Last Night On Earth

Retrato de MGBM

Apesar de ter já uns bons 10 anitos de andanças no mundo dos boardgames eu nunca tive uma oportunidade de adquirir um jogo tipo-Americano, o que para mim era uma vergonha autentica pois eu sempre gostei de todo o género de boardgames. O facto de eu referir a eles como Amerigames ou jogos tipo-Americano denota o facto que sou do tempo em que o termo Ameritrash nem sequer fazia parte do vocabulário dos boardgamers, um termo que pessoalmente nunca adoptei. Foi então com prazer que soube que iria ter o Last Night On Earth, um jogo que tem feito as delicias de muitos jogadores pelo mundo fora. Um Amerigame até à sua alma, este jogo prometia bastante e foi com expectativa que o joguei.

Mas adiante, passemos à análise.

Last Night On Earth é um boardgame que tem como tema a luta de uns poucos sobreviventes numa cidade remota contra os mortos-vivos que se levantaram e estão com bastante fome de carne humana. É um jogo de zombies, prontos. Um ou dois jogadores controlam os zombies e os restantes controlam os heróis. Os objectivos do jogo serão dependentes da missão que for escolhida pelo grupo de jogo.

Em termos de apresentação este jogo é um mimo. Figuras de plástico, representados vários zombies e os heróis, vários tokens, um tabuleiro modular constituído por uma peça central e várias peças que formam a cidade e cartas bem lustrosas com várias fotografias que retratam o que a carta faz. Em suma, nada mau mesmo. As regras são fáceis de ler e compreender e num instante estão a jogar ao jogo. Enfim, nada de mau a apontar, até o insert que o jogo traz é mais que adequado para as peças que o jogo contém. Alguns jogadores têm tido dificuldades com as regras mas eu aprendi que a melhor maneira de lidar com as regras neste jogo é levá-las literalmente à letra. O que uma carta diz é para ser entendido de maneira literal. Em termos de apresentação nada a salientar pela negativa, é um jogo com uma excelente apresentação ou não fosse um Amerigame. Muito bom mesmo.

Tema. Este jogo literalmente pinga tema dos poros do cartão da caixa. É, sem dúvida nenhuma, dos jogos em que o tema está melhor encaixado que possuo, é um jogo tremendo em relação ao tema. O tema interage muito bem com as mecânicas de jogo e, como tal, proporciona uma experiência de jogo interessante na medida em que as mecânicas fazem lógica face ao tema do jogo. O encaixe tema-mecânicas está muito bem estudado e é de louvar ver um boardgame em que o tema e as mecânicas coexistem pacificamente e numa simbiose tremenda. Isto funciona principalmente num grupo que esteja virado a fazer duma sessão algo mais cinemático e nisso este jogo supera muitos da minha colecção. Eu diria, de facto, que de todos os jogos que tratam de zombies este é, sem dúvida, o que tem a melhor adaptação a esse tema. Se são pessoas que gostam de jogos de zombies e gostam deles com um tema bem forte então este jogo é ideal para vocês. Mas mais importante ainda, se gostam de jogos em que o tema interage de maneira fluída com as mecânicas de jogo, então este jogo é perfeito.

A sorte neste jogo é elevada. Muito elevada. Mas antes que pensem que tal irá tornar o jogo arbitrário ou mesmo mau a sorte neste jogo acaba por ser um aspecto que contribui para o todo e para a diversão que se obtém deste jogo. Realmente estamos dependentes dos dados e um mau lançamento irá pôr um entrave nos nossos planos, mas no fim a sorte acaba por contribuir como sendo mais positivo que negativo. A sorte aqui contribui para que o jogo nos surpreenda constantemente com voltas e reviravoltas, e num jogo como este é essencial que os jogadores estejam sempre em expectativa para a próxima jogada. Nada é certo neste jogo e isso é parte do charme, neste jogo joga-se já sabendo de antemão que a sorte irá ter um grande peso, mas que nem por isso faz o jogo pior do que é. É essencial mentalizarmos que o importante aqui é o processo e não o resultado, o jogar e não a vitória ou derrota. Como tal acabo por achar que a sorte neste jogo contribui positivamente para a soma das partes e que se deve encarar este jogo pelo que é.

