The River

Retrato de Abruk

Sinopse:

Os jogadores são colonos que vão expandindo a sua atividade ao longo de um rio serpenteante que nos leva da foz à sua nascente: construindo edifícios, recolhendo recursos, reclamando novas propriedades ou mudando-as de lugar. Enfim, o objetivo é simples, chegar à montanha onde a nascente se faz rio mais rápido que os outros e com mais pontos também!

 

Como se joga:

⇒ Setup

No centro coloca-se o tabuleiro com a face de 2 jogadores ou 3/4 virada para cima. Baralham-se as fichas de terreno e colocam-se em dois montes de face oculta. Revelam-se tantas fichas como o número de jogadores mais uma (3 a 2 jogadores / 4 a 3 jogadores / 5 a 4 jogadores).

Cada jogador recebe um tabuleiro na sua cor assim como um barco e 5 pioneiros. Um dos pioneiros é colocado no seu tabuleiro no segundo espaço dedicado às fichas de bónus, enquanto os outro 4 se colocam em cima do barco.

No tabuleiro principal colocam-se os recursos nos diferentes espaços em função do número de jogadores, as cartas de edifícios baralham-se e colocam-se no canto superior direito e dele revelam-se as 4 primeiras cartas para os respetivos espaços. No centro do tabuleiro colocam-se as fichas de bónus (um monte por ordem decrescente do topo para a base, e o outro com as fichas de valor zero). [A dois jogadores só se joga com as fichas de bónus com o simbolo de dois pontos]

Define-se um jogador inicial que recebe o barco branco (em madeira).

Antes de começar, cada jogador escolhe uma ficha de terreno inicial, começando pelo que está à direita do jogador inicial e seguindo no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Depois retiram-se todas as fichas de terreno que sobrarem e completam-se os espaços correspondentes com novas fichas da reserva. (5 a 2 jogadores / 6 a 3 jogadores / 7 a 4 jogadores). A ficha escolhida coloca-se na primeira cada do rio, no canto superior esquerdo do tabuleiro individual de cada jogador.

⇒ Desenvolvimento

The River joga-se em várias rondas em que os jogadores realizam os seus turnos com as seguintes fases :

A. Fase de turnos:

  1. Colocar um pioneiro
  2. Realizar a ação escolhida

B. Fase de preparação de nova ronda

A. Fase de turnos

Nota: Durante o seu turno, cada jogador pode trocar 3 recursos quaisquer por um recurso joker (peru) até haver na reserva. Esta troca pode ser feita tantas vezes quantas o jogador quiser e tiver recursos para o fazer.

Em seguida, o jogador coloca um pioneiro num dos diferentes espaços do tabuleiro principal:

  • Reclamar terreno – este espaço está limitado a 2 pioneiros por jogador e permite recolher uma das ficha de terreno disponíveis. Essa ficha vai sendo colocada ao lado da última que tiver sido colocada pelo jogador no seu tabuleiro. Se ao colocar essa ficha tapar um espaço que tenha um recurso armazenado aí (celeiro), pode movê-lo para outro celeiro disponível, se não tiver, perde o recurso para a reserva.
  • Produzir recurso – este espaço é limitado nos três recursos (pedra, madeira e barro) e ilimitado no recurso perú (joker). O número de recursos que se podem retirar é igual ao número de recursos visíveis no tabuleiro desse jogador, execeto o recurso joker que só se pode tirar 1 por pioneiro. Todos os recursos produzidos têm de ser armazenados em celeiros (1 para 1).
  • Reservar um edifício – este espaço é limitado e permite que o jogador reserve para si uma das cartas visíveis (não se repõe o espaço da carta retirada). Cada jogador só pode reservar até 2 cartas.
  • Construir edifício – este espaço é ilimitado e aqui o jogador pode construir uma carta de edifício que tenha reservado ou que esteja visível na área de cartas de edifícios. Se for uma das cartas visíveis o jogador paga os recursos necessários e depois coloca metade da carta voltada ao contrário por baixo do seu tabuleiro, adicionalmente retira a ficha de bónus com o valor mais alto disponível, e coloca-a no espaço correspondente do seu tabuleiro (por cima da carta de edifício construído), no caso de ser uma carta reservada, o processo é o mesmo mas o jogador paga um recurso a menos do que os exigidos pela carta. O segundo espaço para ficha de bónus permite receber o pioneiro para o seu barco e usá-lo de imediato no próximo turno!
  • Jogador inicial – este espaço é limitado e permite que o jogador receba o marcador de barco em madeira e passe a ser o jogador inicial na próxima ronda.
  • Mudar terrenos – este espaço é limitado e permite ao jogador trocar duas fichas de terreno de lugar. Esta troca é importante porque uma das pontuações finais do jogo é por colunas com 2 ou 3 fichas do mesmo tipo de terreno que cada jogador consiga alinhar.

B. Fase de preparação de nova ronda

Depois de todos os pioneiros terem sido jogados, por todos os jogadores, começa a fase de preparação da nova ronda:

  1. Retiram-se todas as fichas de terreno e preenchem-se com novas fichas da reserva;
  2. Colocam-se cartas da reserva nos espaços vazios;
  3. Cada jogador recupera todos os seus pioneiros;
  4. O jogador com o barco em madeira começa a nova ronda.

Atenção: Ao longo do rio há 4 espaços que depois de cobertos obrigam o jogador a colocar aí um dos seus pioneiros antes de prosseguir para a ronda seguinte.

 Fim do jogo

O jogo termina assim que alguém consiga obter a sua 5ª ficha de bónus (4ª num jogo a 2) ou coloque a sua 12ª ficha de terreno. A ronda conclui-se e depois faz-se a contagem dos pontos da seguinte forma.

  • 1 ponto por cada 3 recursos;
  • 2 pontos por cada coluna com as duas primeiras fichas de terreno iguais; OU
  • 6 pontos por cada coluna com as três fichas de terreno iguais;
  • Pontos variáveis por fichas de terreno com condições de fim de jogo, fichas de bónus e cartas de edifício construídas.

