Himalaya - ou o descalabro da masculinidade (Session Report)

Nas gélidas e agrestes encostas do Everest o astuto e sensual mercador sherpa Zorg (cujo nome significa "aquele que é astuto, sensual, mas também tolerante para com a orientação sexual da sua besta de carga", na língua nativa dos sherpas) apressa o seu iaque púrpura, pois sabe que tem de entregar o sal na aldeia mais próxima (enigmaticamente chamada "Aldeia 3"). Zorg sabe perfeitamente que essa é a única maneira segura de aumentar o tamanho da sua manada pessoal sem recurso à cirurgia plástica... e para Zorg o tamanho de facto interessa! A sua ambição é ter a maior manada de todo o Himalaia!

- Anda Boy George, anda, meu fiel iaque púrpura de orientação sexual modernaça! Temos de entregar este sal na Aldeia 3, antes que se faça tarde! A minha manada pessoal está curta e flácida por causa do frio e há que a fortalecer e engrandecer!

E foi assim, por entre grandes dificuldades, fustigado por ventos gélidos e percorrendo trilhos suicidas no sopé das gigantescas montanhas, que Zorg e Boy George chegaram à Aldeia 3, que mais não era que um pequeno aglomerado de casas de aspecto modesto.

- Cá estamos Boy George! Chegámos finalmente! Isto parece o Bairro das Marianas, mas com mais neve e menos toxicodependentes! Vamos despachar-nos a fazer negócio e bazar, senão ainda me roubam o iacorádio! Mal posso esperar por chegar a casa e me meter no jacuzzi, que está um frio do caraças!

- Muuuuuuuuuuuuuuuuu - responde o iaque.

- É só entregar o sal aqui ao manda-chuva local, receber a extensão para o tamanho da manada e pomo-mos a milhas daqui... ó da casa - chama, dirigindo-se para a barraca maior - temos aqui o sal para vocês!

Abre-se a porta da frente da barraca maior e sai um aldeão vestido a rigor com o traje tradicional dos aldeões do Himalaia. Na mão traz uma fatia de pão com uma sardinha assada em cima, fumegante e apetitosa.

- Ó meu amigo - exclama o aldeão, no dialecto local - trazes-me sal? Não precisamos disso! Não vês que as sardinhas já estão salgadas e assadas? E bem boas! Oferecia-te uma com todo o gosto, mas infelizmente dá-se o caso de eu ser um porco egoísta, sem um pingo de hospitalidade ou generosidade no meu sistema sanguíneo, por isso vais ter de te contentar com o cheirinho. E já não é nada mau!

- Não precisas do sal? - Perguntou Zorg, com a voz alterada pelo espanto - Então porque é que está a bandeira a pedir sal içada no mastro mais alto da aldeia? Ah, mas espera... já não está e eu é que não tinha reparado. No meio da neve, do frio cortante e dos caminhos suicidas pelo meio das montanhas, não devo ter percebido que já a tinham retirado... podiam ter dado uma apitadela a avisar e assim excusava de cá ter vindo com o sal!

- Apitadela? Aqui não há rede, pá! Isto é o Himalaia... duh! Devias era ter-te despachado! Enquanto andavas aí a ver as vistas e a lançar piropos às gajas, uma mercadora astuta e implacável chamada Marisa apareceu aqui com um carregamento de sal, mesmo a tempo de salgar as sardinhas. O que é que querias que eu fizesse? Que as comesse sem sal?

- Marisa? Não sei quem é, mas maldita seja ela e todos os descendentes até à 3ª geração! Bom, mas se não precisam de sal, mais vale é levar qualquer coisita para trocar noutro lado. Vejo que têm aí a mercadoria verde, cujo nome não me recordo, ao pontapé. Quando vinha para cá reparei que a aldeia 8 precisa disso. Vou levar alguma para vender lá.

- Ok. Podes ir buscar aos armazéns ali atrás. Mas olha que o multibanco está fora de serviço, por isso tens de pagar em dinheiro. Eu volto mas é para as sardinhas! Arrivederci tanso! - E, com esta despedida, o pragmático chefe da Aldeia 3 voltou para dentro do seu barraco infecto.

Zorg carregou a nheca verde e preparou-se para iniciar a viagem para a aldeia 8:

- Agora presta atenção Boy George, pois só vou poder dizer isto uma vez: vamos pelo caminho do gelo, depois na aldeia 5 cortamos para o de terra e, quando estivermos quase a chegar à aldeia 9, apanhamos a auto-estrada empedrada para a aldeia 8. Quando lá chegarmos, logo para o mercado, para vender a gosma verde! Percebido? Aiou Silver, awaaaaaaaaaaaaaay!

