Felix: The Cat In The Sack

Retrato de MGBM

Felix: The Cat In The Sack é um filler como nenhum outro. Este jogo usa mecânicas familiares e combina-as criando um jogo estranho mas original. Felix consegue ser um jogo que quebra a monotonia de estarmos sempre a ver os mesmos jogos serem reciclados.

Em Felix, um jogo criado pelo mesmo designer de Power Grid, Friedemann Friese, nós temos uma mão fixa de 9 cartas. Depois, por ordem, escolhemos uma dessas cartas, que podem ser vários gatos com pontos positivos ou negativos, cães ou um coelho, e pomos a carta de virada para baixo ao mesmo tempo que os outros jogadores, por ordem de turno. Depois disto dá-se inicio a um leilão com a primeira carta a ser virada. Os jogadores irão comprar todas as cartas que foram postas. Ou fazem uma licitação ou abandonam. Se abandonarem recebem dinheiro, dinheiro esse que existe em quantidade limitada no jogo. Se continuarem então por cada pessoa que abandona o leilão mais uma carta é virada. No fim quando todas as cartas forem viradas e só um jogador sobrar em jogo, esse jogador leva as cartas todas, boas ou más. No fim de 9 rondas conta-se os pontos todos e quem tiver mais ganha.

Vamos à análise.

Em termos de apresentação o jogo é mediano. A caixa é pequena, as regras são relativamente curtas e simples de entender e a arte nas enormes cartas é funcional com um bocadinho de humor à mistura. As cartas em si são feitas de material durável, embora pudessem ser de melhor qualidade. O dinheiro são simples fichas de plástico coloridas verdes ou pretas. Não há insert neste jogo visto a caixa ser pequena demais para tal. Não é nada de excepcional mas faz o trabalho de visualizar o jogo fácil.

A sorte neste jogo não existe, pelo menos sorte mecânica. Neste jogo o factor humano é o motor principal que impulsiona o jogo. Primeiro porque não sabemos o que os outros jogadores puseram para leiloar, só sabemos a nossa carta, e depois porque este jogo toma uma dimensão maior quando os jogadores usam bluff a torto e a direito para enganarem os outros jogadores. Um jogador poderá, por exemplo, fazer uma licitação alta com o intuito de dar a entender que a sua carta é boa quando não é, ou ao contrário, fazer uma licitação baixo com o objectivo de tentar desvalorizar a mão inteira em jogo. Muito honestamente nunca joguei a um filler que contivesse tanto bluff como neste. O bluff neste jogo é a alma do jogo, é a razão pelo qual se joga e se obtêm o divertimento. É o bluff que torna um jogo que poderia ser mais um filler em algo verdadeiramente espectacular e único.

E isso vê-se quando analisamos o elemento de táctica e estratégia no jogo. Tal como num jogo de leilão uma pessoa tem que examinar o que já se obteu com o que está de momento em jogo para ser leiloado. Mas o factor de incerteza, em não sabermos o que a próxima carta pode revelar, aliada com o facto do dinheiro ser escasso e precisarmos deles torna o jogo tenso, mas tenso no bom sentido. Devido à incerteza é quase impossível fazer planos de longo prazo excepto planos em traços gerais do género, preciso de mais pontos. É na faceta táctica que este jogo brilha, em que cada mão é disputada ao máximo ao mesmo tempo que tentamos enganar os outros jogadores e adivinhar que cartas jogaram eles. Neste sentido Felix torna-se um pouco como o Poker, não na mecânica mas no aspecto interactivo e psicológico, temos que analisar os jogadores tão bem quanto ao jogo se queremos ganhá-lo. Este jogo é puramente táctico mas não perde nada por isso, pelo contrário, é um exemplo de como tornar um jogo táctico em algo interessante, único e incrivelmente divertido.

E é na interacção que reside o verdadeiro prazer de jogar ao jogo. A interacção em termos de mecânicas é a mesma de um jogo de leilão, fazer licitações mais altas que os outros jogadores e assim por adiante. Mas é a interacção indirecta, a que não se faz através do jogo, que torna o que poderia ser um jogo mediano em algo grandioso. Tal como os jogadores de poker se analisam um ao outro à procura de sinais que possam dizer o jogo que têm na mão, o mesmo se passa aqui. Um jogador têm que saber ler os adversários para perceber que cartas estão em jogo e se vale a pena continuar ou desistir. É esta interacção indirecta e psicológica que transforma o jogo todo e o torna em algo maior que as partes do jogo em si. É o metajogo deste jogo que torna o jogo interessante, e isso não se costuma ver muito em jogos grandes quanto mais em fillers. Se gostam de metajogo então este jogo é perfeito para o vosso grupo.