Avaliação:

The River é um jogo da Days of Wonders, o que logo à partida é uma garantia de qualidade de produção e a certeza de um jogo com uma boa dose de teste antes de ser lançado. Há empresas que apostam em criar uma imagem de robustez e honestidade que os consumidores apreciam e recompensam. A Day of Wonders é uma dessas empresas.

O jogo pode ser incluído em qualquer ludoteca familiar pois trata-se de um jogo bastante acessível. Os fãs de Stone Age irão logo encontrar semelhanças entre estes títulos, sendo obvio verificar que estamos aqui em presença de um jogo muito mais descomplicado e bastante direto nas consequências das nossas ações.

Para quem ainda não conhece o mecanismo de colocação de trabalhadores, este título é sem dúvida uma excelente opção de entrada, as partidas são rápidas, as regras quase intuitivas e quase sem situações de exceção.

Durante toda a partida os jogadores irão produzir recursos para construir edifícios, enquanto vão paralelamente avançando pelo rio. Quem melhor conseguir optimizar estas tarefas e o fizer mais rapidamente vai tirar os respetivos dividendos dessa argúcia.

Para concluir resta dizer que os componentes do jogo são de ótima qualidade assim como a sua ilustração e espaços na caixa pensados para que tudo se arrume de forma perfeita.

Um daqueles euros que não desilude ninguém e que também não irá supreender por inventar roda em termos de inovação mecânica. Uma boa dose de tensão entre evoluir rio acima e a consequência de “perder” pioneiros nessa “corrida”.

Nesta caixa vamos encontrar um jogo que usa um mecanismo amado por muitos, de forma singular, bem testada e onde se assegura aos jogadores fluidez e uma experiência muito agradável de jogo, embora o ache mais divertido em partidas a 3 e 4 jogadores do que a 2.

Em suma, um jogo simples, com bastante rejogabilidade,regras simples e elevada qualidade geral, divertido, fácil de explicar e de preparar e com uma duração relativamente curta.

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Péssimo

Mais um jogo de gente branca a destruir a natureza e com mulheres sexualizadas. Tudo o que não precisávamos em 2019.

Foi isso que sentiu quando

Foi isso que sentiu quando jogou o The River?

Não preciso jogar o jogo para

Não preciso jogar o jogo para perceber o tema,as imagens, os conceitos. Infelizmente os jogos de tabuleiro estão cheios de uma visão muito fofa e bonita sobre o que é de facto uma colonização. "colonos" "desbravadores" "descobridores" desmatam, matam animais, matam seres humanos, escravizam os que podem e violam mulheres. A fantasia fofinha é muito mentirosa e cria mitos sobre uma historia que foi muito menos bonita que a que se conta. Podemos não sentir estas coisas ao jogar. Os os jogos, mas. A mensagem está lá. Continuamos em 2019 a alimentar uma mitologia de conquista e apresentamo-la como sendo algo bonito. Acho que está mais do que na hora de mostrarmos que conquistar tem consequencias e elas não são felizes.
Além de mostrar mulheres bonitas e magras de cabelos lisos ou ondulados do tipo elseve ou loreal, alimentando mais uma imagem completamente alienada do que é um ser humano feminino.
Estas coisas podem parecer pequenas e insignificantes, mas não são. São enormes e têm consequencias nefastas na forma como nos relacionamos em sociedade. Como vários estudos socio e antropológicos já mostram.

Agora tudo não está perdido. Há, felizmente, cada vez mais jogos que tratam de temas ditos banais de forma mais séria, ou que fazem um esforço para usar linguagem neutra de genero nas regras e desenha seus personagens com aspectos que valorizam a diversidade da nossa raça como seres humanos.

As descobertas e as colonizações já passaram e os atos horrendos e as atrocidades que foram praticados para que essas "conquistas" pudessem se realizar já aconteceram e, felizmente, estão no passado, não sem terem deixado repercussões até aos dias de hoje.

Mas felizmente HOJE podemos escolher e contar uma outra estória. Mais inclusiva, sobre pessoas que foram silenciadas, oprimidas, desvalorizadas durante os seculos, e não embelezar uma época que foi muito feia e violenta.

Acho de suma importancia que um meio como nosso, de jogos, que é tão pedagógico investir mais nas estórias das minorias. E que belas estórias são.

Se tiver a oportunidade veja "Nanette" de Hannah Gadsby. É uma experiencia muito esclarecedora.

Enfim, é isto, tenho uma visão muito critica sobre estes temas. Agora isto não impede que jogo seja divertido. Mas estes temas da forma como são tratados nos jogos não são mais uma diversão mas falam sobre como não refletimos sobre as mitologias mentirosas que criamos e as consequências que elas geram.

Obrigado Carlos pelo

Obrigado Carlos pelo testemunho.

finofski escreveu: A

finofski escreveu:

A mensagem está lá.

Só para quem a quer ver.
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"[...] a period when games were complex in your brain, instead of on the board."
tommynomad

finofski escreveu: Não

finofski escreveu:

Não preciso jogar o jogo para perceber o tema,as imagens, os conceitos. Infelizmente os jogos de tabuleiro estão cheios de uma visão muito fofa e bonita sobre o que é de facto uma colonização. "colonos" "desbravadores" "descobridores" desmatam, matam animais, matam seres humanos, escravizam os que podem e violam mulheres. (...) Enfim, é isto, tenho uma visão muito critica sobre estes temas. Agora isto não impede que jogo seja divertido. Mas estes temas da forma como são tratados nos jogos não são mais uma diversão mas falam sobre como não refletimos sobre as mitologias mentirosas que criamos e as consequências que elas geram.

Sob pena de estar a alimentar um desvio ao tópico e com o meu pedido de desculpas ao autor por mais uma excelente resenha, tenho de concordar com isto. E acho que falar a sério nestas coisas é necessário.  