- Muuuuuuuuuuuuuuuuu - respondeu o iaque, irritado.

- Eu sei que o teu nome não é Silver, mas era só para o estilo! Que iaque mais picuinhas que tu me saiste, pá! Devia era ter comprado um UMM em segunda mão!

Passadas algumas horas de caminhada dificil, em que Zorg teve de recorrer a todos os seus conhecimentos e instintos de orientação, aprimorados por muitos anos de experiência, os nossos heróis encontram-se irremediavelmente perdidos. Aparentemente, houve um pequeno desentendimento no que diz respeito à rota a seguir e os valentes comerciantes planeiam a rota futura, parados num cruzamento:

- Ó Boy George, eu tinha dito terra, gelo e depois auto-estrada para a aldeia 8. Agora enganaste-te e viemos parar aqui à aldeia 6, que não precisa deste ranho esverdeado que a gente aqui traz...

- Muuuuuuuuuuuuuuuuuu - contrapôs o iaque, num tom irritado.

- Não me venhas com essa, Boy George! Eu disse claramente qual era a rota a seguir! Se depois precisei de descansar um bocadinho, foi porque estava exausto! Eu trato de toda a parte de planeamento e gestão desta empresa, enquanto tudo o que tu fazes é carregar-me a mim e à carga por estes caminhos dífíceis da montanha! Não admira que eu ande mais cansado!

- Muuuuuuuuuuuuuuuuu

- Não, não quero trocar, mas não...

O diálogo foi interrompido pelo som de vozes a aproximar-se pelo caminho em frente. À medida que se iam aproximando, Zorg distinguiu um vulto, outro mercador, que discutia acaloradamente com o seu iaque, um magnífico exemplar em tons vermelhos, de olhar inteligente e atento:

- ...sua grande besta! És o iaque mais estúpido que eu já vi até hoje! Eu tinha dito: gelo, gelo, descanso, pedra e depois apanhar o sal! - berrava o irado concorrente - agora viemos parar a este ermo e os gajos aqui não precisam de sal para nada!

Nessa altura apercebeu-se da presença de Zorg e Boy George e, num tom mais calmo, dirigiu-lhes a palavra.

- Peço desculpa, caro colega. Não tinha visto que estava aí. O meu nome é Obelix e acabo de perder um negociozorro na Aldeia 3, porque o meu iaque é um inepto, uma besta e um imbecil! E, para além disso, é parvo!

- Muuuuuuuuu - protestou o visado.

- Eu não estava bêbado, nem muito menos a cozer a bebedeira! Estava a elaborar o nosso business plan para o futuro! - Contrapôs o irado mercador - Tu é que te enganaste no caminho!

- Muuuuuuuuuuu!

- Eu fecho sempre os olhos quando estou concentrado e não é verdade que estivesse a ressonar! Não é fácil gerir! - Gritou, irritado com o animal.

- Peço desculpa por interromper - disse Zorg em tom apaziguador - mas se o negociozorro de que fala era o sal para a aldeia 3, devo dizer-lhe que eles já não precisam. Uma tal de Marisa já lá foi e levou o sal todo que eles precisavam.

- Marisa?!? Outra vez?!? Essa gaja é o meu némesis! Já me lixou numa data de negócios lá mais para o norte! Chega sempre primeiro que eu! E com os lucros que conseguiu já tem uma data de templos e resmas de seguidores! E isto para não falar no tamanho da manada dela, que é de fazer corar de vergonha um actor porno africano.

- A sério? Mas como é que ela consegue? Deve ser artificial... tipo um dildo, ou assim - concluiu o nosso herói, exasperado com a perspectiva de não ter a maior manada do himalaia.

- Ela tem as unhas pintadas, fala muitas línguas, o iaque dela é muito rápido e nunca se engana nas rotas! Dizem que ela lhe dá esteróides anabolizantes e que lhe mandou implantar um GPS cirurgicamente, mas nunca ninguém conseguiu provar nada.

- Tem as unhas pintadas? A cabra! Assim é impossível concorrer honestamente! Que falta de lealdade!

- Acho que não vale a pena... ela já tem isto no papo! Já não há tempo... então e para onde é que o amigo ia? - Perguntou Obelix, desalentado.