Quanto aos aspectos de estratégia e táctica estamos perante um jogo onde o aspecto táctico impera. Devido ao elevado grau de sorte planos de longo prazo acabam muitas vezes por sair furados. No entanto há um aspecto que eleva o grau de estratégia do jogo e que é o facto de este jogo ser de cooperação. Embora exista um jogador que faça de zombies, os heróis são obrigados a jogar em cooperação pois caso contrário o jogo estará perdido. Planos entre os jogadores para a jogada presente costumam dar bons resultados se o grupo se entender e isso dá uma nova faceta ao aspecto táctico deste jogo mas ao mesmo tempo solidifica a necessidade de trabalhar em equipa e de planear um pouco para as próximas jogadas, fazer um plano assim por dizer. Mas no fim este jogo é maioritariamente táctico e isso poderá ser um ponto negativo para quem goste de estratégia. Embora os jogadores possam fazer planos, no fim todos os heróis ganham se atingirem os objectivos, logo o trabalho em equipa é inteiramente encorajado. Mas no fim de contas este jogo vive pelo momento presente e não pelas jogadas futuras. Há demasiada incerteza no jogo para se planear devidamente.

A interacção neste jogo é elevada. Como disse, os jogadores terão que jogar como uma equipa e isso implica uma interacção directa entre os jogadores que fazem de heróis. Sendo um jogo de cooperação é natural que a interactividade seja elevada mas neste jogo tal interactividade é ainda mais elevada que num jogo normal de cooperação. Os jogadores são encorajados a planearem abertamente entre si a jogada e isso gera uma boa intrarelação entre os jogadores. De facto eu diria que este jogo é, para quem joga como herói, um dos jogos mais interactivos que possuo e o mais importante é que os jogadores acabam por gostarem desta interacção. Dá-lhes um propósito tacteável e isso é algo bom para os jogadores pois eles sentem-se como parte activa do jogo num todo.

Quanto ao peso, na minha opinião acho que o jogo é um Middleweight. As decisões causadas por este jogo são cruciais, mesmo que não sejam muito numerosas na escolha de acções a executar. O jogo não se sente pesado embora definitivamente não se o sinta leve também. É um jogo que nos oferece decisões fundamentais que terão impacto em todos os jogadores mas que não são decisões que decidam todo o jogo duma só vez.

Quanto a ser Gamer's Game ou Filler, está muito mais pendente como Gamer's Game mas no fim não é nem um nem outro. É um jogo que fica mesmo no meio, um jogo que não nos faz queimar a cabeça mas também que não se pode jogar em dez minutos casualmente.

A longevidade deste jogo é assegurada tanto pelo tabuleiro modular como pelos vários cenários diferentes que se poderão jogar, cada um sendo diferente em termos de jogo do outro. É um jogo que acaba por ser bastante modificável e em que podemos nós próprios criar os nossos cenários quando os que são fornecidos começarem a aborrecer. Embora não veja este jogo ser aborrecido a longo prazo há que ter o cuidado de não nos saturarmos muito com o jogo. Apesar de tudo acho que este jogo irá saturar depressa se o jogarmos frequentemente num curto período de tempo. Apesar disso acho que este jogo tem uma longevidade excelente e torna-se um jogo que é convidativo jogar, em doses moderadas claro.

O dinamismo deste jogo é interessante, pois sendo um jogo de cooperação o dinamismo imposto ao jogo irá depender em muito dos jogadores. Com o grupo certo este jogo será algo incrível de se ver. O jogo acaba por criar um ambiente de dinamismo excelente entre os jogadores, e mesmo entre os heróis e os zombies, e tal é sempre benéfico para os jogadores. O dinamismo neste jogo é um excelente exemplo de como aplicar mecânicas dinâmicas a um jogo de cooperação.

Como jogo de introdução a novatos não é mau. Embora existam alternativas muito melhores e mais adequadas para introduzir novatos, este jogo acaba por ser bom para introduzir novatos a boardgames devido ao seu forte tema e à maneira acessível com que se pode aproximar do jogo e jogá-lo. É também um excelente jogo de introdução a Amerigames a jogadores que nunca tenham experimentado um Amerigame embora, claro está, hajam melhores alternativas.

Em relação a analysis paralysis suponho que este jogo possa ter tal problema mas acaba por ser disfarçado pelo aspecto cooperativo do jogo, pois os jogadores estarão a discutir entre si a próxima jogada e isso ajuda os indecisos a decidirem-se, sem falar que desta forma todos os jogadores dos heróis irão sentir-se parte do jogo em qualquer momento. Só o jogador dos zombies é que poderá sentir o efeito de analysis paralysis embora tal efeito não venha de um individuo mas do grupo todo em si, pois se o grupo demorar muito tempo a decidir quem faz o quê o jogador de zombie não terá nada para fazer a não ser jogar cartas de zombies.

Como tal, o downtime deste jogo varia conforme quem jogue o quê. Se se for um herói o downtime será mínimo pois as jogadas dos zombies costumam ser rápidas. No entanto se se for o jogador zombie e estiver perante um grupo indeciso então o downtime para esse jogador será enorme. Mas há que salientar que quem escolhe jogar os zombies já deve esperar que tal aconteça. Logo o downtime irá variar conforme o grupo onde jogarmos.

