, pequenos traficantes porto-riquenhos, prostitutas, vagabundos infestados de piolhos, gente reles que não quer trabalhar e que se junta naquela área de residências decadentes. A chuva caía em abundância sobre o pára-brisas e estava tanto frio lá fora que só nos atrevemos a entreabrir uma das janelas do carro. Isto embora Torello fosse um fumador inveterado, capaz de queimar três maços de Marlboro numa destas noites chatas de trabalho. Entre a chuva no pára-brisas e o fumo dos cigarros – que acabaram por não o matar, embora todos pensassem que sim, pobre Torello - , não se via ponta de corno, só os contornos da fachada e pouco mais. E a luz acesa no número 9, o quarto de hotel onde, supostamente, um sobrinho do Mayor fazia o seu negócio de tráfico de heroína. Se calhar devia ter começado por aqui? Se calhar devia... Era um caso de alto risco, não podíamos... Não devíamos... Não era suposto ele ser culpado. Enfim, não era um trabalho de vigilância a sério, o objectivo era provar a inocência do rapaz, para se poder encerrar o caso de vez, sem que os tipos dos Assuntos Internos viessem levantar poeira. Foi então que vimos a tipa. De vestido vermelho, saltos altos, um corpo que levaria um homem a matar por ela num piscar de olhos. Foi basicamente por isso que a conseguimos ver, eu e o velho Torello, paz à sua alma, que não deixava escapar quando um belo corpo como aqueles lhe passava à frente dos olhos. A mulher andava como se a chuva não a incomodasse e, para nosso espanto, entrou pela porta daquela espelunca, o Chelsea Hotel. Isto despertou-nos a atenção. Torello apagou o cigarro, eu abri o resto da janela, mesmo com a chuva fria a salpicar-me. Senti-me mais alerta e desperto, sobretudo quando vimos dois vultos aproximarem-se da janela do número 9. Torello tinha os binóculos e confirmou as suspeitas: era o rapaz e a mulher de vermelho. Beijaram-se. Abraçaram-se durante uns segundos. Depois, Torello tossiu e engasgou-se. Quando recuperou deu-me uma cotovelada e saiu do carro cambaleante, fazendo-me sinal para o seguir. Em voz baixa murmurou, ao entrarmos pela porta, “acho que ela o matou, o gajo caiu ao chão, parecia um boneco...”. Que merda de noite, cinco horas sob chuva intensa apertados no carro para provar a inocência do sobrinho do Mayor e agora ainda corríamos o risco de o fechar num saco de cadáver... E foi o que acabou por acontecer. No quarto não estava ninguém, excepto o cadáver pálido do rapaz – cujo nome vou omitir. Na escada não nos cruzámos com a mulher de vermelho. Eu subi o resto da escadaria, enquanto Torello vasculhava os quartos do mesmo piso. Nada. Nada no edifício inteiro, a puta escapou debaixo do nosso nariz. Torello benzeu-se e resmungou qualquer coisa em italiano. Antes que mais alguém chegasse encarregámo-nos de despejar a droga – sim, o rapaz realmente traficava – pela sanita do quarto. Quando o relatório da Medicina Legal chegou o resultado era o que se temia, não havia vestígios de homicídio. O rapaz morreu de enfarte. Torello benzeu-se outra vez quando leu o papel. Valeram-lhe de pouco as crendices quando foi baleado à queima-roupa à porta do Luigiano’s por três homens não identificados...”

Testemunho em formato áudio de “J”, ex-detective de Midway, publicado no blogue The Long GoodbyeChelsea HotelChelsea Hotel