- Estávamos a querer levar esta coisa verde para a aldeia 8, mas aqui o Boy George enganou-se na rota - disse, lançando um olhar crítico para o iaque - mas agora já sabemos e vamos prosseguir o nosso caminho.

- Então boa sorte - replicou Obelix - eu vou ver se encontro um sitio onde entregar este sal... mas estou a ver isto muito mal parado. Se calhar vou mas é mudar de ares... diz que na Gália precisam de gente para malhar nos romanos... talvez vá para lá...

E partiram pela montanha inóspita. Zorg rumo à aldeia 8 e Obelix rumo a sabe-se lá aonde.

À medida que ia avançando, Zorg foi-se apercebendo da enorme quantidade de templos, ostentando o logótipo "Marisa Inc.", bem como da grande quantidade de apoiantes que populavam os campos em redor das aldeias. Não estava fácil a sua vida! Tentou entregar a coisa verde na aldeia 8, mas descobriu que Marisa já lá tinha estado. Levou ouro para entregar na aldeia 1, mas chegou mais uma vez atrasado e bateu com o nariz na porta. Conseguiu entregar o sal na aldeia 11 mas, entretanto, já Marisa se tinha apercebido de uma oportunidade de negócio bombástica e conseguido com isso uma série de entregas sucessivas, aproveitando para construir mais templos em todas as aldeias maiores, aumentar ainda mais a sua manada e espalhar os seus seguidores por um grande número de províncias.

Zorg começava a desesperar: Marisa, Marisa, Marisa, sempre Marisa! Em todo o lado, Marisa! Por mais que se esforçasse a resposta era, invariavelmente, "já comprei à Marisa", ou "a Marisa já cá esteve e levou isso". Ela estava em todo o lado, conseguia todos os melhores negócios... parecia omnipresente no Himalaia frio e majestoso que, aparentemente, não era grande o suficiente para os dois. Obelix, soube-o entretanto, já tinha abandonado o negócio e abraçado uma carreira de transformismo. Actuava às quintas à noite numa espelunca na aldeia 2, sob o nome artístico de Lola e constava que o espectáculo não era nada mau! Considerava seriamente a ideia de uma mudança de carreira. Boy George cantava e dançava como nenhum outro iaque do planeta e podiam, quem sabe, tentar fazer um "boys duo", tipo Anjos, ou Duo Ele e Ela (sem qualquer conotação homofóbica).

Finalmente, um dia num trilho inóspito, Zorg finalmente encontrou Marisa. Montada num iaque magnifico, musculado e de pelo lustroso, e acompanhada por um séquito imponente de ajudantes, liderava o seu império comercial com punho de ferro. Estava concentrada no ecrã de um dos muitos computadores dispostos em círculo ao seu redor, gritando uma ordem para um colaborador, de vez em quando. Quando sentiu o iaque parar levantou o olhar, inquisidora e terrível! Sorriu, com desprezo, ao ver as figuras magras e andrajosas de Zorg e Boy George.

- Eu sou Marisa, CEO da Marisa Inc., e princesa do comércio do Himalaia! Afasta-te da minha frente maltrapilho, que eu tenho mais que fazer! E é a despachar, que a bolsa de Nova Iorque está quase a fechar, senão o meu colaborador passa-te por cima e ficas a fazer companhia aos calhaus da calçada.

- Muuuuuuuuuuuuuu - reforçou o seu colaborador.

- Muuuu uuuu uuuuu - acrescentou Boy George, visivelmente impressionado com os músculos do colaborador.

Foi nesse momento que Zorg percebeu que não tinha hipóteses e decidiu começar a aquecer a voz e a ensaiar uns passos de dança. Foi também aí que o indicador do turno chegou ao fim e o jogo terminou, com uma vitória retumbante da princesa do comércio do Himalaia.

 

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Originalmente publicado no blog http://jogosdetabuleiro.blogspot.com

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E para os que não conhecem

E para os que não conhecem o jogo, estás aqui a falar do quê?

"the drunks of the Red-Piss Legion refuse to be vanquished"

É basicamente um "Actual

É basicamente um "Actual Play", muuuuuito "trabalhado" e "humorizado", deste joguinho aqui:

http://www.boardgamegeek.com/game/3800

Como também não conheço o jogo, não percebi muito do que de facto se estava a passar... o que não retira a grande piada da coisa! De qualquer maneira, talvez a "Review" feita anteriormente no blogue ao jogo ajude:

http://jogosdetabuleiro.blogspot.com/2006/08/crtica-himalaya_17.html