Kemet ou A arte de dar na boca

Bom dia,

Espero que se sintam bem neste arranque da semana do depois da lua cheia (dopamina, acho eu, tenho que ir ver, mas sim, é, dopamina, agora que escrevo isto me lembro ou me convenço. Quanto mais escrevo este parentesis que, ó caraças, já vai em duas frases cheias de apartes se calhar o melhor é terminar.)

Desta vez celebrei a Lua Cheia no Baixo Egito. No Baixo Egito, como sabem, a lua cheia é celebrada comprando escorpiões e dando na boca dos amigos. 

Dar na boca é das mais antigas formas de arte, precedendo certamente a pintura rupestre e a contagem de estórias. Dar na boca, quando bem feito, é uma das mais belas artes, que, devido às maquinações de uma das conspirações judaico-maçónicas que dirige a nossa cultura, tem sido incompreendida e marginalizada, para grande lamento dos entusiastas e perda generalizada da fibra guerreira da nossa raça.

No Egito Antigo, a terra/altura de que vem tudo o que é bom, como é sabido dessas elites que passam leis retrógadas que limitam o uso de escorpiões gigantes para fins bélicos a 2 a 3 horas por semana e nos obrigam a renovar a carta de escorpiador de 15 em 15 dias, no antigo Egito dizia, dar na boca era uma arte não só aceite como celebrada. Um grande dador na boca recebia títulos sonantes como "Fogo dos céus," "Filho de Amun-duul, senhor das sombras ou "Faraó Tao-mao-tep, o vira-tripas." Contraste-se isto com o plebeu título de "Meretíssimo Juiz" com que se sói premiar os dadores na boca dos nossos dias, e logo nos aperceberemos da dimensão da degeneração que nos aflige.

Mas falava do antigo Egito. Ora, no baixo egipto, que é o que está mais acima, porque nós pomos o norte ao contrário, um guerreiro monge passava os dias a rezar, levantar pirâmides e teleportando as suas unidades para cima das unidades dos outros guerreiros-monge, lançando assim morte e destruição. Enfim, sabia-se passar o tempo. Vivia-se. Dir-me-ão que o teleporte na altura custava um conto e quinhentos. É verdade que o custo do teleporte tem vindo aumentar. Alguns de vocês saberão que eu represento uma das principais marcas de teleporte do mercado. Garanto-vos que as recentes subidas do custo do teleporte são uma simples reflexão de forças de mercado que não estão sob o nosso controlo. Sobre as filas nas pirâmides e a concentração de teleportuntes à volta dos obeliscos, isso, meus amigos, é da responsabilidade do nosso governo, que, ano após ano insiste me não construir a infraestrutura piramideiro-obeliscal que merecemos.

Mais coisas? Epá, muralhas, fazer uma acção de cada uma das filas, ficar com templos. Mas principalmente e acima de tudo dar na boca. À antiga. À Egípcia que, como sabem, é logo no primeiro turno.

E os deuses, intervêm? Haverá deuses para além da componente mercantil? Há. Quer dizer, acho eu. Deus é uma palavra que os seres humanos inventaram para nomear a origem das cartas mais pequeninas que se escondem por baixo das cartas grandes que fazem a batalha. Eu sei, estou a ser controverso. Não quero de maneira nenhuma ofender a fé de ninguém. Parece-me, contudo, que nenhuma religião conseguiu estabelecer para além de qualquer dúvida razoável a origem das cartas pequeninas que aparecem por baixo das outras cartas maiores que fazem a batalha e que os que dizem saber de onde vêm as cartas pequeninas que aparecem por baixo das cartas maiores que fazem a batalha passam o tempo não a explicar de onde vêm as cartas pequeninas que aparecem por baixo das cartas maiores que fazem a batalha e porque é que daí vêm, mas a convencer-nos a baixar o nosso nível de exigência das explicações sobre as origens das cartas em geral quando são eles que estão a falar. Adianto que igualmente me irritam as pessoas que dizem saber sem dúvida nenhuma que não há cartas pequeninas que aparecem por baixo das cartas maiores que fazem a batalha e que, se eu vi cartas pequeninas a aparecerem por baixo das cartas maiores que fazem a batalha com estes dois que a terra há de comer se eu não conseguir fugir antes então ou fui engando, ou sou mentiroso, ou sofro de um problema de saúde mental.