A história do colonialismo é uma história de violência, pilhagem, sofrimento e morte, cujas consequências continuam bem vivas entre nós. A subordinação e dependência económica, a instabilidade política, as desigualdades sociais brutais e o racismo endémico das sociedades pós-coloniais são apenas alguns dos piores legados deste período. E é melhor nem entrarmos no prolongamento destas formas de dominação no periodo pós-colonial - interferências políticas e militares, esmagamento de modelos de desenvolvimento alternativos, manutenção do controlo externo da exploração e comércio de recursos naturais, etc. Por isso, sim, não podia concordar mais que se deve evitar que os jogos sirvam de celebração de uma visão ingénua (ou sem calhar nem tanto) deste período histórico. 

Também não podia estar mais de acordo de que o hobby dos jogos tem ainda um longo caminho a percorrer em termos de promoção da diversidade e da inclusão. Os jogos continuam em grande parte a ser desenhados por homens brancos para serem jogados por homens brancos. Apesar de alguns progressos, isto é ainda muito visível na ilustração, na forma como as mulheres são retratadas (quando estão presentes de todo) ou na quase total ausência de pessoas não-brancas (a não ser quando se pretende transmitir a ideia de exotismo, claro...), mas na perspetiva como os temas são tratados.

Isto tem importância? Acho que tem.

Em primeiro lugar, porque os jogos são excelente ferramentas de aprendizagem. Porque convocam e desenvolvem várias competências cognitivas e sociais de uma forma lúdica, claro. Mas também porque nos levam a falar e a pensar sobre os seus temas e, às vezes, a querer saber mais sobre ele. E, claro, a forma como o fazem não é neutra.

Claro que é preciso não perder de vista que os jogos são abstrações e não simulações. Por exemplo, a temática de construir uma colónia/cidade/base do nada e fazê-la crescer e dotá-la de edifícios cada vez mais poderosos e com interações crescentes entre si é uma dos minhas preferidas. Ora, um bom jogo com esta temática não tem de ter mecanismos para dar conta de todos os danos ambientais causados, do sofrimento das pessoas deslocadas, etc. Isso talvez o torne numa melhor simulação mas pode também torná-lo num pior jogo . Mas mesmo nestes casos é possível contribuir para a aprendizagem sobre o tema. Um bom exemplo foi dado pelos autores do jogo Santa Maria, que incluíram no manual uma página dedicada a realidade brutal da colonização das Américas, com referências bibliográficas incluídas. Um mau exemplo é dado pelo Puerto Rico, um jogo onde a chegada e posterior alocação de "trabalhadores" - representados por nada menos do que cubos castanhos - aos edifícios das plantações do Caribe é uma mecânica importante mas em que não há referências ao tráfico maciço de escravos africanos que sustentava a economia de plantação e às condições horrendos que estes lá enfrentavam.

No caso da promoção da inclusão e da diversidade, há ainda um imperativo adicional: o alargamento do público do hobby dos jogos. Quando eu chego a um evento (con, encontro, etc.) continua a haver um perfil social, que, não sendo já exclusivo, é ainda largamente dominante: homens, brancos, de classe média. Isto tem de mudar. Não se trata, claro, de convidar os homens brancos de classe média a sair (pelo contrário, há ainda demasiados que não sabem que os jogos de tabuleiro são espetaculares cheeky), mas de fazer tudo para que todos os outros grupos da população conhecem, gostem e se sintam bem a jogar jogos de tabuleiro. E isso também começa pelos próprios jogos e pela forma como esses grupos são (ou não) representados neles.

Para ajudar à discussão, ficam dois vídeos interessantes sobre o tema (infelizmente:

- De duas das apresentadores do podcast Dice Tower, Mandy Richardson e Susanne Sheldon, dando conta das suas experiências enquanto mulheres gamers. Com o bónus de um post sobre o vídeo.

- Do fundador do mesmo podcast, Tom Vasel (a partir do minuto 20:35).

Absurdo...

Acontece que em The River não é especificada a região a ser colonizada e, portanto, não haverá necessariamente pilhagem ou violência para com nativos. Segundo a descrição do jogo trata-se de uma "untouched frontier" o que indica que não existe por ali presença humana anterior. Aliás, o tema é tão colado com cuspe que podia ser sobre a poeira a cair nos móveis que ia dar no mesmo... E ia haver alguém a ficar "ofendido" na mesma.

Estes "problemas" sobre o suposto branqueamento feito pelos jogos de tabuleiro a estas questões são uma treta e resultam apenas da obsessão de algumas pessoas em procurarem motivos para ficarem ofendidas.

Nota que o "bom exemplo" que citas foi duramente atacado pela escolha do tema. O "mau exemplo" (para alguns) passou anos a liderar o topo do BGG e as preferências dos jogadores sem que a "polémica" da escravatura aparecesse...

Quanto à questão das presenças nas Cons, as pessoas que descreves como sendo as que mais se vêem nesses eventos são, à excepção do género, a maioria da população. Estou certo que numa Con no Japão a maioria dos participantes serão homens, asiáticos de classe média (este último pecado então é uma pérola, ser classe média não é mais que fazer parte da maioria)... Significa isto que os caucasianos são discriminados no mundo dos jogos de tabuleiro?

E é aqui que está a questão. Há alguma coisa que impeça pessoas de "outros tipos" de participar nas Cons? Não. Nas Cons em que eu participei até agora e nas que ajudei a organizar não foi feito nenhum esforço para evitar que qualquer tipo de pessoa participasse e, não raras vezes, foram feitos esforços adicionais para que aqueles grupos que sabemos não estarem tão representados nos frequentadores destes eventos aparecessem.

Ler artigos e opiniões como os que recomedas são precisamente motivos para que as pessoas se sintam menos predispostas a participar e vejam este hobby como um espaço onde só "homens, brancos de classe média" são bem-vindos. São estas manifestações de histerismo e exagero interpretacional que afastam as pessoas que se pretende atrair. É contraproducente, na melhor das hipóteses.

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"[...] a period when games were complex in your brain, instead of on the board."
tommynomad

Concordo integralmente!

