8 Coisas a Saber Antes de Comprares: The Estates

Retrato de lemon



                                              

 
1) Engenheiros de Meia Tigela
Esta reedição do velhinho Neue Heimat põe capacetes amarelos aos jogadores e pede-lhes que construam os edifícios de um quarteirão na cidade. Durante um turno, o jogador pode pôr a leilão qualquer peça do jogo (edifícios, licenças de expansão, telhados, etc) e o vencedor desse leilão é que decide onde a peça é posta. Quando uma certa cor de edifício é colocada no tabuleiro pela primeira vez, esse jogador assume responsabilidade pela empresa que o colocou (basicamente, ganha ou perde pontos mediante a performance dessa côr durante o jogo).


2) Olhó Componente Catita!
Penso que já se esteja a tornar um facto do hobby que as producções Capstone Games estão num patamar superior aos comuns jogos mortais. Os ingredientes do costume são de excelente qualidade mas aqueles blocos que compõem os edifícios são fenomenais. Para além de sólidos e dar gozo manuseá-los durante o jogo, os blocos estão assinalados de forma a serem acessíveis a jogadores com daltonismo


3) Até a Minha Avó Joga!
O jogo faz parte de uma linha de jogos chamada de Simply Complex, e é o que pretende ser: um jogo complexo com o mínimo de regras possível. Eu que não sou grande fã de jogos leves vejo nisto um salva-vidas natalício. É honestamente um jogo que podemos levar à mesa com a família sem termos de nos preocupar com explicar as regras trezentas vezes ou ver burros a olhar para palácios. No entanto, há muuuito para pensar neste jogo. É que o gameplay emerge das interacções dos jogadores, não do tabuleiro. No fundo as regras são isto: no teu turno põe uma coisa a leilão, quem ganhar coloca-a no tabuleiro. E isso leva a uma --


4) Economia triunfante!
Uma colaboração fenomenal entre jogadores para construirem o melhor quarteirão possível, cheio de prédios vibrantes. É de salientar que a economia do jogo é fechada, ou seja, o jogo começa com 12 cheques por pessoa (o dinheiro com que ganhamos leilões) e mais nenhum dinheiro entra no jogo até ao final. Os jogadores é que se pagam uns aos outros pelos leilões. Contudo, é possível algum dinheiro ser retirado do jogo, tornando a economia mais apertada para todos. 


5) Economia destroçante!
Mas se pensam que isso quer dizer que o jogo é cooperativo, tirem daí a ideia. A verdade é que ainda não expliquei a pequenina regra que faz com que o jogo vá de Bom Muito Bom: é que só a côr do último andar de um prédio é que marca pontos. Não só isso, essa côr marca pontos por todos os andares que estejam debaixo de si, seja de que côr forem. Portanto o Zé está todo contente a construir a sua torre de 8 pontos, chega a Beatriz e espeta-lhe uma penthouse de 4 pontos em cima. E agora a Beatriz tem 12 pontos. E como se não chegasse, ainda pode duplicar  essa pontuação se estiver na fila previligiada pelo Presidente da Junta (mais uma coisa que se pode ganhar em leilão). Portanto, a Beatriz pode estar a ganhar 24 pontos à pála do Zé, tendo colocado apenas um cube de 4 pontos.
...

Mas ainda não expliquei a pequenina regra que faz com que o jogo vá de Muito Bom a F***-se, Preciso de Uma Cópia Para Mim, Já!: é que só pontuam as primeiras duas filas de edifícios no quarteirão a serem completadas. A última, a incompleta, marca PONTOS NEGATIVOS! Quer sejam duplicados ou não!! Se a Beatriz não conseguir fechar a fila, aqueles 24 pontos serão NEGATIVOS! O Zé até lambe as beiças...

É que não se esqueçam que coloca o bloco no tabuleiro a pessoa que ganhar o leilão... quer seja a pessoa que mais lucra com isso ou não



6) Mau Como as Cobras, Mas Somos Todos Serpentes.
A meu ver, a melhor forma de explicar este jogo é chamá-lo de Anti-Jogo, O Jogo. A maior parte do tempo vai ser passada tanto a destruir o jogo dos outros como a construir o nosso império com cuidado para que não seja facilmente destruído. E eu sei o que estão a dizer: "Ah, pena. Não é para mim. A Rute odeia que lhe batam nos jogos e o Artur só quer ficar quietinho no seu canto a fazer a sua cena". Não vou mentir: este não é um jogo fácil de vender aos familiares. Por isso é que eu não vendo. Sento-os e digo que vamos jogar um jogo, depois deixo-os descobrir a malícia do jogo por eles próprios. E acreditem que eles descobrem sempre. Ainda não tive uma pessoa a jogar o jogo que não gostasse muito dele, quer fossem eurogamers, solo players, ameritrashers, o que quiserem. Até agora o jogo teve uma taxa de 100% sucesso. É sempre o jogo mais divertido da noite para toda a gente.


7) Fragilidade de Uma Amizade Sem Alicerces
Ok, como nenhum jogo podia existir sem falhas, vou falar outra vez da cruz dos jogos económicos. Como em qualquer jogo de alta interacção em que dinheiro troca de mãos, o equilibrio do jogo está dependente destes mesmos jogadores. Vamos dizer que o Zé paga demais à Beatriz num leilão. Depois a Rute paga demais à Beatriz num leilão. Depois o Artur paga demais à Beatriz num leilão.... na quarta ronda a Beatriz está cheia de guita e pode fazer o que quiser pelo dinheiro que quiser porque os outros são pobres.

