Prólogo - Alexis

Retrato de Eowyn

Tsss. Tssssssssssss. Tsstsssssss.

Por trás dos óculos protectores, os olhos esverdeados penetrantes examinam o trabalho com atenção. No campo de visão limitado pelos óculos aparecem as mãos morenas do sol, capazes, aqui e ali manchadas de azul, empunhando a pistola de tinta. O braço nu também se encontra bronzeado e pintalgado ora de azul ora de amarelo.

A mulher debruça-se para examinar um pormenor da pintura na borda da prancha e cantarola a música que vai tocando na rádio.

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Com um retoque final à pintura, Alexis afastou-se da prancha de surf e poisou a pistola de tinta na bancada de trabalho. Retirou a máscara e os óculos de protecção, que poisou também na bancada. Esfregou as palmas das mãos nas coxas das jardineiras de ganga que tinha vestido por cima do bikini e observou a sua obra criticamente.

Modéstia à parte, até nem estava nada mal. O que interessava era que a cliente gostasse da borboleta à proa e das flores à anos sessenta no deck. Pelo menos era isso que lhe tinham pedido. Satisfeita com o trabalho, Alexis dirigiu-se à porta e saiu do seu atelier para o sol do meio-dia.

Fechou a porta atrás de si para que não entrasse areia que pudesse poisar na tinta fresca, enterrou os pés nus na areia quente e esticou bem os braços para cima, espreguiçando-se.

Não faltaria muito para a hora de almoço, a julgar pela altura do sol e pelo movimento na praia. Nas ondas doces da maré enchente Rick dava uma aula de surf a três ou quatro principiantes. Alexis lançou uma olhadela à torre do salva-vidas. Lá dentro a silhueta de uma mulher debruçava-se de binóculos em riste, espreitando algo no mar. Sorrindo, Alexis soltou o cabelo ondulado e dirigiu-se à esplanada do lado, onde depois de trocar umas palavras amigáveis com o empregado se instalou numa mesinha com um hambúrguer no pão e uma cerveja.

A salva-vidas entretanto saíra da torre e patrulhava a praia. Alexis seria capaz de reconhecer aquela silhueta em qualquer sítio: Meg. De cara desconhecida no bar a sexo maravilhoso numa noite a ex- no dia seguinte… de algum modo daí tinha surgido uma amizade – com os seus altos e baixos, certamente, mas ainda assim uma amizade.

Meg sofrera com a curta duração da relação. Alexis tivera de lhe explicar várias vezes e de maneira bem definitiva que compromissos não era com ela. Estava ali para viver o momento, nada mais. E durante alguns tempos as relações ali na praia tinham ficado tensas. Hoje em dia estava tudo bem. Bebiam um café juntas de vez em quando, viam-se na praia, iam à ocasional festa ou cinema... Eram amigas, portanto.

Enquanto almoçava, Alexis observou Meg patrulhar a praia com aquele seu andar felino, baixar-se para conversar com um menino de ar meio perdido e depois dar-lhe a mão, rindo de qualquer coisa. O riso musical não lhe chegou aos ouvidos por causa da música na esplanada. Alexis não tirou os olhos da cena, mastigando devagar o seu almoço. Em poucos instantes o menino acalmara, Meg ria-se com ele, e pouco depois encontravam a mãe. Alexis sorriu e desviou o olhar para o horizonte com um sorriso.

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Lindo

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