Mallgur escreveu:

Acontece que em The River não é especificada a região a ser colonizada e, portanto, não haverá necessariamente pilhagem ou violência para com nativos. Segundo a descrição do jogo trata-se de uma "untouched frontier" o que indica que não existe por ali presença humana anterior. Aliás, o tema é tão colado com cuspe que podia ser sobre a poeira a cair nos móveis que ia dar no mesmo... E ia haver alguém a ficar "ofendido" na mesma.

Estes "problemas" sobre o suposto branqueamento feito pelos jogos de tabuleiro a estas questões são uma treta e resultam apenas da obsessão de algumas pessoas em procurarem motivos para ficarem ofendidas.

Nota que o "bom exemplo" que citas foi duramente atacado pela escolha do tema. O "mau exemplo" (para alguns) passou anos a liderar o topo do BGG e as preferências dos jogadores sem que a "polémica" da escravatura aparecesse...

Quanto à questão das presenças nas Cons, as pessoas que descreves como sendo as que mais se vêem nesses eventos são, à excepção do género, a maioria da população. Estou certo que numa Con no Japão a maioria dos participantes serão homens, asiáticos de classe média (este último pecado então é uma pérola, ser classe média não é mais que fazer parte da maioria)... Significa isto que os caucasianos são discriminados no mundo dos jogos de tabuleiro?

E é aqui que está a questão. Há alguma coisa que impeça pessoas de "outros tipos" de participar nas Cons? Não. Nas Cons em que eu participei até agora e nas que ajudei a organizar não foi feito nenhum esforço para evitar que qualquer tipo de pessoa participasse e, não raras vezes, foram feitos esforços adicionais para que aqueles grupos que sabemos não estarem tão representados nos frequentadores destes eventos aparecessem.

Ler artigos e opiniões como os que recomedas são precisamente motivos para que as pessoas se sintam menos predispostas a participar e vejam este hobby como um espaço onde só "homens, brancos de classe média" são bem-vindos. São estas manifestações de histerismo e exagero interpretacional que afastam as pessoas que se pretende atrair. É contraproducente, na melhor das hipóteses.
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yes

Concordo integralmente com o Pedro!

Dugy escreveu: Concordo

Dugy escreveu:

yes

Concordo integralmente com o Pedro!

Concordo integralmente com o Eduardo!

yes

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Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.

Calma

Mallgur escreveu:

Acontece que em The River não é especificada a região a ser colonizada e, portanto, não haverá necessariamente pilhagem ou violência para com nativos. Segundo a descrição do jogo trata-se de uma "untouched frontier" o que indica que não existe por ali presença humana anterior. Aliás, o tema é tão colado com cuspe que podia ser sobre a poeira a cair nos móveis que ia dar no mesmo... E ia haver alguém a ficar "ofendido" na mesma. Estes "problemas" sobre o suposto branqueamento feito pelos jogos de tabuleiro a estas questões são uma treta e resultam apenas da obsessão de algumas pessoas em procurarem motivos para ficarem ofendidas.

Parece que toquei num tema sensível. Não é preciso ficares ofendido. wink

De certa forma, a ideia de "untouched frontier" é ainda pior. Porque é exatamente esse o cerne do mito da colonização europeia - que não havia nada nem ninguém em África ou nas Américas antes da chegada dos europeus. Apenas terra, pronta a ser explorada (na dupla aceção da palavra).

Olha, não estou a dizer que os jogos são concebidos como mensagens subliminares de apoio ao colonialismo, ao imperialismo, ao sexismo ou ao racismo. Nada disso! Estou a dizer que, como muitas outras manifestações culturais (como o cinema ou a literatura) alguns jogos usam certas versões de acontecimentos históricos e certos padrões de desigualdade social como dados adquiridos. Não pensam neles e esperam que quem joga também não o faça. Pedir um pouco mais de cuidado e contexto na abordagem aos temas não me parece pedir nada do outro mundo.

Mallgur escreveu:

Nota que o "bom exemplo" que citas foi duramente atacado pela escolha do tema. O "mau exemplo" (para alguns) passou anos a liderar o topo do BGG e as preferências dos jogadores sem que a "polémica" da escravatura aparecesse...

Acho bem que tenham criticado duramente o tema do Santa Maria. Se foi por isso que os autores decidiram incluir aquela página, valeu a pena. 
Quanto ao Puerto Rico, o facto de ser um jogo popular, não percebo muito bem o que é que tem a ver com o argumento. Joguei o PR pela primeira vez, para aí em 2006 ou 2007. Éramos 4. Eu tive a missão de estudar as regras, o que me levou algum tempo. Nem foi preciso começarmos o jogo para alguém me interromper e dizer: "ah, estes são os escravos!". Salta aos olhos!

Não estou a dizer que agora não se podem fazer jogos ou sobre a noção de colonização . Eu sou o primeiro a admitir que a ideia de explorar e construir estruturas cada vez mais poderosas a partir do nada é um dos meus temas preferidos. Que diabo, um jogos do meu top 10 chama-se "Age of Empires III"! No caso do Puerto Rico, o manual incluir referências à importância do tráfico negreiro e da forma como se fazia na economia das plantações do Caribe - que é o tema explícito do jogo - não era nada de extraordinário. 

Mallgur escreveu:

Quanto à questão das presenças nas Cons, as pessoas que descreves como sendo as que mais se vêem nesses eventos são, à excepção do género, a maioria da população.

Detesto ser eu a trazer-te a notícia. Mas a maioria da população portuguesa não é de classe média, qualquer que seja a definição de classe média que adotes. A maioria da população (algures entre 50% e 60%) é composta por operários industriais e empregados executantes. Cerca de 55% da população portuguesa empregada tinha salários mensais iguais ou inferiores a 700€ em 2017.  Classe média maioritária? Really?