Este pequeno filler parece ser Lightweight em peso mas eu sinceramente penso que seja um Very Heavy Lightweight. Apesar de se poder jogar em 20 a 25 minutos o jogo é muito mais pesado que um Diamant ou um For Sale devido ao metajogo. As decisões que um jogador tem que tomar durante o jogo são cruciais e um jogador tem mesmo que saber quando desistir. De facto, na minha opinião, acho que este filler é dos fillers mais pesados que alguma vez joguei. Torna-se num jogo que não é tão leve quanto se dá a entender.

Como tal este jogo tem uma longevidade tremenda pois está mais dependente do metajogo do que das mecânicas em si. Mesmo as mecânicas em si dão um novo alento às mecânicas mais que usadas dos jogos de leilão. Como tal este jogo torna-se num filler que não enjoa, num jogo que apesar de pequeno se comporta como um jogo grande em matéria de divertimento e de queimar o cérebro. Se gostam do aspecto de bluffing do poker então este jogo terá uma longevidade ainda maior. Para um filler, o Felix não é jogo de enjoar rapidamente com muitas sessões do jogo realizadas, o que para mim é um feito tremendo em relação a um jogo filler.

Apesar do que disse o problema de downtime neste jogo não é tão vasto quanto possa parecer. É maior do que num filler normal, sem dúvida, mas o jogo processa-se a um bom ritmo, sem grandes pausas. Mesmo assim se houver um jogador que goste de analisar os sinais de outros jogadores para descobrir o que eles jogaram então poderão se deparar com um problema tanto de downtime como de analysis paralysis, embora a AP seja antes ao metajogo do que ao jogo em si, o que é curioso.

O tempo de jogo acaba sempre por ser menos que meia hora se se manter um bom ritmo, mas se tiverem jogadores veteranos de poker no vosso grupo preparem-se para o jogo demorar mais tempo. Obviamente o grupo irá se divertir à mesma pois é um jogo que parece ser feito de propósito para esses jogadores de poker.

Este jogo poderá ser bom para introduzir a novatos se o novato for um jogador de poker. Poderá ser bom também para novatos que não são jogadores de poker mas não é um jogo fácil de entender para quem não lida com boardgames. Não o considero dos melhores fillers para introduzir a novatos sinceramente.

O número ideal de jogadores para este jogo será 5, embora com 4 também se jogue muito bem. Tenho dúvidas quanto a 3, acho que muita da tensão do jogo é retirada se só 3 jogadores estiverem a jogar.

O visual do jogo é engraçado, as cartas são apelativas com vários gatos mas no fim não é jogo que chame muito a atenção das pessoas.

E prontos.

Felix é um filler único e divertido mas não é para todos. Os que não gostam de bluff ou do metajogo não vão gostar deste jogo quase de certeza. Agora se acham um jogo de leilão com bastante bluff à mistura apelativo então este jogo é ideal para vocês. É um jogo que quando se gosta, gosta-se mesmo e quando o grupo é certo então o divertimento produzido pelo jogo ultrapassa e muito o divertimento da maioria dos jogos que existem, mesmo os de grande caixa.

Pessoalmente gosto bastante do jogo, é uma lufada de ar fresco no meio dos meus fillers, algo diferente que jogo quando quero quebrar as normas e jogar a algo intenso e que provoca gargalhadas à volta da mesa.

O jogo está bem construído e é engraçado mas como disse não é para todos. Acho que está muito subvalorizado e que merece melhor pois é um jogo único entre o universo de fillers.

Pessoalmente acho que toda a gente o devia jogar pelo menos uma vez. Uma excelente adição a qualquer colecção e um prazer a jogar, Felix torna-se numa das surpresas do ano para mim. A única razão porque este jogo não é o meu filler favorito é porque o vejo mais como um jogo normal do que um filler.

Um excelente pequeno jogo.

15 de 20.

http://www.boardgamegeek.com/boardgame/32125

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Excelente trabalho

O único que conheço nesta tua "chuveirada" de reviews...

Continua o brilhante trabalho, João.