Tão a ver a cena? É preciso que os jogadores saibam quanto valem as coisas e a quem se pode pagar a certa altura do campeonato. É muito fácil ter um jogador estar a trabalhar de graça para outro, simplesmente por não ter noção do estrago que está a causar ao balanço.

Agora, só para contrapôr, isto acontece ocasionalmente e só uma vez. Quando os jogadores vêem isto a acontecer, deixam de o fazer em jogatanas futuras. Mais, já joguei com muitos grupos para quem o balanço do jogo não era importante e só queriam galhofa, que o jogo entregou em barda.


8) A Minha Vida Dava Um Jogo de Tabuleiro
Eu adoro ser mau. Pá, não sei o que é: adoro a sensação de trair alguém num jogo, adoro a sensação de ser traído. Adoro a sensação de esmagar os sonhos e ambições da Beatriz que tá toda fanfarrona. Isto na desportiva, claro. Este é o jogo para mim. A maldade só causa risadas no jogo e toda a gente está a tentar ser pior que o outro. Já vi pessoas a ganhar o jogo porque enquanto as cobras se entretiam umas com as outras, a Beatriz foi calculando o seu império devagarinho e caladinha.

Mas a coisa que eu mais gosto neste jogo é que é possível ganhar com 0 pontos. 


 

Boas jogatanas e até à próxima

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Deliciosamente maléfico

É isso...

Enquanto lia o artigo estava a pensar:

"um salva-vidas natalício" ? "um jogo que podemos levar à mesa com a família sem termos de nos preocupar"?

Mas os natais do lemon são de faca e alguidar? A família dele diverte-se na facada?

"Uma colaboração fenomenal entre jogadores"?

Mas o lemon jogou The Estates como deve ser? Como assim "colaboração"?

Depois, mais à frente, deu para perceber que estava tudo bem... Realmente ficava tudo claro e o The Estates brilhava como algo deliciosamente maléfico.

Andam para aí a vender uma coisa chamada Vilainous como jogo em que as pessoas podem ser vilões... Bah! Vilões a sério é no The Estates!

Muito bom o artigo.

Apenas um pequeno pormenor em relação a isto:

"[...] só pontuam as primeiras duas filas de edifícios no quarteirão a serem completadas."

O jogo pode acabar sem que existam duas filas completas. O que normalmente indica resultados negativos e será potenciador das tais vitórias com 0 pontos.

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Tenho de atrair as moscas com

Tenho de atrair as moscas com mel e depois viciá-las em fel!

Quanto a acabar sem completar, não queria complicar o artigo mas é definitivamente o meu final preferido

How I Learned To Stop Worrying And Love Auction Games

Mesmo quem não goste de leilões nos jogos deve experimentar o The Estates nem que seja uma vez. Não posso acrescentar muito mais pois entre este texto e a review do Space Biff não sobra muito para dizer.

É um excelente jogo para aprender não só a subtil arte dos leilões mas também como dar e receber facadas sem perder amigos/familiares.

Concordo plenamente! Aliás é

Concordo plenamente! Aliás é um excelente jogo para perceber como apreciar valorização em jogos económicos! O valor real de uma peça.

Quanto ao Space Biff, almejo apenas um dia ser como ele. Quando for grande. Um Bife Do Espaço.

Neue Heimat

Tive o Neue Heimat.

Joguei-o algumas vezes, achei-o interessante e diferente mas nunca me pareceu brilhante porque senti sempre que lhe faltava mais qualquer coisa. Entretanto surgiu uma boa proposta e acabei por vende-lo.

 

Ah! Mas esta review está brilhante! Fiquei com vontade de voltar a jogar isto! laughyes

Missão cumprida! E parece-me

Missão cumprida! E parece-me um excelente filler pré-Greed! ;)

Excelente contributo

Comento não tanto o jogo mas o teu artigo: não há duvida que escreves muito bem, e é sempre um prazer ler os teus artigos aqui no abreojogo.

Parabéns por isso!

Boas jogatanas.

Que excelente forma de se

Que excelente forma de se começar um Domingo! 

Obrigado pelo elogio e pelo apoio smiley

Parabéns pelo artigo! A minha

Parabéns pelo artigo! A minha unica questão é, onde é que compro isto? 

Obrigado! E podes por exemplo

Obrigado! E podes por exemplo encomendar do Jogo Na Mesa

F***-se, Preciso de Uma Cópia Para Mim, Já!

lemon escreveu:
F***-se, Preciso de Uma Cópia Para Mim, Já!

Não é que seja o meu tipo de jogo favarito, mas a verdade é que pelo artigo fiquei com isto na mente depois de ler este artigo.

Mesmo não gostando de jogos mega-pesados*, vou seguindo esta crónicas!! Bom trabalho!!

(*) principalmente porque não tenho oportunidades de re-jogar jogos complexos a ponto de tirar prazer de os jogar em vez de estar sempre a aprender regras novas. ;-)

Obrigado pelo apoio!  Tenho

Obrigado pelo apoio! laugh

Tenho de começar a cobrir uns leves de vez em quando. Por acaso tenho o Piepmatz em mente! Adoro o jogo.

Leve como uma pena...

O The Estates é leve como uma pena. As regras são muito simples. O artigo menciona isso.

As decisões e as escolhas, especialmente a valorização das coisas é que podem ser questões mais complexas mas não por imposição mecânica do jogo. Aliás, o tempo de 45 minutos por partida não é absurdo... O que acontece é que é fácil fazer AP!

 

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