E o publico das cons e dos eventos regulares não é representativo da população portuguesa - nem nada que se pareça. Vou dar-te um exemplo. Não sei se alguém se deu alguma vez ao trabalho de fazer um inquérito numa das cons. Mas estou disposto a apostar contigo que para aí uns 80% dos visitantes tem, pela menos, uma licenciatura. Sabes qual é a proporção da população adulta portuguesa com um grau de ensino superior? Cerca de 20%. Pouco mais de 30% entre os que têm menos de 45 anos.  E, de facto, é melhor nem falarmos dessa "exceção" (que representa "apenas" 50% da população).  Representativo? Duvido muito.

Mallgur escreveu:

E é aqui que está a questão. Há alguma coisa que impeça pessoas de "outros tipos" de participar nas Cons? Não. Nas Cons em que eu participei até agora e nas que ajudei a organizar não foi feito nenhum esforço para evitar que qualquer tipo de pessoa participasse e, não raras vezes, foram feitos esforços adicionais para que aqueles grupos que sabemos não estarem tão representados nos frequentadores destes eventos aparecessem.

Muito mal seria se os nossos eventos excluíssem mulheres, negros, empregados executantes e operárias industriais. E se foram feitos esforços adicionais para captar novos públicos, têm todo o meu aplauso.

Nota que não estou a criticar os organizadores de cons portuguesas nem a culpá-los de nada. Estou-lhes profundamente grato por todo trabalho que têm em prol do nosso hobby. Mas parece-me evidente que há um problema de subrepresentação de largas faixas da população no nosso hobby. E a tentar referir um dos fatores. Não o único, mas um dos fatores. Só usei a composição do público das cons para ilustrar a existência de um problema que salta aos olhos. 

Mallgur escreveu:

Ler artigos e opiniões como os que recomedas são precisamente motivos para que as pessoas se sintam menos predispostas a participar e vejam este hobby como um espaço onde só "homens, brancos de classe média" são bem-vindos. São estas manifestações de histerismo e exagero interpretacional que afastam as pessoas que se pretende atrair. É contraproducente, na melhor das hipóteses.
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Viste os videos, ao menos? O que é que viste de histérico aí? Eu vi posições muito moderadas, a chamar a atenção para um problema que é real. Não é o único problema no mundo, mas é um problema.

Aliás, tem sempre piada quando, perante um dado problema, o que preocupa as pessoas não seja a sua existência, mas sim o facto de se falar nele.

:-D

plizest escreveu:

Parece que toquei num tema sensível. Não é preciso ficares ofendido. wink

Não é ofensa... É mais cansaço.

plizest escreveu:

De certa forma, a ideia de "untouched frontier" é ainda pior. Porque é exatamente esse o cerne do mito da colonização europeia - que não havia nada nem ninguém em África ou nas Américas antes da chegada dos europeus. Apenas terra, pronta a ser explorada (na dupla aceção da palavra).

Onde é que diz que a colonização mencionada neste jogo é em África ou América? Os Açores, só para dar um exemplo, estavam realmente desertos. Foi aqui que os Portugueses foram terríveis colonizadores? Acho que isso foi mais noutros sítios...

plizest escreveu:

Olha, não estou a dizer que os jogos são concebidos como mensagens subliminares de apoio ao colonialismo, ao imperialismo, ao sexismo ou ao racismo.

Então talvez faça sentido parar de os tratar como tal, não?

plizest escreveu:

Detesto ser eu a trazer-te a notícia. Mas a maioria da população portuguesa não é de classe média, qualquer que seja a definição de classe média que adotes. A maioria da população (algures entre 50% e 60%) é composta por operários industriais e empregados executantes. Cerca de 55% da população portuguesa empregada tinha salários mensais iguais ou inferiores a 700€ em 2017.  Classe média maioritária? Really?

Quando é que média mudou de significado? Isso é coisa do AO90?

plizest escreveu:

E o publico das cons e dos eventos regulares não é representativo da população portuguesa - nem nada que se pareça. Vou dar-te um exemplo. Não sei se alguém se deu alguma vez ao trabalho de fazer um inquérito numa das cons. Mas estou disposto a apostar contigo que para aí uns 80% dos visitantes tem, pela menos, uma licenciatura. Sabes qual é a proporção da população adulta portuguesa com um grau de ensino superior? Cerca de 20%. Pouco mais de 30% entre os que têm menos de 45 anos.  E, de facto, é melhor nem falarmos dessa "exceção" (que representa "apenas" 50% da população).  Representativo? Duvido muito.

Portanto a frase deveria ter sido "homens, brancos de uma classe fora da média, provavelmente acima dessa em termos de instrução e rendimentos...", é isso?
E, voltando à questão étnica, em eventos na Índia, no Japão, na China, na Coreia, em Singapura, na África do Sul ou no Quénia, se os há, a presença será minoritária de brancos. É racismo ou é um resultado simples da composição da população?
Será que o "problema" não acaba por se resumir de facto, e só à parte dos "homens"?

plizest escreveu:

Mas parece-me evidente que há um problema de subrepresentação de largas faixas da população no nosso hobby.

Como existe em quase todos.
Quantos homens fazem parte de clubes de tricot? E de clubes de leitura? E quanto são praticantes de patinagem artística? E de ballet? Quantos vão a desfiles de moda?
O facto de uma parte da população não se interessar tanto como outra por um determinado hobby não significa necessariamente que exista um problema com o hobby. Pode existir, é verdade, mas também pode ser que o problema esteja mais com os grupos "marginalizados" ou com a própria "concepção geral" (média?) que a sociedade tem do hobby.
Quantos esforços já viste por aí fora para que haja mais homens a ler ou a fazer alguma das coisas que mencionei acima? E, mais importante, em quantos desses hobbies se assume que existe um problema excepto pela falta funcional que os homens fazem a alguma parte dele onde são pouco mais que apoio / ornamento?
Existe realmente um problema ou existe um excesso de exigência / expectativa, no nosso caso?

plizest escreveu:

Aliás, tem sempre piada quando, perante um dado problema, o que preocupa as pessoas não seja a sua existência, mas sim o facto de se falar nele.