E é isto mais ou menos o Kemet. Beijinhos,

Bruno

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Devaneios

A isto é o que eu chamo de grandes devaneios! zombiezombiezombie Venham mais confused

Kemet

Também eu andei por esse baixo e alto egipto, acompanhado pela serpente Meretseguer (ou seria Apep?), levei mais na mucosa labial do que dei,

como Sacerdote do período tardio do Antigo Egipto, adorador de Hórus, devidamente certificado num diploma em caracteres hieroglifícos, emitido pela emérita entidade historiológica de Hermópolis, quero apoiar esta reza iluminada para a promoção desta prática milenar tão esquecida e desprezada.

Nessa jornada inesquecível pelos desertos de Kemet, cheguei também a ter o apoio da múmia do magnífico Kauket, que todas as noites me dava mais uma carta pequenina (sim, elas existem!). mas acabei por vergar a cerviz e pôr a mucosa labial na terra, para a glória de um douto clérigo que se pavoneava nessas planícies num escorpião gigante.

Dizem as más línguas que numa batalha de grande vergonha para a classe sacerdotícia, este clérigo dissimulou a sua verdadeira força, dizendo que tinha oito de força, quando ontologicamente e na sua verdadeira essência tinha escandalosos nove! Já não se pode confiar num tipo de robe místico e que anda no deserto kemetiano a dar na boca, a torto e a direito, a tudo e todos, e ainda por cima montado num escorpião gigante que finge ser fraquinho... que tempos loucos e incréus são estes! Teremos de voltar a lutar nesses campos tórridos para edificar as nossas maleitas espirituais e renovar o sopro das nossas almas.

PedroV

Passagem pelo Egipto

Eu não sei que mirras estranhas andaram os meus amigos a inalar! Eu também andei pelas terras desse Egipto e não vi nada das alucinações de que falam. Só sei que em menos tempo do que leva o vento a pentear as dunas o meu pequeno elefante fartou-se de levar (no nariz). Nem a devoção das rezas nem a altura das pirâmides me valeram! É o que dá tirar umas férias da árdua tarefa de salvar o mundo do ataque de vírus recalcitrantes. E enquanto por lá vagueámos o mundo piorou. Agora será ainda mais dura a batalha para dominar as doenças que alastraram. Não se furtem pois, meus amigos, à responsabilidade que sobre nós impende: a próxima missão é fulcral e inadiável! Invoquem, se vos aprouver, os favores de Hórus ou Anubis, pois não serão poucas as provações que nos esperam!

Em eras mais antigas...

Algumas dinastias passaram desde o tempo em que Rá estendia todo o seu esplendor sobre as margens do Nilo, pois pouco passava do solstício de Verão quando este vosso escriba lutou pelos favores dos deuses em batalhas semelhantes às acima relatadas por ímpios infiéis.
 
Já o deserto reduziu a pó e areia o que restou dessa contenda, com exceção dos meus valorosos e prestáveis guerreiros que entravam no Livro dos Mortos à conta de sacrificarem num templo maldito cercado por água e de onde não podiam sair, na ilusão de ganharem uns efémeros pontos de vitória temporários que de nada me serviram. Que Osíris os tenha em boa conta mas se vá catar!
 
Quanto ao mais, assistiu-se à exibição de outras criaturas demoníacas, tais como múmias, serpentes, e também os antepassados do elefante e do escorpião já mencionados, contra os quais o meu escaravelho inapto me lembro pouco fez, principalmente porque uma tal “vidente” (“Prescience”) se dispôs a vencer batalhas da forma mais económica e vilipendiosa possível…
 
Tudo isto seria no entanto normal e faria parte dos acontecimentos ocorridos durante os 20 séculos contemplados pelo planalto de Gizé, não se desse o caso de, para maior desgraça de Aton, terem sido derrubadas as muralhas do reino e tomadas as respetivas pirâmides, perdendo-se assim para sempre o conhecimento do poder esotérico do teletransporte, sem que tenha sido possível resgatar das areias e do sol implacável do Saara, os últimos guerreiros que, longe de qualquer obelisco, tinham travado o combate que, em última análise, acabou por dar a vitória não ao seu oponente, mas sim ao gameowner todo poderoso no baixo Egipto - Pedro V.
 
Porém, não nas pirâmides mas sim nas mastabas do Vale dos Reis, os sarcófagos onde repousam em glória aqueles que um dia me honraram, esperam com crescente ansiedade o dia em que novamente serão chamados a cumprir o seu desígnio!