O visual do jogo é muito bom. As miniaturas aliadas ao tabuleiro e cartas proporcionam um bom visual que irá capturar o interesse de qualquer pessoa que passe pela mesa. É um bom jogo para tentarmos jogar num sítio publico de maneira a cativarmos pessoas que passem por nós.

Um jogo demora em volta de uma hora, embora tal como disse irá depender do grupo, se são muito faladores entre si ou não.

As mecânicas do jogo são básicas. Rolar dado, mexer personagem ou sacar uma carta, lutar. Todo o processo é simples e sem complexidades desnecessárias. As mecânicas neste jogo acabam por ser um dos seus pontos fortes pois são simples e fáceis de entender e visualizar. Isso torna o jogo fluído e acessível, pois qualquer pessoa poderá jogar este jogo em pouco tempo. As mecânicas não dificultam a vida do jogador e acabam por contribuir em grande parte para uma maior solidez do tema. São variações de mecânicas simples que contém alguns pormenores muito interessantes, como o facto de se ter que rolar dois valores iguais numa luta com um zombie para o poder matá-lo. Acaba por não ser genial em termos de mecânicas mas antes simples e fácil, embora tenham que ser interpretadas de maneira literal. Não é nada de revolucionário, é simplesmente um jogo que usa bem mecânicas base já usadas noutros jogos e adiciona-lhes um toque individual a cada uma delas.

E prontos.

Last Night On Earth é um Amerigame. Não esperem algo tipo Tigris&Euphrat ou El Grande que não o irão encontrar aqui. Em vez disso é um jogo que é maior que a soma das partes, um jogo onde o importante não é ganhar ou perder mas sim o processo de jogar.

A palavra mais indicada para descrever este jogo é divertido. Não puxa muito pela cabeça e não nos faz pensar nas próximas jogadas, invés proporciona-nos uma excelente sessão de jogo onde o divertimento impera. De facto o jogo parece ter sido criado somente com o propósito de proporcionar diversão a todos não importando quem ganha e perca. Aqui o importante é divertirmo-nos, ganhar ou perder é secundário.

Eu gostei muito do jogo. Joga-se bem, é fluido e passo um bom momento a jogá-lo. Claro que não é perfeito, longe disso. A sorte irá chatear aqueles que preferem menos sorte aos jogos e o tema não será do agrado de todos. Dito isto, o meu grupo gostou do jogo, não ficaram entusiasmados mas gostaram do jogo, e no fim de uma das sessões uma das jogadoras comentou que o jogo parece tal e qual um filme de zombies.

Este jogo conta uma história. Os jogadores ao jogarem visualizam a história da luta dos heróis contra multidões de zombies que não acabam. Poderá dar-se o caso de um jogador ficar apegado à sua personagem o que mostra o poder de contar uma história do jogo.

Acho que a vantagem neste jogo está do lado do jogador de zombies. Os heróis têm tudo contra si e é literalmente como que escalar uma montanha para os heróis, mas é isso que torna o jogo bom, torna-se desafiante e não aborrece por ser fácil demais. Mas talvez seja um pouco difícil demais para os heróis.

Para mim este jogo é o melhor jogo com tema de zombies no mercado actualmente. Este jogo executa o seu tema de maneira primorosa e os amantes de zombies irão se deliciar com este jogo.

Gostei do jogo, achei-o bom e é um bom pretexto para uma tarde ou noite bem passada. Como tal acho que este jogo é obrigatório para os amantes de zombies e jogos de cooperação e é recomendado para todos os outros jogadores como alternativa aos Eurogames. É uma boa compra e duvido que muita gente se arrependa, desde que saibam no que se vão meter.

15 de 20.

http://www.boardgamegeek.com/game/29368

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É incrivel como normalmente

É incrivel como normalmente os jogadores que jogam pelos heróis não se apercebem por mais que se lhes explique que têm de trabalhar em conjunto. Quando se joga a dois este jogo torna-se um busilis de um quebra-cabeças para o jogador com os heróis pois tem de planear de antemão 3 ou 4 jogadas para a frente, coisa que quando são mais jogadores tb o deveriam fazer e que um bom jogador Zombiemaster irá usar e abusar para destroçar os heróis. Não à nada nas regras que impeçam os jogadores de dar dicas uns aos outros, de se decidirem a planear as jogadas de antemão. O conhecer das cartas existentes, o que só se torna possivel depois (como em qualquer jogo que use cartas) ao fim de várias jogatanas, faz com que o jogo se torne extremamente competitivo, e tb ao mesmo tempo o que faz com que os jogadores não habituados a este estilo de jogos não o apreciem pela sua excelente capacidade de narração de história cada vez que se joga.

Manuel Pombeiro
a.k.a.Firepigeon
LUDO ERGO SUM

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Negating the unforeseeable is utterly unrealistic, and scrambling to deal with problems is indeed a game skill.