Não tenho problema nenhum que se fale neste tema, como podes ver.
Mas gostaria que se fizesse com algum fundamento e, neste caso, não creio que o jogo em causa justifique a reacção do finofski.
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"[...] a period when games were complex in your brain, instead of on the board."
tommynomad

Mallgur escreveu: plizest

Mallgur escreveu:

plizest escreveu:

Detesto ser eu a trazer-te a notícia. Mas a maioria da população portuguesa não é de classe média, qualquer que seja a definição de classe média que adotes. A maioria da população (algures entre 50% e 60%) é composta por operários industriais e empregados executantes. Cerca de 55% da população portuguesa empregada tinha salários mensais iguais ou inferiores a 700€ em 2017.  Classe média maioritária? Really?

Quando é que média mudou de significado? Isso é coisa do AO90?

Não. É coisa da ciência, mesmo. Classe média não significa média estatística da população. É um termo largo para designar os grupos sociais que, não ocupando uma posição inteiramente subordinada na estrutura social, não pertencem igualmente à classe dominante. Podes ter classes médias a corresponder a fatias grandes da população (estilo países nórdicos) ou a pequenas frações (estilo alguns países africanos - cortesia do colonialismo), consoante a estrutura de desigualdades do país. Quanto aos dados para a população, são do inquérito ao emprego do INE. Quanto ao AO90, é como a coca-cola do Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se.wink

Mallgur escreveu:

plizest escreveu:

E o publico das cons e dos eventos regulares não é representativo da população portuguesa - nem nada que se pareça. Vou dar-te um exemplo. Não sei se alguém se deu alguma vez ao trabalho de fazer um inquérito numa das cons. Mas estou disposto a apostar contigo que para aí uns 80% dos visitantes tem, pela menos, uma licenciatura. Sabes qual é a proporção da população adulta portuguesa com um grau de ensino superior? Cerca de 20%. Pouco mais de 30% entre os que têm menos de 45 anos.  E, de facto, é melhor nem falarmos dessa "exceção" (que representa "apenas" 50% da população).  Representativo? Duvido muito.

Portanto a frase deveria ter sido "homens, brancos de uma classe fora da média, provavelmente acima dessa em termos de instrução e rendimentos...", é isso?

Não. Homens, brancos, de classe média, mesmo. Ou, se quiseres ser mais preciso em termos sociológicos (que não seja por isso que não nos entendemos smiley) homens, brancos, da pequena burguesia intelectual e científica. As habilitações (como a profissão) são apenas indicadores de classe.

Mallgur escreveu:

E, voltando à questão étnica, em eventos na Índia, no Japão, na China, na Coreia, em Singapura, na África do Sul ou no Quénia, se os há, a presença será minoritária de brancos. É racismo ou é um resultado simples da composição da população?
Será que o "problema" não acaba por se resumir de facto, e só à parte dos "homens"?

Não sei o que se passa no Japão. Infelizmente, nunca lá pude ir e muito menos ver uma convenção de jogos japonesa - embora seja um dos meus objetivos de longo prazo como gamer smiley

Mais a sério, penso que te dei dados que sugerem que a população de boardgamers em Portugal, a julgar pela amostra das cons e eventos em que participo, tem pouco a ver com composição da população portuguesa. Pelo contrário, é fortemente enviesada, com uma sobrerepresentação clara de uma minoria da população (homens, brancos, de classe média). Claro, precisaríamos de um inquérito aplicado de forma sistemática para termos números mais precisos. Mas ficaria muito surpreendido se as minhas estimativas falhassem por muito.

Por isso, não, não acho que seja só a parte dos "homens" que esteja em causa. A classe e a raça - sendo que estas duas estão fortemente ligadas entre si - são parte integral do problema.
 

Mallgur escreveu:

Quantos homens fazem parte de clubes de tricot? E de clubes de leitura? E quanto são praticantes de patinagem artística? E de ballet? Quantos vão a desfiles de moda?

Por isso, os jogos de tabuleiro são uma coisa que é "naturalmente" para homens, brancos, de classe média. Claro que pode haver uns ovnis. Não os escorraçamos - somos demasiado civilizados para isso - e até os estimamos. Mas também não mexemos uma palha para que os ovnis deixem de ser ovnis. É isso?

É que eu discordo completamente. Não vejo absolutamente nada particular de género, raça ou classe na atividade de jogar jogos do tabuleiro. Pelo contrário, acho que os jogos de tabuleiro têm um potencial e um apelo genuinamente universal, amplamente comprovado em todo o globo e ao longo da história.

Agora, está ainda muito longe de cumprir esse potencial entre nós. Há muitos fatores para isso: a escassez de edições em português disponíveis (europeu ou do Brasil, não interessa), a dificuldade de penetração nas grandes superfícies ou a escassez de ludotecas públicas em condições, por exemplo. Mas acredito que a falta de sensibilidade à diversidade no desenho e edição de jogos é também um deles. E não é de somenos importância.

Se há gente que reconhece os primeiros problemas e trabalha para melhorá-los - desde editoras como a Mebo, a Morapiaf ou a Devir a associações culturais como a Cidade Curiosa - porque é que falar algo tão óbvio como o último suscita reações tão defensivas e de enterrar a cabeça na area?

E, bolas, dás mesmo pouco pelos jogos de tabuleiro. Clubes de tricot?! surprise

Mallgur escreveu:

plizest escreveu:

Aliás, tem sempre piada quando, perante um dado problema, o que preocupa as pessoas não seja a sua existência, mas sim o facto de se falar nele.

Não tenho problema nenhum que se fale neste tema, como podes ver.
Mas gostaria que se fizesse com algum fundamento e, neste caso, não creio que o jogo em causa justifique a reacção do finofski.
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Penso que os dados que apresentei merecem pelo menos ser considerados como "algum fundamento" para discussão. Concordo que o pobre Abruk, que se farta de contribuir com reviews para o abreojogo, limitou-se a levar por tabela com a irritação e o tom algo desabrido do finofski.

Mas essa irritação face ao jogo, ainda que talvez um pouco exagerada, tem razão de ser. E a sério: perde uns minutos a ver os videos. Pelo menos, o primeiro. Vale sempre a pena ouvir o que sente alguém um pouco diferente de nós. Neste caso, mulheres que não são brancas. É muito instrutivo.

Não vamos a lado nenhum...

Antes de mais, corrigi um pequeno erro nas quotes do teu comentário que estava a "descompor" a página. Não alterei mais nada, obviamente.

plizest escreveu:

Não. É coisa da ciência, mesmo. Classe média não significa média estatística da população. É um termo largo para designar os grupos sociais que, não ocupando uma posição inteiramente subordinada na estrutura social, não pertencem igualmente à classe dominante. Podes ter classes médias a corresponder a fatias grandes da população (estilo países nórdicos) ou a pequenas frações (estilo alguns países africanos - cortesia do colonialismo), consoante a estrutura de desigualdades do país.

Portanto uma "definição" indefinida... Pouco útil para mim, lamento.

Por aqui não nos vamos entender.

plizest escreveu:

Quanto ao AO90, é como a coca-cola do Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se.wink

Por coincidência, não gosto de Coca-Cola...Até o Fernando Pessoa, que sensatamente não aderiu ao AO da sua altura, falha. wink

plizest escreveu:

Não. Homens, brancos, de classe média, mesmo. Ou, se quiseres ser mais preciso em termos sociológicos (que não seja por isso que não nos entendemos smiley) homens, brancos, da pequena burguesia intelectual e científica. As habilitações (como a profissão) são apenas indicadores de classe.

Esta é um bocadinho melhor mas suponho que a parte do "pequena burguesia" seja também vaga...

Seja como for, isso é o menos importante.

plizest escreveu:

Não sei o que se passa no Japão. Infelizmente, nunca lá pude ir e muito menos ver uma convenção de jogos japonesa - embora seja um dos meus objetivos de longo prazo como gamer smiley.

Há muitas fotos e vídeos por aí... É facil verificar que a maioria são asiáticos, como expectável.

plizest escreveu:

Mais a sério, penso que te dei dados que sugerem que a população de boardgamers em Portugal, a julgar pela amostra das cons e eventos em que participo, tem pouco a ver com composição da população portuguesa. Pelo contrário, é fortemente enviesada, com uma sobrerepresentação clara de uma minoria da população (homens, brancos, de classe média). Claro, precisaríamos de um inquérito aplicado de forma sistemática para termos números mais precisos. Mas ficaria muito surpreendido se as minhas estimativas falhassem por muito.

Por isso, não, não acho que seja só a parte dos "homens" que esteja em causa. A classe e a raça - sendo que estas duas estão fortemente ligadas entre si - são parte integral do problema.

Não disse que era. Só que as razões para isso não são específicas do hobby, ou dos jogos, mas sim da integração desse hobby na sociedade portuguesa e, por arrasto ou generalização, ocidental.

 

plizest escreveu:

Por isso, os jogos de tabuleiro são uma coisa que é "naturalmente" para homens, brancos, de classe média. Claro que pode haver uns ovnis. Não os escorraçamos - somos demasiado civilizados para isso - e até os estimamos. Mas também não mexemos uma palha para que os ovnis deixem de ser ovnis. É isso?

É precisamente o contrário.

Os jogos de tabuleiro são para todos. Os jogos!

Só deixam de o ser quando as pessoas procuram mais nos jogos do que jogos. Quando não conseguem deixar de olhar para eles e fazer interpretações, procurar mensagens, intenções, etc.

Olha... Eu tenho muita aversão ao fascismo, às suas manifestações históricas e consequências... É algo que mexe comigo. Tem a haver com a história da família.

No entanto não foi por isso que deixei de jogar Secret Hitler. E não é por ser sobre isso que o critíco...

Critico-o por ser um jogo relativamente fraco em primeiro e, em segundo, critico que a escolha desse tema fosse claramente por razões comercias. Só porque a receita do "choque e provocação" resultaram como o Cards Against Humanity. É um gimmick comercial e isso é coisa que eu não aprecio, seja ou não relacionado com o fascismo.

Nunca disse, nem direi, que o Secret Hitler promove o fascismo ou branqueia os crimes de Hitler. Porque isso não é verdade. É só um jogo... Um jogo fraco e comercializado de forma que me desagrada mas não passa disso. Não há lá nada que defenda as ideias fascistas, não há nada que tente levar os jogadores a tornar-se fascistas.

O The River não promove nem branqueia o colonialismo. O Puerto Rico também não o faz em relação ao mesmo ou à escravatura.

plizest escreveu:

É que eu discordo completamente. Não vejo absolutamente nada particular de género, raça ou classe na atividade de jogar jogos do tabuleiro. Pelo contrário, acho que os jogos de tabuleiro têm um potencial e um apelo genuinamente universal, amplamente comprovado em todo o globo e ao longo da história.

Nem eu. Por isso é que acho absurdo que se tratem de forma distinta, com base nesses critérios, as pessoas que os vão jogar. Ou, já agora, que se façam distinções em sites. Nunca apoiei a criação do fórum das mulheres no BGG por isso mesmo. Não há nada de específico em ser mulher que as impeça de apreciar, jogar e falar sobre um jogo de tabuleiro.

plizest escreveu:

Se há gente que reconhece os primeiros problemas e trabalha para melhorá-los - desde editoras como a Mebo, a Morapiaf ou a Devir a associações culturais como a Cidade Curiosa - porque é que falar algo tão óbvio como o último suscita reações tão defensivas e de enterrar a cabeça na area?

Porque nem toda a gente concorda contigo que o último seja realmente um problema. E porque é trabalhando nos primeiros (já agora algo raramente feito por quem mais reclama do último) que levará a que o último nem ilusoriamente seja um problema... Mas isso leva tempo. É um tipo de processo social onde as "pressas" normalemte dão mau resultado. Se estudaste sociologia deves saber de vários exemplos... Um dos quais até já foquei.

plizest escreveu:

E, bolas, dás mesmo pouco pelos jogos de tabuleiro. Clubes de tricot?! surprise

Lá está. Estás a menosprezar o tricot... Provavelmente estás a ofender muita gente! cheeky

plizest escreveu:

Mas essa irritação face ao jogo, ainda que talvez um pouco exagerada, tem razão de ser.

Discordamos.. Noutros casos até posso ver como isso poderia ter algum fundamento (era deste que falava) mas neste caso, não. Até desconfio que talvez tenha sido apenas uma "trolice"...

plizest escreveu:

E a sério: perde uns minutos a ver os videos. Pelo menos, o primeiro. Vale sempre a pena ouvir o que sente alguém um pouco diferente de nós. Neste caso, mulheres que não são brancas. É muito instrutivo.

Já tinha visto.

Lamento mas não concordo. Elas são demasiado vagas na maioria do vídeo e, quando especificam, estão a dar exemplos anedóticos de imbecilidade e a imbecilidade existe em todas as faixas da sociedade... Penso que este hobby nem é daquelas onde está mais presente. Lá está a vantagem de não sermos classe média (média a sério).

O do Tom Vasel nem consigo ver até ao fim... O homem já é mau a fazer reviews mas então quando entra em modo divagação/pregador não há pachorra, desculpa.

Concluindo...

Sim há coisas que podem melhorar. Há sempre.

Mas o The River não é, nem de perto nem de longe, um exemplo problemático. Nem o tema está tão presente que os malefícios do colonialismo sjam branquedos nem as ilustrações são "sexuais" de alguma forma.

Já agora, voltando à questão da escravatura por um momento, há um jogo que normalmente é (e bem) citado como exemplo positivo do tratamento do tema, o Freedom: The Underground Railroad. Por outro lado existe aquele absurdo de o Puerto Rico branqueia ou glorifica a escravatura.

Para que fique claro, mecanicamente, não há nada no Puerto Rico que indique que os colonos são escravos (além da associação da côr castanha, mas isso é mais um exemplo de racismo de quem faz essa interpretação do que dos criadores ou editores do jogo para quem sempre foram colonos). Podem ser colocados em qualquer edifício, mesmo os de maior prestígio, podem ser movimentados entre várias posições (não, não ficam só nas lantações), etc.

No Freedom: The Underground Railroad não é raro os jogadores, que representam abolicionistas, terem que escolher grupos de escravos (cubos brancos, já agora) para sacrificar aos caçadores por razões exclusivamente calculistas para conseguirem "vencer" o jogo.

Qual é, afinal, o mais incorrecto?

Quantas pessoas não se recusam a jogar Puerto Rico por "ai, o racismo e tal, sinto-me mal com isto" e jogam Freedom: The Undeground Railroad sem qualquer problema.

Claro que, para mim, nenhum deles é incorrecto.

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"[...] a period when games were complex in your brain, instead of on the board."
tommynomad

Sometimes, a cigar is only a cigar

Apraz-me bastante ver que, para além de geeks que gostam de se juntar para jogar jogos de tabuleiro, há também pessoas que continuam a pensar, que não estão alienadas do mundo, que têm opinião. Gostei de ler as opiniões aqui expressas, sobretudo por alertarem para problemas que continuam a existir, como o colonialismo e a discriminação. É importante ter consciência destas realidades, mas sem entrar nos extremismos do políticamente correcto, que parece ter invadido muito do nosso espaço cultural ultimamente. A História das sociedades humanas é o que é, e não me parece positivo que se deixe de falar dela por ser incómoda. Sempre houve povos colonizadores e povos colonizados, povos agressores e povos agredidos, lutas de libertação apelidadas de terroristas pelos povos dominadores. E continuam a haver, basta olhar para Israel e a Palestina, para a Turquia e os Curdos, para a China e o Tibete, para a Rússia e a Chechénia. Também sempre houve escravos ao longo da história, e só os mais distraídos não saberão que a escravatura continua a existir.

 

Alguns jogos de tabuleiro pegaram directamente nestes temas (Colonialism, Freedom: The Underground Railroad) ou não tentaram escondê-lo (Santa Maria, Endeavor). Não conheço todos, mas penso que o tema nem é necessáriamente abordado com intenção didática. Mas pelo que li, quem tiver dois dedos de humanidade vai sentir-se desconfortável a jogar o Colonialism. Quanto mais não seja, o jogo fará as pessoas pensarem um pouco. Bastante pior é escamotear estes temas como fez a DoW ao substituir escravos por faquires no Five Tribes. A intenção da DoW é claríssima: não se trata sequer de tomar uma posição política, simplesmente de evitar temas incómodos para não prejudicar as vendas.

 

A crítica do finofski é pertinente. Os temas não deveriam ser servidos com uma roupagem doce e fofinha, perpetuando arquétipos que não ajudam a melhorar a consciência sobre estes assuntos. Mas também não devemos evitar temas que reflectem simplesmente o que foi a nossa História. Dito isto, não vejo que se deva começar a ser militante sobre os temas dos jogos ou a sua representação, sob risco de cairmos no jugo opressivo do políticamente correcto. Se algum autor decidir criar um jogo que aborde temas incómodos com a intenção de chamar a atenção para eles óptimo. Mas nem todos terão de ter esta posição mais activista, e isso não deve ser apontado como factor reprovável do jogo. Demasiado activismo fora do contexto certo pode ser contra-producente, como disse o Mallgur. E às vezes, um jogo é só um jogo, como poderia ter dito Freud.

 

Mais uma vez, Obrigado pela

Mais uma vez, Obrigado pela "review"!!

É um jogo que ia sendo falado e esperado ainda antes de Essen, mas a mim ainda não me cativou para o jogar... talvez pelo tema, talvez por ter outras coisas à frente na fila...

???

Pensava eu que estas discussões estavam reservadas à malta do outro lado do atlântico.

Afinal estava enganado.